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2.2 ESCOLAS DE PERIFERIA, INVASÕES, QUARTIERS: CARACTERIZANDO OS

2.2.1 Invasão e EB: Brasil e suas realidades distantes

No contexto da Santa Maria, esteve-se em uma escola localizada próxima a duas grandes invasões da cidade e que, consequentemente, recebe a maioria das crianças residentes nelas. Para esta pesquisa, esteve-se somente em uma destas invasões e que aqui será chamada de “Invasão da Luz”. Antes de entrar nos detalhes da EB, primeiramente, é necessário contextualizar o que territorialmente se configura como sendo uma “invasão” no Brasil.

O reconhecimento da característica territorial dos espaços em que vivem as crianças é, numa perspectiva sociológica educacional, fundamental para entendermos alguns dos conflitos que se manifestam no seio da sala de aula, da escola. Entende-se, conforme já se apontou, que se o capital cultural e material dos espaços de vida não podem por si só determinar o fracasso e o sucesso escolar, ainda assim eles possuem um papel importante na relação das crianças e jovens, oriundos dos territórios populares com os saberes que a escola propõe, na maioria dos casos, versados sobre os saberes eruditos, acadêmicos-científicos dominados pelas famílias com formação escolar mais abastadas e que pouco dialogam com a linguagem de vida dos territórios sociais mais pobres.

No Brasil, a falta de opções de moradias baratas, bem como de condições financeiras para que famílias possam adquirir a casa própria é uma situação que se perpetua. Em seu artigo “Legalizando o ilegal: propriedade e usurpação no Brasil”, James Holston (1993) intitula de “periferia fora da lei” o processo de invasão que ocorreu em São Paulo, já na década de 40, em que trabalhadores não absorvidos no mercado de trabalho ou de baixa renda necessitavam construir suas próprias casas, pois essa era uma opção mais barata do que pagar aluguel. Contudo, para encontrar um lote que fosse acessível e barato eles precisavam ir cada vez mais para a periferia, ou seja, se alocavam nos espaços mais afastados, nos campos das entradas das cidades, para o autor a população pobre foi cada vez mais para dentro do mato.

No Rio de Janeiro, ainda que originalmente o termo “favela” tenha vindo dos soldados que retornavam da Guerra de Canudos (1896-1897) e que se instalaram no Morro da Providência sob o apoio e supervisão do governo da época (GONÇALVES, 2013), um século mais tarde, com uma ausência de políticas de habilitação e promoção de moradias, a construção de casas nos espaços montanhosos da cidade acabou sendo a opção das famílias mais pobres se perpetuando até hoje como um território de moradia popular estigmatizado pela sociedade.

Na cidade de Santa Maria, há um grande número de invasões nas periferias da cidade. Estas se enquadram na lógica de habitações, na maioria das vezes, não regulares, em situações precárias construídas por famílias com pouca condição financeira para pagar um aluguel no centro da cidade ou até mesmo em bairros de periferia. Assim, “invasão” ou “vila” é o termo que se utiliza, em Santa Maria, para caracterizar os espaços territoriais que são ocupados pelos cidadãos que lutam pelo direito à moradia. Ramos (2006) em seu estudo sobre jovens em situação de rua na cidade de Santa Maria sintetiza:

Percebe-se um elevado índice de miséria pelas 280 vilas periféricas, aproximadamente, que temos em torno da cidade. São vilas formadas por ocupações irregulares que não estão registradas na prefeitura e nem constam no mapa da cidade. Por ser uma cidade de médio porte, encontrando-se no centro do Estado e com um falso fascínio pelo crescimento, principalmente da construção civil, do comércio e da sua posição cultural, muitas pessoas vem para o município em busca de emprego e de um local para fixar moradia. Porém não ocorre a absorção da mão- de-obra disponível, crescendo consideravelmente o comércio informal e os bolsões de miséria na periferia da cidade. (RAMOS, 2006, p. 20).

