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Em Juazeiro, Odísio descreveu as feiras dos sábados, com seus vendedores de rapaduras, carne seca, peixe salgado, cereais, farinha, frutas e sal. As barracas de “gelada”, assim como o comércio de café e alimentos, não foram esquecidos. As vendas de calçados, objetos de barro, artigos de palha, redes, aves, ovos e bugigangas também estão presentes. O memorialista aproveitou para fotografar todos esses aspectos do comércio, não deixando de lado as bancas de jogos e roletas. Nos retratos capturados por ele, as ruas de Juazeiro em 1935 parecem repletas de gente, e são também contempladas algumas edificações mencionadas no texto: o posto de saúde que não funciona e o Club Rádio onde os “engravatados” da cidade buscam diversão, por exemplo.

242 ODÍSIO, Agostinho Balmes. “Mudança para o ‘Norte’ do Brasil”. In: SIQUEIRA, Vera Odísio. De Dom

Bosco a Padre Cícero: a saga do escultor Agostinho Balmes Odísio discípulo de Rodin. Fortaleza: IMEPH, 2011. p. 127

Figura 13 – Venda de esteiras na feira semanal

Fonte: ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero. Fortaleza: Museu do Ceará, 2006. p. 67.

Figura 14 – Comércio de rapadura na feira

Fonte: ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero. Fortaleza: Museu do Ceará, 2006. p. 67.

Um dos objetivos desse tópico é apresentar os meios de vida descritos por Odísio. Ele se dedica a descrever não apenas o trabalho masculino, mas também as atividades exercidas por mulheres e crianças que habitavam Juazeiro do Norte durante 1934 e 1935. Suas memórias elencam ofícios que garantiam não necessariamente o sustento do mês, mas ao menos o sustento da semana ou do dia:

É no sábado que grande parte desta gente ‘cava’ o sustento pela semana, fazendo o mediador de negócios, ajudando a carregar mercadorias, armar barracas, ajudar a vender, guardar animais, roubando aqui e acolá, pedindo esmola, ajuntando os restos, cavando enfim – o deles de mil formas, que a nós parecem fúteis, mas que para eles é meio de vida para a semana toda, tempo que ficam vadiando, armando freges, jogatinas e amolando quem trabalha [...].243

Segundo o escultor, a feira semanal era o espaço em que a maior parte da população buscava a manutenção da vida. Este aspecto remete à ainda atual inclinação da cidade para os serviços relacionados ao comércio. A passagem acima também demonstra certo juízo de valor do autor, que sugere a vadiagem de tais trabalhadores ao longo do restante da semana.

É interessante notar que a feira não é percebida apenas como local de trabalho, mas também como oportunidade de tirar proveito dos produtos remanescentes, pedir esmolas e até mesmo roubar. São alternativas que configuram soluções menos ortodoxas

— ou mais reprováveis — para a pobreza em que vivia grande parte da população. Contudo, nem todos os homens e mulheres pobres de Juazeiro buscavam sustento na feira. As pequenas indústrias e manufaturas também garantiam a vida de muitos:

A maior indústria é dos sapateiros com mais de cinquenta casas que fabricam alpercatas de toda forma, gênero e preço, sendo aqui o maior ponto de fornecimento de todo o nordeste deste artigo, o qual não perfuma a cidade ‘à côté’, mas sim de um fedor rançoso e insuportável de couro mal curtido e grude azedo. Os salários dos operários são irrisórios, ganhando o melhor dele dois e quinhentos por dia, trabalhando sem [h]orário, às vezes até dez horas da noite, sendo a média dos ordenados dois mil réis; poucos são porém afortunados que ganham tais salários, sendo a grande maioria trabalhadores adventícios, fornecedores d’água, carregadores e homens de fretes, sendo todos feitos à cabeça de homem ou lombo de burro os transportes, não existindo uma só carroça ou carrinho de mão [...].244

Além de se submeter a uma jornada de trabalho que não era previamente delimitada, o operário passava o dia todo exposto à cruel lida com o couro, geralmente a céu aberto. A atividade nos curtumes da cidade era bastante insalubre. De acordo com o autor, no entanto, era um privilégio possuir uma função que pagasse tão generosamente, pois grande parte da população vivia em penúria.

