5. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5.11 EXPROPRIAÇÃO DE TERRAS E TRABALHO ESCRAVO (PEC 438/2001)
A PEC 438/2001 estabelece a pena de perdimento da gleba onde for constada a exploração de trabalho escravo. Trata-se da expropriação de terras, revertendo a área ao assentamento dos colonos que já trabalhavam nelas. Dado o conteúdo da mesma, a proposta ficou conhecida como PEC do trabalho escravo. A proposta é oriunda do Senado e tramitou por mais de dez anos na Câmara dos deputados. No texto aprovado em segundo turno consta que “as propriedades rurais e urbanas de qualquer região do país onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de trabalho escravo serão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei” (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2015h).57
Objeto desta análise é a votação em segundo turno realizada em 22/05/2012. A votação da PEC só ocorreu depois de firmado um acordo entre os líderes partidários. A discussão de uma lei posterior que explicite de forma clara o que caracteriza o trabalho escravo e os trâmites legais da expropriação fizeram parte do acordo que viabilizou a votação da proposta (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2012).58
Levando em consideração o tema em questão e seu teor, a previsão é a de que a esquerda seja mais adepta à proposta por fazer parte de uma agenda de promoção dos direitos humanos, sobretudo trabalhistas, além de proporcionar de forma concomitante a reforma agrária, pauta tradicional no campo da esquerda. A direita deveria ser menos favorável, por atentar aos interesses do agronegócio e em sentido mais esparso à garantia da própria propriedade privada. Mesmo que por um enfoque extremo oposto, tal preocupação fica clara em Barreto (2004). Para ele o agronegócio foi escolhido como alvo da esquerda e a PEC se utilizando do termo “trabalho escravo”, o forja e manipula para
57 De autoria do ex-senador Ademir Andrade (PSB/PA), a PEC foi aprovada em
primeiro turno no dia 11 de agosto de 2004 por 326 votos favoráveis, dez contrários e oito abstenções.
58 Já há um projeto tramitando na Câmara que define o conceito de trabalho
escravo (PL 3842/12). Ele foi apresentado no dia 9 de maio de 2012 pelo presidente da Frente Parlamentar Agropecuária, deputado Moreira Mendes (PSD/RO). A intenção do deputado era aprovar esse projeto junto com a PEC do Trabalho Escravo, o que não ocorreu.
atentar ao tão combalido direito de propriedade no Brasil. Segue gráfico que contempla a análise de correspondência múltipla realizada.
Gráfico 11 – Expropriação de terras e trabalho escravo: análise de correspondência múltipla
Fonte: Centro de Documentação e Informação/Câmara Deputados (elaboração do autor)
Fica evidente o quanto que as categorias, de forma geral, se aproximam mais do “sim” do que do “não”. As duas categorias que mais se distanciam do “sim” são “oposição” e “direita”. Segue tabela- resumo da votação em plenário.
Tabela 31 – Expropriação de terras e trabalho escravo: votação por blocos (%) Voto Esquerda Centro Direita Governo Oposição Total
(N)
Sim 98,7 91,6 85,3 93,9 90,8 (360)
Não 1,3 8,4 14,7 6,1 9,2 (29)
Total
(N) (163) (96) (130) (214) (175) (389)
Coeficiente de contingência: a) Ideologia: 0,21 (p<0,01); b) Governo/oposição: 0,00 (p=0,32).
Fonte: Centro de Documentação e Informação/Câmara Deputados (elaboração do autor)
A proposta foi aprovada com 360 votos a favor, 29 contra e 25 abstenções. Tanto os parlamentares pertencentes ao governo quanto os de oposição votaram semelhantemente favoráveis à proposta. A não significância dessa variável evidencia a questionável relação com o voto. Em se tratando de ideologia, mesmo que de forma sutil, esquerda e direita se posicionam de forma distinta (98,7% e 85,3%), com maior nível de rejeição presente nos parlamentares de direita. Há uma maior divisão nos parlamentares do centro (91,6%). Há significância entre voto e ideologia, onde o coeficiente de contingência de 0,21 demonstra uma baixa relação. A tabela 32 evidencia dados da regressão logística realizada.
