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Num discurso geral sobre os direitos do homem, deve-se ter a preocupação inicial de manter a distinção entre teoria e prática, ou melhor, deve-se ter em mente, antes de mais nada, que teoria e prática percorrem duas estradas diversas e a velocidades muito desiguais. (Norberto Bobbio, 2004, p. 62) Este capítulo tem como objetivo tecer alguns comentários sobre o percurso da aquisição de direitos pelas crianças, que, de certa forma, refletiram nas ações públicas de saúde direcionadas às mesmas. Parte-se de uma visão geral sobre os direitos dos homens e reflete-se sobre a expansão dos mesmos para o universo infantil.

Norberto Bobbio - filósofo político e historiador político italiano-, em seu livro A Era dos Diretos (2004), afirma que os direitos dos homens são considerados como um fenômeno social, onde as mudanças sociais acabam por demandar o surgimento de novos direitos. E, uma vez que os mesmos não emergem todos de uma única vez e nem são dados de uma vez por todas, o debate sobre os direitos dos homens encontra-se cada vez mais difuso, constando na pauta das mais respeitadas assembleias internacionais.

Os direitos fundamentais do homem, portanto, surgiram em gerações diversas, sofrendo incrementos conforme as mudanças sociais ocorriam (PAGLIUCA, 2010).

De acordo com Pagliuca (2010, p.19), um consenso doutrinário para a definição de direitos humanos é muito difícil, isto porque os direitos passaram e passam por mutações ao longo dos anos. Contudo, o autor, após uma combinação de conceitos, assume direitos humanos como:

Aqueles direitos inerentes a todo ser humano, reconhecidos em instrumentos jurídicos, a partir da natureza das coisas e que garantem, legalmente, uma identidade, livre-arbítrio e possibilitam a todas as pessoas uma vida sem sofrimento imposto imotivadamente ou de modo abusivo. Com isso, a defesa contra eventuais violações, além da resistência, pode ser efetuada em mecanismos judiciais.

Bobbio (2004), afirma que as três grandes correntes do pensamento político moderno – o liberalismo, o socialismo e o cristianismo social – dão origem a um sistema complexo de direitos fundamentais, uma vez que cada um desses pensamentos conserva a própria identidade na preferência atribuída a certos direitos mais do que a outros. Contudo, apesar da origem de fontes doutrinárias diversas, a integração prática dos direitos fundamentais representa uma meta a ser alcançada na desejada unidade do gênero humano, formando um único e grande desenho da defesa do homem, compreendendo os três bens supremos: vida, liberdade e segurança social.

Bobbio (2004, p. 209) ainda considera que “[...] a luta pelos direitos teve como primeiro adversário o poder religioso; depois, o poder político; e, por fim, o poder econômico”. Entretanto, a era atual, caracterizada pelo enorme progresso da transformação tecnológica, demanda por direitos que nascem todos dos perigos à vida, à liberdade e à segurança, procedentes do aumento do progresso tecnológico.

Pagliuca (2010) considera que os direitos humanos classificam-se, de acordo com os direitos abordados e o referencial proposto, da seguinte forma (Quadro 1):

Quadro 1 - Classificação dos direitos humanos de acordo com o referencial protetivo

Geração Direitos Referência protetiva

Primeira Civis e políticos Liberdade

Segunda Sociais (educação, trabalho, saúde, segurança etc.) Igualdade

Terceira Difusos (meio ambiente, bem-estar socioeconômico, autodeterminação das gentes etc.) Solidariedade

Quarta e quinta Relativos à herança e patrimônio genético, evolução tecnológica. Existência humana sadia Fonte: Adaptado de PAGLIUCA, 2010, p. 21-22.

Os direitos da terceira, quarta e quinta gerações incidem sobre grupos humanos ou coletividade, e os dois primeiros, sobre os indivíduos (PAGLIUCA, 2010).

Normas legais ajustadas diplomaticamente e por consenso – tais como tratados, convenções, acordos, protocolos etc.-, sustentam o universalismo dos direitos humanos que devem suplantar as políticas particulares dos Estados (PAGLIUCA, 2010).

