2 O CONTEXTO HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E
2.3 DAS DÉCADAS DE 60 E 70: A LDB 4.024/1961 E A LDB 5.692/71
Com a LDB (4.024/1961), a equivalência entre os ramos do ensino é estabelecida, possibilitando a continuidade dos estudos aos egressos dos diversos ramos do ensino. Inicia- se nesse momento uma busca por um novo princípio educativo que fosse mais democrático, e mesmo não superando toda dualidade estrutural, tendo em vista que permanecem duas redes, o reconhecimento social continua a ser a que passa pelo secundário, sem sombra de dúvida trouxe significativo avanço para a democratização do ensino (KUENZER, 2007). Embora persistisse a dicotomia entre os ramos do ensino, tal equiparação representou avanços significativos, pois se inicia uma preocupação em articular conteúdos de base propedêutica com conteúdos de base profissional nos projetos pedagógicos dos cursos.
A partir de 1964, com o chamado “milagre econômico” (1968 a 1973), a formação profissional assume importante posição nas práticas educativas, objetivando atender as condições gerais da produção capitalista. O governo brasileiro passa a assinar acordos que deixam transparecer o interesse pela ampliação de matrículas de cursos técnicos e pela formação acelerada de mão de obra. O rápido processo de expansão urbana desencadeou um crescimento significativo na procura por empregos, acarretando, assim, uma maior exigência no nível de escolaridade como critério de seleção por parte dos empregadores. Diante disso, cresce a demanda pelo ensino superior, o que resultou na reforma universitária de 1968.
Nesse contexto, surge a Lei nº 5692/71, que, para Frigotto, Ciavatta e Ramos (2005, p. 33), tinha duplo propósito:
[...] o de atender à demanda por técnicos de nível médio e o de conter a pressão sobre o ensino superior. O discurso utilizado para sustentar o caráter manifesto de formar técnicos construiu-se sob o argumento da “escassez de
técnicos” no mercado e pela necessidade de evitar a “frustração de jovens” que não ingressavam nas universidades nem no mercado por não apresentarem uma habilitação profissional. Isto seria solucionado pela “terminalidade” do ensino técnico.
Em meio à ditadura militar, é apresentada uma nova tendência à integração, agora por meio da profissionalização. A proposta seria a profissionalização compulsória de toda a
escola média, objetivando a preparação imediata para atender uma suposta demanda exigida
pelo mercado de trabalho. De autoria do professor Walnir Chagas (apud BUFFA e NOSELLA, 1991), a referida lei defendia a concepção de integrar pela profissionalização, a superação da dualidade escolar seria possível com a criação de uma escola única do trabalho manual e intelectual. Em seu discurso, Chagas (apud BUFFA e NOSELLA, 1991) destaca que a Lei 5692/71 possibilitava uma ideia de escola única vertical:
[...] isto é, juntando o primário e o ginásio. Juntávamos os estabelecimentos, não há mais escola comercial nem escola agrícola, há a escola de segundo grau, com as habilitações que se queira. Isso quer dizer mais ainda que uma escola única (...). Não queremos preparar mão de obra para a indústria. Queremos preparar o homem. O homem é mente e mãos: portanto, se não educo com as mãos, ele fica aleijado. É nesse sentido que nossas gerações estão saindo da escola todas intelectualistas. Vários fatores da inteligência não se desenvolvem, se estiolam porque não (são) cultivados em idade própria, de 14 a 18 anos. Era este o sentido da educação para o trabalho. (BUFFA e NOSELLA, 1991, p. 164)
O que se pode depreender da proposta de 71 é uma concepção de integração que se limitou apenas a relacionar disciplinas de formação geral à de formação específica. Contudo, o fracasso dessa política educacional não tardou, e entre os aspectos que contribuíram para esse fracasso, aponta-se, sobretudo, a falta de financiamento, não se disponibilizava de estruturas física e didática adequadas, nem de professores preparados para atuar na educação profissional (GERMANO, 2000). Para Nosella (2002), a Lei 5692/71 não trouxe bons resultados, pois não só empobreceu a escola humanista como esvaziou o ensino técnico.
O fracasso da profissionalização compulsória é deflagrado com a publicação do Parecer nº 76, de 1975, que, para Kuenzer (2007), fez com que tudo voltasse a ser como era antes de 71, pois o Parecer 76/75 permitiu:
[...] a coexistência de todas as ofertas possíveis – técnico pleno, técnico parcial e habilitações básicas, foi acomodar a legislação à realidade, legitimando tudo o que já existia, de tal modo que tudo permanecesse como era antes de 1971. Isso vale dizer que a velha dualidade ressurgiu no âmbito da legislação com todo o seu vigor, reafirmando-se novamente a oferta propedêutica, agora chamada de básica, como a via preferencial para o ingresso no nível superior[...] (KUENZER, 2007, p. 24-25).
Com a aprovação da Lei nº 7.044/82, é referendada a proposta acima, comprovando o fracasso da profissionalização compulsória.
Nesse período, embora tenhamos a equivalência entre os cursos propedêuticos e técnicos, surge um novo dualismo, agora marcado não mais pelo acesso ou não ao ensino superior por parte dos egressos do ensino técnico, mas, sim, no plano dos valores e dos conteúdos da formação. O dualismo anterior consistia no fato de o ensino técnico ser destinado aos filhos das classes trabalhadoras cujo horizonte era o mercado de trabalho, enquanto o ensino superior ficava restrito aos filhos da elite dirigente. O novo contexto dual surge em virtude de a lei n. 5.692/71 determinar que na carga horária mínima prevista para o ensino técnico de 2º grau (2.200 horas) houvesse predominância da parte especial em relação à geral, enquanto Lei n. 7.044/82, ao extinguir a profissionalização obrigatória no 2º grau, considerou que as 2.200 horas pudessem ser destinadas integralmente à formação geral; o que para Frigotto, Ciavatta e Ramos (2005, p. 34) consiste em um novo dualismo, já que os estudantes que cursavam o ensino técnico “ficavam privados de uma formação básica plena que, por sua vez, predominava nos cursos propedêuticos, dando, àqueles que cursavam esses cursos, vantagens em relação às condições de acesso ao ensino superior e à cultura em geral”.