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CAPÍTULO 3 - DA PEDAGOGIA DO ESPAÇO: CULTURA ESCOLAR E

3.3 Do programa de ensino à divisão dos cursos

Em Julho de 1938, a Revista do Colégio Diocesano Pio X, em seu terceiro número, anunciou que o Colégio, em seu ano de criação, obedecia ao mesmo programa de ensino do

Seminário Arquidiocesano. Apenas “em 1895 aparece ele definitivamente delimitado e posto

em prática”. Antes da organização de programa seu programa de ensino, “só uma disciplina” existia e era “ensinada aos poucos alunos então matriculados – português”. Tempos depois, a quantidade de cursos foi ampliada. Foram criados: o primário, o médio e o secundário. “O curso primário é dividido regularmente em três anos, compreendendo caligrafia, leitura, noções de cálculo, rudimentos de história, de geografia, desenho e português” (REVISTA DO

COLÉGIO DIOCESANO PIO X, 1938, nº 3, s/p).

O programa de ensino do primeiro ano do curso primário era composto pelas matérias de português, francês e latim. O curso secundário foi organizado em quatro anos, englobando “as seguintes disciplinas: português, francês, geografia, aritmética e álgebra, história universal e do Brasil, geometria e trigonometria e latim”. Em 1898, o curso secundário ganhou “o ensino do inglês”. Em 1900, teve a complementação do “estudo de outras novas disciplinas: física e química, história natural, história sagrada e religião”. Até o início de 1906, “nenhuma mudança se introduziu no programa de ensino”. Foi dessa forma que o programa de ensino do

Colégio Diocesano Pio X ficou organizado e distribuído em sua “primeira fase”. “O Colégio

Diocesano foi, ainda em sua primeira fase, uma sementeira fecunda”. Organizou sua cultura escolar com base nos discursos científicos e religiosos defendidos pela Igreja Católica: “educou uma geração inteira, dando à família e à pátria mentalidades pujantes, homens de bem e cidadãos prestimosos” (REVISTA DO COLÉGIO DIOCESANO PIO X, 1938, nº 3, s/p).

Em seu artigo de número oito, o Regimento Interno do Colégio Diocesano Pio X descreveu as principais características dos quatros cursos oferecidos pela instituição a seus alunos: o Infantil, Primário, Secundário e o Comercial. No Quadro 6, estão organizados os cursos com suas especificidades.

Quadro 6: Os cursos do Colégio Diocesano Pio X.

1º - Curso Infantil. -

2º - Curso primário.

O curso primário estava dividido em quatro anos e tinha o objetivo de preparar os alunos para o curso secundário e comercial. “Parágrafo único – o 4º ano primário tem programa igual ao determinado pelo Departamento Nacional de Ensino”

(REVISTA DO COLÉGIO DIOCESANO

PIO X, 1929, s/p).

3º - Curso secundário.

Esse curso seguia a grade de matérias do Colégio Pedro II, habilitando os alunos para os cursos de ensino superior. “Paragrafo único – Os exames do curso secundário são feitos na sede do estabelecimento perante Inspetor Federal e Juntas examinadoras, nomeados pelo Director Geral do Departamento Nacional do Ensino, sendo os certificados validos para a matrícula em qualquer Gymnasio ou Faculdade do Paiz”

(REVISTA DO COLÉGIO DIOCESANO

PIO X, 1929, s/p).

4º - Curso comercial.

O curso comercial estava dividida em quatro anos e seguia as disciplinas “exigidas nas Academias de Comercio”. “Paragrafo único – Aos alumnos que tiverem concluído o curso comercial será conferido um diploma de guarda-livros” (REVISTA DO COLÉGIO

DIOCESANO PIO X, 1929, s/p).

Fonte: Quadro elaborado pelo autor da tese, 2020.

