CAPÍTULO 2 – DO INÍCIO DE UMA HISTÓRIA: O EXEMPLO DO COLÉGIO
2.2 Da educação religiosa às escolas confessionais
A Escola católica
Num país católico como o nosso parece um paradoxo que ainda haja quem ignore o que seja a escola católica, a escola religiosa.
Poucos, bem poucos, podemos dizer sem exagero, tem uma noção exata da escola genuinamente cristã (A IMPRENSA, 1916, s/p).
O presente discurso publicado em 17 de Abril de 1916, nas páginas do jornal católico
A Imprensa, saiu em defesa da importância da escola católica para a formação intelectual e
moral da juventude paraibana, demonstrando a preocupação que tomou conta dos membros da Igreja Católica após a sua separação do Estado. Problemática que passou a fazer parte das discursões travadas dentro da Igreja brasileira, no final do século XIX, com a Proclamação da República. A ruptura das duas instituições tornou o ensino leigo. Ou seja, a Igreja Católica, que até o momento tinha exercido um forte controle sobre o ensino no país, perdeu essa hegemonia. Para Horta (2012, p. 81), “o Estado republicano rompe com o regime do Padroado e proclama-se leigo. A separação entre a Igreja e o Estado é oficializada por decreto em janeiro de 1890 e confirmada pela Constituição republicana de 1891”.
Ao estabelecer o Estado laico no Brasil, a Constituição republicana colocou em xeque o antigo poder exercido pela Igreja Católica na esfera nacional, perdendo, assim, sua posição de religião oficial e também parte de sua influência perante a sociedade. De acordo com Cavalcante Neto (2014, p. 8-9),
Assim, para fazer frente a essa situação política e garantir sua sobrevivência institucional, a Igreja procurou intensificar o processo de romanização da sociedade brasileira, com estratégias no campo interno (congressos, abertura e reforma dos seminários, a vinda de religiosos da Europa e da unidade pastoral dos bispos) e no externo (comunicações públicas por meio das cartas pastorais e da imprensa, visitas pastorais, conferências e liturgias), que produziram a sua reorganização no período de 1889 a 1930.
A criação das escolas confessionais foi uma das soluções encontradas pela Igreja Católica para lutar contra a instituição do Estado Laico. Esse modelo de escola passou a ser considerado como “um templo da ciência,a oficina da virtude, espaço onde a criança aprende, desde os albores de sua razão, a amar a justiça e odiar a iniquidade” (A IMPRENSA, 191). É um “prolongamento do lar, onde se vive a mesma vida de família – uma vida profundamente cristã, plena e perfeita, com seus hábitos de fé, obediência e trabalho”31
. É educativa ao se comprometer com a formação da vontade e do caráter. Segundo o discurso do jornal A
Imprensa, a escola religiosa trabalha no aperfeiçoamento da inteligência e faculdades dos
alunos, zelando pela formação de quase todas as qualidades humanas: física, psíquica, religiosa e moral. A organização e zelo pela educação passam a ser uma das principais virtudes do modelo de educação defendido pela escola religiosa:
Ao lado dos estudos há os brincos infantis; os passeios higiênicos alternam com os passeios instrutivos. O canto, a música, as festas, os desportos, as diversões de toda sorte são distribuídos de maneira que as horas de trabalho se sucedem umas às outras, sem que o aluno se enfade e se canse jamais32.
O discurso religioso se alinha com outros aparatos discursivos da época (brincadeiras, higiene, canto, música, festas, esportes) para legitimar a importância da escola religiosa. O religioso e o científico passaram a caminhar juntos, de mãos dadas, lado a lado. A educação física, moral e intelectual também ajudaram compor o projeto de romanização social. Os membros da Igreja Católica utilizaram inúmeras estratégias discursivas para justificar a relevância da instrução religiosa na formação do caráter dos alunos. Por esse motivo, os editores do jornal A Imprensa não economizaram tinta e papel ao criticar o modelo de ensino proposto pelo projeto de construção da escola leiga. “Não, não é a religião uma sobrecarga; sobrecarga é a moral leiga, a moral independente, a moral científica, com seus equivalentes, sem eficácia alguma, porque ela não exerce sua influência sobre o entendimento” (Idem, Ibidem). A escola leiga foi acusada de ser antipedagógica e anti-educativa. De incentivar a desarmonia e “uniformidade de métodos entre os próprios educadores”.
