III CONGRESSO NACIONAL DE COMUNHÃO E DIREITO
O DIREITO NO SÉCULO XXI: O QUE A FRATERNIDADE TEM A DIZER
3 O MODELO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO E A CATEGORIA FRATERNIDADE
A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988, consolidou o retorno da democra- cia no nosso país, depois de longos vinte anos de ditadura militar, nos quais não somente direitos foram violados, mas uma nação inteira sofreu violências de toda ordem. A liberdade de manifestação de pensamento, bem como as garantias mais singulares foram caladas, anos obscuros, de completa violação ao Estado Democrático de Direito. Com a abertura política do país e como fruto de uma intensa mobilização popular, a Assembleia Nacional Constituinte, sob a presidência de Ulysses Gui- marães, estatuiu uma constituição cidadã, a qual representou um grande avanço, consoante o constitucionalismo moderno,
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pois incorporou diversos direitos e garantias, perpassando desde os direitos concernentes à nacionalidade, à representação política, aos interesses individuais e coletivos, difusos e os direitos sociais, portanto, um verdadeiro marco político-jurídico com vistas a consolidar um Estado Democrático de Direito.
O texto da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988 determina em seu preâmbulo:
Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Consti tuinte para insti tuir um Estado Democráti co, desti nado a assegurar o exercício dos direitos so- ciais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justi ça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconcei- tos, fundada na harmonia social e comprometi da, na ordem interna e internacional, com a solução pacífi ca das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.
O texto da Constituição Federal do Brasil pode ser compreendido, nas palavras de BRITTO, como um “Constitucionalismo Fraternal” ou, ainda, um “Constitucionalismo Altruístico”, uma vez que pode ser definido como “a terceira e possivelmente última fase, o clímax do constitucionalismo. Pois a fraternidade tem a função de ombrear todas as pessoas em termos de respeito, referência e consideração”. (BRITTO , 2007, p.39)
Estabelece, pois, a nossa Constituição Federal no art. 1º, que o Brasil tem como fundamentos: a soberania; a cidadania; a dignidade da pessoa humana; os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. Constituem objetivos fundamentais do país: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a po- breza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais e, ainda, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
O artigo 5º da Carta Constitucional elencou os direitos e deveres individuais e coletivos, nos quais estão dispostos prin- cipalmente os direitos e garantias essenciais, como a vida, a liberdade, a propriedade, pois a tradição política brasileira, de cunho liberal, consagra a propriedade, depois da vida e da liberdade, como essencial ao ser humano.
No caput do art. 5º, do texto constitucional, o legislador constituinte igualou a todos, sem distinção de qualquer natureza, com vistas a assegurar a todos as garantias necessárias para uma vida digna, possibilitando ao homem, a mulher, de diferen- tes etnias, cores, idades, credos e consciência ideológica, as garantias para a efetivação dos seus direitos.
Alguns exemplos das garantias ali elencadas: o habeas corpus, o mandado de injunção, o mandado de segurança, o ha- beas data e etc, bem como as restrições dispostas na legislação infraconstitucional, para os que violem direitos de outrem, impondo sanções correspondentes à sua conduta proibitiva. Portanto, mesmo aos violadores dos direitos de outrem são asseguradas garantias, para que sejam responsabilizados de maneira condigna e respeitável, dentro de um devido processo legal e com penalizações proporcionais à gravidade da sua conduta, o que constitui uma das maiores conquistas da época moderna, de modo a evitarmos as vinganças, sejam as privadas sejam as públicas, que nada mais fazem senão provocar um cenário de barbárie. O processo de extensão de direitos e garantias àqueles que agiram fora dos limites da legalidade, isto é, que agiram contra a lei, trata-se de uma conquista travada, sobretudo, durante o século XIX, que teve na figura de Cesare Beccaria um dos maiores expoentes.( BECCARIA ,s/d)
Certos direitos como a individualização da pena, o respeito à integridade moral e física do preso, a vedação à pena de morte, a publicidade e presteza das penas, o repúdio à tortura, a concepção do princípio de que ninguém será culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, entre outros, foram introduzidos na nossa tradição constitucional, fruto deste processo humanizador que influenciou não somente o Direito Penal, mas o ordenamento jurídico num todo.
A norma constitucional, como lei máxima de uma nação, ao dispor todos estes direitos obriga às demais normas de cará- ter infraconstitucional a seguirem tais preceitos, de forma que passamos a ter no Brasil todo um processo de constitucionali- zação dos direitos. O que significa dizer que se alguma lei infraconstitucional venha violar os preceitos que foram instituídos
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na Constituição Cidadã de 1988, deve ser considerada inaplicável, uma vez que fere os fundamentos da Lei Maior; o instru- mento utilizado nesta hipótese é a Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADIN, a qual tem por finalidade declarar que uma lei ou parte dela é inconstitucional, ou seja, contraria a Constituição Federal.
