Como mencionado acima, no processo eletrônico, assim como no processo físico, a noção de tempo é importante para a vigência das leis, prazos, aquisições, extinções e prescrições do direito pleiteado. O tempo deve ser definido para que possa haver um bom andamento processual, obedecendo-se as regras processuais. Como forma de tentar sanar problemas com relação ao local, data e hora da criação de uma prova ou um documento, o artigo 370 do CPC prevê:
Art. 370. A data do documento particular, quando a seu respeito surgir dúvida ou impugnação entre os litigantes, provar-se-á por todos os meios de direito. Mas, em relação a terceiros, considerar-se-á datado o documento particular:
I - no dia em que foi registrado;
II - desde a morte de algum dos signatários;
III - a partir da impossibilidade física, que sobreveio a qualquer dos signatários;
IV - da sua apresentação em repartição pública ou em juízo;
V - do ato ou fato que estabeleça, de modo certo, a anterioridade da formação do documento.
Ainda quanto à data do documento, o artigo 3º da Lei 11.419/06 norteia essa questão, podendo os Órgãos do Poder Judiciário criar um cadastro único de credenciamento de usuários do sistema eletrônico, fornecendo a cada um registro e meio de acesso ao sistema, buscando preservar o sigilo, a autenticidade e a identificação.
Sobre o tema, Pinho (2012, p. 367 – 368) disserta:
Segundo a regra do art. 3º, o ato processual efetivado por meio eletrônico é considerado realizado no dia e hora de seu envio, sendo certo que isso poderá ocorrer até às 24 horas do último dia do prazo, como acrescenta o parágrafo único desse dispositivo.
[...]
Segundo as novas regras, publicado o ato judicial na internet, considera-se como data da publicação o primeiro dia útil seguinte ao da disponibilização da informação. E o prazo processual só se inicia no primeiro dia útil seguinte à data da publicação, ou seja, o segundo dia útil seguinte à data da disponibilização da informação.
Assim, por exemplo, se a decisão é disponibilizada no sítio do Tribunal numa sexta-feira, o prazo só se inicia na terça-feira subsequente.
Conforme artigo 5º da Lei supracitada, para as intimações feitas eletrônicamente as pessoas cadastradas junto ao órgão do Poder Judiciário, dispensa-se a publicação no órgão oficial, inclusive eletrônico. Deste modo, considerar-se-à efetivada a intimação no dia em que o signatário realizar a consulta eletrônica, sendo certificado nos autos. Se a consulta for realizada em um dia não útil, será considerada realizada no primeiro dia útil seguinte.
Ao que concerne aos documentos e provas digitais mais difícil ainda é definir o momento real e a localização da concretização de um fato jurídico e acabamos por necessitar de uma relativização das noções de tempo. Quanto a isso, Sheila do Rocio Cercal Santos Leal (2007, p. 225) discorre:
Se, hipoteticamente, uma pessoa passasse vinte e quatro horas diante da tela de um computador, navegando na Internet, em poucos instantes poderia visitar a China, os Estados Unidos e o Egito, sair da órbita terrestre, comunicar-se com outras pessoas, tudo isso sem deixar o local físico onde se encontra, essa pessoa não sentiria o tempo passar, o que, aliás, na Internet, é muito relativo, pois, em razão dos fusos horários, umas das partes da comunicação pode encontrar-se em determinado dia e a outra, no dia seguinte, ou anterior. Enfim, a pessoa estaria envolvida intelectual e psicologicamente por um espaço novo, o ciberespaço.
Quanto à autoria dos documentos, petições e provas eletrônicas, existem certas peculiaridades em relação à identificação do autor. Patrícia Peck Pinheiro (2009, p. 155) afirma que "além de não existir nenhum óbice jurídico, o documento eletrônico assinado digitalmente torna factível a visualização de qualquer tentativa de modificação do documento por meio da alteração da sequencia binária".
Por isso essa determinação é muito mais complicada quando se refere, por exemplo, em identidade real dos contratantes na internet. Mesmo que seja assegurado de qual computador partiu a contratação ou a criação do documento, ainda é arriscado definir a identidade do usuário (LEAL, 2007, p. 149).