Foi com o objetivo em mente de ampliar a área de influência da educação religiosa, na Paraíba, opondo-se ao ensino leigo, que Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques33 dedicou parte de sua vida à construção de escolas confessionais. “Na prática, os colégios religiosos passaram a dar atenção especial a elite dominante, desejosos de educar seus filhos dentro dos padrões europeus” (SOUSA JÚNIOR, 2015, p. 205). Na realidade, a criação dessas instituições teve a intenção de manter viva na Paraíba a “hierarquia católica”, a preservação da fé e o controle eclesiástico da sociedade. Essas ações indicam que a
32 Idem.
33
Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques nasceu em 30 de Agosto de 1855, na cidade de Areia, brejo paraibano. Era filho do Cel. Idelfonso Clímaco de Miranda Henriques e Laurinda Esmeraldina de Sá de Miranda Henriques. Ainda cedo, dedicou-se ao estudo de filosofia no Seminário de São Suplício, em Issay, na cidade de Paris, França e Teologia no Colégio Pio Latino Americano, na cidade de Roma, Itália, “ascendendo ao presbiterado em 18 de setembro de 1880, em Loreto, Itália” (SOUSA JÚNIOR, 2015, p. 159). A nomeação como bispo ocorreu em 02 de Janeiro de 1894 e a ordenação em 07 de Janeiro do mesmo ano na capela do Cardeal Lucio Maria Parochi, bispo de Albano. No mesmo ano, no dia 04 de Março, assumiu a Arquidiocese da Paraíba, onde permaneceu de 1894 a 1935, ano de sua morte. Tinha como lema: Iter Para Tutum (Prepara o caminho seguro). Sua ordenação episcopal representou para a Igreja Católica paraibana um marco importante, pois, pela primeira vez, a Paraíba tinha a seu dispor seu próprio bispo, e com uma boa formação intelectual. Segundo Ricardo Grisi Velôso (2013, p. 83), “foi elevado a Arcebispo em 14 julho de 1914”. Atuou nas seguintes atividades, antes de exercer o Episcopado: foi professor do Seminário de Olinda (Filosofia, Frances e Direito Canônico); Cônego e Capelão de Santa Tereza – PE. Cônego do Cabido Diocesano; Diretor Espiritual do
Seminário de Olinda e Capelão do Orfanato de Santa Tereza – PE. Faleceu no dia 15 de Agosto de 1935, na capital paraibana, e encontra-se sepultado na Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves.
preocupação da Igreja Católica estava voltada para a formação intelectual e moral de jovens do sexo masculino e feminino.
Um dos caminhos encontrados pela cúpula da Igreja Católica para implantar seu projeto de romanização durante os primeiros anos da República foi buscando ampliar sua estrutura e influência diante da sociedade. Esta instituição, durante o movimento de romanização social, criou a Diocese da Paraíba, em 27 de Abril de 189234. Dois anos depois, Dom Adauto recebeu a incumbência de dirigir a diocese da Paraíba.
No período em que ficou à frente da direção da Igreja Católica local, Dom Adauto dedicou parte de seu trabalho no sentido de ampliar o projeto de romanização social, tentando reaproximar a Igreja do Estado. Nesse sentido, questões religiosas, políticas, sociais, econômicas, culturais e ideológicas passaram a ditar as regras do jogo político. Com isso, o bispo paraibano “lançou mão das estratégias que já vinham sendo dinamizadas pelos demais bispos reformadores brasileiros: consciência da comunhão da diocese com Roma, integração com os demais bispos do Brasil, organização estrutural e pastoral da Igreja” (CAVALCANTE NETO, 2014, p. 10), além do que ele mesmo chamou de “erros da modernidade”: positivismo, racionalismo, maçonaria, espiritismo, materialismo, anarquismo, protestantismo, socialismo, comunismo.
No sentido de dar um maior destaque para a formação do clero do Estado, no mesmo ano de sua posse, Dom Adauto criou o Seminário Episcopal Nossa Senhora da Conceição. O bispo criou colégios religiosos nas principais sedes da diocese, dedicados à formação intelectual e moral dos filhos de membros da elite paraibana (Paraíba) e potiguar (Rio Grande do Norte). No Quadro 3, encontram-se informações como o local, o ano e o público alvo dos colégios.
Quadro 3 – Colégios Católicos da Diocese da Parahyba do Norte (1894-1909). ESTABELECIMENTOS DE
ENSINO
CIDADE SEXO ANO
Colégio Diocesano Pio X Parahyba do
Norte
Masculino 1894
34
A Arquidiocese da Paraíba é uma circunscrição eclesiástica da Igreja Católica no estado da Paraíba, no Brasil. Sua sede é a Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, em João Pessoa. A Arquidiocese da Paraíba foi erigida em 27 de Abril de 1892, quando o Papa Leão XIII, pela Bula "Ad Universas Orbis Ecclesias", desmembrou da então Diocese de Olinda e Recife os territórios que compreendiam os estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba, constituindo, assim, uma nova diocese com sede na capital paraibana (então Parahyba). A nova Diocese só foi instalada dois anos depois, em 4 de Março de 1894, com a chegada do seu primeiro Bispo, Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques. Homem clarividente e empreendedor, Dom Adauto fundou, logo no dia de sua chegada, o Seminário e o Colégio diocesanos.
