1. FUNÇÃO SOCIAL E ATIVIDADE EMPRESARIAL EM CRISE
2.4 Crise da ciência normal e mudança de paradigma
Regularmente, a ciência normal “não se propõe descobrir novidades no terreno dos fatos ou da teoria; quando é bem sucedida, não as encontra”173. Todavia, a identificação de alguns fenômenos acaba por explicitar, aos poucos, determinadas instabilidades ou inadequações na estrutura fechada do paradigma, a partir de um processo complexo, eis que toda descoberta envolve não apenas o reconhecimento da existência de algo, como também a identificação de sua natureza174.
É o que se teve, nas ciências duras, com a identificação do oxigênio.
Carl Wilhelm Scheele, cientista sueco, foi o primeiro a isolar amostra relativamente pura do gás, mas publicou seus trabalhos apenas depois de outros experimentos, não influenciando a mudança de modelo teórico. Joseph Priestley, em 1774 e 1775, lançou duas leituras alternativas sobre o gás, primeiramente identificando-o como óxido nitroso, depois como ar comum, mas com menor quantidade de flogisto175 do que o usual.
172No tocante à retirada, o Superior Tribunal de Justiça, por exemplo, ainda que não em recurso repetitivo, considerou que o “direito de retirada de sociedade constituída por tempo indeterminado, a partir do Código Civil de 2002, é direito potestativo que pode ser exercido mediante a simples notificação com antecedência mínima de sessenta dias” (BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial Cível nº 1602240. Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze.
Terceira Turma. Brasília, 06 de dezembro de 2016).
173 KUHN, Thomas. Op. cit., p. 77.
174 Idem, p. 81.
175 “É geralmente atribuída ao médico e químico alemão George Ernst Stahl (1660-1734) a criação da teoria do flogisto, um princípio material responsável pela combustibilidade das substâncias. Na realidade essa teoria foi proposta em 1669 pelo alquimista, também alemão, Johann Joachim Becher (1635-1682), num livro intitulado “Physica Subterranea”. Esse princípio seria talvez uma mistura dos conceitos de fogo aristotélico e de enxofre alquímico. [...] A combustão era então explicada como o resultado do facto do flogisto abandonar a matéria que estava a ser queimada, indo para o ar; quando um metal é queimado, o flogisto abandona-o deixando as cinzas, que já não possuindo essa substância, deixa de arder. [...] Efectivamente, Lavoisier ousou pôr em causa a teoria do flogisto, explicando os fenómenos da combustão e da calcinação sob um aspecto totalmente diferente do que até aí era considerado. Nos finais da
Somente com Antoine Laurent de Lavoisier, em 1777 e provavelmente por conta de interações significativas com Joseph Priestley é que se teve a percepção do que de fato era o novo gás, levando à construção de uma nova base teórica para a combustão, pedra angular de um movimento de reconstrução da Química da época que foi considerado revolucionário.176177
A identificação da novidade depende, portanto, de que o fenômeno consiga se arraigar no paradigma vigente ou, do contrário, a nova descoberta178 será percebida como um ruído, uma nota mal enquadrada na partitura paradigmática.
Embora os exemplos vinculados às ciências duras sejam de mais fácil percepção, as anomalias identificadas dentro de paradigmas vigentes podem perfeitamente ser apontadas na seara das ciências sociais ou, ainda mais especificamente, na análise dos fenômenos jurídicos.
No discurso jurídico, tudo o que nega algumas das assertivas fundantes do paradigma vigente acaba sendo visto como excrescência, como produção de conhecimento não reconhecido pela ciência jurídica dominante e, nalguma medida, visto com maus olhos nos espaços clássicos de produção de conhecimento.
Tome-se, e.g., parte da produção teórica de Richard Posner, egresso da Harvard Law School, que apresentou uma concepção pessoal acerca da relação
década de 1760 e inícios da seguinte, Lavoisier havia realizado uma série de experiências, baseadas em meticulosas medições, com uso sistemático da balança, nas quais se provava que quando um metal arde ganha peso em vez de o perder. Isso seria o primeiro passo em direcção à completa compreensão do fenómeno da combustão – processo que na realidade envolve a combinação do oxigénio do ar com a substância que está a sofrer a queima.” (BRITO, Armando A. de Sousa e. “FLOGISTO”, “CALÓRICO” & “ÉTER”, in Ciência & Tecnologia dos Materiais, Vol.
