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3. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

3.2 Crenças e poder: o que penso sobre a obrigatoriedade do Currículo

Refletir e repensar a própria prática pedagógica é uma forma de levar os professores a reconstruir e redirecionar suas aulas, desconstruindo visões e pensamentos que não propiciem o desenvolvimento de novas ideias e concepções. Cada professor possui uma prática diferente uma vez que a atuação docente está associada a crenças particulares sobre o que entendem por ensinar uma LE. Horários destinados a planejamento e troca de experiências em grupos, além do oferecimento de cursos de formação continuada para os professores de LE seriam formas de o Governo oferecer condições para que o processo de reformulação e transformação pudesse acontecer.

Apesar de apresentar diferentes pontos de vista quanto ao processo de ensino- aprendizagem da LE, e em relação à implementação do CM, os professores informantes concordam que deveria existir um trabalho coletivo nas escolas. Eles declaram que raramente se encontram no espaço escolar e era difícil a promoção de um debate entre os professores da área para que pudessem perceber a visão do outro, posicionar-se e, em conjunto, traçarem metas e propostas para uma mudança que pudesse trazer benefícios.

Professor Roberto: Eu queria agradecer a oportunidade, acho que isso é sempre bom pra gente refletir sobre as nossas práticas. Eu gostei.

Professor Aroldo: Às vezes a gente esquece que a nossa prática também tem que ter uma troca e, muitas vezes, a gente não consegue. (...) Seria muito bom se houvessem (sic.) mais encontros do que desencontros.

Mais do que buscar resultados individuais, cada professor isolado em suas turmas, seria interessante que fossem promovidos momentos de integração e de troca entre os docentes de LE, de forma a se alcançar melhoria no ensino da instituição como um todo. Tais debates e encontros seriam ótimas oportunidades para, como o professor Aroldo destacou “refletir sobre as nossas práticas”. E, mais do que isso, elaborar ações coletivas que levassem o docente a refletir sobre o fazer pedagógico e modificar sua prática, buscando novos encaminhamentos. Enxergar o problema ou desafio como uma oportunidade de superação e modificação.

O que acaba sempre acontecendo é que o professor não tem autonomia para tomar decisões em sua prática, pois, ou lhe exigem que trabalhe de outra forma, implementando ações específicas e projetos sem relação nenhuma com seu planejamento, ou o consideram incapaz ou desqualificado para participar de discussões que visem ações inovadoras em busca de melhorias. Desse modo, o professor, muitas vezes, é o último a saber sobre o que está sendo pensado para a educação e, mais especificamente, para sua sala de aula, como destacam os professores informantes quando perguntados se conheciam o CM e se souberam de sua elaboração.

Professor Roberto: Muitas vezes, a gente não tem um conhecimento mais efetivo. Uma coisa que foi assim falado que tinha que seguir e tal, mas não teve assim, por exemplo, um debate, não teve um... juntar todos os professores, de repente, pra ver como cada um ia trabalhar, até pra tirar um denominador comum.

Professor Aroldo: Eu fiquei sabendo que ele estava sendo elaborado por professores porque os professores reclamaram do Currículo Mínimo. Houve aquela reclamação: Mas como assim? Não pode e tal. Tem muita coisa errada. Mas o Currículo Mínimo também foi elaborado por professores. Essa foi a posição dos coordenadores pedagógicos. Então, foi dessa forma que eu fiquei sabendo, assim.

E o que vemos, frequentemente, são pessoas convidadas para elaborar documentos e currículos específicos para a educação básica, mas que nunca lecionaram em turmas do ensino fundamental e/ou médio, ou seja, não possuem a vivência que, a meu ver, seria necessária para pensar o contexto e visualizar ações.

Professor Roberto: (...) Eu gostaria de saber, até porque, pra entender se, realmente, os professores que foram escolhidos se todos tinham prática, né. Porque o que acontecia muitas vezes e aí que a gente que trabalhou na faculdade, até na parte de pesquisa, a gente vê que muitas vezes fica muito na teoria e quem fica lá nunca entrou em sala de aula pra dar aula pra fundamental, médio ou fundamental I que seja e não tem aquela vivência e vai pela teoria e vai muito pela utopia da ação.

Não se leva em conta a tomada de decisões com base na experiência do professor, muito menos, no seu poder de reflexão quanto ao que pode ser implementado ou não. Suas vozes muitas vezes são silenciadas e impera o controle da prática pedagógica. Suas ações são vigiadas pela gestão escolar e devem seguir à risca as normas impostas pela SEEDUC. O objetivo principal que deveria ser propor melhorias para o ensino-aprendizagem é abandonado em troca da vigilância, da perseguição e, muitas vezes, da punição. Como destaca Almeida (2014, p. 104):

(...) A autonomia necessária a tais práticas parece estar sob ataque das políticas educacionais das diversas esferas de governo nos últimos anos. Essas deixam transparecer o desejo de controle (...) em oposição à confiança na capacidade do professor de exercer sua autonomia de forma responsável e embasada teoricamente. Um exemplo desse movimento (...) é a imposição de um Currículo Mínimo, atrelado à bonificação monetária, pela rede estadual do Rio de Janeiro.