Colégio Nossa Senhora das Neves Parahyba do Norte
Feminino 1895
Colégio Santa Luzia Mossoró/RN Masculino 1901
Colégio Imaculada Conceição Natal/RN Feminino 1902
Colégio Santo Antônio Natal/RN Masculino 1903
Colégio Padre Rolim Cajazeiras/PB Masculino 1903
Colégio São José Parahyba do
Norte
Meninos pobres 1905
Seção no Colégio Nossa Senhora das Neves
Parahyba do Norte
Meninos pobres 1906
Escola Santa Inês Parahyba do
Norte
Meninos pobres 1909
Fonte: Elaborado pelo autor, a partir de informações colhidas em Cavalcante Neto (2014, p. 10).
A maior parte das escolas criadas por Dom Adauto atendia aos interesses das elites da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Mesmo assim, querendo ampliar a área de influência da Igreja Católica diante da sociedade, o bispo destinou algumas das escolas à assistência de crianças carentes (pobres) dos dois estados. O projeto de criação desses colégios pode indicar que Dom Adauto direcionou sua atenção para os assuntos da “educação formal da diocese”. Ele viu a educação como a melhor estratégia a ser utilizada para a formação de uma dada elite intelectual e também para divulgação da cultura escolar pretendida pela Igreja Católica, com o objetivo de ampliar e alinhar o catolicismo junto aos interesses do Estado, garantindo, dessa forma, “a continuidade dos princípios católicos na sociedade paraibana e na potiguar” (CAVALCANTE NETO, 2014, p. 11).
No dois estados, a Igreja Católica “buscou recuperar territorialidades a partir da proliferação das práticas instrucionais” (SILVA, 2013, p. 04). A criação dessas instituições educativas foi uma das soluções possíveis para se manter a hegemonia dos preceitos cristãos na sociedade, assim como para garantir a sobrevivência da instituição romana no Brasil. Na Paraíba, o esforço desempenhado por Dom Adauto para defender os interesses do catolicismo é notável. Dentre as instituições confessionais por ele criada, merece destaque o Colégio
Diocesano Pio X. A população paraibana reservou ao Colégio o título de “um autêntico
educandário cristão, desta forma, demasiado moralizador. Ao começar pelos hábitos ao falar, ao vestir, ao se comportar, em suma, as práticas e a disciplina cristã” (SILVA, 2014, p. 28).
Em 1932, Dom Adauto publicou nas páginas do jornal católico A Imprensa, a Carta
Pastoral: Das vantagens do ensino religioso. Na carta, o bispo não economizou nos
o tema da educação religiosa para os jovens do Estado, pautada nos ensinamentos do catolicismo.
Sim, Irmãos e filhos muito amados, o ensino religioso não nos faz ver somente que é Deus [...] mas nos faz ver também quem é a pessoa Divina de Jesus Cristo que, além da sua grande obra – a Igreja – quis, para perpetuar a sua missão salvadora, fazer-se homem como nós para ser também em sua vida mortal nosso modelo de humildade contra a soberba, origem primaria de todas as misérias deste mundo; modelo de obediência, de virtude, prudência, de justiça e fortaleza no bem [...]. Assim, caríssimos pais e mães de família si realmente quereis ter mais tarde a doce consolação e gloria de ver neles filhos obedientes, amigos dedicados e fieis, cidadãos prestimosos, sacerdotes modelos (se para este estado Deus os chamar), pais de família exemplares, instrui-os na sagrada e infalível doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, no catecismo desde a sua infância com palavras e bons exemplos, os sentimentos das virtudes cristãs e obediência aos mandamentos de Deus (HENRIQUES, 1932, p. 4-7).
A fala de Dom Adauto indica a preocupação que tomou conta da Igreja Católica da Paraíba, no que diz respeito ao tema da educação dos jovens e o papel desempenhado pela família nesse processo. “Para o Arcebispo, o ensino religioso era a base fundamental para a formação da personalidade e do comportamento do cidadão, pois este conhecimento religioso poderia torná-lo um cidadão do bem e defensor dos princípios cristãos” (SOUSA JÚNIOR, 2015, p. 209). Foi com esse intuito, de propagar a fé católica através de escolas confessionais, que Dom Adauto depositou parte de seus esforços no projeto de edificação de colégios com viés religioso.
A atuação de Dom Adauto na educação formal da Paraíba foi bastante expressiva. “Os Colégios na Paraíba eram, explicitamente, uma reação ao parágrafo 6º do Artigo 72 da Constituição: Será leigo o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos” (SOUSA JÚNIOR, 2015, p. 211). Ele passou a ver na educação uma estratégia possível para a estruturação da Igreja Católica da Paraíba, já que parte dos jovens que estudavam nessas escolas futuramente passaria a ingressar nos quadros eclesiásticos da própria igreja, como seminaristas, e participariam da formação de futuros intelectuais católicos que seriam responsáveis diretos no processo de divulgação dos projetos da Igreja.