É necessário considerar que muitos dos devotos estabelecidos em Juazeiro não conseguiam encontrar trabalho fixo, vivendo, portanto, de atividades temporárias ou

243 ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero - 1935. Fortaleza: Museu do

Ceará, 2006. p. 66.

recorrendo a outros expedientes, tais como: “[...] pedir esmolas, improvisar negócios miúdos nas urdiduras do comércio ambulante, criar galinhas, carneiros e porcos ou trabalhar em pequenas plantações [...]”245. Como já se sabe, Padre Cícero se preocupava

em manter ocupadas as pessoas que chegavam, pois o regime agrário local não era capaz de absorver toda a mão de obra camponesa246. Por esse motivo, estimulou a expansão do

artesanato e da manufatura. A distância do Cariri em relação às capitais fez com que a região desenvolvesse relativa independência, fabricando produtos que demorariam certo tempo no deslocamento desde Fortaleza até o interior, e cujos preços sofreriam encarecimento ao longo do percurso. Por esses e outros motivos, em Juazeiro surgiram pequenas fábricas, principalmente de calçados, mas também de outros utensílios:

Fazem espingardas, primitivas mas que tem alvo certo e matam que é um gosto; maquinas de costura, barulhentas como fords velhos, mas que servem; muita variedade de facas e punhais, alguns dos quais bem bonitos [...]. Fazem toda sorte de bijouteria, primitiva e pouco elegante, anéis, broches, brincos, cruzes etc fabricados com ouro baixo e prata; fabricam toda sorte de enfeites, alguns bem engraçados, brinquedos, redes, rendas, chapéus de tecido de algodão, aqui chamado “de massa”, chapéus de palha, balaios, cestas, esteiras, artigos grosseiros para cozinha feitos de pau, foices, candeeiro, copos de lata; grande variedade de artigos de barro, potes, moringas, alguidares, panelas, vasilhas, etc, tudo fabricado muito primitivamente, mas de óptima qualidade [...].247

É possível notar que boa parte dos objetos domésticos, de vestuário e mesmo dos instrumentos de trabalho eram fabricados na própria cidade. Muitos moradores de lugarejos mais afastados costumavam viajar para comprá-los em Juazeiro, e o município passou a ter certo destaque dentro da economia regional. Em 1934, como já foi mencionado, aconteceu, em Fortaleza, a Exposição de Artes e Indústrias do Joazeiro, que buscou mostrar a produção manufatureira e fabril da cidade. A descrição do evento no jornal O Nordeste já indica quais eram os objetos de fabricação local mais comuns:

Alguns objetos chamaram a atenção dos industriaes e comerciantes que se interessaram por detalhes [...]. Assim aconteceu com a indústria das facas, redes, selas, chapéus de palha de carnaúba [...], vinhos de caju e jurubebas, etc. No terreno das curiosidades foram muito apreciadas as fotografias da cidade de Juazeiro, a sua já avultada coleção de jornaes, entre os quaes um diário, o que é de admirar numa cidade do interior do Nordeste, as fotografias de alguns

245 RAMOS, Francisco Régis Lopes. O Meio do Mundo. Território sagrado em Juazeiro do Padre Cícero.

Fortaleza: Edições UFC, 2012. p. 116.

246 VITORIANO, Germana Coelho. A invenção da arte popular em Juazeiro do Norte. 2004.

Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Ceará, 2004. p. 39.

247 ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero - 1935. Fortaleza: Museu do

objetos que pelo seu volume não puderam figurar na exposição, tais como: um formidável relógio de 4 metros de altura fabricado pelo sr. Pelusio Correia de Macedo, que marca segundos, minutos, horas, dias, meses, phases da Lua e até os anos bissextos; uma locomotiva em miniatura confeccionada pelo Sr. José Martin, bem acabada; [...]; um balão de fabricação do sr. João Fontes, etc.248

De um lado, havia a produção artesanal de objetos que eram fabricados com matérias-primas naturais, como metal, algodão, palha e couro. Por outro, existiam elementos que apontavam para a “civilidade” de Juazeiro, tais como os jornais, à época pouco comuns em cidades pequenas — que geralmente possuíam grande número de analfabetos. Por fim, havia criações de grandes inventores, sendo Pelúsio Correia, fabricante do relógio que encima a Coluna da Hora de Juazeiro, o mais famoso deles.