Para evitar graves problemas no processo eletrônico criou-se a assinatura digital, formada por uma sequência de bits, inclusa em um arquivo, que identifica o autor do documento. Sobre o tema Dinemar Zoccoli (2000, p. 180) dispõe:
No caso de um documento eletrônico, o termo „assinatura‟ pode ser entendido como um „lacramento‟ personalizado de seu conteúdo. O „lacre‟,
no caso, visa garantir a integridade, enquanto o fato de apresentar atributo de personalização permite garantir a autenticidade. Nesse sentido, poder-se-ia comparar o ato de „assinar‟ um documento eletrônico com o ato de colocar uma carta dentro de um envelope, fechá-lo apropriadamente e escrever a identificação do remetente no verso. É, mais ou menos, isso que a „assinatura‟ eletrônica procura fazer. Ou seja, depois de fechado o envelope, não se pode mais alterar o conteúdo da carta sem deixar marcas visíveis (garantia de integridade) e, concomitantemente, esse mesmo envelope que envolve a carta contém, em si, a indicação da autoria (garantia de autenticidade).
A assinatura digital possui duas funções principais, a de garantir a autenticidade ao documento e a de garantir a integridade do mesmo, diferente da assinatura tradicional que possui função indicativa, declarativa e probatória. Deste modo, a assinatura digital garante de que o conteúdo é verdadeiro e não foi alterado e de que o autor da petição é realmente quem declara ser.
Importante lembrar que assinatura eletrônica é gênero e a assinatura digital é uma das espécies dela, utilizando-se de criptografia assimétrica, identificando, autenticando e dando integridade ao conteúdo. O certificado digital é um exemplo da assinatura digital, enquanto o login, a senha e a biometria são exemplos de assinatura eletrônica.
Enfatizando o assunto, Angelo Volpi Neto (2003, p. 42) afirma que “diferentemente do documento em papel, que pode assim ser considerado sem assinatura, o documento eletrônico, ao que parece, não existe se não houver uma assinatura eletrônica”. Ainda, em se tratando de vulnerabilidade e declaração dos documentos eletrônicos, Ricardo Luis Lorenzetti (2008. p. 554) descreve que:
O sujeito pode dizer que a declaração do computador ou do programa não obedece às suas instruções, ou que não é de sua propriedade, ou que foi utilizado por um terceiro, ou que interferiu ilegalmente, ou que outra pessoa enviou uma mensagem em seu nome, ou que se encontrava em estado de inconsciência, ou que houve erro, violência ou incapacidade [...] o problema do meio eletrônico é que, apesar de ser um instrumento material, possui uma capacidade de mediação muito superior às outras ferramentas conhecidas, e pode ocultar, tornar opaco ou, inclusive, dissolver a figura de quem o utiliza.
Portanto, mesmo que o documento possua alguma forma de assinatura eletrônica, deve ser única em relação ao autor e somente por ele controlada, estando vinculada ao conteúdo, de modo que se o conteúdo for modificado, seja possível constatar a alteração e invalidar a assinatura (ZOCCOLI, 2000).
Deste modo, quando for afirmado que a autoria de um documento eletrônica é falsa ou anônima, este documento terá sua eficácia probatória suspensa até prova em contrário. Em muitas ocasiões, apesar da possibilidade de perícia, esse documento perderá sua força probante em virtude da pouca qualificação e experiência com esses tipos de procedimentos que vem sendo implantados em nosso sistema processual, o processo eletrônico.
Em virtude da facilidade de interceptação e modificação dos documentos eletrônicos, além da velocidade de processamento das informações e transações, o potencial para a fraude é muito grande. Por isso a integridade do conteúdo das provas eletrônicas também influencia na força probante desses documentos, representando a veracidade das declarações ali firmadas.
