CAPÍTULO 4 – TERCEIRIZAÇAO E OS REFLEXOS NO TERCEIRO SETOR
4.2 CRESCIMENTOS DAS ENTIDADES DO TERCEIRO SETOR
Lester Salamon em palestra realizada na Terceira Conferencia Ibero- Americana sobre o Terceiro Setor com o tema “Estratégias para o fortalecimento do Terceiro Setor” inicia suas ponderações alegando que estamos assistindo uma grande efervescência no Terceiro Setor pelo mundo afora, uma gigantesca
199 DULANY, Peggy. Tendências Emergentes em Parcerias Intersetoriais: Processos e Mecanismos para
Colaboração. In: IOSCHPE, Evelyn Berg (Org.). 3º Setor: Desenvolvimento Social Sustentado. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. p.69.
promoção de atividade organizada, privada e voluntária em todos os quadrantes da Terra.
Pondera, em seguida, que nos países desenvolvidos da Europa e América do Norte, na ex-União Soviética e nas amplidões da Ásia, África e America Latina, as pessoas estão ganhando ou reafirmando sua confiança na capacidade de as organizações voluntarias que auxiliarem os idosos, promoverem serviços de saúde, apoiarem movimentos populares, defenderem direitos humanos, protegerem o meio ambiente, educarem crianças talentosas e perseguirem muitos outros objetivos semelhantes.
Tudo isso, ressalta-se, não está acontecendo acidentalmente, nas últimas duas décadas. É fruto, segundo o autor, da generalizada perda de confiança na capacidade do Estado, por si só, gerar o bem-estar social, de fomentar o progresso econômico, de resguardar o meio ambiente, ou seja, de melhorar a qualidade de vida. E, ainda, soma-se a esses, a extraordinária revolução no setor de comunicações, que abriu novas oportunidades para a auto-organização civil, e, ainda, o crescimento simultâneo em todo o mundo, do número de cidadãos de classe média, dotados de habilidades e motivação para aproveitar essas oportunidades com vistas a criar novos veículos de ação social, tendo como resultado uma “revolução associacional global”, a multiplicação da atividade organizada, privada e voluntária, que, no visão do referido autor, poderá revelar-se um aspecto tão importante do final do Século XX quanto o advento do Estado-nação no final do Século XIX.200
Ressalta Lester Salamon, ao final, que o Terceiro Setor é visto sob três faces. A primeira é que o Terceiro Setor é uma ideia, pois é um conjunto de instituições que encaram os valores da solidariedade e dos valores da iniciativa individual em prol do bem público. A segunda, o Terceiro Setor deve ser visto como uma realidade, não obstante o Terceiro Setor ter permanecido estranhamento invisível, constitui uma grande força econômica, implica em empregabilidade, não obstante haver um grande numero de trabalhos voluntários, apresenta diferentes e formas significativas
200 SALAMON, Lester. Estratégias para o Fortalecimento do Terceiro Setor. In: IOSCHPE, Evelyn
Berg (Org.). 3º Setor: Desenvolvimento Social Sustentado. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. p. 90/91.
de composição e que não depende, necessariamente, da presença de inúmeros indivíduos para se fazer caridade. Constitui um conjunto de instituições concretas que representam uma força econômica formidável do que se costuma reconhecer e contribui em grande medida para a provisão de importantes serviços humanos e busca apoio em fontes surpreendentes variadas.
E, por último, a terceira face é o Terceiro Setor como ideologia. Não obstante os mitos da insignificância e incompetência, do voluntarismo e da virtude pura, um os grandes desafios da promoção do Terceiro Setor não é criar estruturas sociais inteiramente novas, mas aplicar novas formas de associação às estruturas tradicionais da vida comunitária, passar dos esqueletos clientelistas e paternalista de interação para outros que realmente tenham poder e capacidade.201
Observada tais considerações, acerca do desenvolvimento e crescimento do Terceiro Setor e das entidades que o compõe, há que se ressaltar que, no Brasil, este crescimento se despontou quando o Estado, para suprimir as deficiências deixadas pelo Estado Burocrático, iniciou um processo de Reforma Gerencial, e que, de acordo com Luiz Carlos Bresser Pereira, esta Reforma observou o aspecto da gestão e do plano estrutural no Estado.