O professor, um dos protagonistas do processo de ensino-aprendizagem, pode falar com propriedade sobre o que realmente se passa em sala de aula e na escola. É um misto de sentimentos que só quem está dentro é que pode dizer como é. E aqui me coloco como professora atuante e testemunha ocular das inúmeras situações que vivencio em sala de aula. São angústias, alegrias, aflições, sensação de desespero, de esperança, vontade de sair correndo e “jogar tudo para o alto". Tanta coisa que seria impossível nomear todas. Mas, ao mesmo tempo, a vontade de tentar, testar novas ideias, experimentar novas sensações, buscar melhorias é o que ainda me impulsiona a não desistir. Inclusive, desenvolver uma pesquisa cujo tema está completamente associado à prática docente é a prova de que ainda acredito na educação e em seu poder de transformação.

Apesar da obrigatoriedade de implementação do CM, os professores informantes relataram que o documento é positivo e que não é nenhum transtorno implementá-lo, desde que ele possa ser adaptado ao contexto de cada escola, de cada turma.

Professor Roberto: (...) O Currículo Mínimo (...) veio para nos orientar e eu acho bem válido, só que é, eu acho que o professor tem um papel fundamental aí pra tentar não modificá-lo, mas adaptá-lo a sua realidade.

Professor Aroldo: (...) Eu já trabalhava algumas coisas dentro do Currículo Mínimo, entendeu. Então, o Currículo Mínimo veio só pra concretizar aquela proposta que eu passava para os alunos, entendeu. Então, veio ajudar, adicionar, acrescentar, ajudar na sala de aula o professor.

Segundo os professores informantes, o problema não está apenas na obrigatoriedade do cumprimento do CM, mas, principalmente, na forma como é exigido. Relataram que a

coordenadora pedagógica, a responsável pela vigilância e cobrança do uso do CM, não entende a adaptação do documento e exige que ele seja trabalhado exatamente como se apresenta.

Professor Roberto: (...) Eu só acho que a coordenadora tinha que ter essa flexibilidade de olhar o Currículo e... Não tem que ter o que está escrito ali, igual ele diz também, do jeito que está ali, ipsis litteris, e sim você mostrar o que você quis abranger ali, o que você quis com o seu aluno, dentro sempre amparado pelo Currículo Mínimo.

Professor Aroldo: Ele é cobrado e, muitas vezes, acontece essa divergência entre professor e coordenador porque o coordenador muitas vezes não entende o que você quer está querendo trabalhar ali. É uma coisa que está dentro do Currículo Mínimo, mas por ele não ser um conhecedor da sua matéria, ele vai entrar em conflito com você. Então você tem que explicar: não, eu trabalhei isso porque eu quero chegar a esse ponto, o meu objetivo é esse, eu estou trabalhando de forma subjetiva e tal. (...) Todo bimestre ele é exigido pela coordenadora pedagógica.

Mas se a Resolução SEEDUC 4866/2013 que dispõe sobre a implantação e acompanhamento do CM em seu artigo 2º diz que “O cumprimento do Currículo Mínimo é obrigatório em sua totalidade no ano letivo vigente, respeitando a autonomia do professor para possíveis ajustes (...)”, ou seja, o professor pode ajudar e adaptar o documento no ato de sua implementação, qual o motivo da coordenadora pedagógica da escola exigir seu cumprimento exatamente da forma como é apresentado? Talvez para mostrar o poder que acredita ter já que, segundo a Resolução SEEDUC 4866/2013, uma de suas atribuições é verificar informações quanto ao cumprimento do CM, como já foi apresentado no capítulo 3. Contudo, a Resolução determina que:

I - compete aos professores regentes declarar bimestralmente, no sistema Conexão Educação, as habilidades e competências desenvolvidas em suas turmas de suas respectivas disciplinas, bem como inserir observações sobre ajustes acerca da utilização do Currículo Mínimo;

II - compete à Equipe de Gestão e de Coordenação Pedagógica das escolas e/ou ao IGT - Integrante do Grupo de Trabalho da unidade escolar - verificar as informações sobre o cumprimento do Currículo Mínimo junto aos professores regentes da unidade escolar.

Desse modo, parece que o motivo para exigir, vigiar e punir os professores que não cumprissem o CM integralmente, uma vez que, segundo os professores informantes, ela não leva em consideração uma adaptação do documento, é simplesmente exercer poder. Isso será abuso de poder. Essa dominação exercida por acreditar que a hierarquia dentro da escola a coloca em posição superior aos professores.

Segundo Van Dijk (2012, p. 27), “a sociedade não funcionaria se não houvesse ordem, controle, relações de peso e contrapeso, sem as muitas relações legítimas de poder.”

No entanto, o abuso de poder pode prejudicar as pessoas e esse abuso acontece muito mais do que se imagina, inclusive, dentro das escolas. Utilizar-se de um cargo ou posição provisória (uma vez que na escola onde os professores informantes atuam, nem a gestão escolar e tampouco a coordenadora pedagógica participaram de processo seletivo ou eleição para exercer a função), para coibir, vigiar, ameaçar e punir professores, considero ser abuso de poder.

A forma como o discurso é usado com o outro, com o propósito de intimidar vem complementada por suas práticas cotidianas exercidas dentro da unidade escolar. Esse é o uso ilegítimo do poder, o abuso de poder, o querer controlar a todo custo, independente das ações praticadas e do discurso proferido. Tendo consciência de que meu discurso e minha prática podem influenciar a vida de alguém, estarei desempenhando uma atitude responsável, não só para mim, mas também para o outro. Analisar o discurso do outro criticamente é uma forma de resistir a ele e a dominação que ele pode querer causar. E tal tarefa deve ser repassada aos alunos em formação. Ensiná-los a analisar criticamente textos escritos e falas que são divulgados e proferidos diariamente é uma forma de não se permitir manipular ou aceitar práticas de mando e desmandos sem questioná-las.