4.1 FRANÇA: DOS ESTUDOS PROVISIONAIS AOS DEBATES PROCESSUAIS
4.1.2 Da modernidade aos dias atuais: dos debates provisionais para os processuais
implementação do Estado Democrático e laico. Do século XVIII, que se estendeu e consolidou um novo modelo de sociedade da época moderna até o século XX, o que se pretendia era que a escola fosse o espaço da incorporação dos conhecimentos intelectuais capazes de educar o povo para um novo modelo de organização social. A alfabetização, por
exemplo, que antes era vista como uma forma de aprender as leis religiosas, perde este foco e passa a ser um instrumento de condição do exercício da cidadania (SAVIANI, 1995)28.
É neste momento que os estudos desenvolvimentistas tomam destaque por justamente se preocuparem em determinar as fases do desenvolvimento infantil, a necessidade de estimular psicologicamente a criança para a instrução, suas formações cognitivas, bem como identificar os meios e objetos que estimulariam suas aprendizagens. Um dos maiores exemplos que temos no século XX é os estudos do biólogo suíço Piaget (1896-1980).
No que se refere a organização escolar, o Estado assume um papel de Educador (CHARLOT, 2013) e, sobretudo, pretendia rejeitar todo o tipo de interferência religiosa. A educação do povo era essencial e, conforme Vasconcellos e Bongrand (2013, p. 9, tradução nossaxi), “[...] no amanhecer da revolução a escola primária se beneficia de uma atenção particular, tendo como objetivo essencial transmitir ao povo as ideias do Iluminismo. [...]xii”.
Contudo é, somente, no fim do século XIX e começo do século XX que políticas educativas de fato são implementadas a fim de encarnar o espírito republicano no país.
Com respeito ao tempo escolar e o incentivo à permanência no sistema educativo, no fim do século XIX, destaca-se o conjunto de Leis Jules Ferry, sendo a que salienta este estudo: a Lei de 28 de março de 1882 (FRANÇA, 1882) que estabelece a obrigatoriedade escolar, para ambos os sexos, dos 6 aos 13 anos de idade. Este conjunto de leis foram fundamentais para universalizar um conjunto de propostas de obrigatoriedade e acesso ao ensino público que já ocorriam mas de forma isolada. A importância desta lei foi, portanto, de institucionalizar a garantia do acesso, da democratização e da obrigatoriedade do ensino para todos. A partir de 1959 a idade da obrigatoriedade escolar foi estendida até os 16 anos (FRANÇA, 1959), e pode-se afirmar que, atualmente, o debate sobre o tempo de permanência na escola está versado sobre a necessidade de se repensar os tempos espaços escolares diários e não como outrora o da idade.
A partir de um estudo bibliográfico dos principais movimentos dos Ritmos Escolares tentou-se delimitar os principais Ritmos Escolares Formais já implantados no país do ano de 1882 até hoje. Salienta-se uma grande dificuldade em centralizar todas as informações possíveis sobre a mudança do tempo escolar na França bem como suas respectivas fontes. A tabela elaborada e apresentada abaixo representa um grande desafio na pesquisa uma vez que suas informações são múltiplas e por vezes não foi possível encontrar algumas informações na
28 Fala disponível no vídeo de: ARANTES, D. Escola: dominação ou transformação? Por Dermeval Saviani. Foz
fonte da lei. Algumas estimativas de tempo escolar por dia de aula foram realizadas por cálculos aproximados sendo explicitados nas notas de rodapé:
Fonte: França (2008; 2010; 2013a; 2017d). Leconte (2014). Syndicat Général de l’Éducation Nationale (2013). Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura (1959).
29
Conferência Nacional sobre os Ritmos Escolares (FRANÇA, 2010): “[...]1969: na primária, a duração semanal da passa de 30 h a 27 h [...]”.
30 Conferência Nacional sobre os Ritmos Escolares (FRANÇA, 2010): “[...] 1990: na primária, a duração semanal da passa de 27 h a 26 h [...]”.
31 Conforme menciona Leconte (2014, p.157) “[...] os alunos da escola primária passaram, entre 1882 e 2008, de 1338 horas de aula (223 dias) à 864 repartidas em 144 dias
[...]”.
Ano Org. Dias letivos Semanas letivas H p/semana H. p/ano Dias de férias Leis e Decretos
Antes de 1882
6 dias/Média 6h por dia. 223 +/- 37 36 1338 142
1966 5 dias/ Média 5h 20 por dia. 180 36 30 1080 185 *1882: Em 28 de março, o Artigo 2 propõe um dia de
descanso, além do domingo, a fim de proporcionar a instrução religiosa aos estudantes.
