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Ao atuar na elaboração do CM, senti-me na obrigação de utilizar o documento em sala de aula, primeiro por ter sido uma das elaboradoras e por acreditar que é uma proposta curricular válida e que já ia ao encontro da forma como eu trabalhava, e, segundo, por ser uma exigência da SEEDUC. Assim, buscando repensar minha prática docente, optei por implementar o CM na elaboração de minhas aulas. Entretanto, questionamentos e reflexões sempre surgiam quando dialogava com colegas professores que afirmavam não utilizar o documento, pois não concordavam com ele. Assim, pensando nas distintas visões apresentadas pelos docentes de LE com os quais conversava nas escolas em que atuo como professora no que diz respeito à implementação do CM, dei início a esta investigação, objetivando compreender o porquê da insatisfação dos professores acerca desse documento e, concomitantemente, investigar se aquele estava sendo implementado.

Este capítulo tem como objetivo apresentar os aspectos metodológicos da investigação realizada. Assim, está dividido em cinco partes, a saber: 1. pesquisa qualitativa, onde apresento a abordagem escolhida; 2. estudo de caso, descrevendo o procedimento utilizado; 3. instrumentos de produção de dados, relatando quais foram os instrumentos utilizados; 4. professores informantes, onde apresento uma pequena descrição dos docentes que participaram especificamente do estudo de caso e, para finalizar, 5. perfil da escola, apresentando um breve histórico da instituição onde os professores informantes lecionam.

2.1. Pesquisa qualitativa

Essa pesquisa é de natureza qualitativa e está inserida na perspectiva contextual dos estudos sobre crenças, uma vez que essas “são inferidas dentro do contexto de atuação do participante investigado” (ABRAHÃO, 2006, p. 220) e foram pesquisadas por meio do estudo de caso, cujos instrumentos utilizados foram os questionários, a entrevista e a observação de prova bimestral elaborada pelos professores informantes. Contudo, acredito que possa introduzir este estudo também na perspectiva metacognitiva uma vez que os participantes, a partir da aplicação dos instrumentos de pesquisa, refletiram sobre sua prática.

É possível acrescentar, ainda, que essa pesquisa pode ser considerada como qualitativa, na medida em que foram produzidos dados qualitativos, ou seja, o que levei em conta na análise foram as crenças e de que forma influenciam a prática docente no que

concerne à implementação do CM de LE. Assim, os dados produzidos tomam a forma de palavras e não de números, não importando aqui a quantidade. O mais importante é “como os participantes envolvidos constroem significados de suas ações e de suas vidas (...) e como eles próprios estruturam o mundo social no qual vivem” (ABRAHÃO, 2006, p. 220). Assim, não se fez necessário analisar o discurso de um número elevado de professores, uma vez que os dados não serão medidos em termos de quantidade.

Analisar de que forma os professores desenvolvem sua prática pedagógica, quais são suas crenças e o que pensam sobre o ensino e a aprendizagem das LE e a implantação do CM nas escolas estaduais do Rio de Janeiro foi o que me levou a desenvolver esta pesquisa.

2.2. Estudo de caso

O estudo de caso é uma estratégia de investigação que pode pesquisar um ou vários casos. Segundo Ventura, “visa a investigação de um caso específico, bem delimitado, contextualizado em tempo e lugar para que se possa realizar uma busca circunstanciada de informações” (2007, p. 384).

Autores como Robert Yin e Robert Stake, dois dos mais reconhecidos em estudos de caso, aprofundaram e credibilizaram o estudo de caso no âmbito da metodologia de investigação. “Yin (2005) define estudo de caso como uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro do seu contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos (MEIRINHOS; OSÓRIO, 2010).

Já Stake acredita que os estudos de caso não sejam "uma escolha metodológica, mas uma escolha do objeto a ser estudado" e esse objeto deveria ser algo "específico funcional" (como uma pessoa ou uma sala de aula), mas não uma generalidade (como uma política). (YIN, 2001, p. 37).

