Os transplantes de órgãos e tecidos no Brasil se iniciaram nos anos de 1960, mas de forma menos difundida que atualmente, devido à baixa sobrevida dos transplantados. Com a evolução das técnicas e com o crescimento das atividades de transplantes no Brasil, fez-se necessário regulamentar esta atividade, que se inicia com o diagnóstico da morte encefálica, chegando até os critérios de distribuição (GARCIA, 2011).
De 1968 a 1997 a atividade de transplantes era desenvolvida informalmente, geralmente dentro de serviços que já realizavam transplante, e os critérios definidos para inscrição de receptores e distribuição de órgãos captados eram realizados informalmente e regionalizada (SISTEMA NACIONAL DE TRANSPLANTES, 2012). Atualmente dispomos de mecanismos legais que foram criados com a
finalidade de normatizar e controlar o processo de doação de órgãos, os quais vêm se atualizando e complementando com Leis, Decretos, Resoluções e Portarias de forma a tornar esta atividade cada vez mais transparente.
A seguir são apresentadas as principais leis que regem as atividades de transplantes no Brasil, suas disposições atuais e em vigor, com o intuito de normatizar, centralizar, registrar todo o processo e atividades de transplantes no Brasil.
A Resolução 1346 de 1991 do Conselho Federal de Medicina (CFM), revogada pela Resolução CFM nº 1.480 de 8 de agosto de 1997 –, define Critérios para Diagnóstico de Morte Encefálica, definindo-a como um processo irreversível e de causa conhecida, e determina parâmetros, critérios clínicos e exames complementares (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 1997).
Em 1997 foram criados o Sistema Nacional de Transplante (SNT) e CNCDO, sob o Decreto 2268/1997 (BRASIL, 1997). A Lei 9434/1997, alterada pela Lei 10211/2001 (revogando, entre outras, a doação presumida), é a lei que dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento e dá outras providências (BRASIL, 2001b).
Conforme o Decreto 2268/1997, cabe ao SNT, entre outras atividades, gerenciar a lista única nacional de receptores, com todas as indicações necessárias à busca, em todo o território nacional, de tecidos, órgãos e partes compatíveis com as suas condições orgânicas; autorizar estabelecimentos de saúde e equipes especializadas a promover retiradas, transplantes ou enxertos de tecidos, órgãos e partes; credenciar centrais de notificação, captação e distribuição de órgãos. Este mesmo decreto também apresenta as funções das CNCDOs, tais como: coordenar as atividades de transplantes no âmbito estadual; promover a inscrição de potenciais receptores; classificar os receptores e agrupá-los segundo as indicações pré-estabelecidas, na ordem de inscrição; comunicar ao órgão central do SNT as inscrições para efetuar a organização da lista nacional de receptores; receber notificações de morte encefálica; notificar o órgão central do SNT de tecidos, órgãos e partes não aproveitáveis entre os receptores inscritos em seus registros, para utilização dentre os relacionados na lista nacional.
As CIHDOTTs são comissões intra-hospitalares para doação de órgãos e tecidos para transplantes, que são acionadas a partir do momento em que há um diagnóstico de morte encefálica com a realização do primeiro teste de apneia. A partir desse momento, a
CIHDOTT acompanha e orienta todo o processo, bem como fornece todas as informações pertinentes à CNCDO. Após confirmação do diagnóstico de morte encefálica, a família é abordada por essa comissão para possível doação. Se afirmativo, a CIHDOTT continua acompanhando o processo e os pacientes da lista de espera são contactados, bem como as equipes de captação e transplantes, que entram no Centro Cirúrgico para a captação dos órgãos, informam a família sobre os detalhes importantes do processo e dúvidas, e seu trabalho encerra com a entrega do corpo à família e relatórios (CENTRAL DE NOTIFICAÇÃO, CAPTAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DE ÓRGÃOS DE SANTA CATARINA, 2012b).
Antes da criação das CIHDOTTs, existiam as Comissões Intra- Hospitalares de Transplantes, criadas em 1997, mas que não tinham um papel tão bem definido em lei e institucionalmente. As CIHDOTTs foram criadas pela Portaria nº 1752/GM, de 23 de setembro de 2005, determinando que todos os hospitais públicos, privados e filantrópicos com mais de 80 leitos devem constituir esta comissão, instituída por ato formal da direção de cada hospital, estando vinculada diretamente à diretoria médica da instituição e ser composta por, no mínimo, três membros integrantes de seu corpo funcional, dentre os quais um deles é designado como Coordenador Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (BRASIL, 2005b).
