• Nenhum resultado encontrado

SISTEMAS DE CRENÇAS, EXCLUSÃO E ACESSO À UNIVERSIDADE

CRENÇA OBJETIVA E CRENÇA SUBJETIVA: FUNDAMENTALISMOS

Os discursos sociais são aqueles que possuem enunciador e enunciatários coletivos e cujo destinatário não é o indivíduo isolado, mas o público, entendido como um grupo aberto e indeterminado de indivíduos. O nosso interesse aqui concentra- -se nos discursos sociais não-literários marcados pela modalidade do saber e nos discursos marcados pela modalidade do crer. Existem vários discursos sociais não-literários: o científico, o jurídico, o político, o jornalístico, o publicitário, o religioso, o pedagógico, etc. As atividades que os caracterizam são as atividades públicas. As características típicas de cada discurso dependem da função social específica de cada atividade: a finalidade, os modos de atuação e o público da atividade.

Para compreender o funcionamento da ideologia de um ponto de vista semiótico, é necessário entender duas modali- dades: as modalidades epistêmicas e as modalidades de sedução. As modalidades epistêmicas são do tipo informativo, na modalidade poder saber. O discurso científico, cuja modalidade principal é o poder fazer saber, representa, na modernida- de, o exemplo mais conhecido e reverenciado de modalidade epistêmica, por ser dotado da capacidade de produzir a sig- nificação baseada numa apreensão fenomenológica que se apoia, por sua vez, na percepção e no raciocínio. O discurso da comunicação social (jornalismo e publicidade, entre outros) e o discurso jurídico também têm função epistêmica, embora de forma secundária: o primeiro tem como modalidade o poder fazer saber para poder fazer querer e o segundo tem como modalidade o poder fazer dever.

Os discursos epistêmicos podem ser articulados nas modalidades complexas poder saber, dever saber e querer saber, sendo dominante a primeira delas, uma vez que não é possível “dever saber”ou “querer saber”o incognoscível. Um processo cognitivo configura um metatermo complexo, o racionalismo com os seus metatermos simples: a credibilidade (poder crer naquilo que se pode saber), o bom senso (o dever lógico de crer nas evidências) e a boa vontade de aceitar tais evidências (visão alargada).

Por outro lado, o discurso amoroso, o político-partidário, o religioso, o esportivo e outros análogos ilustram a modalidade semiótica da sedução, cuja modalidade é o poder fazer crer, no qual a significação apela à intuição e ao pensamento não ra- cional. O discurso de sedução geralmente se assenta sobre proposições transcendentes, como a existência de Deus, a Pátria e a Raça, asserções não demonstráveis e saturadas de forte apelo emocional. O conjunto de tais asserções configura uma doutrina. Para a semiótica, a adoção de um credo manifesta o compromisso pessoal do crente com o seu sistema de crenças e configura a modalidade ética, a qual emerge quando um enunciado deontológico é assumido pelo sujeito. O deontológico é a estrutura modal que aparece quando um enunciado modal, tendo como predicado o dever, determina e rege o enunciado do fazer.

A noção de fé – um crer não sustentado por um saber – é típica do discurso religioso e constitui o cimento que une as diversas instâncias da doutrina. Seria um processo cognitivo baseado na articulação das modalidades crer e não-saber que

III CONGRESSO NACIONAL

DE COMUNHÃO E DIREITO

e Direito

Comunhão

pode, facilmente, tornar-se misticismo ou fanatismo. O crente pode recorrer à intuição, que se apresenta como o poder de formular hipóteses na ausência de evidências que as fundamentem ou apelar à superstição, uma compulsão para crer no transcendente e, finalmente, apegar-se à esperança, entendida como o desejo de que seja verdade algo não evidente ou comprovável).

Keynes sublinha que o comportamento racional está submetido a incertezas que, algumas vezes,provocam uma angústia que se manifesta no agente pela consciência da impossibilidade de dar conta de um mundo no qual os elementos existem independentemente das ações dos indivíduos e, outras vezes, pela consciênciada cabal impossibilidade de conhecer ou de prever os elementos de um mundo que só existirá no futuro (a economia do Brasil em 2030 ou a arquitetura de nossa cidade daqui a cinquenta anos, p.ex.). Então, para fugir à angústia, o indivíduo adota a certeza inabalável como mecanismo ideoló- gico.

O pensamento moderno costuma distinguir dois níveis de saber teórico: aquele que fornece certeza objetiva e aquele que nunca pode exceder a convicção subjetiva. Ora, para separar a certeza objetiva em relação a alguns enunciados, é necessário separá-los daqueles que se limitam apenas à convicção subjetiva. Na certeza objetiva, o sujeito está não apenas convencido da verdade do objeto, mas também possui meios para comunicar a sua convicção a outras pessoas que poderão verificar o seu valor/verdade. As proposições científicas empíricas são um exemplo disso: se alguém acredita que p e eu creio que ~p, então eu estou contradizendo aquela pessoa e, ao se fazer a verificação, será possível definir quem está certo ou errado.