Tabela 32 – Voto “não” expropriação de terras e trabalho escravo: análise de regressão logística
Variável B S.E. Wald df Sig. Exp(B)
Ideologia 11,629 2 ,003
Ideologia(D) 2,606 ,779 11,185 1 ,001 13,546 Ideologia(C) 1,980 ,810 5,971 1 ,015 7,244
Governo -,036 ,414 ,007 1 ,931 ,965
Constante -4,358 ,792 30,248 1 ,000 ,013
N = 389; Chi-quadrado = 21,564; g.l = 3; Sig. = 0,00; R² (Nagelkerke) = 0,131 % acerto total = 0%
Mesmo com a fragilidade do modelo, é possível fazer algumas inferêncas. A variável governo/oposição não se demonstrou significativa. Por outro lado, a partir das estatísticas das variáveis do modelo, pode-se dizer que ser direita implica em cerca de 13 vezes e centro 7 vezes a chance de votar “não” comparado a um parlamentar de esquerda.
Tabela 33 – Expropriação de terras e trabalho escravo: votação por partido
E/D Partido Ind.
líder Sim Não Não vot. votos % de (sim)
Total Governo/ oposição
D
DEM Sim 14 5 1[1] 70 20 Oposição
PP Sim 15 4 1[1] 75 20 Governo
PR Sim 20 1 3[1] 83,3 24 Governo
PTB Sim 14 1 2[1] 82,3 17 Oposição
PSC Sim 12 1 1[1] 85,7 14 Oposição
PTdoB Sim 3 0 0 100 3 Oposição PRTB Sim 1 0 0 100 1 Oposição PSL Sim 1 0 0 100 1 Oposição PRP Sim 1 0 0 100 1 Oposição PSD Sim 22 7 8[1] 59,4 37 Oposição C PMDB Sim 47 7 8[1] 75,8 62 Governo PSDB Sim 41 1 1[1] 95,3 43 Oposição E PT Sim 75 0 1[2] 100 76 Governo PSB Sim 26 0 0 100 26 Governo PDT Sim 23 1 1[3] 92 25 Governo
PCdoB Sim 13 0 0 100 13 Governo
PV Sim 9 0 0 100 9 Oposição
PPS Sim 10 0 0 100 10 Oposição
PMN Sim 2 0 0 100 2 Oposição
PHS Sim 0 1 0 0 1 Oposição
PSOL Sim 3 0 0 100 3 Oposição
Total 360 29 27 - 416 -
Indicação governo: sim Indicação minoria: sim
Centro de Documentação e Informação/Câmara Deputados (elaboração do autor)
Chama a atenção a porcentagem de adesão à proposta. O curioso é saber de onde saíram os poucos votos contrários em uma votação aparentemente bastante consensual. Dos 29 parlamentares contrários apenas 2 votos vieram de partidos da esquerda, 1 do PSDB, 7 do PMDB e 19 dos partidos de direita.
O enorme índice de aprovação é surpreendente, inclusive causando surpresa para a maioria dos parlamentares visto que havia uma expectativa de rejeição expressiva dos parlamentares ligados ao agronegócio. Apenas 29 parlamentares se demonstraram contrários, embora até o início da votação deputados da bancada ruralista afirmaram que tentariam esvaziar a sessão e votariam contra o sexto se alcançado o quórum regimental. Uma possível explicação foi a pressão da opinião pública. Temeroso com o resultado e surpreso com a quantidade de votos favoráveis, para o deputado Claudio Puty (PT/BA) “a lição de hoje é que a pressão popular faz efeito. Muitos não estavam ao lado da PEC antes de iniciada a votação”, afirmou. O deputado Valdir Colatto (PMDB/SC), contrário à PEC, concorda que a pressão falou mais alto. “Apenas 29 deputados tiveram a coragem de assumir o seu voto”, reclamou (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2012).
Mesmo assim ficou evidente discursos antagônicos em plenário. Cláudio Puty afirmou que é necessária a aprovação de uma legislação
mais rigorosa contra a prática do trabalho escravo. Para o parlamentar “precisamos de uma legislação mais dura contra esse instrumento que é reduzir custos nas empresas por meio da precarização do trabalho, chegando ao trabalho análogo à escravidão. Escravidão por dívida, por ameaças, por impedimento do direito de ir e vir”. Para o deputado Luiz Carlos Heinze (PP/RS), contrário à proposta, a preocupação dos setores do agronegócio é que algumas questões precisam estar claras na lei para que não haja desapropriações injustas. Para ele “ainda falta clareza sobre o que é trabalho degradante, sobre o que é uma jornada exaustiva. Temos que definir o que é esse tipo de coisa”, explicou. “Há pressão em cima dos produtores, como se estivessem praticando trabalho escravo. Em alguns casos há, mas na maioria não”. A falta de consenso fica clara ao verificar o tempo de tramitação, embora não condizente com a votação em plenário (LOPES, 2011).
5.12 FINANCIAMENTO EMPRESARIAL DE CAMPANHA (PEC