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Deveres profissionais do médico e liberdade religiosa

É interessante notar que, desde 1980, o Conselho Federal de Medicina já se posicionava diante da questão através da Resolução 1021, dizendo que:

Em caso de haver recusa em permitir a transfusão de sangue, o médico, obe- decendo a seu Código de Ética Médica, deverá observar a seguinte conduta: 1º – Se não houver iminente perigo de vida, o médico respeitará a vontade do

paciente ou de seus responsáveis.

Acta Científica. Ciências Humanas, Engenheiro Coelho, SP, p. 23-50, 1º semestre de 2016 DOI: http://dx.doi.org/10.19141/1519-9800.actacientifica.v25.n1.p23-50

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A TRANSFUSÃO DE SANGUE E AS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ: LIBERDADE RELIGIOSA E FUNDAMENTOS ECONÔMICOS PARA AS DECISÕES JUDICIAIS 2º – Se houver iminente perigo de vida, o médico praticará a transfusão de sangue, independentemente de consentimento do paciente ou de seus res- ponsáveis.

Na Resolução Nº 1931/2009 do Código de Ética Médica, no capítulo I, de- nominado Princípios Fundamentais, declara os seguintes termos:

I - A Medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coleti- vidade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza. […] VI - O médico guardará absoluto respeito pelo ser humano e atuará sempre

em seu benefício. Jamais utilizará seus conhecimentos para causar sofrimen- to físico ou moral, para o extermínio do ser humano ou para permitir e aco- bertar tentativa contra sua dignidade e integridade. […]

XVII - As relações do médico com os demais profissionais devem basear-se no respeito mútuo, na liberdade e na independência de cada um, buscando sempre o interesse e o bem-estar do paciente. […]

XXI - No processo de tomada de decisões profissionais, de acordo com seus ditames de consciência e as previsões legais, o médico aceitará as escolhas

de seus pacientes, relativas aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos por eles expressos, desde que adequadas ao caso e cientificamente reco- nhecidas.

XXII - Nas situações clínicas irreversíveis e terminais, o médico evitará a reali- zação de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propicia- rá aos pacientes sob sua atenção todos os cuidados paliativos apropriados […].21 Ainda na Resolução 1931/2009, vê-se que o Código de Ética conceitua que é vedado ao médico:

Deixar de obter consentimento do paciente ou de seu representante legal após esclarecê-lo sobre o procedimento a ser realizado, salvo em caso de risco imi- nente de morte. […]

Deixar de garantir ao paciente o exercício do direito de decidir livremente sobre sua pessoa ou seu bem-estar, bem como exercer sua autoridade para limitá-lo.

E no artigo 31 da referida Resolução, quando trata da relação com o pa- ciente, fica expresso que ao médico é vedado:

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Centro Universitário Adventista de São Paulo - Unasp

Desrespeitar o direito do paciente ou de seu representante legal de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente risco de morte.

A Resolução do Conselho Federal de Medicina, nº 1.995/2012, faz conside- ração às diretivas antecipadas de vontade do paciente ou representante em seu artigo 2º, parágrafo 2º, isso trata de quando o paciente se encontrava capaz e deixou de maneira documentada a sua vontade:

Nas decisões sobre cuidados e tratamentos de pacientes que se encontram incapazes de comunicar-se, ou de expressar de maneira livre e independente suas vontades, o médico levará em consideração suas diretivas antecipadas de vontade. […]

§ 2º O médico deixará de levar em consideração as diretivas antecipadas de vontade do paciente ou representante que, em sua análise, estiverem em desacordo com os preceitos ditados pelo Código de Ética Médica (CFM, 2012, 269-270).22

O Ministério da Saúde editou a Portaria 1820/200923 assegurando ao pa-

ciente a recusa a determinado tratamento, de forma a não colocar a saúde públi- ca em risco. Essa é a exata situação em que se encontra o paciente Testemunha de Jeová que não expõe a vida de terceiros a riscos quando recusa a transfusão sanguínea:

Art. 5º Toda pessoa deve ter seus valores, cultura e direitos respeitados na relação com os serviços de saúde, garantindo-lhe:

V - o consentimento livre, voluntário e esclarecido, a quaisquer procedimen- tos diagnósticos, preventivos ou terapêuticos, salvo nos casos que acarretem risco à saúde pública […].

Em decorrência dos grandes avanços da medicina desde 1980, a Resolu- ção 1021/1980 do Conselho Federal de Medicina (CFM) mostra-se superada hodiernamente. Sendo assim, a Associação das Testemunhas de Jeová fez re- comendações ao referido Conselho. A título de exemplo, destaca-se que entre as reinvindicações deve-se esclarecer de maneira precisa o significado da ex- pressão “iminente perigo de vida” presente na Resolução, em razão da nítida subjetividade do termo, que não se apoia em elementos técnicos precisos.

22 Disponível em: <https://bit.ly/207VBbw>. Acesso em: 10 set. 2015. 23 Disponível em: <https://bit.ly/1To3om7>. Acesso em: 10 set. 2015.

Acta Científica. Ciências Humanas, Engenheiro Coelho, SP, p. 23-50, 1º semestre de 2016 DOI: http://dx.doi.org/10.19141/1519-9800.actacientifica.v25.n1.p23-50

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A TRANSFUSÃO DE SANGUE E AS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ: LIBERDADE RELIGIOSA E FUNDAMENTOS ECONÔMICOS PARA AS DECISÕES JUDICIAIS

Diante da incompatibilidade da Resolução 1021/1980 do Conselho Fe- deral de Medicina, com normas superiores como a Constituição Federal

 de

1988

, o CFM reconheceu posteriormente, por meio de seu Parecer nº 12/2014, que:

[…] os ditames da Resolução CFM nº 1021/80, editada na vigência da CF de 1967 e do CEM de 1965, por seu pragmatismo decorrente, à época, de limites mais estreitos dos conceitos éticos e morais e da ciência médica, são despro- vidos de maiores evidências e deixam, pela amplitude de interpretação, no campo da subjetividade o critério científico do termo “iminente perigo de vida”, ou seja, do risco iminente de morte, bem como, não dispõe elementos técnicos precisos para os limites e parâmetros de indicação da transfusão de sangue e seus componentes, que possam orientar a terapêutica em casos es- pecíficos e individuais como os das Testemunhas de Jeová. Assim, tornou-se temerária aos conceitos morais e éticos contemporâneos e inconsistente com o progresso científico da medicina.

Não obstante o importante reconhecimento do necessário avanço nas de- cisões do Conselho Federal de Medicina sobre o tema tangente às Testemunhas de Jeová, pequeno foi o avanço, considerando que não foi estabelecida nova resolução em substituição à Resolução 1021/1980, o que demonstra um vazio normativo que causa insegurança dos profissionais da medicina quanto aos de- veres éticos.

A omissão das normas no sentido de delimitar quais os tratamentos a que o paciente tem direito legal de recusar, coloca esse grupo minoritário numa posição de desconforto, já que não há garantia na vida prática que seu direito constitucional será efetivado quando invocá-lo. E por isso, a busca pelo pro- vimento jurisdicional é constante para dirimir conflitos surgidos a partir da recusa de transfusão sanguínea.