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CAPÍTULO 3 - DA PEDAGOGIA DO ESPAÇO: CULTURA ESCOLAR E

3.2 Da autorização para funcionar como Colégio

Em 1948, o Colégio Diocesano Pio X obteve, junto ao Governo Federal (o Presidente da República era Eurico Gaspar Dutra), a permissão para funcionar como Colégio. A Revista

do Colégio Diocesano Pio X transcreveu em detalhes “o texto do decreto-lei concedendo ao

Ginásio Pio X, o título de Colégio”. O responsável por informar aos alunos e professores a notícia foi o ex-aluno Paulo Lyra, que, naquele momento, ocupava o cargo de Subchefe Gabinete Civil: “de ordem Presidente da República comunico-lhe Sua Excia. assinou decreto autorizando esse Ginásio funcionar como Colégio. Como antigo aluno desse tradicional estabelecimento congratulo-me sua direção, professores e alunos pela conquista que acabam de alcançar” (REVISTA DO COLÉGIO DIOCESANO PIO X, 1954, p. 11). A publicação do

Decreto-Lei que autorizou o Ginásio Pio X a funcionar como Colégio ocorreu no dia 27 de

Setembro de 1948:

Decreto N. 25.587, de 27 de setembro de 1948.

Autoriza o GINÁSIO PIO X, com sede em João Pessoa, a funcionar como Colégio.

O Presidente da República, usando da atribuição que lhe confere o artigo 87, item I, da Constituição e nos termos da Lei Organica do Ensino Secundário e do Decreto-lei nº 4.245, de 9 de abril de 1942, decreta:

Art. 1º - O Ginásio Pio X, com sede em João Pessoa, no Estado da Paraíba, fica autorizado a funcionar como Colégio.

Art. 2º - A denominação do estabelecimento de ensino secundário de que trata o artigo anterior passa a ser COLÉGIO PIO X.

Art. 3º - O reconhecimento que pelo presente Decreto é concedido ao Colégio Pio X, considerar-se-á quanto aos seus cursos clássico e científico, sob o regime de inspecção preliminar.

Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário.

Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 1948; 127º da Independência e 60º da República.

EURICO DUTRA Clemente Mariani56.

É importante lembrar que mesmo só recebendo autorização oficial para funcionar como Colégio, em 1948, junto ao Governo Federal, a instituição já vinha desde o início de sua criação por Dom Adauto, em 1894, utilizando a denominação de Colégio. Inclusive, nas fontes por mim consultadas (Jornais A União, A Imprensa e Revista do Colégio Diocesano

Pio X), é unânime o emprego do nome Colégio Diocesano Pio X57.

No Brasil, as disposições sobre a organização do ensino secundário estavam dispostas

no Decreto n. 21. 241, de 14/4/1932. Foi quando a denominação Colegial e Ginasial passou a

receber uma designação mais específica. O Ginásio, com quatro anos de duração, e o Colegial, com três anos, ambos formaram, na época, o ensino secundário. Segundo Rosa Fátima de Souza (2008, p. 312), em 1942 foi

Promulgada a Lei Orgânica do Ensino Secundário (Decreto n. 4.244, de 9/4/1942), conhecida como Reforma Capanema. Nova estrutura é dada ao ensino secundário, compreendido a divisão em dois ciclos – o ginasial (4 anos de duração) e o colegial (3 anos de duração). O curso colegial passa a abranger dois cursos paralelos; o clássico e o científico. No ensino ginasial, a reforma enfatizou o conteúdo humanista e os valores cívico-patrióticos e introduziu a disciplina de Trabalhos Manuais.

1946 O ministério da Educação e Saúde Pública elabora e divulga, esse período, os programas das matérias do curso ginasial e colegial, contendo orientações detalhadas acerca da concepção do ensino de cada disciplina, os objetivos e as instruções metodológicas.

De acordo com Trevizoli, Vieira e Dallabrida (2013, p. 3), a Reforma Capanema

(1942)58 contribuiu para o acirramento das “disputas entre defensores de estudos clássicos e

os adeptos do ensino tecnicista e científico – conflitos que colocavam em tela questionamentos” sobre a real função política e social da educação secundária. Neste sentido, essa reforma reforçou o caráter nacionalista e humanístico do Ensino Secundário, objetivando contemplar a formação de homens da elite dirigente (NUNES, 1962). Para Gustavo Capanema,

[...] O ensino secundário se destina à preparação das individualidades condutoras (o grifo é nosso), isto é, dos homens que deverão animar as responsabilidades maiores dentro da sociedade e da nação, dos homens portadores das concepções e atitudes espirituais que é preciso infundir nas massas, que é preciso tornar habituais entre o povo.