Em 2009 é aprovada a Portaria 2.600, de 21 de outubro de 2009, que apresenta o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. Foi aprovada após consulta pública e ampla discussão com participação efetiva da comunidade transplantadora, da comunidade técnico-científica, das sociedades médicas, dos profissionais de saúde, dos gestores do Sistema Único de Saúde – SUS, dos transplantados, dos candidatos a transplante e da sociedade em geral (BRASIL, 2009a).
Essa Portaria apresenta, em seus 172 artigos e sete capítulos, regulamentos que devem ser observados para o desenvolvimento de toda e qualquer atividade relacionada à utilização de células, tecidos, órgãos ou partes do corpo para fins de transplante em todo o território nacional. Apresenta também em seus capítulos regulamentos sobre: estrutura de funcionamento, credenciamento das CNCDOs, organização das OPOs (Organizações de Procura de Órgãos e Tecidos) e CIHDOTTs, autorização de equipes especializadas e estabelecimentos de saúde; sistema de Lista Única; seleção de doadores falecidos e potenciais
receptores; e a distribuição de órgãos, tecidos ou partes do corpo humano e banco de tecidos (BRASIL, 2009a).
A Portaria n° 2.601 de 21 de outubro de 2009 (BRASIL, 2009b) institui, no âmbito do SNT, o Plano Nacional de Implantação de Organizações de Procura de Órgãos e Tecidos – OPO, que, em seu parágrafo 2º, especifica:
A OPO é o organismo com papel de coordenação supra-hospitalar responsável por organizar e apoiar, no âmbito de sua atuação e em conformidade com o estabelecido no Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes, as atividades relacionadas ao processo de doação de órgãos e tecidos, a manutenção de possível doador, a identificação e a busca de soluções para as fragilidades do processo, a construção de parcerias, o desenvolvimento de atividades de trabalho e a capacitação para identificar e efetivar a doação de órgãos ou tecidos.
Entretanto, cabe ressaltar que as OPOs não estão presentes em todos os estados brasileiros, sendo mais estruturadas no Estado de São Paulo. O Estado de Santa Catarina desempenha o trabalho de captação de órgãos através das CIHDOTTs.
A notificação de morte encefálica à CNCDO é compulsória, determinada pela Resolução 1480/97 do CFM, que apresenta critérios para determinar e documentar a morte encefálica. Essa Resolução ainda determina que, se constatada e documentada a morte encefálica, esta deverá ser comunicada aos responsáveis legais do paciente e à CNCDO vinculada à unidade hospitalar onde o mesmo se encontra internado (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 1997). Nos últimos anos percebe-se um aumento do número de notificações de morte encefálica, associada à realização de treinamentos das equipes pelas CNCDOs e criação das CIHDOTTs (SCHELLEMBERG; ANDRADE; BOING, 2007).
Com a finalidade de tentar organizar um sistema mais integrado na capital do estado, em 1997 foi criada uma central regional em Florianópolis e, em 1999, foi então criada a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos de Santa Catarina – CNCDO/SC.
A CNCDO de SC iniciou suas atividades em maio do mesmo ano em que foi criada, com os objetivos de receber todas as notificações de Possíveis Doadores do estado; responsabilizar-se pelas captações
organizando equipes; incentivar e participar de campanhas de doação de órgãos; distribuição dos órgãos doados baseada na compatibilidade HLA (antígenos leucocitários humanos); e, finalmente, fiscalizar todo o processo de captação e transplante com apoio e regulamentação da Secretaria Estadual da Saúde, no sentido de aumentar o número de transplantes no estado (SCHELLEMBEERG; ANDRADE; BOING, 2007).
Especificamente na enfermagem, a Resolução 296/2004 do COFEN normatiza a atuação do enfermeiro na captação e transplante de órgãos e tecidos, atribuindo-lhe, em relação ao doador cadáver, dentre várias outras funções, as de planejar, executar, coordenar, supervisionar e avaliar os procedimentos de enfermagem prestados ao doador de órgãos e tecidos, realizando notificações de potenciais doadores, entrevistando os familiares dos potenciais doadores, prestando informações e esclarecimentos sobre todo o processo (CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM, 2004).
Tal Resolução reforça ainda mais a necessidade do preparo dos enfermeiros para atuarem de forma efetiva em todo o processo de transplante de órgãos.
3.2 CONCEITOS, DEFINIÇÕES E ESTRUTURAÇÃO DO