A exposição provavelmente pretendeu apresentar Juazeiro como uma cidade ordeira, trabalhadora, moderna e repleta de indivíduos talentosos. Com efeito, a reportagem d’O Nordeste (publicada, curiosamente, no dia da morte de Padre Cícero) nota que em Fortaleza não se conhecia verdadeiramente o laborioso recanto caririense, pois geralmente as descrições envolviam lendas e crendices, mas ninguém “[...] teria ouvido falar no Joazeiro moderno, Joazeiro industrial, na collectividade fabril, trabalhadora, inteligente, habilidosa, bastando-se, a bem dizer, a si própria?”249. O que

mais surpreendia os visitantes, portanto, era a relativa autonomia produtiva desenvolvida pela cidade ao longo dos anos.

Na cidade de Juazeiro já havia também, em 1934, grande quantidade de artesãos que se dedicava a fabricar produtos relacionados à religiosidade, como medalhinhas, estampas e esculturas de madeira. Basta observar que, quando Odísio chegou ao Ceará, já existiam estátuas do Padrinho elaboradas na imburana pelos artesões locais. No desenvolvimento de sua atividade de artista e comerciante, o autor de

Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero conviveu com pessoas das mais diversas

camadas sociais. Comumente passava os dias em sua oficina, mas também costumava caminhar pela cidade com o objetivo de realizar trabalhos de arquitetura e vender as esculturas fabricadas. Ele lembra que nessas caminhadas era comum ver não apenas adultos trabalhando nas ruas de Juazeiro, mas também crianças250:

248 EXPOSIÇÃO de Artes e Indústrias de Juazeiro. O Nordeste, Fortaleza, p. 4-5, 20 jul. 1934. 249 EXPOSIÇÃO DE ARTES e indústrias do Joazeiro. O Nordeste. Fortaleza, p. 5, 20 jul. 1934.

250 O Censo realizado pelo IBGE em 1940 não apontava a existência de trabalho infantil em Juazeiro. Essa

ausência demonstra a relevância de uma fonte como o caderno de Odísio, que descreve aspectos da vida cotidiana não captados pelos documentos oficiais. A pesquisa do IBGE, por outro lado, indicava o predomínio das atividades rurais e do trabalho doméstico e escolar, dados que não aparecem no relato do escultor.

Continuamente ve-se nas ruas meninas e meninos esfarrapados, quase nus, só cobertos de trapos imundos reduzidos a tiras, carregando na cabeça feixes de lenha, balaios de frutas e toda qualidade de gêneros, andando o dia inteiro nessa soalheira que torra e cega, oferecendo de porta em porta as suas mercadorias à venda, havendo entre eles criancinhas pequenas de cinco ou seis anos no máximo.251

A cidade era, como dizia o próprio Padre Cícero, refúgio para muitos desvalidos. Havia mulheres e homens pobres. Havia viúvas, órfãos, crianças abandonadas. Todos deviam trabalhar para garantir o sustento do corpo. A infância não era poupada. Os pequenos comerciantes, ajudando a família, trabalhavam como homens grandes. E, geralmente, não frequentavam as escolas, ainda destinadas em boa parte aos filhos da elite.

Juazeiro não era um município grande do ponto de vista da extensão territorial e, com o tempo, seu perímetro urbano foi se tornando mais habitado que a zona rural. O

Padrinho passou a incentivar a instrução formal e as atividades artesanais entre seus

devotos. A cidade se tornou uma grande oficina, pois numerosos moradores possuíam pequenas manufaturas nos próprios quintais e se dedicavam a algum ofício. Manoel Dinis afirma que Padre Cícero

Mandava que os meninos fossem para as poucas escolas primárias particulares ou públicas existentes, auxiliando a muitos meninos pobres com o pagamento das despesas necessárias. Entretanto, encarando o lado prático da vida, determinava que os pais colocassem seus filhos nas oficinas de sapateiros, ourives, funileiros, ferreiros, etc. Desta forma se habilitaram muitos que atualmente aqui e nos sertões vizinhos têm nas suas artes, meios de viverem ao menos com modesta independência.252

Desse modo, Juazeiro se transformou num grande mercado de produtos elaborados manualmente. Os trabalhadores do comércio e da manufatura eram, frequentemente, devotos de Padre Cícero e migrantes que se deslocaram até a cidade em busca de um guia espiritual que, além de assegurar conforto à alma, provia também alento para o corpo.

Diversos memorialistas contam que Padre Cícero tinha o hábito de convocar a população para o trabalho em mutirões através de um mecanismo peculiar: saía à janela

251 ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero - 1935. Fortaleza: Museu do

Ceará, 2006. p. 118.

e conclamava aqueles que quisessem ajudar a cultivar suas lavouras. Ele pedia que no primeiro dia da semana viessem, por exemplo, os que carregavam nomes comuns, como José e Pedro. No próximo dia, iriam os Joaquins e Antônios. Posteriormente, cada Manoel e João teria a oportunidade de se dedicar ao labor abençoado. Por fim, aqueles que tivessem nomes menos comuns também se uniriam para colaborar com a benfeitoria253.

