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1. Convenções internacionais contra a corrupção

2.1. Norma de implementação de direitos fundamentais

Quando nos referimos a direitos fundamentais, estamos nos reportando a um conceito de Direitos Humanos que envolve a um só tempo a proteção da liberdade do indivíduo perante o Estado, restringindo o poder estatal, que deve se abster de realizar certas condutas, e a existência de direitos individuais e coletivos a serem prestados e garantidos pelo Estado a toda sociedade.

Trata-se de conceito dinâmico, uma vez que os direitos e garantias da sociedade em relação ao Estado evoluem, multiplicam-se, alteram seu sentido, sendo vedado apenas o retrocesso, ou seja, a eliminação de direitos e garantias já

conquistados. O dinamismo do conceito é chancelado pelo art.5º da Constituição Federal, em seu parágrafo 2º.

O texto constitucional consagra como direitos fundamentais os direitos civis, políticos e sociais e, no intuito de reforçar a imperatividade desses direitos, instituiu o princípio da aplicabilidade imediata dessas normas21. Conforme comenta Flávia Piovesan:

Esse princípio realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos, liberdades e garantias fundamentais, prevendo um regime jurídico específico endereçado a esses direitos. Vale dizer, cabe aos poderes públicos conferir eficácia máxima e imediata a todo e qualquer preceito definidor de direito e garantia fundamental. 22

Para André de Carvalho Ramos, as Convenções Internacionais que tratam do combate à corrupção são instrumentos de efetivação dos direitos humanos uma vez que visam garantir o direito de todos a uma administração proba, que bem utilize os escassos recursos da sociedade para o bem comum e não para a obtenção de vantagens e privilégios de uma minoria23. A dimensão objetiva dos Direitos humanos origina deveres de conduta do ente estatal e do privado para a efetiva implantação dos direitos subjetivos existentes. Conforme comenta o jurista:

A dimensão objetiva dos direitos humanos consiste em reconhecer que os direitos humanos não devem ser entendidos apenas como um conjunto de posições jurídicas conferidas a seus titulares, mas também como um conjunto de regras impositivas de comportamentos voltadas à proteção e satisfação daqueles direitos subjetivos conferidos aos indivíduos. De fato, essa dimensão objetiva faz com que direitos humanos sejam regras de imposição de deveres, em geral ao Estado, de implementação e desenvolvimento dos direitos individuais.24

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Constituição da República Federativa do Brasil (1988), art.5º, §1º.

22 PIOVESAN, Flávia . Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional, São Paulo: Max

Limonad,1997, p. 64.

23 RAMOS, André de Carvalho. O combate internacional à corrupção e a lei da improbidade. In:

SAMPAIO, José Adercio Leite (Org.) et al. Improbidade administrativa: 10 anos da Lei 8429/92. Belo Horizonte: Del Rey; Brasília: ANPR, 2002.

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Se a atuação estatal deixa de ter como finalidade o bem comum e passa a ser dirigida pelo interesse particular de seus agentes, aliado ao poder e ao interesse econômico de terceiros, servindo o conceito de interesse público apenas como máscara de uma atuação ilícita, é certo que haverá um embotamento dos direitos fundamentais, como saúde, educação, visto que as verbas destinadas à garantia desses direitos, serão desviadas para o bolso dos corruptos (agentes públicos e privados).

A corrupção é fator crucial de não implementação dos direitos sociais, ao erodir a capacidade de investimento do Estado ou desvirtuar seus objetivos, fazendo com que suas ações favoreçam poucos em detrimento do bem comum.25

Veja o caso recente de corrupção envolvendo pessoas jurídicas e o setor público: Na operação Lava Jato (operação que apura suspeita de corrupção na Petrobrás, envolvendo desvios de recursos públicos, por meio de contratos superfaturados firmados com pessoas jurídicas do setor privado), o volume noticiado de recursos desviados dos cofres da Petrobrás já soma a quantia R$ 6 bilhões. Os recursos desviados poderiam prover a milhares de crianças o direito fundamental à educação.

O direcionamento de verbas para contas particulares, enquanto a população se vê carente e privada de seus direitos fundamentais básicos, fere o Estado Democrático de Direito.

