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2 O CONTEXTO HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E

2.2 DA DÉCADA DE 30 E 40: AS REFORMAS FRANCISCO CAMPOS E

A Reforma Francisco Campos, ocorrida no início da década de 30, acirra a dualidade no campo educacional. Embora tal reforma tenha sido inovadora no quesito de propiciar uma organização ao ensino secundário (Decreto nº 19.890 de 18/04/31), ela radicaliza o caráter dual uma vez que não possibilitava aos estudantes do ensino profissional prosseguir seus estudos no ensino superior (MANFREDI, 2002). Por mais que a reforma tenha sido responsável por estruturar o ensino secundário9 e se tenha tratado de uma ação mais objetiva do estado com relação à educação, ela foi de cunho elitista, já que o ensino secundário, único que permitia acesso ao nível superior, trazia em sua estrutura um “currículo enciclopédico, aliado a um sistema de avaliação extremamente rígido, controlado do centro, exigente e exagerado quanto ao número de provas e exames” (ROMANELLI, 2005, p. 137), e isso fez com que “a seletividade fosse a tônica de todo o sistema”, aspectos esses que dificultavam o acesso das classes mais baixas a essa modalidade de ensino.

Em 1932, destacamos os ideais do Manifesto Pioneiro da Educação Nova, que teve como seus principais representantes Anísio Teixeira10 e Fernando Azevedo. Esse manifesto defendia a universalização da educação e apresentava uma proposta de escola igual para todos. Esses ideais serviram de base para uma proposta do anteprojeto destinada ao capítulo da Educação, que seria incorporado à Constituição de 1934. Essa proposta se fundamentava numa concepção de educação democrática, “destinada a oferecer a todos os brasileiros as mesmas oportunidades de ordem educacional, limitadas tão somente pelas suas diferentes capacidades”; humana, “destinada à formação integral do homem e do cidadão”11, e “geral, leiga e gratuita”, para que não houvesse possibilidade de “restrição ou diversificação” entre os educandos de “ordem social, doutrinária, religiosa ou econômica” (GHIRALDELLI JR, 2006, p. 73).

No entanto, os ideais de escola única não se concretizaram. Getúlio Vargas logo outorgou uma nova Constituição o que impossibilitou a concretização de tais ideais.

Nesse período, o país passou por uma profunda transformação que se fez sentir no campo econômico, na esfera social e nas diretrizes políticas. O Brasil deixava de ser um país eminentemente agrícola e passava a surgir como nação industrial. Novas políticas são

9Nível de ensino conhecido atualmente como Ensino Médio.

10Anísio Teixeira foi quem liderou o grupo responsável por redigir o anteprojeto da LDB. Concluído em 1948,

após 13 anos de discussões e alterações/reformulações, foi aprovado em 1961. (CUNHA, 2005)

orientadas para o campo da educação “com o objetivo de atender às demandas do processo de industrialização e do crescimento vertiginoso da população urbana, começando pela criação do Ministério da Educação e da Saúde em 1930” (SANTOS, 2003, p. 216).

Das Escolas de Aprendizes Artífices, exigia-se ir além da “aprendizagem das profissões elementares”, já que “a evolução das indústrias no país já exigia um operariado com conhecimentos especializados e de nível superior ao do ensino primário” (FONSECA, 1961, p. 208). Nesse contexto, é publicado o decreto 24.558, de 3 de julho de 1934, que previa:

[...] uma expansão gradativa do ensino industrial com a anexação, às escolas existentes, de secções de especialização condizentes com as indústrias regionais. Previa, também, aquele ato a possibilidade de instalação, por parte do Governo Federal, de novas escolas industriais que atendessem às necessidades das indústrias da região. (FONSECA, 1961, p. 208)

Houve o desligamento da Escola de Aprendizes do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio para se integrar ao Ministério da Educação e da Saúde Pública. Em 1937, o ministro Gustavo Capanema faz uma reforma no Ministério da Educação e Saúde Pública, que resulta na mudança da denominação dada ao ministério, que passa a se chamar Ministério da Educação e Saúde. Tal reforma também trouxe alterações na denominação dada às escolas onde se aprendiam ofícios, que passaram a se chamar Liceus. A Lei 378, que tratou de legalizar essa reforma, trazia em seu artigo 37 o seguinte texto: “A Escola Normal de Artes e Ofícios Venceslau Brás e as Escolas de Aprendizes Artífices, mantidas pela União, serão transformadas em liceus, destinados ao ensino profissional de todos os ramos e graus” (FONSECA, 1961, p. 209).

Em 1942, o ensino profissional ainda não dispunha de uma regulamentação geral e uniforme, até que entra em vigor a Reforma Capanema (1942 a 1946), que foi instituída através das Leis Orgânicas, nome que designou o conjunto de Decretos-Lei que serviram para normatizar os seguintes ramos do ensino: secundário, industrial, comercial, agrícola, normal e primário.

Foi nesse período que se estabeleceu uma medida de grande relevância para o ensino profissional, que deixa de pertencer ao grau primário para passar ao secundário. Tal medida elevou a categoria do ensino profissional e permitiria sua articulação com outras modalidades de ensino. Instaurava-se a garantia do ingresso em escolas superiores aos portadores de diploma de um curso técnico, mas esse acesso era restringido aos cursos superiores que estivessem diretamente relacionados com o curso técnico concluído (FONSECA, 1961).

Nesse momento, é publicado o Decreto nº 4.127, de 25 de fevereiro de 1942, que transforma as Escolas de Aprendizes e Artífices em Escolas Industriais e Técnicas, passando a oferecer formação profissional em nível equivalente ao do secundário.