1966-1969 4 dias e meio/ Média de 6h por dia. 180 40 27 +- 1080 185 *Em 1969: Passa-se de 30 para 27 horas semanais29.
1989-2008 4 dias e meio/ Média 6h10 por dia. 180 40 26 +- 1040 185 *Em 1990: Passa-se de 27 para 26 horas semanais30.
2008-2013 4 dias / 6 horas por dia. 144 36 24 + APC 86431 221 *Decreto que exclui o sábado. Aulas, segunda, terça, quinta
e sexta.
*7 de junho de 2010: Conferência Nacional Sobre os Ritmos Escolares.
2013-2017 4 dias e meio/ 5 horas e 30 por dia e no
máximo 3h30 por turno. 180 36 24 960 185 * 24 horas de ensino repartidas em 9 turnos. As horas de ensino deveriam ser organizadas na segunda, terça, quinta, sexta e a quarta pela manhã, sob a razão de 5 horas e trinta minutos por dia e três horas e trinta máximo por turno. * O diretor acadêmico do serviço de educação nacional pode dar o acordo de aula no sábado pela manhã em substituição a quarta pela manhã quando esta derrogação é justificada. * Criação dos TAP.
A partir de 2017
4 dias 144 36 24 864 221 * Cada cidade pode escolher qual modo de funcionamento adotaria.
Já no século XX, no ano de 2010, foi realizada a Conferência Nacional dos Ritmos Escolares que contou com a elaboração e divulgação de relatórios expressamente cronobiologistas sobre os Ritmos das crianças e das escolas. Estes foram realizados, através de fóruns e reuniões em diferentes cidades, e via plataforma online por diversos membros da sociedade: pais, delegados regionais, prefeitos, universidades, centros de pesquisas, etc. Ainda assim, nesta pesquisa, a conferência não foi considerada uma categoria de análise, pois não se teve acesso às fontes e dados que identificasse qual foi a abrangência e o perfil dos participantes deste evento. Certamente, esses dados diriam muito sobre os sentidos subjacentes ao que foi proposto no ano de 2013.
Contudo, pode-se afirmar que o foco do encontro foram os relatórios cronobiologistas que apontaram a jornada escolar francesa, 24h semanais de escola divididas em quatro dias (modelo da tabela referente aos anos de 2008-2013), ou seja 6h de aula formais por dia, era uma das jornadas escolares mais pesadas da Europa, em que os números de dias de escola eram bastante baixos e a concentração de horas de aula por dia bastante altas (FRANÇA, 2010). Esta condição, seria o fator que, segundo os cronobiologistas contribuía para a não aprendizagem das crianças, o estresse e o cansaço escolar.
Notoriamente, sob a influência dos resultados divulgados nessa conferência, em 2013, foi implementada a Lei n° 2013-77 de 24 de janeiro de 2013 (FRANÇA, 2013b). Ficou decretado que o ensino seria organizado em nove turnos, de segunda à sexta, sendo obrigatório a oferta de aulas na quarta-feira pela manhã, este dia poderia ser trocado pelo sábado, se justificável no projeto educativo territorial, desde que não interferisse na qualidade pedagógica da escola. Também ficou decretado a organização de Atividades Pedagógicas Complementares (APC). As APC são atividades propostas pelos professores aos grupos de alunos (média de 3 a 8 alunos) que se encontram com dificuldade de aprendizagem ou que o professor julgue necessitarem de um complemento em seu processo de aprendizagem. Por serem de responsabilidade do grupo de professores da escola, é uma atividade mantida e proposta pelo Estado. Estas devem estar incluídas dentro das 24 horas de aula semanais e podem ser desenvolvidas a partir de um acompanhamento individual de algumas crianças; de um acompanhamento de trabalho personalizado; de um projeto de atividade escolar que envolva a escola com atores extraescolares, etc. Cabe ao professor em conjunto com o grupo escolar decidir o modo de funcionamento do APC.
A implementação dos Tempo de Atividades Périscoliare32(TAP) também foi uma proposta da Lei nº2013-77 (FRANÇA, 2013b). O TAP diz respeito ao tempo de atividade extracurricular que funciona no período de pós-escola, no fim da tarde. Atualmente, com a mudança de governo no ano de 2017, cada prefeitura pode decidir se oferta o TAP ou não. Pela lei, até 2017, era obrigatório a oferta e o financiamento do TAP pelas prefeituras, mas a participação nas atividades era facultativa às famílias. Tinha um valor que deveria ser pago sendo que sua tarifa dependia do nível financeiro da família.