O marco universal dos direitos humanos é a Declaração dos Direitos Humanos (ou do Homem) – inspirada no movimento iluminista da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (Revolução Francesa) e na Declaração de Independência dos Estados Unidos da América-, aprovada em 10-12-1948, no Palácio Chaillot, Paris, pela Assembleia Geral da ONU, pelo quórum de 56 Estados e a abstenção de oito. Com abrangência universal, alcançando vários Estados-partes e a integralidade do ser humano, esta Declaração trouxe o reconhecimento da igualdade essencial da pessoa humana, sem quaisquer discriminações (PAGLIUCA, 2010).

O desenvolvimento da teoria e da prática dos direitos do homem ocorreu em duas direções, de acordo com Bobbio (2004): na direção de sua universalização e naquela de sua multiplicação.

Para o autor supracitado (2004), a universalização tem como ponto de partida uma profunda transformação do direito das “gentes” em direito dos “indivíduos” singulares, que vão se transformando, de cidadãos de um Estado particular, em cidadãos do mundo. A multiplicação, por sua vez, ocorreu de três modos:

Aumento da quantidade de bens considerados merecedores de tutela;

Extensão da titularidade de alguns direitos típicos a sujeitos diversos do homem;

Próprio homem não é mais considerado como ente genérico, ou homem abstrato, mas é visto na especificidade ou na concretude de suas diversas maneiras de ser em sociedade (criança, velho, doente etc.).

Bobbio (2004) ainda considera que existam relações de interdependência nestes três processos, uma vez que o reconhecimento de novos direitos de (sujeito) implica quase sempre o aumento de direitos a (objeto). Para ele, a multiplicação acelerada dos direitos dos homens revela a necessidade de fazer referência a um contexto social determinado, onde as mudanças sociais fazem emergir novas concepções e reconhecimento de direitos sociais que levem em conta as diferenças específicas, importantes para distinguir um indivíduo do outro, ou um

grupo de indivíduos de outro grupo. Surge então, segundo o autor, ao lado do homem abstrato ou genérico, do cidadão sem outras qualificações, novos sujeitos de direito: a mulher e a criança, o velho e o muito velho, o doente e o demente, etc.

Os direitos do homem, portanto, são direitos históricos, que surgem gradualmente a partir das lutas que o homem trava por sua própria emancipação e, também, das transformações das condições de vida que essas lutas produzem (BOBBIO, 2004).

A criança, durante séculos, foi relegada a patamares inferiores pelas civilizações. Seus direitos sequer eram cogitados. E, uma vez que não votavam, não tinham poderes e não atraíam riquezas, a questão infantil não entrava na pauta dos governantes. Os serviços do Poder Público, dirigidos à população mais nova, limitavam-se aos ligados à saúde e à educação (LAMENZA, 2012).

Entretanto, a Convenção sobre os Direitos da Criança, adotada pela Resolução n.º L. 44 (XLIV) da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 20 de novembro de 1989, deu início a uma mudança no panorama internacional sobre a situação da infância. Crianças e adolescentes passaram à condição de sujeitos de direitos, sendo considerados seus interesses na implementação de parâmetros de atuação conjunta entre Estado, família e sociedade (LAMENZA, 2012).

A Convenção sobre os Direitos da Criança foi ratificada pelo Brasil em 24 de setembro de 1990 e promulgada, através do Decreto Nº 99.710, em 21 de novembro de 1990 (BRASIL, 1990a).

Josiane Veronese (1997) afirma que esta Convenção Internacional apresenta natureza coercitiva e exige do Estado Parte que a subscreveu e a ratificou um determinado agir, que implica uma responsabilidade com o futuro. Para a autora, esta Convenção exerceu uma efetiva influência no cenário das políticas brasileiras voltadas para as crianças e os adolescentes.