A “Invasão da Luz” se enquadra neste contexto de luta pela moradia através de processos de invasões em terrenos desocupados e localizados em regiões periféricas. O local não conta com rede de esgoto (a água que é utilizada pelas pessoas nas casas sai direto na rua formando, portanto, pequenas acéquias em que a água que é utilizada nas residências e acaba escorrendo em meio aos passos e caminhos dos moradores), a energia elétrica recém está sendo regularizada, vendas e mercados são informais e normalmente surgem do interesse de outros moradores, com um pouco mais de renda, que compram alimentos nos supermercados do centro da cidade e os revendem com preço bem maior dentro da invasão. O sistema de coleta de lixo é precário, logo, é comum entre uma casa e outra, nas partes dos campos que ainda restam em torno das casas, ter uma grande concentração de lixo.

O aspecto da mobilidade relatado por Ramos (2006) foi percebido durante a pesquisa em diversos relatos feitos pelas crianças da EB. Em um dia de observação na sala de aula do 5º ano, estive do lado do aluno Gabriel, idade de 10 anos. Neste dia, entre a cópia e a

realização de um exercício e outro, o menino relatou um pouco de sua história de vida. Disse que já havia morado em várias cidades, antes de chegar à Santa Maria. A forma como conta sua instalação na cidade demonstra a luta de sua família pela obtenção de uma moradia:

Gabriel: Meu pai tá construindo uma casa. Ele já colocou piso, já rebocou por dentro e por fora. Já

pintou por dentro, já fez o quarto deles, já fez o nosso, já fez o banheiro, já fez o teto, colocou o forrinho colocou os coisa novo e acabou de fazer a laje. Tá colocando coisa na laje. Agora só falta pintar por fora, arrumar lá o pátio que ele quer colocar uns coisa pra ficar reto porque tá coisado assim sabe (ele fez um sinal com a mão de que um dos lados está para cima e outro para baixo). Que é assim sabe. Ai fica ruim. Aí ele vai colocar cimento e só falta arrumar o nosso portão.

Rosa: Tá mas aí vocês ficam aonde?

Gabriel: Lá em casa. É que é quando ele vai fazer as coisas assim tipo o quarto deles, ele primeiro

dormiam. Primeiro eles fizeram assim tipo o quarto deles que eu ajudei ele a fazer. Aí eles colocaram o piso, aí eles começaram a dormir na sala. Colocaram a cama deles na sala. Aí depois fizeram o nosso e a gente parou de dormir lá com eles e foi pro nosso quarto. E aí, eles foram arrumando o deles e a gente foi arrumando o nosso. Aí, cada um agora tem seu quarto e o banheiro foi por último. Só que aí agora ele tinha. A nossa laje que ela é velha. Ela é velha daí é de antiga olaria, daí tava caindo muita coisa, muita água e começava a cair lá em baixo, sabe lá na garage.

[...]

Gabriel: Ei, eu já morei em Caxias, um ano e poco em Porto Alegre, depois fui lá pra São Gabriel fiquei

uns 5 meis lá.

Rosa: Porque se muda tanto?

Gabriel: Não sei. Só sei que eu morei em Porto Alegre, aqui em Santa Maria. Morei em três cidades, não

quatro cidades eu morei. Porto Alegre a gente morou, Caixas a gente morou, Santa Maria a gente morou e lá em São Gabriel (Relato de Observação nº5, dia 21 de junho de 2017).

Durante as observações e entrevistas percebeu-se que muitos professores relatam que a maioria dos alunos que “vem da invasão” são os mais pobres, os que sofrem no inverno, os que perdem tudo nos dias de tempestade forte, é onde estão os traficantes, onde ocorrem as mortes e os crimes que saem no noticiário. Desta forma, os professores se remetiam ao mundo da invasão e, geralmente, ao mundo das crianças pobres como sendo outra “realidade” longe da realidade de vida deles. No resumo do relato sobre a fala da Diretora, destaca-se tal relação:

