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5. Âmbito pessoal de validade da lei

6.1. Da boa governança administrativa Probidade

Os constituintes de 1988, cientes dos desmandos advindos de um Estado autoritário sem limites e sabedores do estágio de formação moral da sociedade brasileira, reforçaram na Constituição brasileira a proteção da probidade das relações entre os diversos agentes da sociedade, fazendo menção direta ao comportamento probo a ser observado pelo setor público.

Assim, elegeu como um dos princípios gerais norteadores da atividade administrativa a moralidade131, sendo o princípio da probidade administrativa uma especificidade daquela132.

131

BRASIL.Constituição Federal (1988), art.37, caput.

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Na condição de bem jurídico, a probidade administrativa representa um valor cultural fundamental da sociedade, com capacidade e necessidade de proteção jurídica. Sua relevância pode ser evidenciada em diversas passagens da Constituição Federal: a proteção do bem jurídico pode ser percebida nas medidas processuais postas à população para proteção da moralidade pública e para vedação do abuso de poder, ação popular e mandato de segurança133; nas consequências geradas a quem ofende diretamente a probidade administrativa, como inelegibilidade, perda ou suspensão de direitos políticos, perda da função pública, indisponibilidade dos bens, ressarcimento ao erário dos prejuízos causados pela ação ímproba, responsabilização penal, crime de responsabilidade134.

Os dispositivos constitucionais demonstram a preocupação da sociedade em construir um Estado dotado de pessoas idôneas, que conduzam a administração e a execução do interesse público com ética e boa fé objetiva, transparência, isonomia, eficiência, sem extrapolações ou abuso de poder, quer do lado da Administração, quer do lado do agente privado. Se a moralidade compreende o conjunto de valores inerentes à existência humana, a probidade configura a retidão no agir consoante tais valores, perante uma dada atribuição, a administrativa.

O dever de lealdade do agente público à sociedade da qual ele faz parte pressupõe um agir com ética, nos limites da legalidade material e formal. O dever de retidão não é apenas do agente público com a sociedade, mas da sociedade com o agente público. Da mesma forma que a Administração deve zelar pela atuação proba de seus agentes públicos, o particular, ao se relacionar com a Administração, quer em processos licitatórios, quer na relação como contribuinte ou como peticionário de uma licença ou autorização, deve fazê-lo seguindo os preceitos formais e materiais da legalidade, que traduzem a atitude ética esperada por todos.

A probidade das relações é bem jurídico que embasa o Estado Democrático de Direito, que lhe dá suporte e efetividade. A boa fé objetiva voltada para uma conduta leal e confiável, independentemente de considerações subjetivas, impõe parâmetros de conduta a quem se relaciona com o Estado, parâmetros esses que não se baseiam em valores morais da sociedade, mas na moral administrativa, qualificada pelo regime jurídico de direito administrativo.

133

BRASIL.Constituição Federal(1988),art. 5º, LXVII, LXXIII.

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No âmbito das relações administrativas, a probidade impõe um padrão de conduta a ser respeitado pelo agente público e pelo particular, consubstanciado na transparência e na retidão na condução dos interesses de ambos, na proteção ao patrimônio público, no respeito à competitividade, à isonomia, à igualdade de tratamento, o respeito à legalidade substancial. Espera-se que o particular não tente desviar o comportamento íntegro do agente público nem se seduza pelo ganho fácil sugerido por alguns malfeitores revestidos de agentes públicos.

A obrigação constitucional de agir com probidade administrativa, ou seja, de zelar pelo patrimônio público, com honestidade e eficiência no exercício da função pública, respeitando os princípios e ditames legais condutores da ação administrativa, abrange os particulares, seja no exercício da função pública (equiparando-se ao agente público), seja na relação de subordinação ao poder de polícia estatal, ou na relação contratual estabelecida ou a se estabelecer.

Os vínculos que o setor público estabelece com o setor privado estão irremediavelmente impregnados pela tutela à probidade administrativa, em decorrência do interesse público que permeia essas relações.

Uma relação só se qualifica como relação jurídico- administrativa quando, em um dos seus polos, está um centro personificado de função administrativa. Esse tipo de relação, simples ou complexa, está sob o influxo do direito público que regula a atividade administrativa, Ao ser constituída, na defesa dos interesses públicos inerentes à estrutura relacional, acompanha a sua formação o dever de plena conformidade da atuação de ambas as partes- agentes públicos e terceiros de subordinar-se à observância rigorosa da probidade administrativa. Os dois segmentos da relação estão atrelados a seguir parâmetros éticos jurídicos de probidade, porque contra a conduta desvirtuada de ambos se protege o interesse que serve de ratio para a vida da relação.135

A probidade administrativa é bem jurídico a ser protegido, quer em relação ao agente público, quer em relação a quem, não sendo agente público, concorre na prática de improbidade administrativa.

A lei 12.846/13 ao buscar a proteção de uma Administração de boa governança elege como valor a ser tutelado não apenas o princípio da probidade administrativa, mas os princípios gerais da Administração pública.

135 OLIVEIRA, José Roberto Pimenta, Improbidade Administrativa e sua Autonomia Constitucional,

Os princípios da probidade e da moralidade pública, do tratamento isonômico, da impessoalidade e da objetividade do julgamento, da eficiência, da publicidade, da legalidade permeiam as relações da Administração com o setor privado. Devem estar presentes no procedimento licitatório, nas contratações, nas diversas relações contratuais e extracontratuais que o setor público trava com o setor privado. O espectro de princípios é amplo e não se resume aos expostos no art. 37, caput da Constituição Federal.

A Lei 12.846/13 selecionou algumas condutas cuja lesão a esses princípios se apresenta frequente, além de grave. Conceber os princípios da administração pública como bens jurídicos importa em situa-los como um valor a ser assegurado a todos. Não é qualquer comportamento que contrarie os princípios da administração pública que serão considerados infracionais, somente aqueles descritos pelo legislador. Mas os mesmos só foram qualificados como ilícitos pelo legislador em razão de sua prática resultar na lesão aos princípios administrativos.

A proteção de uma administração de boa governança corresponde a proteção aos direitos e garantias individuais, pois para assegurar tais direitos a cada individuo social é necessário contar com uma Administração que se conduza pelo interesse público e pela integridade em suas relações.