57 Mesma denominação escolhida para ser utilizada em todo o corpo do texto da presente tese.

58 Idealizada e colocada em prática pelo até então “ministro da Saúde e Educação Gustavo Capanema e consubstanciada no Decreto-lei nº 4.244, de 9 de abril de 1942, esta reforma refletia o momento político pelo qual passava a sociedade brasileira, o qual era caracterizado pelo Estado Novo – regime autoritário e populista, que lutava pela nacionalização do ensino no país” (TREVIZOLI; VIEIRA e DALLABRIDA, 2013, p. 3).

[...] a formação da consciência humanística, isto é, a compreensão do valor e do destino do homem é a finalidade específica do ensino secundário (CAPANEMA, 1942, apud NUNES, 1962, p. 113).

Buscando formar um novo homem, Capanema dividiu o Ensino Secundário em dois ciclos. O primeiro, o ciclo ginasial, com duração de quatro anos, oferecia uma formação mais geral, e o segundo, o ciclo colegial, foi subdividido em duas modalidades: “o curso clássico e o curso científico, os quais tinham duração de três anos e visavam à preparação do aluno para a inserção no ensino superior” (TREVIZOLI, VIEIRA e DALLABRIDA, 2013, p. 3). Desta forma, foram criadas normas para a organização da “nomenclatura” das instituições de ensino de todo o país. As instituições de ensino que dispusessem a ofertar apenas o primeiro ciclo passaram a ser chamados de ginásios, e os que ofertassem o primeiro e segundo ciclos, de colégios (SOUZA, 2008).

O ensino secundário tinha sua qualidade e eficiência garantidas através da exigência de exames de admissão e de um rigoroso sistema de avaliação. Os exames de admissão, suficiência e licença acabaram contribuindo para uma ampla seletividade do ensino. A Lei

Orgânica do Ensino Secundário promoveu um modelo de ensino que favoreceu “a

reprodução” da divisão das classes sociais, favorecendo uma determinada classe social (membros da elite) e desfavorecendo outra (as pessoas com menos condições financeiras), os trabalhadores e desempregados que ficaram sem ter acesso ao ensino justo e sem possibilidade de ascensão social.

O modelo de educação e ensino colocado em prática pela Reforma Capanema foi direcionado para atender aos interesses da classe dominante (ricos e políticos). Para os pobres (trabalhadores e desempregados), ficou reservado o ensino profissionalizante – com conteúdos que permitiam uma formação de caráter mínimo e técnico. O currículo do curso secundário tinha uma dimensão humanista, dando ênfase ao estudo do latim e do grego, enquanto o curso ginasial abarcava o estudo das disciplinas de português, latim, francês, inglês, matemática, ciências naturais, história geral e do Brasil, geografia geral e do Brasil, trabalhos manuais, desenho e canto (SOUZA, 2008). Nesse currículo, valorizava-se a língua portuguesa, com a preocupação maior de aprendizado da língua nacional, focando no domínio da fala e da escrita. Isso era um fator determinante, tendo em vista a preocupação com a formação do novo homem brasileiro: republicano e patriota. Já a introdução da disciplina de trabalhos manuais tinha como objetivo central a aquisição de saberes práticos profissionais.

Sobre o currículo do ciclo ginasial, a Reforma Capanema fez uma distinção entre o curso clássico e o curso científico. Para Trevizoli, Vieira e Dallabrida (2013, p. 5), “[...] as

disciplinas deveriam ser ensinadas aos alunos de forma com que eles aprendessem e inculcassem saberes que lhes facilitassem a inserção no ensino superior, de acordo com as suas aptidões e anseios”. Os alunos que demonstrassem aptidão e domínio das disciplinas ligadas às ciências naturais eram orientados a escolherem o curso científico, já os alunos que se identificassem com as disciplinas de ciências humanas escolheriam o curso clássico. Souza (2008, p. 181-182), estudando a Reforma Capanema, definiu a diferença ente o clássico e o científico da seguinte maneira:

[...] No primeiro [o clássico] a formação intelectual dos alunos é marcada por um acentuado estudo das letras antigas, ao passo que, no segundo [o científico] a maior acentuação cultural é provavelmente do estudo das ciências. Entretanto, a conclusão tanto de um como de outro dará direito ao ingresso em qualquer modalidade de curso do ensino superior (SOUZA, 2008, p. 181- 182).

Os dois currículos, o do curso clássico e o do curso científico, eram semelhantes, contemplando as disciplinas de português, francês, inglês, espanhol, matemática, física, química, história geral e do Brasil, geografia geral e do Brasil e filosofia. A diferença estava nas disciplinas de grego, ofertadas no clássico, e de desenho, disponibilizada apenas aos alunos do curso científico. A ênfase no estudo de línguas estrangeiras (o inglês, o francês e espanhol) tinha por objetivo facilitar a comunicação dos alunos com a cultura das pessoas que falavam essas línguas (tidas como mais civilizadas e modernas). A respeito da disciplina de educação física, a Reforma Capanema tornou-a obrigatória a partir da idade de 21 anos. “A educação moral e cívica passou a não ser mais uma disciplina específica, contudo, mantinha-se ainda a importância da formação da consciência patriótica” (TREVIZOLI, VIEIRA e DALLABRIDA, 2013, p. 5).