Acomunidade escolar para a diretora é caracterizada como sendo uma comunidade bastante carente, com pais ausentes e baixa “cultura” por parte dos alunos. Segundo Vera, a escola está situada na 2ª zona mais violenta da cidade, perdendo somente para a 1ª Zona que seria a Vila do Sol. Assim, muitos alunos são filhos, sobrinhos parentes de traficantes, possuem seus pais presos, convivem com a violência e o tráfico de drogas diariamente. A pobreza também faz parte de suas vidas. A Vila da Luz é composta pela Vila propriamente dita (espaço formal e reconhecido no mapa da cidade), mas possui dois outros importantes espaços de habitação irregulares, mas que abrigam uma grande quantidade de famílias e, consequentemente, alunos da escola. Os lugares são o chamado “beco” (uma forma de rua sem saída) e a “invasão” (lugar caracterizado como um terreno que foi ocupado por famílias, sem autorização legal, e que elas habitam). Nestes dois casos, normalmente, as fiações elétricas, rede de água não são legalizadas. As casas são casas construídas de forma improvisada, com materiais usados e muitas delas em situação bastante precárias. Para a diretora, a falta de poder aquisitivo das famílias, muitas delas com dinheiro somente para poder comprar a comida, e não poder comprar livros, revistas para as crianças reflete na escola, pois as crianças são frutos desta falta de cultura: chegam à escola indisciplinadas, sem muitas

vezes saber pegar uma tesoura, com fome (Entrevista com a diretora da EB, dia 20 de junho de 2017).

A “baixa cultura” que Vera se refere é, na verdade, uma baixa escolaridade dos pais ou uma falta de organização familiar que se concentre na escolarização e reforço do conteúdo escolar pelos responsáveis em casa. Para ela, a dificuldade em aprender os conteúdos curriculares está relacionada com o modo de vida das crianças fora da escola e que, conforme mencionou-se na apresentação deste trabalho, muitas vezes, é precário. Neste processo relacional, a diretora apresenta uma visão de cultura que está totalmente imbricada com o mundo escolar.

Ter ou não ter cultura, nesta maneira de pensar, é possuir ou não certos saberes ser e fazer, já bastante debatidos na sociologia. Conforme explicam Nogueira e Catani (1998), a teoria de Bourdieu revelou um dos mais duradouros pensamentos que a escola estigmatizou sobre a relação do saber reproduzido por ela e a relação com o saber das camadas mais populares. Segundo Nogueira e Catani (1998, p. 9):

Os educandos provenientes de famílias desprovidas de capital cultural apresentarão uma relação com as obras de cultura veiculadas pela escola que tende a ser interessada, laboriosa, tensa, esforçada, enquanto para os indivíduos originários de meios culturalmente privilegiados essa relação está marcada pelo diletantismo, desenvoltura, elegância, facilidade verbal “natural”. Ocorre que, ao avaliar o desempenho dos alunos, a escola leva em conta sobretudo – consciente ou inconscientemente – esse modo de aquisição (e uso) do saber ou, em outras palavras, essa relação com o saber.

O discurso de Vera, e de muitos outros professores, é produto de uma visão unilateral da escola e do currículo escolar, em que o fracasso escolar é justificado como sendo um componente não-cultural. Conforme aponta Freire (1996), é um discurso que se enquadra em uma ideologia fatalista, apolítica e imobilizante, a qual insiste em convencer de que nós, enquanto educadores, não podemos influenciar na realidade de nossos alunos e que, ao contrário, o mérito do sucesso escolar deve vir deles, de seus esforços, da família, e de que o professor nada pode fazer para mudar a realidade que está dada.

Esta forma de perceber a cultura desresponsabiliza a escola em se apropriar ou buscar entender as justificativas para um baixo rendimento dos alunos. Para Lahire (1995), relacionar os meios socioeconômicos de existência e o diploma das famílias com o desempenho escolar exclui dos professores a capacidade de autoquestionamento sobre qual relação com o conteúdo escolar ele está propondo aos alunos, reforçando, portanto, o discurso de que é o aluno “que não se adapta à escola”.

A EB estava localizada na Vila da Luz. Foi criada, nos anos 90 e tem acoplada em sua estrutura uma Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI). A escola contava com um total de 765 alunos, dos quais 370 cursavam as aulas pelo no turno da manhã, sendo estes os alunos da etapa dos Anos Finais e dos 5º anos dos Anos Iniciais. Depois, haviam 280 que cursavam as aulas no turno da tarde, sendo todos do 1o ao 4º ano, e, pelo turno da noite os restantes 115 que cursavam as diferentes modalidades da Educação de Jovens e Adultos. É, portanto, uma escola de turnos em que cada divisão da jornada (manhã, tarde e noite) recebe uma etapa da Educação Básica.