No plano estrutural, a reforma ocorreu a partir da identificação do núcleo estratégico do Estado, quando ocorreu a valorização das carreiras públicas de alto nível que participam deste núcleo, e, que no aspecto da gestão foram criadas organizações sociais (ou OSCIPS funcionam como organização social) para a realização dos serviços sociais, culturais e científicos do Estado, ou seja, foram criadas organizações públicas não estatais que executam esses serviços com mais autonomia e eficiência. 202
Sob este prisma, foi realizada uma pesquisa pelo Instituto Publix, e, que acordo com Luiz Carlos Bresser Pereira, em 2006 verificou-se que ao menos 21 estados e 31 municípios possuem modelos de organização social. Os governos que mais se destacou foram o estado de Minas Gerais com mais de 75 OSCIPS
201 Ibidem, p. 91-101.
202 PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. Os primeiros passos da reforma gerencial do Estado de 1995. In:
D´INCAO, Maria Ângela e MARTINS, Herminio (Orgs.). Democracia, Crise e Reforma. Estudos sobre a era Fernando Henrique Cardoso. São Paulo: Paz e Terra, 2010. p.175/176
(entidades com características com o modelo das organizações sociais) implantadas; o estado da Bahia que possuía 30 organizações qualificadas, e, o estado de São Paulo, com mais de 20 OS qualificadas na área da cultura e saúde, e, que, em levantamentos preliminares para realização da pesquisa em 2008, apontavam que o números de casos dobrou, o demonstra um crescimento das entidades que compõe o Terceiro Setor avançou com o inicio da Reforma Gerencial do Estado.
Por outro norte, de acordo com o estudo realizado pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em parceria com o IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, realizado no ano de 2005 e publicado no ano de 2008, acerca das Fundações Privadas e Associações Sem Fins Lucrativos – FASFIL, verificou-se que, no Brasil, ocorreram mudanças significativas nas Fundações e Associações Privadas sem fins lucrativos, em comparação ao período de 2002-2005, e, que os resultados desta pesquisa aponta para um conjunto de informações importantes para melhor conhecimento do papel desempenhado pelas associações civis e fundações no Brasil. 203
Pelo estudo realizado, em 2005, as FASFIL se destacaram pela atuação voltada para a defesa de direitos e interesses dos cidadãos, aí incluídos os subgrupos Associações de moradores, Centros e associações comunitárias, Defesa de direitos de grupos e minorias, Desenvolvimento rural, Emprego e Treinamento, Associações empresariais e patronais, Associações profissionais, Associações de produtores rurais e outras formas de desenvolvimento e defesa de direitos que, em conjunto, representam mais de um terço (35,2%) do total das fundações e associações.204
No que tange ao aspecto do crescimento das FASFIL, o estudo realizado pelo IBGE demonstra que entre 1996 e 2005, observou-se um crescimento da ordem de 215,1% das fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil. Isso representa que o número das FASFIL passou de 107,3 mil para 338,2 mil no período, e, proporcionalmente, esse grupo de entidades foi o que mais cresceu no
203 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATISTIVA – IBGE. As fundações Privadas e
Associações sem Fins Lucrativos no Brasil 2005. Rio de Janeiro: IBGE, 2008, p. 7.
204 Ibidem, p. 26
país. As demais organizações sem fins lucrativos (caixas escolares, partidos, sindicatos, condomínios e cartórios) apresentaram um crescimento de 152,2%, enquanto que todo o conjunto de organizações públicas, privadas lucrativas e privadas não lucrativas existente no CEMPRE cresceu 74,8%.205
Já em 2010, de acordo realizado pelo IBGE e pelo IPEA, em parceria com a Associação Brasileira de Organização Não Governamental – ABONG e o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas – GIFE, divulgado em 2012, existiam oficialmente no Brasil, em 2010, 290,7 mil Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos - FASFIL. Sua importância é revelada pelo fato de este grupo de instituições representarem mais da metade (52,2%) do total de 556,8 mil entidades sem fins lucrativos e uma parcela significativa (5,2%) do total de 5,6 milhões de entidades públicas e privadas, lucrativas e não lucrativas, que compunham o Cadastro Central de Empresas – CEMPRE.206
Entre estas entidades, a maior concentração encontra-se na Região Sudeste, nas mesmas proporções de FASFIL (44,2%) e de brasileiros (42,1%). Em segundo lugar figura a Região Nordeste, onde estão 22,9% dessas instituições, o que representa uma proporção pouco menor do que a da população (27,8%). A Região Sul ocupa o terceiro lugar tanto em número de instituições quanto em número de habitantes, no entanto, neste caso, as proporções se diferenciam, evidenciando uma concentração mais acentuada das FASFIL. Assim é que, nesta região, encontram-se 21,5% das entidades e apenas 14,4% da população. Na Região Norte, ao inverso, estão 4,9% das FASFIL e 8,3% dos brasileiros.