Considerando como criança todo ser humano com menos de 18 anos de idade, a Convenção sobre os Direitos da Criança trouxe para o universo jurídico a Doutrina da Proteção Integral, que serve de base para uma nova concepção sócio-jurídica da infância e da adolescência, e que, segundo Pontes Júnior (1993, p. 9) apresentam dois pontos centrais:

Crianças e adolescentes são sujeitos de direitos universalmente reconhecidos; Estes direitos não são apenas aqueles comuns aos adultos, mas, além destes, os

desenvolvimento – englobando o aspecto físico, espiritual, moral, social, etc.-, que tragam condições de vida digna e promovam a proteção integral de crianças e adolescentes.

No Brasil, a Doutrina da Proteção Integral veio substituir a Doutrina da Situação Irregular, na qual se fundamentava o Código de Menores de 1979, onde havia um conjunto de regras jurídicas que se dirigiam a um tipo de criança ou adolescentes específicos (inseridos em um quadro de patologia social e denominados “menores”), colocando-se como uma legislação tutelar. Para Veronese (1997), tal tutela pode ser entendida como culturalmente inferiorizadora, implicando na superioridade de uns sobre outros.

Veronese (1997, p. 14) afirma que “[...] o sujeito de direitos seria o indivíduo apreendido do ordenamento jurídico com possibilidades de, efetivamente, ser um sujeito- cidadão”. Portanto, o entendimento de que crianças e adolescentes são merecedores de direitos próprios e especiais, evidenciou a necessidade fundamental que estes passassem da condição de “menores” para a de cidadãos, que necessitam de uma proteção especializada, diferenciada e integral.

Com isso, no Brasil houve uma mobilização popular em favor dos direitos da criança e do adolescente, que resultou na inclusão de uma verdadeira Declaração dos Direitos e Garantias Infanto-Juvenis Fundamentais (art. 277), na Constituição do Brasil de 1988, inaugurando a Doutrina da Proteção Integral e garantindo o princípio da prioridade absoluta no atendimento de seus direitos (PONTES JÚNIOR, 1993).

Contudo, havia ainda a necessidade de uma legislação que se ocupasse seriamente dos direitos da criança e da adolescência, e que regulamentasse o que havia sido dito pela Constituição de 1988. Para tal, após extraordinária participação popular, foi elaborado o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA (Lei N° 8.069/90, de 13 de julho de 1990), que dispõe sobre a proteção integral de crianças e adolescentes (VERONESE, 1997; PONTES JÚNIOR, 1993; BRASIL, 1990b).

O ECA (Lei N° 8.069/90) significou para o direito infanto-juvenil uma verdadeira revolução, pois possibilitou a concretização das propostas contidas no texto constitucional (art. 277 da Constituição de 1988). Seus princípios de descentralização e participação visam à formulação de uma política social eficaz, que assegure materialmente os direitos proclamados. Por isso, uma melhor divisão de tarefas deve ocorrer entre a União, os Estados e os Municípios, no cumprimento dos direitos sociais, além de um grande estímulo do ECA às

associações, na formulação, reivindicação e controle das políticas públicas (VERONESE, 1997).

O ECA considerou criança a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade (BRASIL, 1990b).

Reconhecido internacionalmente como um dos mais avançados Diplomas Legais, o ECA apresenta disposições verdadeiramente revolucionárias em muitos aspectos. Contudo, ainda continua desconhecido pela maioria da população brasileira, além de ser sistematicamente descumprido por grande parte dos administradores públicos (DIGIÁCOMO; DIGIÁCOMO, 2010).

Entretanto, o ECA possibilita que os direitos das crianças e dos adolescentes sejam demandados em juízo, contemplando os mais variados tipos de demandas que visem seus interesses, como o acesso à escola, a um sistema de saúde, a um programa especial para portadores de doenças físicas e mentais, etc. Este acesso à Justiça, no parecer de Veronese (1997, p. 17), “[...] consiste num caminho ou numa possibilidade de que os direitos existentes a nível formal, de fato, venham a ter eficácia plena nos mundos dos fatos”.

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