O TAP foi incluído no que se denomina na França, Activités Périscolaires, ou seja, são atividades dirigidas por monitores educativos, chamados de animadores, e que ocorrem dentro da escola, nos tempos em que não se possui aula formal com o regente. As Activités
Périscolaires são dividias em: Tempo Périscolaire da Manhã; Tempo do Meio Dia, TAP e Périscolaire do Fim da Tarde. Todos funcionam com o apoio de Animadores e de um
Animador Referente que faz a mediação entre a prefeitura e as escolas.
Os Animadores geralmente possuem um diploma na área da animação infantil e juvenil (será explicado mais abaixo) ou podem ser profissionais das mais diversas áreas das artes, das ciências, da cultura, bem como oriundos de diversos espaços associativos em que trabalhem possuindo diploma referente ao cuidado de crianças, ou até mesmo cidadãos com competências e formação específica na área de animação infantil.
Especificamente, o TAP é um conjunto de atividades lúdicas, ateliês artísticos, esportivos ou culturais que complementam o percurso educativo durante o tempo não escolar, mas que funciona dentro da escola. Neste sentido, faz parte de um projeto territorial tem como objetivo oferecer atividades extraescolares, por um tempo médio de 40min durante três dias na semana. Tem como oferta um lanche após as atividades. O fato de ser facultativo e pago faz com que alguns responsáveis não autorizem seus filhos a frequentarem, seja por renda ou por opção.
Por ser financiado pelas prefeituras a qualidade da oferta do TAP, das atividades
Périscolaires e do Meio-Dia, se diferenciam de uma cidade para outra: uma cidade com
orçamento para o contrato de profissionais e para colocar em prática atividades mais diversificadas (compra de materiais para que os animadores realizem suas atividades, por exemplo) terá uma organização e qualificação diferenciada com respeito a outra cidade com menor orçamento, da mesma forma que em uma cidade grande ou próximo de regiões metropolitanas, as possibilidades de possuir profissionais formados em diversas áreas
32 Preferiu-se manter o termo original.
culturais é maior do que uma cidade do interior. Assim, pode-se entender que em verdade existem diferentes Ritmos Escolares, que se fortalecem e se fragilizam a partir do poder econômico e localização das cidades, densidade populacional e interesse das famílias e que, consequentemente, apresenta uma realidade de diferentes Ritmos Escolares dentro de uma proposta única e nacional.
O Tempo do Meio Dia é previsto em lei, é facultativo aos alunos e deve durar 1h30min no mínimo. É o período vago entre o almoço e a recreação. O restaurante escolar funciona neste horário. Funciona sob responsabilidade da prefeitura, portanto, é obrigação da cidade ofertar o almoço, mas é facultativo às famílias inscreverem as crianças. O restaurante funciona dentro da estrutura da escola e é pago, porém, possui reduções ou até em alguns casos possibilidade de não pagamento para alunos carentes, a depender da forma como se organiza cada município. O fato de ser facultativo e pago faz com que alguns responsáveis busquem as crianças no momento de pausa para almoçar em casa e, após, reenviem as crianças para a aula do turno da tarde.
O Tempo do Meio Dia é divido entre o almoço e atividades lúdicas. De forma geral, há dois turnos de funcionamento: na primeira hora que os alunos saem da escola há o grupo de crianças das classes de CEP, CE1, CE2 que almoçam enquanto os alunos do CM1 e CM2 participam de atividades que são propostas pelos Animadores (vão desde atividades de arte, esportes, jogos de estratégia ou somente ficar no pátio brincando). Após, o processo se inverte e os alunos de CEP, CE1, CE2 participam das atividades até a hora do segundo tempo de aula formal ao mesmo tempo que os alunos do CM1 e CM2 almoçam. Os alunos que almoçam em suas casas tem a possibilidade de retornarem à escola e participarem gratuitamente de atividades e ateliês que funcionam durante Tempo do Meio Dia. Alguns professores utilizam o Tempo do Meio dia para realizarem as APC.