Estas entidades, de acordo com o estudo realizado pelo IBGE, as FASFIL são entidades relativamente novas no Brasil: a maior parte delas (40,8%) foi criada no período de 2001 a 2010, e, das 118,6 mil entidades nascidas na década, a metade (50,8%) surgiu nos últimos cinco anos, sendo que cerca de 4% a cada ano, evidenciando um crescimento regular no período. Interessante também observar o
205 Ibidem, p. 47
206 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA - IBGE. Estudos e Pesquisa .
Informação Econômica nº 20. As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil. 2010. Rio de Janeiro, IBGE, 2012. Disponível em: <ftp://ftp.ibge.gov.br/Fundacoes_Privadas_e_Associacoes/2010/fasfil.pdf.> Acesso em: 15/12/2012.
peso das entidades criadas no período de 1981 a 2000: elas representam 46,5% do total de entidades em atividade em 2010.
Tais dados comprovam que, que de forma geral, as entidades que compõe o Terceiro Setor vem crescendo a cada dia, e, neste contexto de crescimento e as especialidades das entidades que compõe o Terceiro Setor, a Terceirização de atividades não essenciais do Estado e das Sociedades Empresariais, se insere, como forma de desenvolvimento social e econômico.
Ademais, frisa-se que estas entidades que compõe o Terceiro Setor, além de cumprir a finalidade que se propõe, abarcam uma serie de atividades inerentes ao Estado e as Sociedades Empresarias, por meio da terceirização de atividades e serviços, formalizada através de Contratos e Termos de Parcerias, Contratos de Gestão, Contratos Administrativos.
No âmbito das Sociedades Empresarias – ora componentes do Segundo Setor -, é importante ressaltar que, de acordo com estudo realizado pelo BNDES, que apesar da pequena contribuição das empresas no orçamento total das organizações do Terceiro Setor, sua participação tem sido crescente nos últimos anos, especialmente a partir das fundações e institutos a elas vinculados. Nesse cenário, as empresas passam a ser importantes para o Terceiro Setor ao gerir seus próprios projetos sociais ou, ainda, o que é mais comum, ao se associarem, com suporte técnico-financeiro, a organizações da sociedade civil que já desenvolvem projetos bem-sucedidos nos mais diversos campos de atuação – educação, saúde, trabalho e renda e assistência social principalmente. 207
Este tipo de atuação das empresas nacionais e corporações multinacionais marca a tendência moderna de substituir as práticas até então vigentes fundamentadas na filantropia tradicional, caracterizada principalmente pelas doações pontuais e assistenciais aos empregados, a seus familiares e às comunidades circunjacentes às sedes empresariais.
207 BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO - BNDES.Terceiro Setor e Desenvolvimento Social.
Relato Setorial nº 3. AS/GESET, 2001. Disponível em: <http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos
/conhecimento/relato/tsetor.pdf>. Acesso em: 04/12/2012.
Atualmente, o crescimento de entidades que compõe o Terceiro Setor no Brasil tem sido acompanhado de perto por vários institutos como IBGE, IPEA, ABONG entre outros grupos de pesquisas ligados as Universidades, Grupos de Pesquisa e outros órgãos ligados ao Terceiro Setor. Estas instituições que compõe o Terceiro Setor estão sendo vistas como entidades atuantes, estruturadas e capazes de promover ações eficazes como a capacitação profissional, prestação de serviços com qualidade, eficiência e especialização, entre outras ações, nas áreas que se propõe a atuar.
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