Essa modalidade de ensino que até então era vista como um compartimento estanque foi aberta a possibilidades de articulação com outros níveis de ensino, alargavam-se os horizontes, conforme destaca Fonseca (1961, p. 266), tal ato foi de “profundo alcance social,

verdadeira democratização do ensino12. Antes, só as classes mais abastadas, aquelas que geralmente se inscreviam nas escolas secundárias, tinham direito a aspirar aos estudos superiores”.

No entanto, se com as Leis deu-se um passo importante para ensino profissional, dando acesso ao ensino superior a partir dessa modalidade, algo que não era possível anteriormente, ainda não se podia afirmar que teríamos uma “verdadeira democratização do ensino”, conforme já apontado por Fonseca (1961). Muitos ainda seriam os desafios enfrentados por essa modalidade de ensino, inclusive, como ressaltamos acima, o fato de limitar o ingresso ao ensino superior apenas para os cursos que fossem de área equivalente ao da sua formação técnica, não havendo possibilidades de escolhas. Além disso, o ingresso era dificultado, o que fazia com que poucos tivessem acesso a esse ensino superior. O que não ocorria com o ensino secundário, pois os alunos que concluíam essa modalidade seguiam para ensino superior sem nenhuma restrição. O fato de os Decretos-Lei, que apresentaremos a seguir, serem específicos a cada ramo do ensino de modo isolado, também reforçava a dualidade entre tais ramos. Além disso, os currículos destinados ao ensino secundário reforçavam a oposição aos destinados ao ensino profissional, apresentando poucos pontos de articulação.

Portanto, se com tais Leis Orgânicas13, era possibilitado o acesso de estudantes do

ensino profissional ao ensino superior, por outro lado, “acentuava a velha tradição do ensino secundário acadêmico, propedêutico e aristocrático” (FRIGOTTO et al., 2005, p. 32), pois os egressos dos cursos profissionalizantes somente ingressariam em cursos superiores mediante aprovação em exames de adaptação. Tal normatização reforça a tese de que “o domínio dos conteúdos gerais, das ciências, das letras e das humanidades eram considerados os únicos

12Grifo nosso

13A Lei Orgânica do Ensino Secundário, decreto-lei no 4.244, de 9 de abril de 1942, e a Lei Orgânica do Ensino

Industrial, decreto-lei nº 4.073, de 30 de janeiro de 1942, foram responsáveis por regulamentar tanto o ensino médio quanto a educação profissional.

saberes socialmente reconhecidos como válidos para a formação daqueles que desenvolveriam as funções de dirigentes” (KUENZER, 2007, p. 14).

O texto do Decreto-Lei nº 4.244, de 09/04/42, que trazia a proposta de reformulação do ensino secundário, apresentava as seguintes finalidades:

1. Formar, em prosseguimento da obra educativa do ensino primário, a

personalidade integral dos adolescentes. 2. Acentuar e elevar, na formação

espiritual dos adolescentes, a consciência patriótica e a consciência humanística. 3. Dar preparação intelectual geral que possa servir de base a estudos mais elevados de formação especial (art. 1º).

Conforme se observa no trecho do Decreto acima, que regulamentava a questão do ensino secundário, visava-se a uma formação intelectual geral, a uma formação da personalidade integral. Enquanto isso, no texto do Decreto que regulamentava o ensino profissional, embora citasse a questão da “formação humana”, percebe-se uma ênfase na preparação para atender ao mercado de trabalho, as empresas, conforme observamos no texto a seguir:

Artº 3º - O ensino industrial deverá atender: 1) aos interesses do trabalhador realizando a sua preparação profissional e a sua formação humana; 2) aos interesses das empresas, nutrindo-as segundo as suas necessidades crescentes e mutáveis, de suficiente e adequada mão de obra; 3) aos interesses da nação, promovendo continuamente a mobilização de eficientes construtores de sua economia e Cultura. Artº 4º - O ensino industrial, no que respeita à preparação profissional do trabalhador, tem as finalidades especiais seguintes: 1) formar profissionais aptos ao exercício de ofícios e técnicas nas atividades industriais; 2) dar a trabalhadores jovens e adultos na indústria, não diplomados ou habilitados, uma qualificação profissional que lhes aumente a eficiência e a produtividade; 3) aperfeiçoar ou especializar os conhecimentos e capacidade de trabalhadores diplomados ou habilitados; 4) Divulgar conhecimentos de atualidades técnicas. (DECRETO-LEI nº 4.073, de 30 de janeiro de 1942 apud FONSECA, 1961, p. 320)

Acerca desse aspecto, Ciavatta e Ramos (2011, p. 29-30) afirmam que, com as Leis Orgânicas do Ensino Industrial e do Ensino Secundário e a criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI, em 1942, ratifica-se uma “não equivalência entre os cursos propedêuticos e os técnicos, associando os currículos enciclopédicos à formação geral como expressão concreta de uma distinção social mediada pela educação”. Desde mesmo período das Leis Orgânicas, temos ainda, em 1946, a criação do Serviço Nacional do Comércio - SENAC (DECRETO-LEI nº 8.621 e 8.622).

As Leis de Equivalência entre os cursos técnicos e o ensino secundário ou médio só são iniciadas em 195014, mediante pressão de setores populares, inicialmente ocorrendo de modo parcial, tendo a equivalência plena apenas com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 4.024/1961) (CIAVATTA E RAMOS, 2011). Outro aspecto observado pelas autoras (CIAVATTA E RAMOS, 2011, p. 30) diz respeito ao fato de que, naquele momento, “preparar para o mercado de trabalho foi realmente a principal finalidade do ensino médio, ainda que o acesso ao ensino superior fosse facultativo e altamente demandado”.