5.1 CENA MUSICAL
5.1.3 Críticas ao termo: flexibilidade, ordem e caos
A elasticidade do termo “cena” é defendida por Straw como um ponto positivo pela facilidade que imprime na abordagem de unidades culturais diversas. Ele explica que o uso do conceito “não requer mais do que uma coerência nebulosa entre um conjunto de práticas e afinidades”50 (2006, p.6, tradução nossa). Desta forma, consegue-se atingir tanto uma comunidade mais restrita, quanto a frenética vida urbana. O conceito cena oferece, em ambos os casos, recursos diferentes. No primeiro, adiciona um certo dinamismo e, no segundo, através do desembaraçar de grupos menores inscritos ao todo caótico, propõe uma ordem mais estável.
Cena, de acordo com Straw, pode sugerir:
(a) congregação de pessoas num eventual lugar; (b) o movimento dessas pessoas entre um lugar e outro; (c) as ruas em que esse movimento toma espaço; (d) todos os lugares e atividades que envolvem e nutrem uma preferência cultural particular; (e) o amplo e mais geograficamente disperso fenômeno no qual esse movimento ou essas preferências são exemplos locais; (f) a rede da atividade microeconômica que alimenta a sociabilidade e a conecta à contínua reprodução da cidade (STRAW, 2006, p. 6, tradução nossa)51.
49 “Within a musical scene, that same sense of purpose is articulated within those forms of communication through which the building of musical alliances and the drawing of musical boundaries take place” (STRAW, 1991, p.
373).
50 “[...] requiring of those who use it no more than that they observe a hazy coherence between sets of practices or affinities” (2006, p.6).
51 “Is a scene (a) the recurring congregation of people at a particular place, (b) the movement of these people between this place and other spaces of congregation, (c) the streets/strips along which this movement takes place
Straw comenta que a década de 1990 inteira foi dedicada em tentativas de refinamento do termo e, mesmo assim, o significado de cena continua escorregadio. Para ele, cena são
“espaços geograficamente específicos para a articulação de práticas musicais”, embora reconheça que não é um significado exclusivo e nem diminui a significância de outros usos (2006, p. 7). Entre outros significados de cena, descrever pessoas que ocupam determinado espaço para entretenimento, por exemplo um bar, indica que interações sociais à primeira vista sem propósito, contribuem na produção de identidade de grupo. Micael Herschmann completa a ideia de cena, explicando que Straw considerava inicialmente um “‘contexto’, no qual práticas musicais coexistem, interagindo umas com as outras, dentro de uma variedade de processos de diferenciação e afiliações (HERSCHMANN, 2013, p. 44). Dulce H. Mazer acrescenta que cena sugere “organizações instáveis, com um protagonismo maior dos agentes sociais, costuradas por identificações grupais, afetividades e outros vínculos entre os indivíduos”.
Mais além, ressaltando a relevância em se considerar as alianças e afetos em uma cena musical, a autora aponta que uma cena é configurada a partir de afetividades e identificações entre indivíduos e, “por isso a cena é instável”, pois, “depende da vontade empreendedora dos agentes para constituir as práticas culturais relacionadas à música” (MAZER, 2017, p. 4-5).
Então, compreende-se melhor a noção colocada por Straw à medida que se considera a significação dos espaços por parte dos indivíduos presentes na cena.
Straw coloca que “parte do carácter superprodutivo de significados das cenas [...] é seu papel vasto em realinhar a cartografia da vida urbana, mesmo quando as atividades das cenas parecem intencionadas em expressar ou ocupar locais muito precisos”52 (2006, p.9, tradução nossa). Isto é, um efeito cumulativo das “cenas” menores que interfere na “cena” da cidade num âmbito geral. Pereira de Sá aponta a menor noção de cena como sendo reservada à dimensão local, e a explica como “atividades sociais ocorridas num espaço territorial e período de tempo delimitado”, quando agentes musicais utilizam de seus gostos semelhantes para diferenciar-se através do uso da música e outros símbolos culturais (PEREIRA DE SÁ, 2013, p. 30). Aqui, fica claro a associação das cenas aos usos e funções da música, como proposto por Merriam (1964). Nesta citação de Pereira de Sá, em específico, aponta-se implicitamente o uso da música nas cenas locais para fins de construção de identidade, o que está associado à
(Allor, 2000), (d) all the places and activities which surround and nourish a particular cultural preference, (e) the broader and more geographically dispersed phenomena of which this movement or these preferences are local examples, or (f) the webs of microeconomic activity which foster sociability and link this to the city’s ongoing selfreproduction?”(STRAW, 2006, p.6)
52 “Part of the “overproductive signifying” character of scenes [...] is their broader role in realigning the cartographies of city life, even when the activities of scenes seem intended to express or occupy very precise places.”
décima função da música proposta por Merriam, “de contribuir para a integração de uma sociedade” (MERRIAM, 1964, p. 9).
Seguindo neste raciocínio, também aponta a existência das cenas translocais, que são aquelas que “se constituem a partir do contato regular dos membros de distintas cenas locais em torno do mesmo interesse musical”. O termo translocal é colocado porque, apesar destas cenas terem sua dimensão local, elas se interconectam através de redes de relações e trocas de conteúdos que ultrapassam a necessidade de interação presencial como condição para pertencer à determinada cena (PEREIRA DE SÁ, 2013, p. 31).
Penso ser possível relativizar aquele efeito cumulativo proposto por Straw desde as cenas locais às regionais; das regionais às globais, de modo que a soma da interação dessas cenas menores aplica o resultado proposto como “realinhar a cartografia” da vida urbana.
Destas relações surge o termo Glocalização, a fim de explicar “processos de incorporação vividos dentro da sociedade que passou pela globalização e retirou daí algo para seu avanço social, como na prática, as cenas o fazem (FERREIRA, 2006, p. 23). Segundo a professora Lia Aparecida (2006), ao colocar uma reflexão sobre essas interseções entre as camadas de abrangência das localidades, explica que há uma articulação entre o global e o local do ponto de vista urbano. Assim, tal relação supõe um destaque na atuação de gestores governamentais nas questões do global em suas políticas públicas e aponta que, “o que regula esse processo são os meios de comunicação” (FERREIRA, 2006, p. 107).
Em entrevista no ano de 2012, Will Straw argumenta que, inicialmente nos anos 1990, estava preocupado com “circuitos de estilos” e “espécies de mundos em que as pessoas viviam sua relação com a música”. Em sua entrevista de 2012, com o mundo já sob forte influência das tecnologias digitais em torno da cadeia produtiva da música, isto é, produção, distribuição, comercialização e consumo (PRESTES FILHO, 2004), onde a globalização já era uma realidade não mais tão misteriosa para as cidades e seus habitantes, Straw definiu cena musical como “as esferas circunscritas de sociabilidade, criatividade e conexão que tomam forma em torno de certos tipos de objetos culturais no transcurso da vida social desses objetos” (JANOTTI JUNIOR, 2012, p. 9).
Trazendo para a análise deste estudo, Straw deixa implícito em sua então definição as três frentes aqui abordadas. Indivíduos e comunidades, ao citar “esferas circunscritas de sociabilidade”; indústria, tecnologia e temporalidade ao citar “criatividade [...] em torno de objetos culturais e no transcurso da vida social desses objetos”; espaço, por meio de “conexão”,
que pode ser tanto física a nível local, regional, nacional ou global, quanto virtual, por meio de redes digitais e demais artifícios proporcionados pelo ciberespaço53.