O Regimento Interno do Colégio funcionou como instrumento de normatização e

transformação de condutas dos alunos. A criação e a implantação desse tipo de documento tiveram como objetivo introduzir um autocontrole sobre os sujeitos que faziam parte integrante do processo educativo. Processo esse que visou uma maior economia dos desejos e do tempo, educando suas pulsões, emoções e condutas. Tudo isso faz parte daquilo que Norbert Elias (2011) chamou de processo civilizador. Esse tipo de ideia passou a ser sentido no Brasil no início do século XX, a partir do crescente desenvolvimento urbano e industrial que os sujeitos vivenciaram com mais intensidade. Nessa nova sociedade que emergira, era preciso homogeneizar as condutas e racionalizar os comportamentos. Nisso, o espaço educativo desempenhou papel importante. Na escola, comportamentos, falas, gestos, posturas, vestimentas, trato com o corpo e o aprimoramento intelectual passaram por uma rigorosa disciplina.

Em 15 de Janeiro de 1915, o jornal católico A Imprensa divulgou uma propaganda do Colégio, com os seguintes dizeres: “Colégio Diocesano ‘Pio X’: Fundado em 1894”. Possuía os cursos: “Primário, Secundário fundamental e Secundário especial para admissão às Escolas Superiores”. Segundo a matéria: “este Colégio funciona em edifício próprio, vasto e excelente, e dispõe de um corpo docente ilustrado e dedicado” (A IMPRENSA, 1915, s/p). Aceitando a matrícula de alunos nas modalidades: internos, externos e semi-internos.

De acordo com o artigo doze do Regimento Interno do Colégio Diocesano Pio X, a instituição possuía as seguintes “categorias de alunos”: internos, semi-internos, vigiados e externos. Sobre a categoria dos alunos internos, o artigo treze dizia que eles teriam “sahida no primeiro domingo de cada mês, com a condição, todavia de terem alcançado durante o mês anterior notas satisfatórias em comportamento, adiantamento e regência” (REVISTA DO

COLÉGIO DIOCESANO PIO X, 1929, s/p)61.

Enquanto o artigo quatorze tratou da inscrição no “quadro de honra” do Colégio, que daria “direito a uma sahida extraordinária antes das seis horas da noite. Inciso 1º - Exige-se rigorosa pontualidade na volta; um atraso notável importará na supressão da sahida subsequente”, o inciso segundo deste artigo destacou a importância da manutenção da disciplina interna dos alunos. Para que a ordem, disciplina e respeito fossem mantidos, era preciso que as famílias respeitassem as regras estabelecidas pelo Regimento Interno, referentes a pedidos feitos para “saídas extraordinárias por motivos de aniversários, festas, etc”, muito menos solicitar que seus filhos perdessem tempo fazendo “compras na cidade”. “As famílias que pedem sahidas contrariamente as estas regras contribuem para o relaxamento da disciplina e prejudicam a boa ordem assim como progressos de seus filhos”62.

Tratando ainda das obrigações e deveres dos alunos internos, o artigo dezesseis do

Regimento Interno afirmou que “todos os meses o director mandará aos paes dos alumnos

internos um boletim sobre a saúde, procedimento e aplicação dos meses”. O dezessete alertou que “toda a correspondência dos alumnos está sujeita a fiscalização do Diretor”. O dezoito lembrou aos pais e alunos que no Colégio havia “um gabinete dentário”, portanto, não havia a necessidade de os alunos saírem para realizar “tratamento de dentes em consultório fora do colégio, como também não se permitem sahidas especiais para confeccionar roupas”63. No dia 24 de Maio de 1938, a Revista do Colégio Diocesano Pio X publicou em suas páginas uma

61

Ver Revista do Colégio Diocesano Pio X, 1929, s/p.

62 Idem.

fotografia de um grupo de alunos internos que aparecia sob a companhia dos diretores do Colégio, que ocupam o centro da imagem, como pode ser visto na Figura 13:

Figura 13 - “O internato do Colégio”.