20, n.º 3/4, 2008, p. 52-54)
176 KUHN, Thomas. Op. cit., p. 80-82.
177Seguem a mesma lógica a identificação dos raios-X, por Wilhelm Conrad Röntgen, que problematizava a utilização dos aparelhos de raios catódicos, à época tomados instrumentos paradigmáticos, assim como a descoberta da garrafa de Leyden (por Pieter van Musschenbroek), cujo reconhecimento como capacitor apenas se deu quando foi substituído o paradigma do fluido elétrico (KUHN, Thomas. Op. cit., p. 83).
178 Vale ressaltar que a palavra descoberta assume conotação diferenciada e é criticada por Thomas Kuhn em sua acepção mais regular, por exemplo no excerto: “A proposição ‘o oxigênio foi descoberto’, embora indubitavelmente correta, é enganadora, pois sugere que descobrir alguma coisa e um ato simples e único, assimilável ao nosso conceito habitual (e igualmente questionável) de visão. Por isso supomos tão facilmente que descobrir, como ver ou tocar, deva ser inequivocamente atribuído a um individuo e a um momento determinado no tempo. Mas este ultimo dado nunca pode ser fixado e o primeiro frequentemente também não” (op. cit., p. 81).
entre Economia e Direito na obra The Economic Analysis of Law (1973)179. Richard Posner costuma ser identificado como o mais polêmico dos autores fundantes da Análise Econômica do Direito, por defender posições que as vezes conflitam com os paradigmas do conhecimento jurídico predominantes, como a defesa da criação de um sistema de livre mercado envolvendo a adoção de bebês180 ou a simpatia que demonstra para com a possibilidade de venda de órgãos181.
As posições de Richard Posner182 (e este locus não é adequado para juízos de valor quanto à própria construção teórica) ensejaram reações acaloradas e mesmo uma resistência para com a análise econômica dos fenômenos jurídicos que se amolda aos eventos descritos anteriormente no tocante à identificação de elementos que não se amoldam naturalmente ao paradigma vigente.
Todavia, o ferramental desenvolvido pelo autor, aliado a outros autores da escola da Análise Econômica (de que se tratará infra), permite justamente a identificação dos elementos de crise paradigmática e a modelagem de respostas potenciais no contexto de um paradigma distinto, que substituiria o anterior.
A percepção das limitações do paradigma vigente e a consequente necessidade de ruptura com a ciência normal brotam da percepção de fenômenos cujo explicação não se amolda à dogmática do paradigma183.
179 POSNER, Richard. The Economic Analysis of Law. Boston: Little, Brown and Company, 1973.
180 Como explícito no artigo The Economics of the Baby Shortage, escrito em parceria com Elisabeth M. Landes, onde apresenta textualmente que a adoção “poderia, em princípio, ser manuseada pelo mercado” (LANDES, Elisabeth M.; POSNER, Richard A. The Economics of the Baby Shortage. In: WITTMAN, Donald A (ed.). Economics and Law [s.l.] Blackwell Editions, p.
225), com ganho real em eficiência. trazido à comunidade científica da época). Planck fez a sugestão, extraordinária para a época, de que se os feixes de luz não fossem um contínuo, mas divididos em pequenas frações de energia, a anomalia deixaria de existir, proposição teórica vista com assombro porque contrária à percepção reinante à época e contrária ao dominante paradigma clássico da luz. Poucos anos depois da publicação, Einstein conectou a sugestão de Planck a uma outra anomalia envolvendo o modo como a luz ejeta elétrons de um metal. A interpretação deste efeito fotoelétrico em termos quânticos acabou por conduzir Einstein ao Nobel em 1921 e inaugurou uma batalha entre a ciência normal (paradigma vigente) e a mecânica quântica, paradigma que acabaria por
sucedê-Na seara jurídica empresarial, i.e., algumas manifestações judiciais envolvendo a função social da propriedade, sobremaneira pautadas numa visão solidarista do princípio, desconsideram variáveis econômicas e, sobretudo, deixam de aferir a projeção do problema no longo prazo. Com isso, as decisões acabam demonstrando a insuficiência do arcabouço disponibilizado pelo paradigma vigente.
Têm esse condão, sobretudo, as decisões que buscam fazer justiça distributiva no caso concreto e em face do direito privado, visando a neutralizar as desigualdades sociais, mas sem ter em vista seus impactos econômicos184.
Enquadram-se nessa crítica, na visão de Luciano Benetti Timm, algumas decisões do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul que enfraquecem a proteção da propriedade com vistas a promover uma suposta justiça social, mas que, se prosperarem, ampliarão os custos de monitoração e segurança a níveis impagáveis185.
Na mesma esteira, pode-se indicar julgados acerca da função social do contrato atinente ao mercado de soja no Estado de Goiás, chamado pelos analistas de caso soja verde186. A cultura de soja era comumente financiada por traders, que faziam a compra antecipada da produção, capitalizando os produtores, com entrega do produto no ano seguinte.
