Autores: Raquel Miguel Rodrigues; Sérgio Ornellas Filho;
Alessandra Carneiro Coutinho de Lima; Liana do Amaral;
Luciane Goulart; Camila da Silva de Oliveira
Introdução
Esta experiência é produto da parceria entre os envolvidos no apoio à coordenação do Nú-cleo Ampliado de Saúde da Família (NASF) de Macaé e apoiadores da Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro (SES/RJ). Nasceu em dezembro de 2018, quando alguns de nós participamos do XXVIII Fórum Estadual de Gestão da Atenção Básica promovido pelas Su-perintendências de Atenção Básica e Vigilância em Saúde da SES/RJ cujo tema foi a “Inte-gração Atenção Básica e Vigilância em Saúde”.
Como estávamos sob a coordenação da Estratégia Saúde da Família (ESF) do município, desde agosto de 2018, o Fórum foi muito oportuno. Este tratou de um desafio que conversava intima-mente com o nosso desejo de iniciar uma proposta de gestão local que articulasse apoio, edu-cação permanente e planejamento local a partir dos diagnósticos dos territórios adscritos à ESF.
No grupo de trabalho que participamos durante o Fórum, tivemos a oportunidade de trocar ideias com outros municípios e representantes de diversas áreas da SES/RJ sobre como ar-ticular ações da Vigilância e da Atenção Primária (APS). Chegamos a algumas propostas e, dentre estas, a de desenvolver grupos/oficinas de trabalho junto às equipes envolvidas na ESF que pudessem tornar o diagnóstico situacional de saúde dos territórios dinâmicos e sempre atualizados, como ferramenta e como intervenção.
Neste sentido, propusemos, dentre várias questões, trazer também o estudo de casos traça-dores e eventos-sentinela como dispositivos de análises dos processos de trabalho. Levan-tamos, por exemplo, a questão dos óbitos infantis por sífilis congênita como escolha potente para estudos de eventos-sentinela. Consideramos também casos traçadores em articulação com o desenvolvimento mais sistemático de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS), princi-palmente através dos NASF’s.
Após este encontro, retornamos ao município com a certeza de que estávamos construindo paulatinamente uma proposta de parceria com os apoiadores da SES/RJ coerente com as dinâmicas dos serviços da Atenção Primária à Saúde (APS) que tanto precisam de amplia-ção do diálogo e apoio mútuo.
Objetivo Geral
Promover espaços ampliados de escuta e diálogo permanentes entre os trabalhadores do NASF, ESF e gestão local através de oficinas de qualificação do processo de trabalho.
Objetivos Específicos
• Realizar encontros sistemáticos online entre apoiadores da área técnica da SES/RJ e apoiadores da coordenação da ESF de Macaé.
• Reunir referências bibliográficas para construir uma caixa de ferramentas para operar as oficinas de trabalho.
• Atualizar os diagnósticos de saúde dos territórios adscritos à ESF como dispositivo para se repensar as práticas.
• Desenvolver práticas expressivas nos encontros que possam visibilizar situações--problema pelas quais a inteligência prática dos atores e, portanto, sua competên-cia, se manifesta.
Metodologias / Estratégias
Após a realização do Fórum iniciamos encontros sistemáticos com as apoiadoras da área técnica da APS da SES/RJ virtualmente e presencialmente. Foram realizados, entre janeiro e março de 2019, dois encontros virtuais e um presencial contando com a presença das apoia-doras da SES/RJ para formularmos coletivamente uma proposta inicial de oficina de quali-ficação do processo de trabalho. Partimos de alguns referenciais teóricos do planejamento em saúde (BRASIL, 1999; RIVERA E ARTMANN, 2010) e da ética organizacional (LACROIX et al, 2017) tomando a educação permanente como eixo organizador da proposta.
A educação permanente em saúde é uma das diretrizes gerais das políticas públicas para a saúde de Macaé, instituída no item I no Artigo 48 da Seção IV da Lei Complementar número 279/2018 que “dispõe sobre a Política de Desenvolvimento Urbano e o Plano Diretor do Mu-nicípio de Macaé” promulgada em 16 de janeiro de 2018.
