3 EDUCAÇÃO E CULTURA 25
3.6 Cultura 55
3.6.2 Cultura, esfera pública e bibliotecas 57
Desta lógica de participação ativa na sociedade, urge definir em que plano ela se coloca. Nesta medida, surge a questão da esfera pública sua conceptualização e respetivos limites. Segundo Arendt (2001), tudo o que vem a público pode ser do conhecimento de todos e é divulgado a todos. Essa percepção torna-se a própria realidade, de todos e de cada um, mediante a desindividualização do acontecimento. Disto são exemplo a narração de histórias e as manifestações artísticas. Porém, a esfera pública só tolera a existência de algo que é tido como relevante, digno de ser visto ou ouvido, remetendo o que é tido como irrelevante para a esfera privada. Esta noção de esfera pública, avança Arendt (2001), prende-se inicialmente ao conceito de público e que significa o próprio mundo, comum a todos e diferente do papel que cada indivíduo assume neste. Trata-se de um produto das mãos humanas e dos negócios realizados, que o conjunto de indivíduos estabeleceu como mundo do homem. A esfera pública é, assim, um espaço de reunião de todos, que impede que colidamos uns com os outros. Contrariamente, afirma, que a sociedade de massas -
em que a sociedade contemporânea está inserida - perdeu a força para manter os indivíduos juntos, para que estes se relacionem uns com os outros e para separá-los:
"Nas condições de um mundo comum, a realidade não é garantida pela "natureza comum" de todos os homens que o constituem mas sobretudo pelo facto de que, a despeito de diferenças de posição e da resultante variedade de perspectivas, todos estão sempre interessados no mesmo objecto. Quando já não se pode discernir a mesmidade do objecto, nenhuma natureza humana comum, e mesmo o conformismo artificial de uma sociedade de massas, pode evitar a destruição do mundo comum, que é geralmente precedida pela destruição dos muitos aspectos nos quais ele se apresenta à pluralidade humana. Isto pode ocorrer [...] nas condições da sociedade de massas ou de histeria em massa, onde todas as pessoas subitamente se comportam como se fossem membros de uma única família, cada um manipulando e prolongando a perspectiva do vizinho. [...] os homens tornam-se seres inteiramente privados, isto é, privados de ver e ouvir os outros e privados de ser vistos e ouvidos por eles. [...] O mundo comum acaba quando é visto apenas sob um aspecto e só lhe é permitida uma perspectiva" (ARENDT, 2001, p. 64-67, 72-73).
Por seu lado, Silva (1997) afirma que nas cidades se verifica uma vasta oferta cultural nada desinteressada, ou supérflua, nem na qual os dividendos económicos são apenas indiretos. Ela encerra em si tanto uma rede de atividades económicas, como um meio de atração de pessoas e recursos que não podem, nem devem, ser ignorados pela autoridade (política), sob pena desta autoridade abandonar a sua antiga funcionalidade de representação ostentatória dos poderes, da celebração cerimonial e festiva de comunidades, e da integração simbólica e lúdica das massas. Na prossecução deste interesse, diz Silva (1997) que as políticas que possam ser adotadas na procura de aumentar o consumo de bens culturais não se podem basear apenas no binómio produção/consumo, ou em políticas que estejam: “centradas sobre o fomento da formação artística […] concebidas à maneira de transmissão vertical, em regime mais ou menos acelerado, de valores tidos por indiscutivelmente superiores a massas tidas por incultas, ou cujos modelos e valores culturais são, ao mesmo tempo, deslegitimados”; mas, antes, requerem: “intervenções deliberadamente concebidas como formação de públicos, assumindo portanto uma forte componente educativa, que não quer dizer necessariamente escolar, mas não dispensa a escola: fileira de artes e manualidades do ensino básico, ensino artístico especializado, dispositivos de educação recorrente e de educação permanente, serviço público nos media, serviços educativos de instituições estruturantes, como museus, bibliotecas, mediatecas,
centros culturais, etc.”. Por fim, Silva (1997) conclui que é necessário enriquecer as parcerias de modo a “incorporar a pluralidade e a heterogeneidade dos protagonistas dos campos culturais” (SILVA, 1997, p. 38, 41, 48).
