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3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

3.3 PROCEDIMENTO E AMOSTRA

O procedimento de coleta de dados concentra-se em um segmento do mercado da segurança,

procurando aprofundar o conhecimento sobre regulação assente em NMQ e respectiva

influência nas decisões dos usuários de sinalização de segurança. O objeto de análise não é a

empresa em si mesma mas a influência de uma NMQ no segmento de sinalização de segurança,

onde as empresas distribuidoras de sinalização emprestam apenas a função de cenário para a

coleta de dados mas o objeto de análise é a influência do ambiente regulador, construído pela

introdução da NMQ, nas escolhas dos usuários da sinalização.

As entrevistas semiestruturadas (ver inquérito no apêndice H) são conduzidas

individualmente a um grupo de entrevistados escolhido estrategicamente - amostragem

intencional (purposive sampling) - e os critérios para a seleção da amostra são a amostragem

teórica (theoretical sampling) que considera a amostra e o processo de coleta de dados

controlados pela teoria base (BRYMAN, 2016, p. 410).

Pode-se argumentar que o fato de o presente estudo assentar numa abordagem qualitativa,

com reduzido número de entrevistados, pode significar uma falha do ponto de vista da

generalização do resultado da pesquisa. Contudo, o objetivo da pesquisa qualitativa não é tanto

o seu poder de generalização mas sim “a qualidade das inferências teóricas, que resultam de

dados qualitativos, considerada crucial para a avaliação da generalização” (BRYMAN, 2016,

p. 399). Na pesquisa qualitativa o que se pretende é uma generalização teórica onde se parte da

observação e resultados para chegar a uma teoria. “A questão crucial não é se os resultados

podem ser generalizados a um amplo universo mas quão bem o pesquisador gera teoria dos

resultados da pesquisa” (BRYMAN, 2016, p. 64). Pode-se argumentar ainda que se o objetivo

é gerar teoria então o referencial teórico, no qual a pesquisa se fundamenta, tem já como

pressuposto alguma forma de generalização, ou seja, a presente pesquisa tem como premissas

alguns referenciais teóricos e, por isso mesmo, parte já duma pré-assunção de generalização.

Williams (2000, apud BRYMAN, 2016, p. 399) considera este tipo de pesquisa como

moderatum generalization e refere que:

Moderatum generalization será sempre limitada e de certa forma mais experimental do que as generalizações estatísticas associadas a amostras probabilísticas (…), mas ela permite sim uma pequena e desejável forma de generalização e ajuda a combater a visão de que generalização, para além da evidência imediata e o caso, é impossível na pesquisa qualitativa. (BRYMAN, 2016, p. 399).

A presente pesquisa pretende assim corroborar com a teoria ao explorar e revelar

comportamentos (oportunísticos) dos consumidores de sinalização de segurança motivados pela

percepção de falhas no ambiente regulatório e, ainda que sendo qualitativa, permitir um certo

grau de generalização visto possibilitar a comparação com outros trabalhos acadêmicos, quer

seja ao nível da fundamentação teórica quer da apresentação dos resultados (moderatum

generalization).

Esta pesquisa analisa a influência das decisões dos usuários na qualidade da sinalização de

segurança consumida. Caso questionados diretamente, os usuários poderiam sentir algum

desconforto em admitir não se preocuparem com a qualidade e, por forma a eliminar esse viés,

os entrevistados, estrategicamente escolhidos, são os distribuidores. A escolha do distribuidor

traz outras, e não menos importantes, vantagens à pesquisa. Primeiro o distribuidor desempenha

o papel de intermediar fabricantes e consumidores sendo por isso conhecedor de ambos os

intervenientes, podendo ser considerado um elemento ativo e importante na cadeia de valor mas

neutro, que apenas comercializa o que os consumidores exigem e adquire o que os fabricantes

fornecem ao mercado, e por isso de opinião fidedigna. Segundo, por pertencer à cadeia de valor

da sinalização de segurança está envolvido no ambiente regulatório, sendo por isso profundo

conhecedor. Terceiro, permite a percepção do usuário como entidade individual pelo

conhecimento e comunicação, dentro do mesmo usuário, tanto com a área técnica como a área

de compras, ambas envolvidas no processo de aquisição da sinalização de segurança.