Assim, a disposição de direitos e garantias explícitos na Constituição Federal de 1988 obrigou a legislação infraconsti- tucional a seguir àquela mesma proposta, em consonância ao que já afirmara KELSEN (1987), no tocante ao princípio do escalonamento normativo, que as normas encontram-se em uma disposição hierarquicamente constituída, em que a norma superior é quem dá validade e existência a norma imediatamente inferior.
No que concerne, exemplificativamente, ao universo da criança e do adolescente, o texto constitucional deu um impor- tante passo na proteção e defesa desses cidadãos, pois como dispõe art. 2277 que é dever da família, da sociedade e do Esta-
do – uma co-responsabilidade solidária - assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, os direitos correspondentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e a convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
Ao adotar, portanto, a Doutrina da Proteção Integral, o sistema jurídico brasileiro abandonou a velha e obsoleta Doutrina da Situação Irregular ou também conhecida como Doutrina Tutelar do Menor, a qual coisificava a infância, pois não os reco- nhecia como sujeitos de direitos, para adotar a doutrina da proteção integral, que os situa como sujeitos que se encontram em processo de desenvolvimento. Apreende-se que todos os dispositivos presentes no texto constitucional bem como na legislação ordinária (sobretudo a Lei 8.069/1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente) pretendem a consolidação de um novo modelo social que priorize o desenvolvimento sadio de seus integrantes, estaríamos, portanto, diante de um importan- te e novo paradigma – o da proteção integral8.
No entanto, a difícil realidade em que vivemos aponta, infelizmente, um modelo societário no mais das vezes desumano e distante dos ideais da fraternidade e assim, somos levados a questionar: como desenvolver a personalidade da criança, as suas aptidões e todo o seu potencial físico, mental, psicológico, espiritual e emocional? Como suscitar nas crianças e ado- lescentes o respeito aos direitos humanos, às liberdades fundamentais, ao meio ambiente, ou mesmo, como fomentar ou imbuir na criança e no adolescente o respeito aos seus pais, a sua própria identidade cultural, idioma, valores, se tudo isso lhes é negado?
Não obstante a beleza e clareza da Lei n. 8069/1990, a implantação do princípio da prioridade do direito da criança e do adolescente não pode se resumir a letra da lei ou a sua mera referência, antes há todo um processo com vistas a sua real e necessária eficácia. Ainda que a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente representem um importante passo na construção de uma nova realidade, o esforço legislativo de nada adiantará se não for acompanhado de investimen- tos do Estado, que resulte em políticas públicas, e de intensa fiscalização de toda a sociedade civil. Somente assim, frise-se, é possível falar em paradigma da proteção integral.
A especificação de direitos requerem o assentamento das condições da democracia atual. Se no passado a sua função era a de inverter o poder (liberdade), no presente recorre-se a lógica de proteção destinada a cada um de forma igualitária e para todos (igualdade). Neste cenário, a introdução da fraternidade fornece um contributo significativo à proteção do problema social ou cultural com o fim de dar conta do reconhecimento dos direitos, do direito a ter direitos9.
7 Redação dada pela Emenda Consti tucional nº 65, de 2010.
8 Nesse senti do ver a obra: VERONESE, Josiane Rose Petry (et alii orgs.) Estatuto da Criança e do Adolescente: 25 anos. São Paulo: Saraiva: 2015.
9 Clássica expressão recorrente na obra Arendti ana. Conforme, ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. Tradução Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspecti va, 2005; A Condição Humana. Tradução Roberto Raposo. 10a. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. Também, em Alain Touraine. Pensar outramente: o discurso interpretati vo dominante. Tradução de Francisco Morais. Petropolis-RJ: Vozes, 2009, p. 14.
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Imbuída da tarefa do reconhecimento da fraternidade enquanto matriz e base do sistema jurídico, segundo restou apre- sentado, é certo que a fraternidade pode vir a produzir uma teoria e uma prática na realidade contemporânea dos sistemas jurídicos, cuja vocação submete-se a fórmula da fraternidade, antes de estar compromissado com uma tarefa jurídica que se volta tão somente para a resolução do caso e do conflito, ou mesmo para um processo de resultados – ao invés, ela vai buscar nela mesma, em sua base principiológica, um nova matriz, onde se encontrará a sua própria construção e paradigma.