Os trabalhadores de Juazeiro recebiam as refeições diárias e, além disso, o mais importante: a bênção do Padrinho. Aqueles devotos que se esforçavam para ajudar o Padre Cícero não necessariamente o faziam porque precisavam comer. Geralmente eram homens que forjavam seus próprios modos de sobrevivência, mesmo que precariamente. A doação do tempo de trabalho acontecia porque tais sujeitos se interessavam pela participação numa atividade santa. Essas “[...] empreitadas dos que labutavam em nome do sagrado encerram-se com a morte do Padre Cícero, em 1934”254.

Juazeiro, contudo, continuou a ser uma cidade viva, que produzia, vendia, fabricava, crescia.

Odísio chegou à localidade nesse período. Ele pode ser considerado um sujeito singular: estrangeiro, letrado e artista numa terra repleta de nordestinos analfabetos ou semianalfabetos, comumente submetidos aos trabalhos manuais e/ou mecânicos. Estava, no entanto, inserido na vida cotidiana de Juazeiro como qualquer outro habitante. Embora tenha escrito reflexões repletas de perplexidade em torno de hábitos que lhe eram estranhos, participava em muitos aspectos da rotina do restante da população.

Elementos como a organização do trabalho e da vida privada, o lazer, o descanso e a atividade social são partes orgânicas da vida cotidiana255 de cada

comunidade. Tais elementos podem ser perscrutados no caderno de memórias do escultor. Ele afirmava, por exemplo, que na Juazeiro de 1935 era

[...] praxe não prestar o mínimo serviço de graça e da mais pequena coisa querem tirar lucro, abertamente, sem receio ou vergonha; ‘Menino, me informa onde é a tal casa?’. Resposta: ‘Quanto ganho?’; ‘Homem, você vai ao Crato, não é?’ ‘Sim, sinhô’. ‘Pois faça o favor de me comprar tal coisa, custa tanto,

253 Cf. SOBREIRA, 1969, p. 245 apud RAMOS, Francisco Régis Lopes. O Meio do Mundo. Território

sagrado em Juazeiro do Padre Cícero. Fortaleza: Edições UFC, 2012. p. 126.

254 RAMOS, Francisco Régis Lopes. O Meio do Mundo. Território sagrado em Juazeiro do Padre Cícero.

Fortaleza: Edições UFC, 2012. p. 129.

dou-lhe o dinheiro, é um favor que me faz’. Resposta: ‘Pois não, mas quanto o sr. me dá pelo serviço?’256

Tal comportamento denota não apenas falta de cortesia, mas uma grande miséria que será descrita ao longo de toda a exposição de Odísio. De acordo com o escultor, na feira semanal havia “[...] bancas de bugingangas de ferros velhos, aonde se encontra até pregos já usados e endireitados vendidos a seis um tostão, e agulhas vendidas a duas um tostão”257. A população de Juazeiro buscava as mais diversas formas de garantir

a subsistência.

Em 1926, o folclorista Leonardo Motta (que costumava assinar como “Leotta”) publicou, no Diário do Ceará, peculiar descrição das atividades mais comuns e rentáveis em Juazeiro. Entre elas, descreveu a pujança da indústria de fogos e o grande número de barbearias alagoanas. Aproveitou para destacar o parco apuro linguístico dos trabalhadores recém-chegados:

Ninguém ignora que a população de Juazeiro é, em grande parte, adventícia. As levas de romeiros se sucedem diariamente, anunciadas as respectivas chegadas pelo espoucar de foguetes. Dia e noite, se queimam gyrandolas. Por isso, a pyrotechnica é ali negocio dos mais rendosos. Se fossem multados, como em Fortaleza, os que soltam foguetes, o município pagaria, em pouco tempo, a divida externa do Estado...