Normalmente estas duas áreas tendem a ter preocupações divergentes - área técnica tende a

privilegiar atributos como a qualidade e conformidade e a área de compras os atributos preço e

custos financeiros - o que dificultaria a unicidade e individualização do usuário enquanto

unidade de pesquisa. Quarto, o elemento multiplicador que o distribuidor oferece à pesquisa.

Ao longo da sua existência cada distribuidor conhece e negocia com múltiplos e variados

clientes (usuários de sinalização de segurança) dotando assim a pesquisa de uma maior

amplitude, heterogeneidade e significância prática, adicionando algum nível de generalização

à pesquisa. A quinta e última vantagem prende-se com o fato de, pelo conjunto das vantagens

anteriores, possibilitar uma considerável economia de recursos ao permitir que o mesmo

entrevistado responda de forma válida, credível e fundamentada a todas as questões

relacionadas com os dois objetivos da pesquisa (principal e específico).

A pesquisa também apresenta uma considerável desvantagem que se prende com o fato do

pesquisador, que é simultaneamente o condutor das entrevistas, ser colaborador de empresa

fabricante de sinalização de segurança. Desta forma os entrevistados podem sentir algum tipo

de constrangimento ao responder a perguntas que sejam consideradas como potencialmente

comprometedoras para o relacionamento futuro entre as empresas (fabricante e distribuidor).

De uma forma geral, ponderadas as vantagens e desvantagens, o desenho da pesquisa pode ser

considerado como a melhor escolha possível.

A escolha da amostra não se pauta por preocupações com o tamanho mínimo amostral, até

porque parece não haver consenso em relação a esse número, mas sim pela procura de uma

amostra que permita simultaneamente uma ampla observação da (1) percepção da importância

dada pelo usuário à sinalização de segurança e (2) caracterização do ambiente regulatório. Desta

forma, e seguindo os critérios apresentados para a seleção da amostra, foram selecionadas

catorze empresas (distribuidores) de comercialização de produtos e serviços no segmento da

segurança contra incêndio e pânico, pertencendo oito ao estado de São Paulo (cidade de São

Paulo e interior do estado) e seis ao estado do Paraná (região metropolitana de Curitiba), para

composição da amostra. Estes dois estados brasileiros foram considerados por terem desde já

há algum tempo adotado lei específica regulamentadora da sinalização de segurança; São Paulo

através da Instrução Técnica nº 20/ 2011 (IT20) e Paraná através da Norma de Procedimento

Técnico nº 20/ 2014 (NPT20)

13

.

Os fatores proximidade geográfica e disponibilidade de tempo também tiveram influência

preponderante na escolha desses estados brasileiros e na dimensão da amostra, cabendo de

qualquer forma ressaltar que os dados coletados apontam para uma possível saturação da

amostra, antecipando que, por maior que fosse a amostra, os resultados permaneceriam muito

possivelmente inalterados.

As leis estaduais IT20 e NPT20 utilizam o termo ‘sinalização de emergência’ para designar

o produto muito embora a norma da ABNT NBR 13.434 (partes 1, 2 e 3) utilize o termo

‘sinalização de segurança’. Como forma de uniformização de linguagem, no presente trabalho

o termo utilizado para designar o produto é sinalização de segurança.

Os distribuidores são caracterizados por operarem no segmento da segurança sendo

normalmente empresas fornecedoras, instaladoras e mantenedoras de instalações e

equipamentos de segurança contra incêndios, nomeadamente redes de incêndio, redes de

sprinklers, redes de detecção e alarme de incêndio, extintores de incêndio portáteis e móveis,

mangueiras de incêndio, equipamentos de proteção individual, entre outros. São habitualmente

13 A Instrução Técnica nº20 /2011 e a Norma de Procedimento Técnico nº 20/ 2014 referem-se

respectivamente aos anos de 2011 e 2014 o que não representa dizer que apenas nessas datas houve alguma regulação. Estas datas apenas mostram a última atualização dos respectivos documentos legais; por exemplo em São Paulo a IT nº20 anterior à última atualização data de 2004.

micro ou pequenas empresas (SERVIÇO BRASILEIRO DE APOIO ÀS MICRO E

PEQUENAS EMPRESAS. Anuário do trabalho na micro e pequena empresa 2014, p. 17. 7.

ed.