O direito de utilizar de forma oficial a denominação Colégio possibilitou que o

Colégio Diocesano Pio X alcançasse o reconhecimento de seus cursos clássico e científico,

além do “regime de inspeção permanente”, um dos principais objetivos perseguidos pelas instituições educativas do país. O alcance desse objetivo possibilitou que o trabalho educativo desenvolvido pelos Maristas no Colégio passasse a abranger várias concepções de ensino. Em 15 de Agosto de 1947, inauguraram “a nova praça de Esportes”. Uma “feliz iniciativa dos desportistas do Pio X” (REVISTA DO COLÉGIO DICOESANO PIO X, 1954, p. 8). A solenidade contou com a celebração de uma Santa Missa, cantos e hinos orfeônicos, demonstrações de civismo (como desfiles dos discentes), além de um café da manhã dedicado aos esportistas do Colégio, que logo cuidaram de organizar “os vários times, para prestar ao campo das ‘Pedrinhas’, a última homenagem”.

Seguindo o ritmo da batida da Força Policial, os atletas se deslocaram para a Praça da

Independência, onde estavam aguardando uma “grande massa de amigos e admiradores do

Pio X”. O discurso de inauguração ficou ao cargo do Ir. Ricardo, enquanto o “pontapé inicial”

foi dado pelo Pe. Geraldo. Após uma longa cerimônia, “estava inaugurada a nova Praça de Esportes”. Espaço dedicado ao incentivo da cultura física, à educação do corpo. Ali, foram realizadas muitas das competições esportivas, contando com a presença e participação dos alunos do Colégio.

No dia 19 de Março de 1949, o cargo de diretor Colégio Diocesano Pio X passou para as mãos do Pe. Carlos Martinez, que substituiu o Pe. Reginaldo. Na Revista do Colégio Pio X, há poucas informações sobre o período em que o Pe. Martinez esteve à frente da direção do Colégio. As poucas linhas que foram escritas dizem respeito apenas às comemorações do Dia da Pátria, organizadas pela instituição, e a algumas visitas realizadas pelos padres do Colégio

Marista do Recife.59

Em 1952, o Pe. Estevão Alberto foi nomeado o novo diretor do Colégio Diocesano

Pio X: “em substituição ao Ir. Carlos, incumbido de importantes funções na Faculdade de

Filosofia do Ceará, o Conselho da Província, designou a 20 de janeiro o Revdmo. Ir. Alberto para ser seu substituto” (REVISTA DO COLÉGIO DIOCESANO PIO X, 1954, p. 13). Ao longo do período em que ficou à frente da direção do Colégio, realizou profundas transformações. Em 15 de Março de 1952, iniciou o processo de “medição e traçado dos limites da nova construção”. No dia 25 de Março, desembarcou, em João Pessoa, o mestre de obras da “Cia. Torrone de Recife e logo em seguida principiou a construção do novo Colégio Pio X”, em frente à Praça da Independência. Em 7 de Julho, ocorreu o início do processo de construção da “nova capela do Colégio. No dia 26 de setembro do mesmo ano chegou à cidade, a estátua de N. S. de Fátima, que foi recebida com entusiasmo pela população, professores e alunos. Na recepção: “Todo o Colégio esteve presente. Dois alunos soltaram pombos que levaram as Boas-Vindas à Virgem Santíssima. Esta, no dia seguinte, pagou-nos as saudações indo visitar e abençoar o Colégio, os professores e os alunos. Foi um dia de bênçãos e de graças” (Idem)60

.

No dia 7 de Setembro de 1953, a obra de conclusão da capela chegou ao fim. No dia 15 do mesmo mês, foi oficialmente inaugurado o “novo prédio” do Colégio Diocesano Pio X.

59

A administração do Pe. Carlos Martinez foi pouco divulgada pela Revista do Colégio. Talvez por ter sido um período de poucas realizações concretas por parte de sua gestão ou até mesmo por crises financeiras.

60 Para maiores informações sobre a história desse período do Colégio Diocesano Pio X, consultar o exemplar da Revista do Colégio que se encontra no Arquivo Eclesiástico da Paraíba. Esse periódico narra os principais eventos que marcaram a história do colégio durante a época em que foi fundado até as primeiras décadas do século XX.

No dia 19, teve início o ano letivo no “Colégio Novo”, com “a presença de elevado número de alunos” (REVISTA DO COLÉGIO DIOCESANO PIO X, 1954, p. 13). Essa quantidade de mudanças vivenciada num curto espaço de tempo foi de grande importância para a veiculação da cultura escolar idealizada pela instituição, pois seus aspectos sociais, econômicos, políticos, culturais, religiosos e científicos foram introduzidos ao projeto educativo, cujo objetivo maior era a aculturação dos jovens que ali estudavam.