Nessa pesquisa, para a produção dos dados, optei por entrevistar dois professores de LE atuantes em uma escola da rede estadual de ensino do RJ. Considerei o estudo de caso, focando a análise nos dados produzidos a partir das falas de apenas dois informantes, porque, nessa investigação, seria muito difícil abarcar a totalidade dos docentes de LE. Ventura destaca que o estudo de caso “é apropriado para pesquisadores individuais, pois dá a oportunidade para que um aspecto de um problema seja estudado em profundidade dentro de um período de tempo limitado” (2007, p. 385).

O primeiro motivo que me levou a eleger o estudo de caso como metodologia foi o curto espaço de tempo. Seria muito difícil reunir informações com um número muito grande de docentes, uma vez que tal ação demandaria um tempo maior para conversar/entrevistar/reunir os professores e, posteriormente, processar as informações.

A segunda razão que justifica a opção pelo estudo de caso é a greve dos professores e funcionários da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro que teve início no dia 02 de março de 2016. O movimento, porém, acabou limitando meu contato com os professores. Mas, como o estudo de caso possibilita que a investigação seja realizada com um menor número de informantes, decidi escolher tal metodologia. Entretanto, penso que a pesquisa não tenha sido prejudicada e/ou possa ser caracterizada como limitada devido a essa redução. Ao contrário, tal fato propiciou um debate mais intenso e a obtenção de mais informações.

Nesse caso, a representatividade estatística não foi um fator essencial. O mais importante foi tentar entender o que esses professores pensam, por que pensam assim, quais crenças manifestam e se essas interferem e/ou modificam sua prática pedagógica, analisando as diferenças e as ideias semelhantes apresentadas pelos professores informantes. E tais propósitos seriam mais facilmente alcançados ao se investigar um número menor de professores. Como destaca Ventura (2007, p. 385), “o que torna exemplar um estudo de caso é ser significativo, completo, considerar perspectivas alternativas, apresentar evidências suficientes e ser elaborado de uma maneira atraente” (VENTURA, 2007, p. 385).

Assim, o material reunido a partir da entrevista e da prova elaborada pelos professores informantes, que será melhor detalhado mais adiante, serviu como uma amostra do todo, o que, acredito, não comprometer o entendimento do tema investigado.

2.3. Instrumentos de produção de dados

Para investigação das crenças dos professores de LE quanto à implementação do CM, utilizei os seguintes instrumentos: 1) questionário aberto, 2) entrevista e 3) análise de uma avaliação escrita (prova bimestral).

2.3.1. Questionário

O questionário foi utilizado na geração inicial dos dados e foi a primeira fonte de análise da fala dos docentes de LE que atuam em duas escolas estaduais localizadas no

município de Itaboraí. Elaborado com itens abertos, uma vez que o objetivo era explorar as percepções pessoais e opiniões dos participantes, buscando respostas mais detalhadas, o questionário teve como finalidade analisar as crenças dos professores, além de investigar como avaliam o Currículo Mínimo e se o implementam em sua sala de aula.

Apesar de ser um instrumento de fácil aplicação e de possibilitar que um número maior de informantes seja abarcado, o questionário requer cuidado ao ser elaborado. “Recomenda-se, inclusive, que o questionário seja pilotado19 anteriormente para que qualquer

ambiguidade ou falta de compreensão possa ser solucionada antes da aplicação definitiva” (BURNS, 1998 apud ABRAHÃO, 2006) ou, ainda, de modo a observar a necessidade (ou não) da utilização de outro instrumento de pesquisa.

Foram distribuídos, pessoalmente, sete questionários aos professores de LE (inglês e espanhol) que atuam em duas escolas estaduais. Contudo, apenas seis professores retornaram o questionário respondido, sendo três de inglês e três de espanhol. O professor que não retornou o questionário respondido não justificou sua não devolução.