Fonte: Revista do Colégio Diocesano Pio X, 1938, nº. 2, s/p.

Sobre os alunos semi-internos, vigiados e externos, o artigo dezenove do Regimento

Interno destacou que eles “deverão comparecer ao Colégio todos os dias, com exceção dos

domingos, dias santos, feriados e quinta feira á tarde”. Os alunos “semi-internos da classe “A” deveriam entrar no Colégio às sete horas da manhã, onde permaneciam o dia todo; almoçavam e jantavam antes da saída às dezenove horas. “Os semi-internos da classe “B” compareciam às sete horas da manhã, permaneciam o dia, almoçavam e se retiravam às dezesseis horas e meia da tarde. Os externos chegavam ao Colégio às oito horas e saiam às onze horas, voltavam de meio dia e meia e saíam às três horas e meia da tarde. Enquanto os vigiados são “os alumnos externos que assistem às bancas. Devem comparecer das 7 às 19 horas. Nos intervalos das aulas e das bancas vão tomar as refeições em casa. Além das contribuições pagam 10$000 mensais” (REVISTA DO COLÉGIO DIOCESANO PIO X, 1929, s/p). No documento, há uma normatização e racionalização do tempo e do espaço. As três categorias de alunos citadas acima tinham direito a uma maior flexibilização do tempo de estudos, como o direito de dormir em casa. O controle espacial e temporal era maior sobre os alunos internos que praticamente residiam nas dependências da instituição.

O artigo vinte e dois do Regimento Interno ficou reservado ao tema das faltas. Caso o aluno cumprisse com o horário de entrada e saída do Colégio, a família era avisada por escrito: “devendo aquelles, quando regressarem ao Colégio, trazer um cartão dos paes ou correspondentes justificando a falta”.64 Em seu artigo vinte e três o Regimento Interno, possibilitava que os pais fossem avisados do rendimento escolar de seus filhos através da emissão de uma caderneta semanal, contendo as médias obtidas pelo aluno ao longo da semana em todas as matérias matriculadas: “no fim de cada mês escreve-se nella o resultado das composições. Esta caderneta deve ser devolvida na segunda-feira assignada pelos paes ou responsáveis”65.

Por se tratar de uma escola particular e tradicional voltada para a educação de crianças e adolescentes pertencentes às oligarquias paraibanas, o artigo vinte e quatro tratou das “Pensões”. Aqueles pais que optassem em educar seus filhos no Colégio Diocesano Pio X tinham que dispor de uma boa condição financeira. “Os pagamentos são feitos adiantadamente sendo os dos internos por trimestre e dos semi-internos e externos por mês”66. De acordo com o artigo vinte e cinco: “o trimestre começado considera-se vencido com relação ao pagamento da pensão e nenhuma retribuição se fará por motivos de passeios, férias na sahida durante o ano letivo”67

. O artigo vinte e seis dizia que a matrícula anual custava em torno de 20$000 reis para os internos, 15$000 reis para os semi-internos e 10$000 reis para os externos. Segundo o artigo vinte e sete, quase todos os cursos oferecidos pelo Colégio eram pagos: “para aulas de piano, violino, flauta, dactytolographia paga-se 20$000 mensaes”68. A lavagem da roupa utilizada pelos alunos no dia a dia era paga por eles: “a lavagem da roupa poderá ficar a cargo do colégio mediante 10$000 mensaes”69.

Segundo o artigo vinte e nove: “os alumnos do 4º ano comercial pagarão a taxa de 15$000 mensaes para a aula prática de dactylographia”. O artigo trigésimo lembrava aos pais que “os fornecimentos escolares, despesas de cabelereiro, correio, vestuário, médico, remédios, etc, forma uma verba a parte paga juntamente com a pensão”. O artigo trigésimo primeiro afirmou que a gymnastica sueca era obrigatória “para todos os alumnos do curso primário”, mediante pagamento da quantia de “2$000 mensaes”. O artigo trigésimo segundo destacou que o aluno que apresentasse mau comportamento e que por algum motivo danificasse o patrimônio do Colégio seria imediatamente punido com o pagamento de uma

64Ver Revista do Colégio Diocesano Pio X, 1929, s/p.

