• Nenhum resultado encontrado

A crença sobre a transfusão de sangue

O ser humano é um complexo de alguns sistemas que se correlacionam en- tre si, proporcionando ao corpo humano intensos processos onde a vida acon- tece. Nesse ínterim, o sistema circulatório é responsável por irrigar todos os órgãos com o sangue, mantendo a “máquina” em funcionamento.

Ao tramitar pelo sistema circulatório, o sangue faz a liberação de nutrien- tes, dentre eles está o oxigênio, que além de levar nutrientes para as células, capta as substâncias tóxicas do organismo. “O sangue recebe os alimentos já assimilados e os transporta para as células. Recolhe também todos os resíduos

12 Disponível em: <https://bit.ly/2zUXDtz>. Acesso em: 23 ago. 2015.

13 Censo Demográfico 2010 – características gerais da população. Resultados da amostra. Dis- ponível em: <https://bit.ly/2wuqyyp>. Acesso em: 10 set. 2015.

14 Esse crescimento persiste. Segundo dados da denominação religiosa, em 2015, foram incor- porados 28.349 novos membros no Brasil, por meio do batismo. Disponível em: <https://bit. ly/2LawTdD>. Acesso em: 13 set. 2015.

Acta Científica. Ciências Humanas, Engenheiro Coelho, SP, p. 23-50, 1º semestre de 2016 DOI: http://dx.doi.org/10.19141/1519-9800.actacientifica.v25.n1.p23-50

31

A TRANSFUSÃO DE SANGUE E AS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ: LIBERDADE RELIGIOSA E FUNDAMENTOS ECONÔMICOS PARA AS DECISÕES JUDICIAIS

que se formam nos órgãos e os leva até os rins para serem eliminados através da urina” (USP, 2005).15

Precipuamente, o sistema circulatório se faz de sangue que circula nos vasos sanguíneos ejetados pelo coração, sendo constituído dos seguintes ele- mentos: “uma fase sólida, que compreende os elementos celulares, e uma fase líquida, que corresponde ao plasma. Os elementos celulares do sangue são as hemácias, os leucócitos e as plaquetas” (USP, 2005).

Nesse sentido, o procedimento de transfusão sanguínea pode ser traduzido como a introdução de sangue no corpo humano por meio de uma veia. Durante o processo, o paciente transfundido poderá receber todos os componentes do sangue ou apenas parte dele. Para exemplificar: glóbulos vermelhos, hemácias, plaquetas, leucócitos, fatores de coagulação ou plasma fresco congelado.

Com o intuito de restabelecer ou estabilizar o quadro clínico do paciente, a transfusão de sangue se faz necessária por diversos motivos, como perda ma- ciça de sangue em uma hemorragia, em cirurgias, traumatismos e hemorragias digestivas, ou em outras condições, como na hemofilia (USP, 2005).

Quanto à transfusão de sangue, como já indicado, uma das mais destacadas doutrinas das Testemunhas de Jeová é a proibição de se receber transfusão de san- gue total, de papas de hemácias e de plasma, bem como de leucócitos e plaquetas. Cabe aqui ressalvar que a proibição não é absoluta, pois alguns compo- nentes como albumina, imunoglobulinas e preparados hemofílicos podem ser transfundidos, cabendo nesses casos a cada Testemunha decidir individual- mente se deve ou não os aceitar.16 Porém, é vedado ao membro do grupo religio-

so que estoque o seu próprio sangue para, então, alguns dias depois, submeter- -se à cirurgia eletiva.

Tais crenças se baseiam no fato de que, de acordo com essa compreensão religiosa, a vida do ser humano estaria no sangue, logo ela não poderá ser re- passada. Desse modo, caso isso aconteça, as Testemunhas de Jeová estariam em desobediência quanto ao mandamento de amar a Deus com toda a alma (Mt 22:37) e isso as impediria de herdar a terra transformada em paraíso, segundo as crenças do grupo religioso.

Segundo informações da própria denominação, algumas passagens bíbli- cas são consideradas como fundamento para a proibição de transfusão de san- gue por parte de seus membros, sendo a primeira delas encontrada no livro do Gênesis, onde afirma que “Todo animal movente que está vivo pode servi-vos de alimento. Como no caso da vegetação verde, deveras vos dou tudo. Somente a carne com a sua alma – seu sangue- não deveis comer” (Gn 9:3-4).

15 Disponível em: <https://bit.ly/2ND11et>. Acesso em: 06 set. 2015. 16 Disponível em: <https://bit.ly/2NDZ01A>. Acesso em: 06 set. 2015.