São

Paulo,

2015.

Disponível

em

<https://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal%20Sebrae/Anexos/Anuario-do%20trabalho-

na%20micro-e-pequena%20empresa-2014.pdf> Acesso em 28, maio 2017) de estrutura

familiar que operam em um raio geográfico reduzido, raramente em mais do que um estado, e

são gerenciadas pelo proprietário. O indivíduo alvo da pesquisa é o gerente da empresa com

uma atuação no mercado, nessa ou outra empresa, por um período mínimo de cinco anos.

Entende-se esse período como pré-requisito de comprovação de conhecimento na área.

As entrevistas pretendem captar a percepção que o distribuidor tem sobre o usuário,

medindo a importância dada pelo usuário a atributos e tarefas pertinentes à aquisição de

sinalização de segurança. Foi selecionada a entrevista semiestruturada para permitir algum grau

de comparabilidade entre as entrevistas e identificar temas que se salientam.

[…] um tema é mais susceptível de ser identificado quanto mais o fenômeno que o caracteriza ocorrer ao longo da codificação […]. Em outras palavras, uma espécie de quantificação implícita pode entrar em operação de modo a influenciar a identificação de temas e a elevação de alguns temas sobre outros. (BRYMAN, 2016, p. 630).

Reforçando a abordagem qualitativa da pesquisa, que tem como objetivo a identificação de

conceitos, mas com vista à elevação de alguns desses conceitos sobre outros, a pesquisa

permitirá também um certo grau de quantificação. O objetivo é muito semelhante ao

apresentado por Bryman (2016) no entanto produzido de forma explícita. Não se pretende

apenas medir o número de vezes que o fenômeno que caracteriza o tema ocorre mas sim

questionar diretamente o entrevistado obtendo uma quantificação, ou grau de elevação, mais

preciso do próprio conceito. Tal quantificação pretende simultaneamente a validação dos dados

obtidos qualitativamente. Além de perguntas abertas, onde o respondente dá a sua opinião, há

lugar também a perguntas fechadas que permitem uma ‘quase-quantificação’ ou a elevação -

diferenciação - dos conceitos e reforçam a integridade da pesquisa.

[…] proceder a uma quantidade limitada de quantificação quando for apropriado, como quando uma expressão de quantidade pode reforçar um argumento. ” (BRYMAN, 2016, p. 631)

Integridade indica que uma resposta mais completa a uma pergunta de pesquisa, ou um conjunto de perguntas de pesquisa, pode ser conseguido através da inclusão de métodos quantitativos e qualitativos. (BRYMAN, 2016, p. 644).

Optou-se por fazer a entrevista com um tempo médio de duração de vinte minutos, seguindo

uma estrutura definida previamente (semiestruturada) e organizada por temas em que o

entrevistado responde primeiro à pergunta aberta e só depois à pergunta fechada. Pretende-se

que o entrevistado responda primeiro nos seus próprios termos sem ser forçado a responder

numa escala sugerida como numa pergunta fechada e assim captar o nível de conhecimento e

compreensão sobre os temas inquiridos (BRYMAN, 2016, p. 244) comprovando, ou não, a

aderência das respostas dos entrevistados à teoria, principalmente a teoria que envolve as

normas mínimas de qualidade. Após cada uma das respostas às perguntas abertas é feita a

pergunta fechada que facilita a comparabilidade entre esta e outras pesquisas e permite um

melhor grau de diferenciação entre os conceitos relacionados com as questões referentes ao

ferramental do custo total de propriedade.

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