Complementando a visão anterior de Silva (1997), foi aprovada, em 1988 pelo PCP, a resolução “Uma escola para todos” que avança que a autonomia patrimonial e financeira de uma instituição assenta na sua capacidade de obter receitas próprias através de parcerias com entidades públicas ou privadas na prossecução do desenvolvimento de trabalhos científicos, técnicos e artísticos, bem como no desenvolvimento de cursos de investigação (PCP, 1988, p. 140).
Posto isto, é forçoso que se coloque a responsabilidade da prossecução da manutenção de um saudável "mundo comum" no papel desempenhado pelas bibliotecas públicas - em que se inclui a biblioteca nacional - no seio da sociedade. Assim, e segundo Ventura (2002), a influência das bibliotecas públicas na sociedade deve extravasar as problemáticas técnicas e administrativas comuns destas instituições e adotar abordagens que assentem na sua construção social e nos valores de uma herança conceptual que advém da modernidade. Deste modo, as bibliotecas públicas devem promover a participação ativa dos cidadãos: "assumindo, em coerência com as suas missões de sempre, a dimensão de uma 'esfera pública' contemporânea, isto é, um lugar de democratização do acesso à informação e à cultura, contribuindo, assim, para o debate cívico e promoção da cidadania" (VENTURA, 2002, p. 2-3). Socorrendo-se da definição de Habermas (1991 [1962]), Ventura avança que a esfera pública traduz a ideia de criação de um fórum de discussão independente dos poderes legislativos e económicos existentes, ou seja, a procura da promoção de um debate racional generalizado e livre - que se coloque fora das contrariedades políticas do Estado e de interesses meramente económicos - entre cidadãos em torno de ideias e de interesses comuns. Pode-se concluir, assim, tal como Ventura, que: "as bibliotecas públicas [e nacionais], enquanto lugares de comunicação e discursividade dialógica, não sujeitas a manipulações quer do Estado quer da economia e, ainda, graças às suas características de acessibilidade, inclusividade, pluralismo, e diversidade, constituem palcos de enorme influência pública contemporânea geradora de formação de opiniões e, por isso, capaz de influenciar indiretamente o sistema" (VENTURA, 2002, p. 12, 21).
Atentando à visão de Sá (1983) sobre o Manifesto da IFLA/UNESCO15 (1974)
sobre as bibliotecas públicas, o autor traça uma visão interpretativa sobre o mesmo. Assim, relativamente à biblioteca pública ser uma instituição democrática de ensino, o autor afirma que esta deve completar a obra da escola promovendo o gosto pelo livro e a leitura e assegurar a educação dos adultos. Quanto às funções que uma biblioteca pública deve ter, Sá (1983) avança que a biblioteca deve dar a todos o desejo e a possibilidade:
1. de nunca deixarem de se instruir;
2. de se manterem ao corrente dos progressos realizados em todos os ramos do saber;
3. de salvaguardarem a liberdade de expressão e de permanecerem animados de espírito crítico e construtivo, perante os assuntos públicos;
4. de cumprirem melhor os seus deveres sociais e políticos para com o seu país e para com o Mundo;
5. de realizarem melhor as suas tarefas quotidianas;
6. de desenvolverem as suas faculdades críticas e criadoras no domínio das letras e das artes;
7. de contribuírem de um modo geral para o progresso do saber;
8. de utilizarem o seu tempo disponível de modo aproveitável para si e para a sociedade (SÁ, 1983, p. 191).
Relativamente à biblioteca pública estar ao serviço da comunidade, o autor avança:
"Não lhe compete indicar aos leitores o que devem pensar, mas sim ajudá-los a escolher um tema para as suas reflexões, chamando a sua atenção para os problemas importantes, pondo à sua disposição bibliografias e organizando exposições, discussões, conferências, cursos e projeções de filmes, assim como facilitando a cada um a escolha das suas leituras […] A biblioteca pública deve coordenar os seus esforços com os de outros organismos de educação, de cultura e de ação social; escolas, universidades, museus, sindicatos operários, associações culturais, grupos de educação de adultos, etc." (SÁ, 1983, p.192).
Por fim, no que toca à biblioteca dever ser um centro de educação popular, Sá avança que a biblioteca pública deve oferecer aos seus utilizadores uma educação
15A partir da referência: IFLA - Normas para bibliotecas públicas. Madrid : Asociación Nacional de Bibliotecários, Archiveros
liberal e permanente que garanta que os cidadãos possam usufruir da plena democracia (SÁ, 1983, p. 192).