32

Centro Universitário Adventista de São Paulo - Unasp

Outro texto que fundamenta tal proibição se encontra no capítulo 17 do livro Levítico, ao prescrever: “Quando qualquer homem da casa de Israel ou al- gum residente forasteiro que reside no vosso meio, que comer qualquer espécie de sangue, eu certamente porei minha face contra a alma que comer o sangue, e deveras o deceparei dentre seu povo” (Lv 17:10). A terceira passagem bíblica é encontrada no livro Atos dos Apóstolos, quando determina a abstinência de diversas práticas, entre as quais, “do estrangulado e do sangue” (At 15:19,20).

Baseados nessa interpretação onde o sangue é tido como a vida e que Deus abomina a ingestão desse material, as Testemunhas de Jeová encontram inúme- ras dificuldades quando se deparam com a necessidade de alguns tratamentos de saúde que necessitem de transfusão sanguínea, tratamento muito comum hodiernamente. Soma-se a isto o argumento da segurança à sua vida, pelos ine- gáveis riscos de contração de vírus, bactérias, protozoários e de doenças graves e até incuráveis, que somente fariam agravar o quadro clínico do paciente.

Logo, é perfeitamente perceptível e não significa que os membros de tal grupo desejem a morte, nem física nem espiritual, mas a observação e preserva- ção do princípio norteador de todos, o da prevalência da dignidade humana e do respeito à sua crença religiosa. Por isso, quando uma Testemunha de Jeová se depara com a possibilidade de receber a transfusão sanguínea e não aceita, em sua perspectiva, ela não está negando o direito à vida, mas fazendo uso de sua autonomia e liberdade quanto à opção de tratamento médico que não ofenda sua convicção religiosa (AZEVEDO, 2010, p.13).

Alguns fiéis da religião Testemunhas de Jeová aceitam a autotransfusão, quando o equipamento é preparado num circuito fechado, constantemente ligado ao sistema circulatório do paciente, e em que não há armazenamento de sangue do paciente. Os seguidores dessa crença não aceitam coleta pré- operatória, armazenamento e reinfusão posterior de sangue. E segundo as nor- mas da instituição, a hemodiálise e a hemodiluição, por sua vez, são assuntos para cada Testemunha de Jeová decidir de maneira individual, mas sempre com a certeza que tais equipamentos não façam armazenamento de sangue.17

Além de não fazerem uso de sangue por convicções religiosas, as Testemu- nhas de Jeová têm o entendimento de que a transfusão de sangue se trata de um procedimento ultrapassado, portanto, o fundamento bioético está assentado no avanço da medicina, já que existem tratamentos terapêuticos alternativos.

No entanto, os tratamentos alternativos ainda são pouco acessíveis pela maioria da população devido ao elevado custo financeiro se comparado com o procedimento já há tempos praticado pela medicina, a transfusão.

Acta Científica. Ciências Humanas, Engenheiro Coelho, SP, p. 23-50, 1º semestre de 2016 DOI: http://dx.doi.org/10.19141/1519-9800.actacientifica.v25.n1.p23-50

33

A TRANSFUSÃO DE SANGUE E AS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ: LIBERDADE RELIGIOSA E FUNDAMENTOS ECONÔMICOS PARA AS DECISÕES JUDICIAIS

As comissões de ligação com hospitais

As Testemunhas de Jeová contam com grupos organizados em cada con- gregação, um grupo de pessoas bem preparadas e informadas chamados de “Comissões de Ligação com Hospitais” que são responsáveis por buscar soluções

e apresentá-las aos fiéis com o intuito de proteger sua crença não permitindo que fiquem sem alternativas nos tratamentos de saúde que envolvam transfusão de sangue e também serem mediadores entre fiéis e a comunidade médica local, visitando hospitais e intermediando o diálogo em ocasiões onde o tratamento com sangue seja declarado necessário.

Com o intuito de se evitar que a liberdade de escolha do paciente seja cer- ceada pelos profissionais da medicina, os membros são instruídos a portarem consigo um documento no qual declaram que independente da circunstância, não aceitam transfusão sanguínea.18

Destarte, existem 1700 Comissões de Ligação com Hospitais,19 que atuam

em mais de 110 países, incentivando a comunicação aberta e contínua entre paciente e médico a fim de garantir que a vontade do paciente Testemunha de Jeová prevaleça. Banja (2009, p. 878) esclarece sobre sua estrutura e função:

Os membros dessas comissões são Testemunhas de Jeová especialmente trei- nadas para deixar os médicos mais informados sobre as crenças das Teste- munhas de Jeová. Em alguns casos, as comissões identificaram grupos de médicos que concordam em tratar as Testemunhas de Jeová sem transfusões de sangue. Assim, quando um profissional da área de saúde prefere, por mo- tivo de consciência, não aceitar a posição do paciente Testemunhas de Jeová de recusar transfusões de sangue, ele pode encaminhar esse paciente a um profissional que está disposto a respeitar a posição dele.