O trabalho de investigação para a mudança que aqui se apresenta, já o escrevemos, reflete de forma constante o significado de ciência, abordando os vários pressupostos conceptuais que foi tendo ao longo do tempo. Neste tempo em que vivemos, o do conhecimento e o da informação, é importante indicarmos o que entendemos por educação e interculturalidade nos parâmetros de uma sociedade que, devido à globalização e urbanização crescentes, passou a conhecer novas formas de estar, de se fazer, inviabilizando, por seu turno, as estruturas comunitárias tradicionais, promovendo novas formas de vida em comum. Apesar dos ganhos associados a esta forma de desenvolvimento cada vez mais universal, comum e alargada, a livre circulação de bens e serviços poderá ser a responsável também, apesar de contraditório, pela solidão
40 psicológica e social, impondo situações de verdadeira vulnerabilidade (Carvalho & Baptista, 2004).
As questões que se relacionam com os altos níveis de desemprego e do emprego precário lançam muitos indivíduos para situações de pobreza irremediáveis, de exclusão social e de outros problemas que vão experimentando devido à condição pela qual irrompem, levando-os, muitas vezes, ao flagelo da toxicodependência e dos sem-abrigo. A profundidade da crise económica pela qual passamos é uma ameaça ao equilíbrio entre os estados e um constante estímulo à falência do Estado-providência. Desta crise, são forçados um sem número de indivíduos a emigrar, que, em difíceis condições, aumentam o jogo exógeno e endógeno das exclusões e um reforço para os comportamentos xenófobos e autoritários que se podem dar nos países de destino.
O cenário existente faz-nos pensar sobre as formas que tanto a educação como a interculturalidade podem assumir, para que se repensem novas formas de agir, de educar, de promover o bem-estar entre os humanos, num mundo cada vez mais globalizado. Para que isto seja possível, consideramos que a produção de conhecimento em educação e interculturalidade deverá atender às seguintes intenções:
1. Mudar através da capacitação dos grupos sociais – porque os grupos sociais, que se encontram numa situação de fragilidade, podem, através de um processo educativo, aprender o que precisam para aumentar a qualidade das suas vidas. Neste processo, podem também aprender a valorizar, o que sabem (Lima, 2003; Moreira, 2002) para poderem mobilizar o seu conhecimento para a prática. Desta forma, as relações humanas serão repensadas no dia-a-dia revendo-se na vida política, económica e familiar. Através da capacitação dos grupos sociais, promove-se o diálogo que, na ótica de Freire (1980), é a via por onde homens e mulheres constroem um mundo mais humano, voltando a fazer o que já existe, promovendo e projetando um futuro que falta transformar-se.
2. Promover o entendimento intercultural – a consciência de coexistência é uma das muitas intenções da educação e interculturalidade que tem tido uma expressão crescente num contexto de verdadeira azáfama, no que respeita à forma e
41 velocidade com que a informação se produz. A globalização vem exigir que a compreensão humana não se confine só e apenas à nossa realidade cultural; antes, ela abre-nos a necessidade de percebermos o mundo numa ótica intercultural. No âmbito dos processos de educação está subjacente um melhor conhecimento dos outros e de nós próprios (Moreira, 2012).
3. Estimular uma consciência crítica – não é possível passar de uma consciência ingénua para uma consciência crítica sem que antes esteja implícita uma obra educativa. A conscientização leva o homem à práxis e implica, tal como nos refere Oliveira & Carvalho (2007 p. 229):
a) O desenvolvimento enquanto pessoa e a necessidade de, responsavelmente, comprometer-se com o novo evento;
b) “a conquista da consciência transitivo-crítica ao longo de uma progressão de descobrimentos relacionais”;
4. Libertar, mudar e emancipar – porque é através do diálogo educativo que se promove, com uma perspetiva crítica e libertadora, a mudança dos homens da sua situação de opressão e/ou vulnerabilidade social. É suposto haver aqui uma ação de compromisso de inter-relação que permita aos sujeitos reconhecerem-se como homens, na sua vocação ontológica e histórica de Ser mais. É através da ação e reflexão, reconhecendo previamente uma qualquer dependência, que se pode libertar, emancipar (Freire, 1987).
Nestes pressupostos que indicamos anteriormente, a educação que temos como intenção é aquela que parte do princípio que a natureza humana não é determinada por estruturas ou princípios inatos. Interessa-nos conhecer para melhor atuar na emancipação sociocultural e pela ação dos oprimidos. Mesmo não sendo determinado, todos os sujeitos são regulados pelo contexto sociocultural onde vivem. Mas a “originalidade da existência humana” existe no facto de se ter consciência das suas particularidades, pois com a sua consciência crítica, poderá, se bem com um conhecimento que vem da convivência com outros sujeitos, enfrentar as situações “limite superando-as por meio da
42 luta solidária e coletiva pela transformação das realidades condicionantes” (Zitkoski, 2006, p. 63).
Portanto, a produção de conhecimento em educação e interculturalidade, na nossa perspetiva, terá que promover resoluções de problemas de determinado sujeito, ou grupo de sujeitos, numa ação concertada.
O investigador em ciências da educação trabalha mais em processos do que em objetos e mais em dinâmicas do que com estados específicos; a sua própria observação modifica a situação observada; as entidades observadas (artefactos e humanos) envolvem no tempo a partir das dinâmicas de interações recíprocas; os processos de interação dinâmica entre entidades são processos de perceção, de ação, de representação que constituem objetos mentais, simbólicos e não simbólicos, os sujeitos são dotados de intencionalidade; são motivados por valores animados por finalidades e projetos interessantes para eles; os artefactos são parte integrante do ato de aprender da mesma maneira que os aspetos cognitivos.
(Linard, 2004, citado em Robertis, 2011, p. 47).
Neste âmbito surge a questão de como se processam os intercâmbios de conhecimento entre o educador e os sujeitos do conhecimento. Ou seja, de que forma o educador, ao apoiar as suas intervenções que faz no âmbito do relacionamento que vai tendo com os atores sociais, poderá ter mais ou menos êxito. Depende essencialmente de um plano de intervenção pré-estabelecido, ou a sua prática terá, à medida que a mesma se for desenrolando, que se adaptar à realidade que é subjetiva e que está em constante mudança?