Em vista, contudo, de valorização significativa e não antevista do valor da soja, diversos produtores buscaram o judiciário, indicando a ocorrência, dentre outros argumentos, de enriquecimento sem causa dos traders, visando a exonerar-se da obrigação de entrega do produto do plantio.
À luz dos argumentos apontados, o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, invocando o princípio da função social do contrato e tendo em vista estado de hipossuficiência dos produtores, livrou-os do cumprimento das obrigações pactuadas187.
la (TURRO, Nicholas J. Paradigms Lost and Paradigms Found: Examples of Science Extraordinary and Science Pathological And How To Tell the Difference. Angew. Chem. Int., Ed.
2000, 39, No. 13, p. 2255).
184 TIMM, Luciano Benetti; CAOVILLA, Renato Vieira. Propriedade e Desenvolvimento: Análise Pragmática da Função Social. Revista de Direito Empresarial, p. 27.
185 Idem, p. 31.
186 TIMM, Luciano Benetti. Direito, Economia e a função social do contrato: em busca dos verdadeiros interesses coletivos protegíveis no mercado do crédito. Revista de Direito Bancário e do Mercado de Capitais, ano 9, nº 33, jul./set. 2006, p. 17.
187 Exemplificativamente: "APELACAO CIVEL. ACAO DE RESCISAO CONTRATUAL. COMPRA E VENDA DE SOJA. FUNCAO SOCIAL DO CONTRATO. LESAO ENORME. ONEROSIDADE
No entanto, foi possível verificar empiricamente que a revisão judicial dos contratos ensejou dificuldades na obtenção de financiamentos na safra subsequente, indicando que o benefício dos proponentes de ações judiciais foi contrabalanceado prejudicialmente, causando externalidades negativas à coletividade dos produtores atuantes naquele mercado e que não propuseram as demandas revisionais. Noutras palavras, o impacto social negativo se deu invocando a função social, neste caso do contrato, igualmente indicando limitações paradigmáticas.
Dada a pressão do mercado pela produção de resultados eficientes, com decisões relevantes sendo tomadas em prazos exíguos, é mister da engenharia jurídica a oferta de respostas em nome da otimização dos riscos e da promoção de soluções econômicas equitativas entre os agentes envolvidos188. E o paradigma vigente, alicerçado em categorias como a constitucionalização das normas de direito privado e invocação reiterada de conceitos jurídicos indeterminados, com cunho de princípios, para reinterpretar regras explícitas, ao não incorporar elementos econômicos na tomada de decisão (vide capítulo próprio, infra), demonstra a insuficiência da ciência normal.
A reiteração da insuficiência e o aumento do número de situações-problema que não encontram resposta satisfatória dentro do paradigma acaba por conduzir às revoluções científicas, substituindo o paradigma vigente por um paradigma alternativo.
Nesta esteira, Thomas Kuhn considera revoluções científicas (mudança de paradigma) “aqueles episódios de desenvolvimento não-cumulativo, nos quais um paradigma mais antigo é total ou parcialmente substituído por um novo, incompatível com o anterior”189.
EXCESSIVA. OFENSA AO PRINCIPIO DA BOA-FE OBJETIVA E DA EQUIVALENCIA CONTRATUAL. RESCISAO. POSSIBILIDADE. NOS CONTRATOS DE EXECUCAO CONTINUADA OU DIFERIDA, O DESATENDIMENTO DA FUNCAO SOCIAL DO CONTRATO E A OFENSA AOS PRINCIPIOS DA BOA-FE OBJETIVA E DA EQUIVALENCIA CONTRATUAL FAZ EXSURGIR PARA A PARTE LESIONADA O DIREITO DE RESCINDIR O CONTRATO, MORMENTE SE OCORREREM ACONTECIMENTOS EXTRAORDINARIOS E IMPREVISIVEIS QUE TORNEM EXCESSIVAMENTE ONEROSO O CUMPRIMENTO DA PRESTACAO A QUE SE OBRIGARA. EXEGESE DOS ARTS. 421, 422 E 478, TODOS DA LEI 10.406/02, NOVO CODIGO CIVIL BRASILEIRO. APELACAO CONHECIDA E IMPROVIDA" (GOIÁS. Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. Apelação Cível nº 79859-2/188, Rel. Jeova Sardinha de Moraes, 1ª Câmara Cível. Goiânia, 24 de setembro de 2004).
188 OTTO, Samara. Responsabilidade social do empresário: a co-gestão dos riscos, Revista de Direito Bancário e do Mercado de Capitais, Ano XI, n. 42, out.-dez./2008, p. 148.
