Autores: Cesar Luiz Silva Junior, Cristina Tavares dos San-tos, Héliton Spindola Antunes, Mara Cristina Demier Freire Ribeiro, Regina Aparecida Varoto, Renata Costa Jorge
Introdução
O câncer é uma doença tempo-dependente e a organização da rede de atenção à saúde deve garantir a maior celeridade possível no fluxo do paciente, pelos diversos níveis de aten-ção. Sabe-se que a maioria dos casos de câncer de boca diagnosticados e encaminhados para tratamento já se encontram em estadiamento avançado, o que compromete o diagnós-tico, bem como, afeta a qualidade de vida do paciente e aumenta os custos para o sistema de saúde.
Conforme diretrizes das políticas de saúde, as equipes de Atenção Primária à Saúde (APS) são estrategicamente importantes para o diagnóstico precoce de vários tipos de câncer, den-tre eles o câncer de boca (BRASIL, 2018). Porém, é consenso que muitos desses profissionais precisam de qualificação para suspeição de alterações nos tecidos e/ou demais estruturas da cavidade oral, oportunizando o diagnóstico precoce, assim como para o acompanhamen-to odonacompanhamen-tológico de pacientes com câncer.
Nesta perspectiva, a Educação Permanente em Saúde possibilita construir espaços coletivos para a reflexão e avaliação de sentido dos atos produzidos no cotidiano, desde a atualização das práticas segundo os mais recentes aportes disponíveis, até a construção de relações e processos que vão do interior das equipes às práticas interinstitucionias e/ou intersetoriais (CECCIM, 2005).
Objetivo Geral
Expandir os conhecimentos do cirurgião-dentista da APS para que possa identificar altera-ções nos tecidos e/ou demais estruturas da cavidade oral e integrar o cuidado ao paciente oncológico, respeitando-se os limites de sua atuação.
Objetivos Específicos
• Identificar os fatores de risco para o câncer de boca e as principais abordagens de enfrentamento pelo cirurgião-dentista; identificar as principais lesões que acome-tem a cavidade oral e os diagnósticos diferenciais.
• Conhecer os principais tratamentos de lesões bucais mais prevalentes.
• Conhecer o fluxo de rede – desde a suspeição, perpassando o encaminhamento dos casos suspeitos para investigação diagnóstica até o tratamento da neoplasia.
• Sensibilizar sobre a importância da adequação do meio bucal para o tratamento oncológico; Reconhecer as diferentes abordagens para manejo das intercorrências orais causadas pelo câncer e seu tratamento.
• Reconhecer as diferentes abordagens para o preparo do tratamento do paciente com câncer.
Metodologia / Estratégias
O curso foi desenvolvido em duas etapas distintas: (1) modalidade a distância (EAD) utili-zando a plataforma do Instituto Nacional de Câncer (INCA) – “Curso ABC do Câncer” – como pré-requisito para a segunda etapa; (2) modalidade presencial, composta por quatro encon-tros ministrados por docentes do INCA, das Faculdades de Odontologia (UFRJ, UERJ, UFF e UNESA) e da Área Técnica de Saúde Bucal/SAPS/SGAIS/SES-RJ.
No quarto encontro, conduzido pela Área Técnica de Saúde Bucal, os alunos são convidados a refletirem sobre a organização da rede de atenção ao câncer de boca em seus municípios.
Por meio de um processo pedagógico coletivo, estruturado a partir das premissas da Edu-cação Permanente, o curso busca contemplar desde a aquisição/atualização de conheci-mentos e habilidades até a reflexão de parte dos problemas e desafios, em sintonia com os contextos e realidades das equipes. Em meio a um momento de identificação de nós críticos que devem ser enfrentados tanto na atenção e/ou na gestão, objetiva-se a construção de
estratégias contextualizadas que promovam o diálogo entre as políticas gerais e a singulari-dade dos municípios, dos profissionais e dos usuários (BRASIL, 2018).
Como atividade final, os profissionais apresentam a organização do fluxo na rede para o pa-ciente com câncer de boca e uma proposta de plano de ação. Nesta apresentação, além das premissas já colocadas, são trabalhadas questões relacionadas: às ações de saúde bucal na APS realizada pelo município para detecção precoce, à utilização de fichas de referência e contrarreferência, ao(s) local (is) para realização da biópsia, aos processos de encaminha-mento e de garantia de resultado do exame anatomopatológico, à regulação do paciente para o tratamento hospitalar, à adequação do meio bucal prévio ao tratamento oncológico, ao acompanhamento durante e pós-tratamento (cirurgia, quimio e radioterapia), à alta refe-renciada da unidade hospitalar e aos cuidados paliativos.
Foram ofertadas pelo INCA, por semestre, 40 vagas aos profissionais de saúde bucal da rede de atenção à saúde do estado do Rio de Janeiro, indicados pelos Coordenadores Municipais de Saúde Bucal, observando-se os seguintes critérios: (1) ser preferencialmente servidor pú-blico; e (2) estar obrigatoriamente cadastrado no Sistema de Cadastro Nacional de Esta-belecimentos de Saúde (CNES) como profissional de equipe de saúde bucal na Estratégia Saúde da Família (ESF).
Em relação aos critérios para a seleção dos municípios e ao número de vagas, foram consi-derados dados referentes ao cenário epidemiológico e ao quantitativo de equipes de saúde bucal em ESF, respectivamente. Para a seleção das turmas de 2017, foram selecionados mu-nicípios com 10 (dez) ou mais óbitos de câncer de boca. Por sua vez, para as turmas de 2018, foram municípios com número inferior a 10 (dez) óbitos de câncer de boca. Para a primeira turma de 2019, foram considerados os 34 municípios que ainda não haviam inscrito profis-sionais nas edições anteriores. Todos os critérios foram pactuados na Comissão Intergesto-res Bipartite do Rio de Janeiro (CIB-RJ).
Resultados Esperados
O curso “Manejo Odontológico do paciente com Câncer” foi ofertado para os 92 municípios do Rio de Janeiro, sendo que 68 indicaram profissionais. A participação total foi de 159 alu-nos, distribuídos nas 05 turmas (duas em 2017, duas em 2018 e uma em 2019). Além disso, como resultado importante, destaca-se que o curso passou a fazer parte da grade perma-nente do INCA.
O produto final esperado é a consolidação de um fluxo constituído para o manejo odonto-lógico do paciente com câncer nos 92 municípios do estado, considerando: a diminuição do tempo entre a suspeição de lesões de boca e o diagnóstico; o conhecimento pelos profissio-nais das referências para o exame histopatológico e para os procedimentos a nível hospita-lar; e a sensibilização dos cirurgiões-dentistas da APS no trabalho integrado com os demais profissionais envolvidos no atendimento ao paciente oncológico. Além disso, espera-se tam-bém a qualificação desses profissionais, na sua rotina diária, para o atendimento aos pacien-tes em tratamento oncológico.