Porter (1986) define três estratégias competitivas genéricas das empresas: (1) liderança no
custo total, (2) diferenciação e (3) enfoque. Como o enfoque é definido como uma espécie de
diferenciação para um determinado grupo comprador ou segmento de linha de produtos
(PORTER, 1986, p. 52), então para os fabricantes de sinalização de segurança, produto
padronizado e regulado a nível nacional, sobrariam apenas, e de acordo com Porter, as
estratégias de diferenciação e liderança por custo total. Contudo, porque a sinalização de
segurança é regulada por NMQ, e um dos objetivos principais das NMQ é a redução da
diferenciação entre produtos, resta aos fabricantes de sinalização de segurança uma única
estratégia competitiva: a de liderança no custo total. Liderança no custo total definida como
“[…] uma perseguição vigorosa de reduções de custo pela experiência, um controle rígido do
custo e das despesas gerais, […] e a minimização do custo em áreas como P & D, assistência,
força de vendas, publicidade, etc.” (PORTER, 1986, p. 50).
Na área da contabilidade, Dekker (2003) refere que as ligações entre fornecedor e
comprador expressam o quanto as atividades do usuário influenciam as do fornecedor em
termos de custo e diferenciação (DEKKER, 2003, p. 5). Tendo em vista que a estratégia
competitiva que resta aos fabricantes de sinalização de segurança é a de uma vigorosa
perseguição de redução de custos, interessa estudar então a influência das escolhas do usuário
no nível de qualidade da sinalização de segurança oferecida ao mercado. Para tal é utilizada a
metodologia do custo total de propriedade (total cost of ownership).
O CTP reflete o somatório dos custos associados ao processo de compra de um produto ou
serviço:
O custo total de propriedade é o custo real da compra de um determinado bem ou serviço e consiste no preço e outros elementos que refletem custos adicionais causados pelos fornecedores na cadeia de valor da empresa compradora. Os custos adicionais refletem o consumo de recursos necessários para as atividades complementares associadas ao processo de compra e são derivados das atividades e dos fatores de custo determinados pelo sistema de custeio baseado em atividades da empresa. (DEGRAEVE; ROODHOOFT, 1997, p. 43).
De notar que o CTP está intimamente relacionado com a cadeia de valor e por isso com o
custo do ciclo de vida do produto embora haja uma diferença muito significativa na abordagem.
O custo do ciclo de vida adota uma abordagem do ponto de vista do produto, computando os
custos independentemente da entidade que os incorre, desde a sua concepção até ao descarte.
De forma distinta, a abordagem do custo total de propriedade adota a perspectiva do comprador,
relacionando os custos na pesquisa, aquisição, instalação, operação e descarte de um usuário e
considera por isso um horizonte temporal mais reduzido do que o custo do ciclo de vida do
produto. (SACCANI; PERONA; BACCHETTI, 2016, p. 1).
A quantificação acurada do custo total de propriedade deve envolver o perfeito
conhecimento e medição de todas as atividades do processo de compra. Estas atividades vão
desde o momento de estudo e levantamento das características do produto e de potenciais
fornecedores (momento antes da aquisição) até o momento após a aquisição, onde são
consideradas atividades como garantias, descarte e inclusivamente custo de oportunidade,
custos de depreciação e valor residual.
O custo total de propriedade procura quantificar os custos associados ao processo de compra. Determina a influência dos custos associados às atividades do processo de compra na cadeia de valor da empresa antes, durante e após a aquisição. (DEGRAEVE; ROODHOOFT, 1997, p. 44).
Para a determinação dos custos de fim-de-vida ou dos custos de fim-de-propriedade, alguns trabalhos incluem os custos de depreciação e valor residual (SACCANI; PERONA; BACCHETTI, 2016, p. 2)
O estudo do CTP foi desenvolvido como um ferramental no âmbito do estudo da eficiência
do processo de compra e era tratado tendo como base um relacionamento esporádico entre
fornecedor e comprador. A interação entre eles era estudada como sendo pontual e por isso não
representava a maioria dos relacionamentos interempresariais. Degraeve e Roodhooft (1997)
dão uma grande contribuição para o estudo do CTP ao considerarem que uma empresa não
compra de um único fornecedor e uma única vez, mormente nas relações entre fabricante e
distribuidor (ótica do business-to-business). Assim, consideraram que o momento da compra é
múltiplo e com múltiplos potenciais fornecedores, o que caracterizava melhor a realidade das
empresas.