A comunidade escolar, como já mencionado, é de famílias bastante carentes, oriundas da Invasão da Luz. Muitas das crianças vivenciam cotidianamente situações de violência nas ruas de suas casas, estão expostas ao tráfico e até mesmo estão em situação de risco pessoal e social. Ainda assim, dentro do espaço da escola, durante o período de observação, não se identificou atos de agressões físicas. O que mais enalteceu nas observações foram as ameaças constantes de alunos contra alunos, alunos contra professores e vice-versa. As brigas vivenciadas ocorreram sempre fora da escola, ou seja, o famoso “te pego na saída” (foram três registros durante os 10 dias de observação).

Conforme relatou a Diretora, ela não percebe que haja dentro da escola um reflexo direto e imediato do tráfico de drogas, da violência adulta nas crianças e nos adolescentes. Ou seja, ainda que elas estejam convivendo neste meio do tráfico e da violência, elas não apresentam envolvimento com as práticas e nas ações que realizam seus responsáveis. Vera reconhece que há às vezes algumas brigas no recreio ou na saída e que há a possibilidade de que entre uma inda e vinda ao banheiro algum aluno passe alguma droga para outro, mas estas situações são esporádicas e pouco frequentes. O maior desafio da escola é, para a Diretora, a indisciplina. Para ela, o mais difícil é que os alunos respeitem as regras, que façam as coisas de sala de aula (Entrevista com a Diretora da EB, dia 20 de junho de 2017).

A percepção de Vera sobre a indisciplina escolar ser o maior desafio da escola, ao passo que as situações de violência observadas (ofensas, ameaças entre os alunos e brigas na saída) passam em segundo plano, reforça o que já havia sido enaltecido no parágrafo acima. Ou seja, de que a disciplina escolar, o portar-se como aluno, tem uma valorização maior do que os atos de violência registrados entre os alunos. Situação que é diferenciada se o ato de violência (verbal, física ou psicológico) for praticado de aluno para professor. Em sua entrevista, a Diretora reiterou que existe uma vontade dos professores de lutarem “[...] para que os alunos aprendam [...]”, Vera relatou que tem uma turma de 9º ano que está “[...] bem

difícil de trabalhar [...]” e que ela percebe que os professores estão sempre lá, “[...] tentando, tentando [...]” (Entrevista com a Diretora da EB, dia 20 de junho de 2017).

Não obstante, no âmbito da violência entre alunos e disciplina, havia dois projetos sendo desenvolvidos com os alunos: o primeiro projeto era o “bulliyng na escola”, tinha como foco os alunos dos Anos Finais e seu objetivo era mobilizar os alunos a se expressar sobre o

bulliyng. Com efeito, a escola estava cheia de cartazes sobre o bulliyng, a violência de um

colega sobre o outro e sobre as sensações que estas ações causam neles.

Outro projeto era o da aplicação e memorização das Regras de Convivência. Este projeto foi proposto pela Secretaria Municipal de Educação e consiste em repassar, por meios de material de divulgação (impressão, cartazes, publicação no blog da escola), as regras de convivência. Estas devem ser entendidas como sendo a base para que os alunos mantenham um bom ambiente na escola e se sintam pertencentes dela. Resumidamente, o projeto funciona à luz da Lei Municipal n° 8449/2017 (SANTA MARIA, 2017) que dispõe sobre Normas de Convivência Educacional. A referida Lei diz respeito à institucionalização da criação de normas pelos gestores nas escolas que devem ser publicadas e postas aos alunos, a fim de orientá-los sobre seus direitos e deveres. O não cumprimento das normas escolares faz com que o aluno entre em um processo de sete chances de melhoramento antes de ser solicitada a sua transferência dirigida para outro estabelecimento. As sete chances na EB eram: ter no máximo três atas de desrespeito às normas propostas pelo regimento escolar, com a professora da sala de aula, após este limite e a continuação do desrespeito às normas escolares, o aluno é conduzido a realizar outras três atas com o Serviço de Orientação Educacional (SOE). No fim destas seis chances, a última chance consiste na realização de uma ata com a direção da escola. Estes sete momentos são direcionados para a realização de atas que devem, segundo a lei, ser desenvolvidas através de um processo dialógico entre o aluno e o responsável escolar. O aluno deve, nessa reunião de ata, se comprometer em obedecer respeitar as regras da escola. As atas também podem ser realizadas quando a ocorrência se tratar de agressão verbal e física aos professores, por parte tanto dos alunos quanto dos responsáveis. Elas também podem compreender casos de negligencia familiar, de descaso com a escola por parte dos responsáveis na vida escolar das crianças.