Para a semiótica, “crer” é um ato cognoscitivo regido pela categoria modal da certeza, implicando a adesão do sujeito a um enunciado de estado (Greimas/Courtés: 1976: 93). A certeza representa o termo positivo da categoria modal epistêmica crer-ser e pode ser vista como uma das consequências possíveis do exercício do fazer interpretativo; a evidência, ao contrá- rio, é um jogo de verdade que pretende dispensar a interpretação e eliminar qualquer dúvida, uma vez que o indivíduo infe- re, imediatamente, a existência da imanência (ser/não ser) a partir da manifestação (parecer/não parecer) e assim suprime a distância entre o discurso referencial e o discurso cognoscitivo.

Quando o crente chega ao extremo de confundir a certeza com a evidência, então ele corre o risco de mergulhar no fana- tismo. O processo cognitivo do fanático apresenta várias falhas: em primeiro lugar, ele crê de forma absoluta naquilo que é intrinsecamente relativo (a certeza subjetiva da crença) e torna-se uma pessoa que não duvida de modo algum; segundo, ele esquece que cada jogo de linguagem demanda um tipo de razões, de modo que conviver com o outro é dar razões. Ao não duvidar de modo algum, o fanático elimina os matizes e adota uma dieta única, como um rato de laboratório. O fanatismo é uma patologia da crença, individual ou coletiva (Guillebaud:2007:27).

No seu uso habitual, o termo “fundamentalista” serve para desqualificar alguém e insinuar que, por um lado, não se pode discutir nada com ele e que, por outro, a sua maneira de pensar é desagradável e perigosa. Pensa-se ainda que ele pratica a devoção cega a algo e vive na credulidade. Isso por si só não representaria uma ameaça à convivência, mas torna-se ina- ceitável quando um determinado regime de crenças (político, religioso, econômico, etc.) tenta extrapolar os seus limites e influenciar os distintos domínios da realidade, como é o caso das crenças neoliberais que sustentam as afirmações racistas e excludentes de Holiday.

O senso comum costuma identificar o fundamentalismo com crenças religiosas e sempre imagina o fundamentalista liga- do exclusivamente aos textos revelados de diversas religiões. Ora, dado o caráter ideológico de todo discurso, a modalidade crer estará presente também tanto no discurso informativo quanto no discurso de sedução. Ambos dependem da tensão dialética entre o saber e o crer e os seus contraditórios não saber e não crer. Essa tensão dialética permanece oculta, por exemplo, nos discursos ideológicos do neoliberalismo, que se pretende uma doutrina científica que não contém qualquer traço de fé, mas apenas enunciados informativos e que, paradoxalmente, possuem um valor prescritivo cuja autoridade de- riva da sua compreensão total da conduta humana.

III CONGRESSO NACIONAL

DE COMUNHÃO E DIREITO

e Direito

Comunhão

de modo que, na tradição religiosa, são as vozes do passado, dotadas de autoridade mística, que tentam, mediante textos revelados e intérpretes autorizados, comandar, desde o além, a vida dos vivos. A mensagem expressa pela religião deseja implementar uma utopia espiritual restauradora que realize o Reino de Deus, uma proposição muito vaga, mas que inspirou, durante milênios, um enorme esforço intelectual e metafísico para criar códigos legais e morais.

Para a maioria dos crentes, crer em Deus, por exemplo, é acreditar que a vida tenha um significado. A postura religiosa da pessoa em relação ao mundo e à vida humana está para além do âmbito do raciocínio significativo, da verificação da ver- dade/falsidade de suas proposições. A proposição “Deus existe” apoia-se em bases racionais, pois é razoável esperar uma ordem no mundo e não, um caos ético (Cortina: 2000:128). Wittgenstein não enxergava uma crença religiosa como uma pretensão que pudesse ser verdadeira ou falsa e muito menos que pudesse, em algum momento, produzir convicções seme- lhantes às da matemática ou da física. Para ele, a crença religiosa expressaria uma posição particular da pessoa em relação ao mundo, aos outros ou à vida humana em geral (Kober:2000:234). De toda forma, compreender a esfera religiosa ajudará a entender melhor a categoria da certeza.

Do ponto de vista religioso, no entanto, a situação é diferente: se uma pessoa crê na ressureição de Cristo e outra não, não é possível estabelecer se o enunciado está correto ou errado, fora dos limites da fé. Na verdade, crer na ressurreição de Cristo expressa uma atitude específica em relação à vida humana e revela uma forma de vida, usando a terminologia de Wittgenstein (Kober:2000:244). É uma convicção subjetiva que, por um lado, só tem força probatória para aqueles que se interessam por aquela dimensão da realidade e, por outro, não pode exceder os seus limites intrínsecos, sob pena de conver- ter-se em dogma, uma afirmação que não pode ser discutida. Vale notar, porém, que, nos regimes democráticos seculares, qualquer sistema de crenças religiosas, econômicas e políticas deve ocupar o seu lugar específico no regime geral de crenças, ainda que aquele sistema possa se revestir de um respeito religioso por parte dos seus adeptos.

Outline

Documentos relacionados