O tempo Périscolaire da Manhã e do Fim da Tarde são tempos de guardearia infantil que também ofertam atividades lúdicas. O tempo de guarderia é um tempo de cuidado da criança em que os fins são relacionados ao cuidar e ao jogar com as crianças até o começo da aula pela manhã ou até a chegada dos responsáveis no fim da tarde. No Tempo da Manhã, os alunos chegam antes do horário da escola formal, tomam um café e fazem algumas atividades antes da primeira hora de aula. Pela tarde, os alunos após o TAP podem participar de atividades lúdicas com os animadores até a chegada dos responsáveis. Todos os tempos
Périscolaires citados, com exceção das atividades do Meio-Dia, são pagos. Contudo, algumas
prefeituras podem oferecer reduções para famílias de baixa renda como optar pela gratuidade das atividades se possuirem orçamento para isto.
A partir desta forma de funcionamento e com a criação do TAP foram elaborados diversos exemplos de organizações do tempo escolar. Na época, era possível encontrar, no site do Ministério da Educação Nacional, um conjunto de modelos de organização do tempo, segundo os critérios dispostos em leis. Abaixo, um exemplo de funcionamento clássico da época:
Tabela 8 - Modo da distribuição do tempo escolar francês semana de quatro dias e meio. Dia da Semana/Horário 7h30-8h30 8h30- 11h30 11h30-13h30 13h30- 15h45 15h45- 16h45 16h45-18h Segunda-feira Périscolaire
Matin Aula Meio dia e Tempo do APC
Aula TAP Périscolaire
do fim da Tarde Terça-feira Périscolaire
Matin Aula Meio dia e Tempo do APC
Aula TAP Périscolaire
do fim da Tarde Quarta-feira Périscolaire Matin Aula Quinta-feira Périscolaire
Matin Aula Meio dia e Tempo do APC
Aula TAP Périscolaire
do fim da Tarde Sexta-feira Périscolaire
Matin Aula Meio dia e Tempo do APC
Aula TAP Périscolaire
do fim da Tarde
Fonte: Elaborado pela autora a partir do Site do Ministério da Educação (FRANÇA, 2015a, tradução nossa).
Contudo, vale ressaltar que com a mudança de governo no ano de 2017 ficou livre à cada prefeitura organizar seus Ritmos Escolares. De forma resumida, as cidades que tem como intuito retornar à semana de 4 dias poderiam fazê-lo desde que respeitem a razão do número de horas por dia, ou seja, 6h de aula por dia, com o máximo 3h de aula por turno.
A liberdade da escolha afeta principalmente dois pontos da organização escolar: primeiro suprime o tempo de aula da quarta-feira pela manhã aumentando o número de horas de aula nos demais dias da semana e diminuindo número de dias de escola por ano. Segundo, elimina a oferta do TAP substituindo-o por mais tempo de aula. Posto isto, com a mudança de horários, as aulas formais funcionariam diariamente por um tempo maior, eliminando o TAP, e, após as aulas do turno da tarde, as crianças teriam somente o Périscolaire do Fim da Tarde. Outrossim, não haveria aula quarta-feira e as famílias é que deveriam se encarregar do cuidado das crianças neste dia da semana. Abaixo, um modelo de funcionamento em uma semana de quatro dias de aula:
Tabela 9 - Modo da distribuição do tempo escolar francês semana de quatro dias. Dia da
Semana/Horário 7h30-8h55 11h15 8h55- 11h15-13h25 13h25-16h25 16h25-18h Segunda-feira Périscolaire
Matin Aula Meio dia e Tempo do APC Aula Périscolaire do fim da Tarde Terça-feira Périscolaire Matin Aula Tempo do Meio dia e APC Aula Périscolaire do fim da Tarde P Quinta-feira Périscolaire Matin Aula Tempo do Meio dia e APC Aula Périscolaire do fim da Tarde Sexta-feira Périscolaire Matin Aula Tempo do Meio dia e APC Aula Périscolaire do fim da Tarde
Fonte: Elaborado pela autora a partir do Site do Ministério da Educação e do modelo de funcionamento da cidade de Lanton (FRANÇA, 2018, tradução nossa).
Analisando a tabela dos diferentes tempos, que já existiram no modelo de escola pública francesa, bem como se desenvolve atualmente os tempos escolares e extraescolares na França e tomando os estudos sobre os Ritmos Escolares propostos por Chopin (2010), pode-se entender que a França é um país que no fim do século XIX e começo do século XX introduziu seus estudos sobre o tempo de ensino. A autora considera três categorias gerais de estudos que se desenvolveram sobre o tempo de escola entre estas épocas: primeiro a organização do tempo relacionado à perspectiva de mudança social; a segunda categoria é a do tempo de escola como uma abordagem cronobiologista e, por fim, os estudos críticos sobre o tempo de escola.