Os questionários foram a primeira aproximação com os professores informantes em relação ao tema pesquisado; posteriormente, optei por realizar uma entrevista e, também, a análise de uma prova elaborada pelos docentes. Além disso, dar continuidade ao levantamento de dados com seis professores informantes poderia tornar o trabalho muito extenso. Assim, decidi, então, selecionar apenas dois docentes, um de inglês e um de espanhol, que atuam na mesma instituição de ensino em que trabalho.

Considerando que o questionário não me havia possibilitado levantar muitas informações e auxiliada pelo número reduzido de professores informantes selecionado após a análise dos questionários, ampliou-se o material de pesquisa.

2.3.2. Entrevista e prova bimestral

Após verificar que o questionário limitou a possibilidade de uma análise mais aprofundada, e concordando com Abrahão (2006, p. 220) quando defende a seleção de mais de um tipo de instrumento permite que mais dados sejam levantados, uma vez que “nenhum instrumento é suficiente por si só, mas a combinação de vários instrumentos se faz necessária para promover a triangulação de dados e perspectivas”, decidi utilizar, também, outros dois

19 O questionário piloto é um instrumento de pesquisa que pode ser utilizado como pré-instrumento. Existindo

necessidade ou interesse em se obter mais dados ou novas informações, um novo questionário pode ser desenvolvido e aplicado.

instrumentos: a entrevista informal e a análise de uma prova escrita que o professor informante tivesse utilizado em sua sala de aula para, a partir do discurso dos professores e de sua prática, analisar suas crenças quanto à implementação do Currículo Mínimo. No entanto, a provas foram utilizadas apenas para verificar se havia coerência ou não com o que foi falado na entrevista.

Para a utilização desses dois instrumentos optei por reduzir o número de professores participantes, como já informei antes, entrevistando e analisando a prova bimestral de apenas dois docentes de LE, um de inglês e um de espanhol, de somente uma das escolas antes selecionadas.

A entrevista foi realizada ao mesmo tempo com os dois professores. O objetivo era obter uma ampla visão das percepções que os informantes possuem de suas experiências sociais e prática docente. Ainda que tenha sido uma entrevista informal, as questões de pesquisa foram o foco da conversa que foi direcionada por mim, enquanto pesquisadora.

Após analisar a fala dos dois professores, contrastando-a com o instrumento de avaliação, a ideia foi verificar o que havia em comum, mas também, o que era particular e que, de certa forma, interferia e/ou levava o docente a planejar suas aulas.

2.4. Professores informantes

Os professores que responderam o questionário estão lotados em duas escolas da rede estadual de ensino do Estado do RJ presentes no município de Itaboraí, contudo localizadas em distintos distritos.

Após analisar os dados obtidos a partir dos questionários, percebi que ainda faltavam informações que me permitissem uma análise mais aprofundada e que refletissem, mais claramente, a realidade do professor de LE da rede estadual do RJ. Assim, optei pela metodologia de estudo de caso de modo a focar na análise da fala de dois professores de LE: um de inglês e um de espanhol, uma vez que, apesar de ser um CM de línguas estrangeiras, ele foi elaborado pensando-se apenas nessas duas línguas, até porque são os dois idiomas mais presentes nas escolas estaduais.

A escola na qual os professores Rodrigo e Aroldo (docentes selecionados para a realização da entrevista e análise de prova bimestral)20 lecionam é uma instituição

subordinada à Coordenadoria Regional Serrana I, órgão de gerência da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro e está localizada em uma zona rural, no bairro de Visconde de Itaboraí, o 5o distrito do Município de Itaboraí, região Metropolitana do Estado do Rio de

Janeiro.

Ocupa uma área em que se encontram construídos três prédios: prédio principal, biblioteca e a quadra de esportes (construção padrão dos CIEPs21). É uma escola bem estruturada com 18 salas de aula, sala de informática, auditório, laboratório de ciências e refeitório. Funciona em três turnos com turmas de Ensino Fundamental do 6o ao 9o ano, EM regular e Nova EJA22.