A operação “lava jato” é um exemplo prático de como a mácula da corrupção pode atingir direta e indiretamente os direitos fundamentais, nessa operação os danos foram extensos:

Os desvios de recursos da Petrobrás colocaram a empresa em uma situação econômico-financeira de risco, o que a levou a rever seus investimentos e a descumprir muitos de seus contratos. Empresas foram fechadas em razão da inadimplência da Petrobrás, postos de trabalho foram extintos, frustrando o direito de todo cidadão ao emprego.

O Estado do Ceará, apostando no desenvolvimento econômico que a construção e a instalação de uma refinaria de petróleo poderia proporcionar ao povo

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RAMOS, André de Carvalho. O combate internacional à corrupção e a lei da improbidade. In: SAMPAIO, José Adercio Leite (Org.) et al. Improbidade administrativa: 10 anos da Lei 8429/92. Belo Horizonte: Del Rey; Brasília: ANPR, 2002. p.17

cearense, gastou 657 milhões para viabilização inicial da refinaria Premium II, a ser construída pela Petrobrás em compromisso firmado entre a estatal e o governo cearense. Mas, após a exposição da corrupção na Petrobrás, a empresa decidiu suspender as obras de instalação da refinaria em razão da dificuldade da estatal de obter recursos para financiar o projeto. A infiltração da corrupção nas atividades da estatal comprometeu a saúde fiscal da empresa, sua imagem diante dos investidores e seu planejamento de investimentos. Para o governo do Ceará, representou, além do prejuízo de 657 milhões no orçamento estatal, a perda de uma alternativa de desenvolvimento para o Estado que geraria milhares de empregos, recursos, desenvolvimento social e econômico para a região.

Pode-se citar outro exemplo de danos aos direitos fundamentais, gerados pelo desvio de verbas, como a corrupção que atingiu vários segmentos, na operação “Concutare” da polícia federal do Rio Grande do Sul. O direito a um meio ambiente sadio e equilibrado foi violado por atos corruptos envolvendo servidores públicos, sociedades empresariais e consultores ambientais, que obtinham concessões e licenças ambientais minerais junto aos órgãos de controle ambiental

Fica claro que o combate à corrupção é uma imposição para que a proteção e a satisfação dos direitos fundamentais seja efetiva. Assim, o direito a uma Administração proba passa a ser um direito fundamental do cidadão, pois é através dele que os demais direitos fundamentais poderão ser garantidos pelo Estado. A Lei 12.846, ao reprimir condutas que desviam o poder público de seu dever de agir em defesa do interesse coletivo, está garantindo a efetividade dos direitos fundamentais, além de representar a concretização de compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro.

As convenções internacionais contra a corrupção bem como a Lei 12.846/2013 revelam-se mecanismos de implementação de direitos humanos26, ao objetivar a garantia de uma atuação proba do ente estatal e de quem se relaciona com ele. Somente com o respeito aos princípios da legalidade, da isonomia, transparência, eficiência, economicidade, moralidade das relações entre o público e o privado é possível vislumbrar a implementação dos direitos fundamentais. A conduta proba na administração dos recursos públicos é um dever e uma garantia

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O termo “direitos humanos”, no presente trabalho, é utilizado como sinônimo do termo “direitos fundamentais” em razão do conceito exposto no primeiro parágrafo do item “a”.

de todo ser social, da pessoa física, jurídica, pública ou privada, sendo direito fundamental e elemento basilar do Estado Democrático de Direito.

A Lei 12.846/2013 cumpre importante papel na implantação desse direito fundamental. Apesar de não se referir em nenhum momento ao termo “corrupção”, a finalidade de suas disposições é a de proteger o patrimônio estatal e combater as condutas desvirtuadas estabelecidas no seio das relações entre pessoa jurídica e poder público que acabam por corromper os princípios da boa-fé, da honestidade, da eficiência e impessoalidade no trato da coisa pública. É a condução proba da Administração, sem desvios de conduta, direcionada ao interesse público, que a lei 12.846/2013 tenta preservar, para contribuir com a efetivação dos demais direitos fundamentais.

Sendo instrumento de efetivação de direitos fundamentais, a Lei 12.846/2013 deve ser aplicada de imediato, conforme dispõe o art.5º, §1º, da Constituição Federal, reforçando a imperatividade de suas disposições. A ela se aplica ainda o princípio da vedação ao retrocesso, e, dessa forma, toda regulamentação que venha a ser expedida para execução plena de seus preceitos não poderá fragilizar ou atenuar seus mecanismos de combate à corrupção.