A maior colônia domiciliada em Juazeiro é a de gente provinda de Alagôas. ‘Barbearias alagoanas’ existem muitas. Numa delas anotei este letreiro vistoso e nada lacônico nem gramatical:

‘Barbearia Alagoana Peço a Deus bôa freguezia

Aseita chamados de seus bons freguez...’258

Assim, Leotta apontava, num único parágrafo, o vigor da indústria de foguetes e a falta de instrução dos romeiros alagoanos que se dedicavam à barbearia. Outra atividade apresentada por Leotta em seu artigo “A Mecca dos sertões” era a de engraxate. Como se sabe, essa atividade é desempenhada majoritariamente pelas classes menos favorecidas. Em Juazeiro não era diferente; no entanto, uma peculiaridade se destacava. As alcunhas desses trabalhadores sempre remetiam a nomes de pássaros, talvez pela agilidade ou, ainda, pela liberdade evocada por esses animais: “Coisa original:

256 ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero - 1935. Fortaleza: Museu do

Ceará, 2006, p. 87.

257 Op. cit., p. 77.

todos trazem gravado nas caixas um nome de guerra, isto é, de pássaro, e é por ele que accodem: este é o CANARIO, esse é o CORRUPIÃO, aquelle é o PAPACU...” 259

Leonardo Motta recebeu, devido à sua atividade como folclorista, diversos títulos nobiliárquicos: além de membro da Academia Cearense de Letras, foi consagrado “Príncipe da Poesia Popular, Rondon das Letras Matutas, Bandeirante do Brasil Caboclo, Embaixador do Sertão e Judeu Errante do Folclore nacional”260. Esses títulos o

singularizavam, garantindo seu lugar de honra nos estudos da cultura popular. Conforme defende Albuquerque Jr., as investigações de Leotta — assim como as dos demais folcloristas — foram fundamentais para a construção de uma ideia de cultura nordestina.

As elites letradas, preocupadas em produzir conhecimento sobre as mais diversas expressões do saber regional, buscaram se aproximar das fontes populares para delas extrair os produtos da “alma rústica e ingênua”. Os estudos de Motta, por exemplo, procuravam reproduzir a linguagem sertaneja. Ele costumava entrevistar pessoas comuns em busca não apenas do conteúdo da fala, mas também dos modos de falar. Seus livros sobre cantadores e violeiros são exemplos desse interesse.

Quase dez anos depois de Leonardo Motta, Odísio também descreveu as peculiaridades de Juazeiro. Como uma espécie de estudo de caso, ele se dedicou principalmente a discorrer sobre Romualdo:

O Romualdo, moço de vinte anos presumíveis [...] me foi apresentado e recomendado por o relojoeiro Sr. Pelúsio, como bom moço, sério e inteligente; empreguei-o ganhando dez tostões por dia, e dele estou contente pois é de facto bom moço, muito fiel e obediente, activo mais inculto e completamente analfabeto, como aliás são todos os da sua classe [...]. Outra vez ao contarmos níqueis para comprar fructas no mercado, atrapalhou-se na conta na qual chegava até dois cruzados (oitocentos réis) e devendo somar oito com nove ficou embasbacado ao que eu disse que ignorância assim era demais pela sua idade, e ele me respondeu para desculpar-se, mortificado ‘Ih! Chenti! Probrema assim dirfici só é pra dotô’.261

Numa sociedade em que o analfabetismo predominava, Romualdo representava apenas o exemplo corriqueiro de alguém que mal sabia fazer contas. O ajudante de Odísio não conhecia o próprio sobrenome, tampouco lia ou escrevia. Além disso, ignorava quantos anos tinha vivido. Garantia a subsistência realizando pequenos

259 NA MECA dos Sertões. Diário do Ceará, Fortaleza, p. 3, 30 jun. 1926.

260 ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A feira dos mitos – A fabricação do folclore e da cultura

popular (Nordeste 1920-1950). São Paulo: Intermeios, 2013.

261 ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero - 1935. Fortaleza: Museu do

serviços, pelos quais o escultor lhe pagava um valor irrisório, suficiente para comprar na feira semanal vinte agulhas ou sessenta pregos “usados e endireitados”, segundo o próprio Odísio262. O seu ordenado estava bem distante dos dois mil réis diários que supostamente

sustentavam a maioria dos trabalhadores. Odísio, como um folclorista, deu atenção ao linguajar dele, não para absorver a sua poética popular, mas para denotar a peculiar ignorância dos sujeitos de Juazeiro.

A relação de trabalho entre Romualdo e Odísio era frouxa, e o salário, insuficiente para as necessidades básicas. O ajudante se alimentava, como os demais habitantes da cidade, poucas vezes ao dia. Proteínas de origem animal não faziam parte de sua dieta. Muitas vezes, inclusive, ele comia as sobras do patrão: