Pode-se dizer que é um conjunto de cuidados complexos, baseado em literatura sobre cuidados de enfermagem a pacientes críticos,
adaptados às repercussões fisiopatológicas da morte encefálica no potencial doador, onde o objetivo não é mais salvar a vida e sim promover a preservação dos órgãos para que seja realizado um enxerto de boa qualidade. A família deve ser compreendida como parte destes cuidados.
Cabe ao enfermeiro compreender todo o processo de doação e transplante, identificar o potencial doador de órgãos mediante o diagnóstico de morte encefálica e promover a manutenção clínica, visando à qualidade de vida dos transplantados (SILVA; MARCELINO, 2011). Ressalta-se a importância do conhecimento e envolvimento contínuo do pessoal de UTI para o sucesso dos transplantes em seus receptores (ARAÚJO; CINTRA; BACHEGA, 2005).
O cuidado ao potencial doador de órgãos exige prioridade e mudança do foco de ação, pois na morte encefálica ocorrem mudanças drásticas. A preocupação em manter perfusão cerebral é substituída pela preocupação em manter a perfusão de outros órgãos, garantindo o melhor suporte fisiológico e melhores chances ao transplante (ARAÚJO; CINTRA; BACHEGA, 2005; RECH, RODRIGUES FILHO, 2007).
Neste processo tão complexo, faz-se necessário que o enfermeiro assistencial da UTI, presente no dia a dia, possua conhecimento técnico para coordenar sua equipe, priorizando os cuidados gerais do potencial doador de órgãos, comuns a todos os pacientes críticos, como também os cuidados mais relevantes. Marcon et al.,(2012) apresentam procedimentos necessários para a manutenção do potencial doador de órgãos, explorados em cuidados de enfermagem gerais e específicos, guiados pelas alterações fisiopatológicas da morte encefálica.
A manutenção do potencial doador inclui o reconhecimento e confirmação do potencial doador, conhecimento das formalidades legais, prevenção e manuseio precoce das complicações advindas da fisiopatologia da morte encefálica para que os órgãos possam ser retirados e transplantados nas melhores condições funcionais possíveis (GUETTI; MARQUES 2008). Conforme afirmam Silva e Marcelino (2011), é responsabilidade do enfermeiro de UTI prestar cuidados intensivos ao potencial doador de órgãos, bem como possuir conhecimento ético e legal do processo. O enfermeiro da UTI deve estar ciente e capacitado para, junto com sua equipe, tomar as medidas mais adequadas para contribuir com o cenário de doação no Brasil, havendo um melhor aproveitamento de todos os órgãos possíveis de serem transplantados.
Marcon et al., (2012) e Martini et al., (2008) ressaltam que o enfermeiro, além de ser responsável pelos cuidados técnicos, é responsável pelas relações estabelecidas com os familiares do potencial doador de órgãos, devendo compreender que a falta de orientação específica sobre o paciente crítico (aparelhos, sondas, edemas e outros) faz com que a família se sinta insegura e despreparada para compreender o processo.
O enfermeiro deve ter conhecimento e sensibilidade para apreender o significado do processo de morrer e, assim, fornecer subsídios para o acolhimento desses familiares e aproximá-los de seu parente em morte encefálica (MARTINI et al., 2008). O conhecimento e preparo da enfermagem em relação à comunicação de más notícias e toda a atenção que a família necessita neste momento são extremamente importantes e muitas vezes serão decisivos no momento da família fazer a escolha entre aceitar ou não a doação.
Ao mesmo tempo em que se cuida de um paciente crítico em uma unidade de terapia intensiva, se cuida da sua família, uma vez que esta deverá ser incluída em tudo o que acontece com seu familiar. Além do sofrimento pela causa que os inseriu ali de maneira súbita (geralmente um TCE ou AVC), eles têm que enfrentar e absorver informações relacionadas a todos os cuidados invasivos ao paciente, à gravidade e à finitude do diagnóstico de morte encefálica e serem solidários para a causa de doação de órgãos (KOIZUMI; DICCINI, 2006).
Para os profissionais de saúde não são incomuns a resistência para falar sobre a morte e a frustração de ter que dizer para a família que não há tratamento. Nesse momento os profissionais de saúde devem estar preparados para acolher a família. Em geral, estabelecer as intervenções de enfermagem e iniciar um relacionamento significativo com a família são ações facilitadas durante os momentos de crise. As pessoas em crise tendem a estar mais receptivas às pessoas que demonstram interesse, são atenciosas e empáticas e por isso, já na primeira vez que se encontrar com a família do paciente, o enfermeiro deve demonstrar desejo e capacidade de ajudar (KOIZUMI; DICCINI, 2006). O bom relacionamento entre profissionais da saúde e familiares é fundamental no processo de doação de órgãos.
Considerando que a enfermagem cuida dos pacientes em morte encefálica, há uma tendência de menor investimento cuidativo por parte da equipe de enfermagem, principalmente quando não há definição sobre doação, conforme apresentado por Guetti e Marques (2008). Essa realidade reforça a necessidade de melhor preparo de toda a equipe nas
condições de cuidar de um paciente em morte encefálica e sua família, considerando que o foco principal, além de acolher esta família, é a de manter a melhor condição fisiológica do doador para melhorar a qualidade de vida do receptor. No estudo realizado por Batista e Pires (2010), os profissionais de enfermagem de uma instituição relataram como dificuldades no cuidado ao paciente com morte encefálica a relação com a família, estrutura logístico-administrativa, aceitação do processo de morte encefálica e falta de conhecimento nos cuidados prestados ao potencial doador. Esta pesquisa reforça a necessidade de preparo de toda a equipe de UTI, pois a compreensão de todo o contexto torna-se complexa.
Sobre a produção científica de enfermagem na área de transplante, há poucos artigos científicos publicados relacionados ao tema identificação, validação e manutenção do potencial doador de órgãos. Cicolo, Roza e Schirmer (2010) afirmam em uma revisão de bibliografia que a maioria dos artigos publicados o Brasil são sobre transplantes, principalmente renal e hepático, qualitativos e desenvolvido por enfermeiros assistenciais. Em uma revisão integrativa realizada por Santana, Clênica e Espíndula (2010), foi relatado que somente cinco dos 16 artigos sobre assistência de enfermagem ao potencial doador de órgãos abordaram o cuidado ao potencial doador de órgãos.
Encontramos na literatura os cuidados de enfermagem ao potencial doador de órgãos, relacionando cuidados de pacientes críticos com cuidados específicos para preservação dos órgãos e o acolhimento à família (MARTINI et al., 2008; MARCON et al., 2012; KOIZUMI, DICCINI, 2006; MORTON, FONTAINE, GALLO, 2007; RECH, RODRIGUES FILHO, 2007; SANTOS, MORAES, MASSAROLO, 2010).
Alguns diagnósticos e intervenções de enfermagem são apresentados de forma sistematizada pelos autores D´Imperio (2007), Knobel (2006) e Ueno, Zhi-Li e Itoh (2000). Esses autores apresentam 10 diagnósticos e 26 intervenções de enfermagem relacionadas a esses diagnósticos.
Dessa forma, há que se investir no desenvolvimento de estudos voltados para a sistematização da assistência de enfermagem ao potencial doador de órgãos, a fim de promover um cuidado de enfermagem mais elaborado, com objetivo de acolher a família e oferecer órgãos com a melhor condição possível.