189 KUHN, Thomas. Op. cit., p. 125
A transição não é tênue. É virada qualitativa, não mera variante quantitativa. A própria alcunha revolução foi adrede escolhida com vistas à construção de paralelo entre os processos de mudança de paradigma científico e as revoluções sociopolíticas. Nas palavras do autor190:
As revoluções políticas iniciam-se com um sentimento crescente, com frequência restrito a um segmento da comunidade política, de que as instituições existentes deixaram de responder adequadamente aos problemas postos por um meio que ajudaram em parte a criar. De forma muito semelhante, as revoluções científicas iniciam-se com um sentimento crescente, também seguidamente restrito a uma pequena subdivisão da comunidade cientifica, de que o paradigma existente deixou de funcionar adequadamente na exploração de um aspecto da natureza, cuja exploração fora anteriormente dirigida pelo paradigma.
Tanto no desenvolvimento político como no cientifico, o sentimento de funcionamento defeituoso, que pode levar a crise, e um pré-requisito para a revolução.
A identificação dos paralelos é ainda mais marcante na esfera das ciências sociais, nas quais o elemento humano (o cientista) é ainda mais preponderante.
O lançamento de proposições novas, como as citadas atribuídas a Albert Einstein e Antoine Laurent de Lavoisier, na esfera das ciências duras, quase que inelutavelmente proporcionará um paradigm shift nos moldes de Thomas Kuhn, por conta da verificabilidade peculiar àquelas ramos de conhecimento (submete-se à experimentação os novos elementos com potencial de validação ou falseamento das assertivas, com pouca margem de sustentação para teorias que enfrentarem veemente negativa empírica).
Nas ciências sociais e ainda mais especialmente no Direito, mostra-se necessário um esforço de convencimento de cunho antes político que científico, em caminho que em muito lembra o das revoluções. Não basta demonstrar, é preciso convencer. E convencer implica desconstruir dogmas que alicerçam cátedras, que fundam escolas de pensamento.
A mudança de paradigma, nesta acepção, representa uma troca de lentes na percepção dos fenômenos (verdadeira mudança na visão de mundo, para Thomas Kuhn). E.g., Joseph Priestley, observando exatamente o mesmo
190 KUHN, Thomas. Op. cit., p. 126.
que Antoine Laurent de Lavoisier, viu ar desflogistizado. Outros nada viram.
Antoine Laurent de Lavoisier viu oxigênio191,192.
A transição não muda o objeto. Não exclui totalmente todo o conhecimento previamente produzido. Não é questão do que o cientista possa ver: mesmo após a revolução, vê o mesmo mundo. Preserva, igualmente, grande parte de sua linguagem e mesmo a maior parte de seu instrumental (equipamento de laboratório, por exemplo), ainda que varie a forma de utilização.
Não é que se apague todo o conhecimento prévio e se faça da ciência anterior tabula rasa. Mas todo o conhecimento outrora produzido passa a ser reinterpretado a partir da nova coloração193.
Nesta esteira, a partir da elevação à condição de paradigma da eficácia normativa imediata dos princípios (o paradigma dos princípios de que se tratará infra, no item 4), enunciados normativos como o do caput do artigo 1.790194 do Código Civil não permitem interpretação literal, eis que atentatórios a princípios
191 Merece registro a reflexão de Jesus de Paula Assis quanto aos óbices à racionalização da sucessão paradigmática: “Não há como pesar racionalmente todos os fatores a serem levados em conta na decisão de se abandonar ou não um paradigma, via regras explicitáveis e que devam ser aceitas por todos, sob pena de acusação de inconsistência ou irracionalidade para quem não as admita. Os ligados a prestígio dispensam comentário. Mas também não é possível decidir quanto é muito tempo para que um problema resista à solução, ou o quanto um problema é central dentro de uma teoria. Do ponto exclusivamente lógico, não há como definir univocamente tais questões” (ASSIS, Jesus de Paula. Op. cit., p. 139).
192 Na mesma esteira, desde os dias mais remotos, observadores visualizaram um objeto pesado pendurado numa corda oscilando de um lado a outro até atingir um estado de repouso. Para quem vê o mundo a partir das balizas do paradigma aristotélico, a situação representava apenas uma queda resistida, dado o pressuposto de que é da própria natureza do corpo pesado mover-se de uma posição mais alta para uma posição mais baixa até alcançar um estágio de repouso natural. Galileu viu um pêndulo e, a partir desta observação, construiu “muitas das partes mais significativas e originais de sua nova dinâmica”, além de derivar a partir das propriedades do pêndulo “seus únicos argumentos sólidos e completos a favor da independência do peso com relação à velocidade da queda, bem como a favor da relação entre o peso vertical e a velocidade final dos movimentos descendentes nos planos inclinados”. Cada uma das interpretações pressupõe um paradigma (KUHN, Thomas. Op. cit., p. 154-157).