Construímos uma proposta que adotasse o formato “oficina” inicialmente com os profissio-nais do NASF para, aos poucos, agregar os profissioprofissio-nais das equipes mínimas. Identificamos nestes encontros iniciais, entre apoiadores municipais e estaduais, a necessidade da reela-boração coletiva dos diagnósticos de saúde dos territórios adscritos à ESF, pelo lento pro-cesso de atualização cadastral via e-sus em curso no município. Tal estratégia visou elucidar necessidades de saúde e seus determinantes locais a fim de produzir uma primeira resso-nância de ideias para repensar as práticas ofertadas via NASF. Organizamos uma proposta de quatro encontros presenciais com a seguinte estrutura:
• Encontro 01: realizado no dia 19/03/2019, apresentamos um panorama geral con-ceitual do NASF e a proposta sequencial de construir e apresentar o diagnóstico dos territórios através uma planilha de Excel@ disponibilizada pelo apoio da SES/
RJ (com duas abas, uma referente às características do território e a outra referente ao ecomapa da equipe que traduzisse sua relação com a respectiva área de abran-gência);
• Encontro 02: realizado no dia 17/04/2019 no qual cada NASF e representantes das equipes mínimas envolvidas apresentou oralmente os seus diagnósticos bem como suas potências e desafios principais;
• Encontro 03: realizado no dia 22/05/2019 onde sistematizamos as principais po-tências e desafios e selecionamos aquelas que tivessem maior governabilidade, eficácia e valor político;
• Encontro 04: realizado no dia 03/07/2019 objetivou sistematizar no coletivo qual seria a ação que priorizaríamos para construir um desenho de intervenção.
Todo este processo está atravessado pelas ideias de autores da ética organizacional, apoia-das na visão pragmatista de John Dewey cuja essência se ancora no pensamento reflexivo e pressupõe que o ator competente é aquele que, mobilizando seus recursos, inicia algo no mundo. Se uma organização deseja pessoal competente, ela deve garantir condições favorá-veis para o desenvolvimento e a expressão de suas potências.
Resultados Esperados
Neste momento, realizamos estas quatro rodadas de oficinas e, aos poucos, estamos cons-truindo pontes com as equipes principalmente contando com a presença de enfermeiros e representantes de Agentes Comunitários em reuniões mais ampliadas. Elaboramos um cro-nograma mensal de encontros até dezembro e esperamos cumpri-lo além de tornar esse es-paço permanente. Pretendemos construir um arquivo digital e físico para que a equipe NASF possa acessar todo seu histórico de implantação e registros dos diagnósticos dos territórios.
A avaliação do processo e dos resultados alcançados:
Após cada etapa, realizávamos um encontro virtual com as apoiadoras da SES para pensar nos desdobramentos para a etapa seguinte, desta forma, realizamos uma construção em ato de etapa por etapa a partir do que era discutido em cada encontro. Estamos construindo os desenhos de intervenção que agregam os padrões essenciais do PMAQ e alguns indica-dores selecionados.
Identificamos no Manual Instrutivo do PMAQ na Dimensão “Acesso e Qualidade da Atenção e Organização do Processo de Trabalho” os itens que iremos priorizar na avaliação que trata de acompanhar como está sendo realizado: o planejamento e monitoramento das ações do NASF (indicadores de produção nas áreas específicas por ciclos de vida); como se dá o apoio matricial às EAP; de que forma a gestão do cuidado compartilhado é realizada; como acon-tece a coordenação do cuidado e integração à RAS e quais estratégias estão sendo adotadas para o fortalecimento de ações intersetoriais.
Recursos
Foram utilizados: espaço físico mensal para uma média de 70 participantes; água, café e lanche; projetor e computador; caixa de som e microfone; materiais de papelaria como papel pardo, canetas pilot, fita adesiva; cadeiras móveis; formulários e-sus; livros-ata e arquivo di-gital (Google drive) para armazenamento das apresentações, imagens e filmagens disponí-vel em https://drive. google.com/open?id=1kn-7POjFZXDrs5VKWuJY0NEq7w3Z0fQO.
Referências Bibliográficas
LACROIX, ANDRÉ; MARCHILDON, ALLISON; BÉGIN, LUC. Former à l’éthique en organisation:
Une approche pragmatiste. Presses de l’Université du Québec. 1a ed. 2017. p 83-114.
BRASIL. FUNASA. Assessoria de Planejamento. Coordenação de Métodos de Planejamento e Avaliação. Planejamento com Enfoque Estratégico: Uma Contribuição para o SUS. 1a ed.
Brasília, 1999.
RIVERA, Francisco Javier Uribe and ARTMANN, Elizabeth. Planejamento e gestão em saúde:
histórico e tendências com base numa visão comunicativa. Ciênc. saúde coletiva [online].
2010, vol.15, n.5, pp.2265-2274.