65 Idem.

66 Ibidem.

67

Ver Revista do Colégio Diocesano Pio X, 1929, s/p.

68 Idem.

indenização “pelos estragos feitos” (REVISTA DO COLÉGIO DIOCESANO PIO X, 1929, s/p).

Já o artigo trigésimo sexto trouxe a lista dos principais objetos que os pais deveriam comprar para o enxoval dos filhos aprovados nos exames de admissão do Colégio Diocesano

Pio X. A lista era composta dos seguintes itens: dois “fardamentos kaki, conforme modelo do

Colégio (obrigatórios)”; seis “ternos de roupa diária”; seis “camisas”; seis “lençóis”; seis “pares de meias”; quatro “toalhas de banho”; quatro “lençóis, tendo 2 metros de comprimento e 1, 50m de largura”; um “cobertor de lã”; duas “cobertas”; um “travesseiro de 0, 70m de comprimento e 0, 40m de largura”; dois “sacos para roupa servida”; quatro “guardanapos”; um “par de botinas para sahir”; além dos produtos de higiene pessoal, como: “escovas, pente, tesouras, chinelos, espelho pequeno e o que forem necessário para hygiene e asseio”. O enxoval deveria “ser marcado a retroz com o número que for designado na ocasião da matrícula”70

.

No capítulo das “disposições gerais”, o artigo trigésimo oitavo lembrou aos pais da importância de se manter a pontualidade na entrega do enxoval, “pois a experiência prova que os alumnos atrasados na entrada, dificilmente recuperam o tempo perdido”. O artigo trigésimo nono se referia diretamente às famílias que residiam em outros estados e que enviavam seus filhos para estudar no Colégio. Neste caso especifico, era exigido que os pais mantivessem em João Pessoa “um correspondente encarregado dos pagamentos e de providenciar em [...] moléstia grave ou de sahida”.

Enquanto isso, o artigo quadragésimo alertou que “todo alumno admitido no Colégio deve cumprir o regimento interno em todas as suas particularidades”. O cuidado com a ordem e disciplina perpassava todas as dimensões de ensino. Manter a disciplina era ponto essencial para a preservação do nome do Colégio. De acordo com o artigo quadragésimo primeiro: “é rigorosamente prohibido, entre alumnos, qualquer transação; venda, compra, troca etc. quer em dinheiro, quem em objetos, sob qualquer pretexto”. No artigo seguinte, estava claro que “o Colégio não se responsabiliza pelo extravio de dinheiro em objeto de valor que não tenham sido confiados à sua guarda”. O artigo trigésimo terceiro, o último do Regimento Interno, afirmou que “o alumno, ao voltar para sua casa, deverá levar tudo que lhe pertence, visto como o Colégio não se responsabiliza pelos objetos que elle deixar”71.

Da maneira como foi organizado o Regimento Interno, depreende-se que o Colégio

Diocesano Pio X construiu sua cultura escolar pautado numa série de regulamentos, normas e

70 Ver Revista do Colégio Diocesano Pio X, 1929, s/p.

diretrizes que perpassaram várias instâncias do processo educativo. O documento controlou todo o percurso percorrido pelos alunos no período em que permaneceram no Colégio. O modo como eram selecionados; o controle dos comportamentos; os cursos oferecidos; o preço das mensalidades; a disponibilidade de cursos complementares; e o vestuário a ser utilizado. Com isso, deduzo que ser aluno da presente instituição não era fácil nem custava barato. Apenas membros das oligarquias do Estado dispunham de recursos para matricular e manter seus filhos estudando na instituição.