A escola era considerada a maior da cidade de Santa Maria. O número de professores que atuavam era de 62, sendo deste total 7 professores do Contrato Emergencial (CE) e quatro do contrato de Consolidação das Leis de Trabalho (CLT)15. Possuía, na época da investigação,

15 Se refere a trabalhadores públicos que tiveram, no passado algum direito trabalhista negligenciado ou que não

20 turmas na modalidade dos Anos Iniciais (AI), 12 nos Anos Finais (AF) e duas turmas na Etapa III e IV da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Abaixo a relação de turmas, professores e alunos dos AI:

Tabela 4 - Relação de turmas, professor.

Anos Iniciais

N° alunos Turmas N° Prof. Concurso CLT CE

386 20 4 4 4 4 4 20 15 1 5

CE por ano escolar 0 0 2 3 1

Fonte: Síntese elaborada pela autora com base nas observações (2017).

A partir da tabela apresentada, visualizou-se que 25% dos professores que atuavam nos AI eram professores do CE. Este número representava quase que a totalidade de professores CE que atuavam na escola. A falta de regentes efetivos e concursados se dava, primeiro pela falta contratos e bom desempenho dos candidatos nos concursos lançados pela Prefeitura da cidade. Depois, conforme relataram os próprios professores que trabalhavam na escola, pela reputação do perfil dos alunos. Por possuir uma grande parte dos alunos que vinham de situações e condições de vida difíceis e pela distância da escola do centro da cidade, poucos professores tinham interesse em trabalhar na escola e por terem a liberdade de escolherem em qual escola trabalhar, não escolhiam as escolas de periferia ou com “má reputação”. Durante o tempo de observação, vivenciou-se a seguinte situação:

Era um dia de planejamento16 da regente Lucimara e havia um professor novo de inglês que chegava à escola. A

professora que estava encarregada da disciplina havia pedido transferência para uma outra escola e este novo professor veio para substituí-la. As observações revelaram que as aulas, no dia do planejamento, eram bastante agitadas e com o novo professor não tinha sido diferente. Contudo, ao fim de seu primeiro dia, o professor foi até a coordenação e informou que não continuaria a dar aulas na escola. Estava presente no momento em que ele relatou que considerando a quantidade de trabalhos que tinha para fazer e o comprometimento com a outra escola que trabalhava (que era no centro da cidade), ele não se sentia confiante para “dar conta” das turmas na EB uma vez que exigiria um grande comprometimento de sua parte com as turmas notoriamente agitadas e de difícil relação (Relato de observação nº 6, dia 22 de junho de 2017).

Prefeitura, com carteira de trabalho assinada. Foi regulamento pelo Decreto nº 5.452, de 1 de maio de 1943 (BRASIL, 1943).

16

O dia do planejamento é um direito que possui o professor de Educação Básica para planejar suas aulas fora do espaço de sala de aula, porém dentro do horário de trabalho. Foi estabelecido a partir da Lei n°11.738 de 16 de julho de 2008 (BRASIL, 2008). Na EB, o dia do Planejamento dos 5º anos ocorria na quinta-feira. Neste dia, os professores eram dispensados de virem às aulas, Realizando seu planejamento em casa e as turmas tinham aula com professores de diferentes áreas do conhecimento (religião, literatura, educação física e inglês), durante 1h cada aula. Esses professores, normalmente, eram aqueles que tinham horas sobrando na escola.

A relação entre o perfil de uma escola de periferia e a falta de professores é recorrente. Existe um discurso senso-comum de que trabalhar em escolas de periferia é “dificultoso”. Com efeito, reconhecer a “dificuldade” nos espaços de periferia não é algo de todo falso. As