Do ponto de vista teórico, a literatura sobre a seleção de fornecedores tem sido limitada. A maioria dos trabalhos considera a seleção de um fornecedor para uma determinada ordem de compra. Contudo, as decisões sobre o processo de compra envolvem a determinação de quantidades de ordens de compra ao longo de um largo período de tempo e de diferentes fornecedores potenciais. (DEGRAEVE; ROODHOOFT, 1997, p. 42).
Além da seleção de fornecedores e quantificação de ordens de compra, o controle gerencial
efetuado através do custo total de propriedade com a utilização da abordagem de Degraeve e
Roodhooft (1997)
11traz vantagens adicionais para a organização: (1) permite a realização de
todos os tipos de análises de sensibilidade identificando possíveis ações de melhoria no
processo de compra, (2) fornece uma base para negociação entre fornecedor e comprador que
tende a aumentar a eficiência de contratos de longo tempo e (3) providencia um ferramental
para comparação de cenários de internalização (realização interna) versus externalização de
11 O ferramental de Degraeve e Roodhooft (1997) considera quatro níveis hierárquicos de atividades
associados ao processo de compra: nível de custos do fornecedor, nível de custos da ordem de compra, nível de custos de lote e nível de custos unitários.
atividades que podem suportar decisões de terceirização de atividades (DEGRAEVE;
ROODHOOFT, 1997, p 45).
A abertura dos mercados, que provoca o aumento de competidores externos com políticas
de preço muito agressivas, aliada à saturação da demanda tem conduzido fabricantes e
distribuidores de bens de consumo duráveis a guerras concorrenciais por preços (SACCANI;
PERONA; BACCHETTI, 2016, p. 1). A decisão sobre a aquisição de bens de consumo durável
é um importante momento para o usuário dada a proliferação de fornecedores com vasta e
distinta oferta de produtos que representam um custo a considerar por um amplo período de
tempo de consumo.
Saccani, Perona e Bacchetti (2016) percebem que a abordagem aos CTP era conduzida
academicamente, na sua grande maioria, de forma limitada a cenários de business-to-business
12.
Desenvolvem por isso um modelo aplicável à aquisição de qualquer bem de consumo durável
por parte do usuário. Os modelos que estavam antes restringidos ao âmbito das relações
interempresariais business-to-business passam a estar disponíveis também para as relações
business-to-consumer.
Este artigo visa preencher essa lacuna [modelo de CTP no âmbito de business-to- consumer]. Em particular, adota o ponto de vista do usuário privado e desenvolve um modelo geral para a avaliação do CTP de um bem de consumo durável. Até onde sabemos, não há nenhum outro estudo na literatura propondo um modelo CTP com este propósito geral […]. Além disso, de maneira diferente da maioria dos modelos na literatura, mas consistente com uma perspectiva verdadeiramente orientada para o usuário, o modelo proposto engloba o processo de tomada de decisão, considerando os custos de pesquisa e seleção do produto e serviços relacionados em conjunto com a fase de fim-de-vida. (SACCANI; PERONA; BACCHETTI, 2016, p. 11).
O modelo apresentado por Saccani, Perona e Bacchetti (2016) - representado
esquematicamente pela figura 2 do anexo A - é dividido em quatro fases temporais nas quais as
atividades referentes ao processo de compra ocorrem. Essas atividades, e respectivos custos
associados, são elencados em relação ao processo a que pertencem (por que ocorrem) e em
relação ao período temporal em que ocorrem (quando ocorrem).
12 Saccani, Perona e Bacchetti (2016) referem que dos 1300 trabalhos académicos que identificaram
sobre CTP selecionaram 45 e desses, apenas a indústria automotiva havia adotado uma abordagem ao usuário. Tal abordagem, contudo não servia para suportar a compra do usuário e sim para fornecer suporte a decisões de viabilidade econômica para a introdução de novas tecnologias por parte dos fabricantes (SACCANI; PERONA; BACCHETTI, 2016, p. 2).