• Nenhum resultado encontrado

4 1 Da linguagem ao discurso

No documento Cap 1 - Representation - Stuart Hall (páginas 36-39)

O primeiro ponto a ser notado, então, é a troca da atenção de Foucault da ‘linguagem’ para o ‘discurso’. Ele estudou não a linguagem, mas o discurso como um sistema de representação. Normalmente, o termo ‘diálogo’ é usado como um conceito lingüístico. Ele significa simplesmente passagens de escrita ou fala conectadas. Michel Foucault, no entanto, deu a ele um sentido diferente. O que interessava a ele eram as regras e práticas que produziam pronunciamentos com sentido e discursos regulados em diferentes períodos históricos. Por ‘discurso’, Foucault entendeu ‘um grupo de pronunciamentos que permite que a linguagem fale sobre – uma forma de representar o conhecimento sobre – um tópico particular ou um momento histórico. ... O discurso tem a ver com a produção do sentido pela linguagem. Mas... uma vez que todas as práticas sociais implicam sentido, e sentidos definem e influenciam o que fazemos – nossa conduta – todas as práticas tem um aspecto discursivo’ (Hall, 1992, p.291). É importante notar que o conceito de discurso nesse uso não é puramente um conceito ‘linguístico’. Tem a ver com linguagem e prática. Ele tenta superar a tradicional distinção entre o que um diz (linguagem) e o que um faz (prática). O discurso, argumenta Foucault, constrói o assunto. Ele define e produz os objetos do nosso conhecimento. Ele governa a forma com que o assunto pode ser significativamente falado e debatido. Ele também influencia como ideias são postas em prática e usadas para regular a conduta dos outros. Assim como o discurso ‘rege’ certas formas de falar sobre um assunto, definindo um modo de falar, escrever ou se conduzir, aceitável e inteligível, então também, por definição, ele ‘exclui’, limita e restringe outros modos de falar, ou se conduzir em relação ao assunto ou ao construir conhecimento sobre ele. O discurso, argumentou Foucault, nunca consiste em um pronunciamento, um texto, uma ação ou uma fonte. O mesmo discurso, característico do jeito de pensar ou do estado de conhecimento em qualquer tempo (o que Foucault chamou de episteme), vai aparecer em uma gama de textos, e como formas de conduta, em um número de diferentes áreas institucionais da sociedade. No

entanto, cada vez que esses eventos discursivos ‘referem ao mesmo objeto, compartilham o mesmo estilo e... apoiam uma estratégia... em uma direção e padrão institucional, administrativo ou político comuns’ (Cousins e Hussain, 1984, pp. 84-5), então eles são ditos por Foucault como pertencentes a mesma

formação discursiva.

Sentido e práticas com sentido são, portanto, construídas dentro do discurso. Como os semioticistas, Foucault era um ‘construcionista’. No entanto,

diferentemente deles, ele estava preocupado com a produção do conhecimento e sentido, não pela linguagem, mas pelo discurso. Existem, entretanto,

similaridades, mas também substantivas diferenças entre essas duas versões.

A ideia de que ‘o discurso produz os objetos do conhecimento’ e de que nada que tem sentido existe fora do discurso, é, à primeira vista, uma proposição desconcertante, que parece correr contra GRAIN do pensamento senso- comum. É válido gastar um momento para explorar mais essa ideia. Foucault está dizendo – como alguns de seus críticos o acusaram – que nada existe fora do discurso? Na verdade, Foucault não nega que as coisas possam ter uma existência real, material no mundo. O que ele realmente argumenta é que ‘nada tem nenhum sentido fora do discurso’ (Foucault, 1972). Como Laclau e Mouff e colocaram, ‘nós usamos [o termo discurso] para enfatizar o fato de que toda confi guração social tem sentido’ (1990, p. 100). O conceito de discurso não é sobre se as coisas existem, mas sobre de onde vem o sentido.

LEITURA E

Vá agora para a Leitura E, de Ernesto Laclau e Chantal Mouff e, um pequeno extrato de Novas refl exões na Revolução do nosso Tempo (1990), que nós acabamos de parafrasear, e leia-o cuidadosamente. O que eles argumentam é que objetos físicos realmente existem, mas eles não tem sentido fi xado; eles apenas ganham sentido e se tornam objetos de conhecimento dentro do discurso. Certifi que-se de acompanhar o argumento deles antes de continuar a leitura.

1 Nos termos do discurso sobre ‘construir uma parede’, a distinção entre a parte lingüística (pedindo um tijolo) e o ato físico (colocando o tijolo no lugar) não importa. A primeira é lingüística, a segunda é física. Mas ambas são ‘discursivas’ – com sentido dentro do discurso.

formação discursiva

2 O objeto redondo de couro que você chuta é um objeto físico – uma bola. Mas ela apenas se tornar uma ‘bola de futebol’ dentro do contexto das regras do jogo, que são socialmente construídas.

3 É impossível determinar o sentido de um objeto fora de seu contexto de uso. Uma pedra jogada em uma briga é uma coisa diferente (‘um projétil’) de uma pedra exposta em um museu (‘uma peça de escultura’).

Essa ideia de que coisas e ações físicas existem, mas elas somente ganham sentido e se tornam objetos de conhecimento dentro do discurso, está no coração da teoria construcionista sobre o sentido e a representação. Foucault argumenta que, uma vez que nós só podemos ter conhecimento das coisas se elas tiverem sentido, é o discurso – não as coisas por elas mesmas – que produz conhecimento. Assuntos como ‘loucura’, ‘punição’ e ‘sexualidade’ só existem com sentido dentro dos discursos a respeito deles. Então, o estudo do discurso da loucura, punição ou sexualidade deveria incluir os seguintes elementos:

enunciações sobre ‘loucura’, ‘punição’ e ‘sexualidade’, que nos dêem um certo tipo de conhecimento sobre essas coisas;

2 as regras que prescrevem certas formas de falar sobre esses assuntos e excluem outras formas – que governam o que é ‘falável’ ou ‘pensável’ sobre insanidade, punição ou sexualidade, em um momento histórico particular;

3 ‘sujeitos’ que, de algumas formas, personifi cam o discurso – o louco, a mulher histérica, o criminoso, o depravado, a pessoa sexualmente perversa; com os atributos que nós poderíamos esperar que esses sujeitos tivessem, dado o modo com que o conhecimento sobre o assunto foi construído naquele tempo;

4 como esse conhecimento sobre o assunto adquire autoridade, um senso de incorporar a ‘verdade’ sobre ele; constituindo a ‘verdade da questão’, em um momento histórico;

5 as práticas dentro das instituições para lidar com os sujeitos –

tratamento médico para o insano, regimes de punição para o culpado, 2 O objeto redondo de couro que voc

3

disciplina moral para a sexualmente desviada – cujas condutas estão sendo reguladas e organizadas de acordo com aquelas ideias;

6 reconhecimento de que um diferente discurso ou episteme vai surgir em um momento histórico posterior, substituindo o existente, abrindo uma nova formação discursiva, e produzindo, por sua vez, novas concepções de ‘loucura’ ou ‘punição’ ou ‘sexualidade’, novos discursos com o poder e a autoridade, a ‘verdade’, para regular a prática social de novas formas.

4. 2 Historicizando o discurso: práticas discursivas

No documento Cap 1 - Representation - Stuart Hall (páginas 36-39)

Documentos relacionados