No primeiro caso, os estudos e debates sobre o tempo de escola estavam baseados em condicionar o tempo de permanência às necessidades da organização socioeconômica e ideológica da época. Assim, o tempo que as crianças e jovens passariam na escola se tornou um elemento importante quando o propósito era o de criar projetos e reorganizar a vida na sociedade: o aumento da obrigatoriedade escolar ao longo dos anos, as políticas de acesso e permanência e conclusão dos estudos, a regulação do geral de instrução a fim de mobilizar a organização social e até mesmo o desejo de educar para destituir a presença religiosa que tinham as escolas na monarquia são os exemplos citados nessa dissertação. Chopin (2010) infere o pensamento de que mesmo que estas propostas estivessem vinculadas as questões
econômicas e políticas do que sociais e deixassem de lado os aspectos sociológicos de igualdade e equidade humana elas representaram os primeiros estudos sobre o tempo de escola na França.
Destarte, as críticas sobre as reais intencionalidades do Estado em propor uma educação massiva ao povo merece seu destaque. Isto pois, ao mesmo tempo que a escola primária passou a ser igual em acesso para ricos e pobres, o acesso obrigatório acentuado em 1959 com o aumento da obrigatoriedade escolar dos 6 até os 17 anos pela Lei n °59-45 de 6 de janeiro de 1959 (FRANÇA, 1959) movimentou as classes mais abastadas à investirem na educação secundária e, posteriormente, a educação superior. Assim, a instrução primária foi o marco separador entre a formação popular e a das elites. Foram nesses processos de universalização e, consequentemente, desigualdade de formação, que estudos sobre as desigualdades dentro da escola começaram a surgir e teorizarem a ideia de que se a escola preparava para a sociedade, havia dois tipos de preparações para públicos distintos: a educação da elite, ou seja do patrão e a das camadas mais populares expressamente os empregados nas fábricas, usinas e operários.
A sociologia francesa dos anos 1960 conseguiu, através de seus estudos, deixar registrado o grande legado que a escola do século XX havia proporcionado: universal e democrática, contudo, ilusória e segregatícia. Os estudos desenvolvidos, sobretudo, por Bourdieu e Passeron, constataram que, neste momento de democratização e massificação do ensino primário, haviam mais alunos matriculados nos diversos níveis de ensino que jovens no ensino médio em 1948. Porém, em 1962, 28% das crianças, filhos de operários, eram julgadas pelos seus professores como não sendo boas ou excelentes no nível do 5º ano do Ensino Fundamental (Classe Moyenne 2) contra 55% das crianças de classes superiores. Assim, constatava-se que a prolongação geral da escolarização era acompanhada de uma manutenção das desigualdades precoce dos percursos formativos entre estudantes de diferentes classes sociais (POULLAOUEC, 2009). Conforme Bourdieu e Champagne (1998, p. 220):
Um dos efeitos mais paradoxais deste processo – a propósito do qual se falou, com um pouco de precipitação e muito preconceito, de “democratização” – foi a descoberta progressiva, entre os mais despossuídos, das funções conservadoras da Escola “libertadora”. Com efeito, depois de um período de ilusão e mesmo de euforia, os novos beneficiários compreenderam pouco a pouco, que não bastava ter acesso ao ensino secundário para ter êxito nele, ou ter êxito no ensino secundário para ter acesso às posições sociais que podiam ser alcançadas com os certificados escolares e, em particular, o baccalauréat, em outros tempos, ou seja, nos tempos em que seus pares sociais não frequentavam o ensino secundário.
O segundo eixo que apresenta Chopin (2010) versa sobre o tema da cronobiologia, pois um dos aspectos que foram levantados após o constato do fracasso escolar era a de que o tempo escolar francês, bastante tradicional e rigoroso, causava a fatiga dos alunos33. As pesquisas nesta área do conhecimento possuem forte influência nas discussões sobre o Ritmo Escolar e o Ritmo das crianças e, até os dias de hoje, elas se expressam bastante na mídia.
A maioria dos relatórios que nutrem a imprensa e o campo dos estudos da cronobiologia se fundam sobre o tema do estresse, do cansaço infantil, da fatiga que propicia uma elevada concentração de horas em um dia de escola, sobretudo, no que tange a semana de quatro dias. Existe um discurso cronobiologista dominante e imperativo o qual afirma que o fracasso da aprendizagem das crianças se produz em consequência de uma não harmonia entre