193 Idem, p. 165-166.
194Art. 1.790. A companheira ou o companheiro participará da sucessão do outro, quanto aos bens adquiridos onerosamente na vigência da união estável, nas condições seguintes:
I - se concorrer com filhos comuns, terá direito a uma quota equivalente à que por lei for atribuída ao filho;
II - se concorrer com descendentes só do autor da herança, tocar-lhe-á a metade do que couber a cada um daqueles;
III - se concorrer com outros parentes sucessíveis, terá direito a um terço da herança;
IV - não havendo parentes sucessíveis, terá direito à totalidade da herança.
de hierarquia constitucional (que, em paradigma anterior, eram tidos como meramente programáticos, indicativos ao legislador)195,196.
Na esfera do Direito Empresarial, a aplicabilidade imediata dos princípios na condição de paradigma também promove alteração na percepção de conceitos a ponto de contrariar sua literalidade.
Tome-se o artigo 6º da Lei nº 11.101/2005 que, em seu caput, dita que o deferimento do processamento da recuperação judicial suspende o curso da prescrição e de todas as ações e execuções em face do devedor. Traz, contudo, complementação em seu §4º, que aduz que a suspensão “em hipótese nenhuma excederá o prazo improrrogável de 180 (cento e oitenta) dias”, cuja contagem se dá desde a decisão de deferimento do processamento da recuperação.
Decorrido o prazo e sem necessidade de pronunciamento judicial, o direito dos credores de iniciar ou continuar suas ações e execuções ressurgiria.
195 A argumentação do relator do Recurso Extraordinário 878.694/MG, Ministro Luis Roberto Barroso, dá conta do impacto da variação paradigmática na interpretação da norma:Se o Estado tem como principal meta a promoção de uma vida digna a todos os indivíduos, e se, para isso, depende da participação da família na formação de seus membros, é lógico concluir que existe um dever estatal de proteger não apenas as famílias constituídas pelo casamento, mas qualquer entidade familiar que seja apta a contribuir para o desenvolvimento de seus integrantes, pelo amor, pelo afeto e pela vontade de viver junto. (...)Assim sendo o artigo 1790 do Código Civil ao revogar as leis 8.971/94 e 9.278/96 e discriminar a companheira, ou companheiro, dando-lhe direitos sucessórios bem inferiores aos conferidos a esposa, ou ao marido, entra em contraste com os princípios da igualdade, da dignidade humana, da proporcionalidade, como vedação à proteção deficiente, e da vedação do retrocesso.
196Outro exemplo pode ser extraído da reversão, recente, da literalidade do dispositivo do artigo 226 da Constituição de 1988, mais especificamente o conteúdo do enunciado normativo do §3º, que dita que “[p]ara efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento”, mas que deve ser lido sem a distinção de gênero:O caput do art. 226 confere à família, base da sociedade, especial proteção do Estado. Ênfase constitucional à instituição da família. Família em seu coloquial ou proverbial significado de núcleo doméstico, pouco importando se formal ou informalmente constituída, ou se integrada por casais heteroafetivos ou por pares homoafetivos.
A Constituição de 1988, ao utilizar-se da expressão "família", não limita sua formação a casais heteroafetivos nem a formalidade cartorária, celebração civil ou liturgia religiosa. Família como instituição privada que, voluntariamente constituída entre pessoas adultas, mantém com o Estado e a sociedade civil uma necessária relação tricotômica. Núcleo familiar que é o principal lócus institucional de concreção dos direitos fundamentais que a própria Constituição designa por "intimidade e vida privada" (inciso X do art. 5º). Isonomia entre casais heteroafetivos e pares homoafetivos que somente ganha plenitude de sentido se desembocar no igual direito subjetivo
A Constituição de 1988, ao utilizar-se da expressão "família", não limita sua formação a casais heteroafetivos nem a formalidade cartorária, celebração civil ou liturgia religiosa. Família como instituição privada que, voluntariamente constituída entre pessoas adultas, mantém com o Estado e a sociedade civil uma necessária relação tricotômica. Núcleo familiar que é o principal lócus institucional de concreção dos direitos fundamentais que a própria Constituição designa por "intimidade e vida privada" (inciso X do art. 5º). Isonomia entre casais heteroafetivos e pares homoafetivos que somente ganha plenitude de sentido se desembocar no igual direito subjetivo