Uma pequena modificação na sequência binária do documento eletrônico pode mudar todo o seu conteúdo. Sobre o assunto Lessa (2010) afirma:
Neste ponto, não há como garantirmos que qualquer documento foi alterado, tampouco por quem foi alterado. Portanto, a integridade do documento eletrônico só poderia ser confirmada se pudéssemos assegurar que o documento não foi atacado ou não sofreu alterações ou adulterações de conteúdo. Isto é praticamente impossível, principalmente nos computadores pessoais.
Deste modo é imprescindível a necessidade de autenticidade de quaisquer documentos, provas ou petições anexadas ao processo digital, ressaltando-se que essa autenticação é relativa. Com base no artigo 369 do Código de Processo Civil, o que se atesta é a forma do signatário reconhecida por tabelião. Carnelutti (2000, p. 525), traz um importante comentário sobre o tema:
Já se realçou a importância que tem, com respeito a qualquer prova histórica, a pessoa do autor, ou seja, a procedência de uma pessoa e não de outra. Mas sob este aspecto é diverso o problema do documento, do problema da testemunha; com efeito, este último coloca em manifesto sempre seu autor; a dificuldade pode se referir, resumindo, à identificação da pessoa, não à sua relação com o testemunho; pelo contrario, como do documento não se faz uso na presença de seu autor, pode ser incerto que seja este, porque é necessário seu acertamento. A certeza da procedência do documento do autor indicado chama-se autenticidade. (grifo do autor)
Um documento pode ser considerado integralmente fiel se sua assinatura ganhar o reconhecimento público. Há um mecanismo de prova indireta próprio, pois a prova produzida em relação à assinatura garante a prova da autenticidade de respectivo documento. Assim, a certificação oficial da assinatura permite considerar o documento autêntico (REICHELT, 2009, p. 264).
Para que se tenha confiabilidade nas provas eletrônicas é necessário a utilização de mecanismos de não-repúdio ou não-rejeição, os quais garantem que o remetente não possa negar o envio de uma mensagem eletrônica e, que o destinatário não possa esquivar o seu recebimento e consequentemente, repudiá-lo. Por isso deve haver segurança quanto à identidade de quem manda e de quem recebe, além da integridade da mensagem (LEAL, 2007, p. 156).
Observar-se de tal modo a ligação existente entre um requisito e outro, entre as exigências pertinentes ao processo eletrônico. De tal modo, para o bom andamento processual, é necessário que todos os requisitos estejam presentes, além do cuidado e observação ao procedimento, o qual, através de um simples “clique” pode ser deletado e excluído do sistema.
Os documentos eletrônicos possuem características próprias, tais como a intangibilidade, forma, volume e persistência, sendo que a produção de provas geralmente depende do autor, que pode negar. O dinamismo também está presente nos arquivos eletrônicos, podendo ser alterados pelo simples fato de ligar ou desligar o computador, provas podem ser excluídas caso se digite uma senha errada, por exemplo. A prova da má-fé torna-se complicada. (FILHO, 2009).
Ao que condiz às provas documentais que encontram-se arquivadas em repartições públicas, a Lei 11.419/06 permite que o magistrado, no prazo máximo trinta dias, requisite certidões ou reproduções fotográficas de peças importantes à instrução do processo. A repartição poderá fornecer todos os documentos através de meio eletrônico (PINHO, 2012, p. 371).
Desta forma a prova eletrônica pode ser considerada como um documento eletrônico, recaindo sobre ela o regime jurídico das provas documentais, disciplinado pelo Código de Processo Civil, em seus artigos 364 a 399.
Entretanto, basta impugnar uma prova e ela terá sua força probante suspensa, até o processamento do incidente de falsidade, conforme o caso. Porém dificilmente será possível identificar o autor do documento e garantir sua veracidade, diante da facilidade de alteração de um documento eletrônico.
Enfim, se o documento eletrônico não for impugnado, presumir-se-á verdadeiro em suas declarações, seja pela autoria, autenticidade e integridade, devendo ser apreciado pelo juiz. Caso impugnado, ainda que a perícia seja infrutífera, o juiz poderá, conforme o caso, levá-los em consideração, apreciando-os com as demais provas existentes no processo.