4.1 A AMAZÔNIA BRASILEIRA: ASPECTOS GERAIS
4.1.3 Da Nova República ao governo Lula (1985-2007)
O processo de redemocratização não implicou no afastamento dos militares no cenário político nacional. Foi justamente no período após a ditadura, que se elaborou políticas territoriais mais específicas de proteção e vigilância para a Amazônia (SILVA, 2004).
O governo Sarney utilizou a questão de soberania nacional como centro de argumentação para garantir os direitos de defesa sobre a Amazônia. Nesse sentido, uma série de programas e órgãos de proteção ambiental foram idealizados57.
Dois processos opostos marcam o ano de 1985, para Becker (2005). De um lado, esgota-se o modelo do nacional-desenvolvimentismo inaugurado na Era Vargas, com o Estado intervindo na economia e no território. De outro, inicia-se um processo de resistência das populações locais com o processo de expropriação de terra, com a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros. A pressão ambientalista internacional e nacional, as redes de comunicação, a emergência de novos atores como ONGs, igrejas, partidos políticos e governos possibilitaram que a Amazônia se apoiasse num “novo vetor de desenvolvimento – tecnoecológico –, vetor entendido como a força resultante da coalescência de múltiplos projetos” (BECKER, 2005, p.29). A autora entende que trata-se de experimentos relacionados à biossociodiversidade, que envolvem populações de origens diferentes e políticas diferentes, fazendo uso das redes de comunicação para a articulação com diferentes atores.
No contexto externo, o meio ambiente, após a Guerra Fria, passou a figurar como uma das novas ameaças à segurança internacional, sendo que soluções conjuntas entre os diversos atores deveriam ser pensadas. Além disso, a Rio-92 procurou melhorar a imagem do Brasil no exterior, concebido como um vilão ambiental, sobretudo pela destruição das florestas tropicais. Nesse sentido, o presidente Fernando Collor de Mello mostrou-se interessado na preservação do meio ambiente oferecendo o país para sediar a conferência.
Kohlhepp (2002) considera que a mudança nas estratégias de desenvolvimento para um conceito que conciliasse economia e proteção ambiental, através do chamado “desenvolvimento sustentável”, se concretizou com a nova política regional para a Amazônia com a criação do Ministério do Meio Ambiente58.
57 O Ministério da aeronáutica ficou encarregado de implantar o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), que
depois foi integrado ao Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM). Além disso, a Constituição Federal de 1988 foi um passo decisivo para a formulação da política ambiental brasileira. No mesmo ano foi lançado o Programa Nossa Natureza que estabeleceu diretrizes para a execução de uma política de proteção ambiental e, no ano seguinte, foi criado o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Em 1990, foi criada a Secretaria do Meio Ambiente da Presidência da República (SEMAM/PR), que tinha no IBAMA seu órgão gerenciador da questão ambiental, responsável por formular, coordenar, executar e fazer executar a Política Nacional do Meio Ambiente e da preservação, conservação e uso racional, fiscalização, controle e fomento dos recursos naturais renováveis.
Como conseqüência da preocupação internacional com o meio ambiente e com a destruição das florestas tropicais do Brasil, foi criado o Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG7). A participação de alguns países industrializados, do Banco Mundial, de ONGs, do governo brasileiro e da sociedade civil, traria a perspectiva de uma ação política regional voltada para um padrão de desenvolvimento sustentável (BECKER, 2005; KOHLHEPP, 2002).
No entanto, Becker (2005) considera que o novo vetor tecnoecológico é positivo, mas possui dois problemas que impedem a sua expansão: a) dificuldade de inserção nos mercados, em virtudes de carências gerênciais e competitividade; b) a característica pontual, que não alcança escala de atuação em região de grandes distâncias.
Em 1996, teve início uma nova fase do processo de ocupação regional da Amazônia, cuja fase é marcada pela retomada do planejamento territorial pela União. O lançamento, naquele ano, do Programa Avança Brasil, do presidente Fernando Henrique Cardoso pode ser considerado um marco na trajetória regional. Segundo Kohlhepp (2002), desde a implementação do PPG7, as atividades estatais na Amazônia se desenvolveram de modo desigual. De um lado, os objetivos do governo eram os investimentos em infra-estrutura, crescimento econômico regional e a integração ao mercado. Por outro, as recomendações do PPG7 privilegiavam iniciativas de desenvolvimento sustentável e proteção da população local e regional. Tais recomendações se chocavam com as metas do “Brasil em Ação” (1997-99) e sua expansão, posterior, no programa de desenvolvimento, o “Avança Brasil”. Segundo Becker (2005), os programas de unidades de conservação do PPG7 conflitavam, em 1996, com políticas públicas de desenvolvimento para a Amazônia inserida no processo de globalização.
Gonçalves (2005) ressalta que os documentos do Avança Brasil divulgaram uma idéia aparentemente nova – a de Eixos de Integração e Desenvolvimento – que passou a comandar as políticas de caráter nacional. O autor considera que os estudos de impacto ambiental, elaborado pelo Ministério dos Transportes, dentro do Avança Brasil, são feitos exclusivamente para a concessão de licenças para as obras. Entende-se assim que as novas terminologias camuflavam os velhos objetivos.
O esgotamento do nacional-desenvolvimentismo, o processo de globalização e o processo de organização da sociedade civil provocaram mudanças na Amazônia e no país que dificultavam elaborar diretrizes de ação. Essas dificuldades, de acordo com Becker (2005) podem ser
explicadas por concepções que não mais correspondem à realidade da região. As estratégias de ocupação devem ser substituídas pela consolidação da população com vistas ao desenvolvimento.
Não se trata mais, portanto, de ocupar o território. Ele já está ocupado, e espera-se que as florestas existentes sejam mantidas com suas respectivas populações. No novo contexto, a prioridade das políticas públicas para a região não deve ser mais a ocupação do território, mas sim a política de consolidação do desenvolvimento, almejado hoje por todos os grupos sociais (BECKER, 2005, p.33).
Diante disso, as políticas públicas para a Amazônia, ao nosso entender, deveriam conciliar o crescimento econômico com conservação ambiental. Seria preciso compatibilizar políticas de preservação na Amazônia com as ações desenvolvimentistas do governo federal.
Atualmente, os planos formulados para a região amazônica como o Plano Plurianual (PPA), o Plano Amazônia Sustentável (PAS), o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento, o Plano BR-163 Sustentável, e a Política Nacional de Desenvolvimento Regional não seguem adequadamente os princípios da conservação ambiental, a despeito do discurso construído na idéia de sustentabilidade. A ausência de diálogo e de integração de diferentes instituições nacionais envolvidas, colabora para que os planos de conservação permaneçam no campo da retórica.
Em meio aos processos acima mencionados, o Brasil se projetou como ponto de referência da cooperação internacional na década de 1990. A Amazônia tornou-se um espaço para investimentos e programas, sob o signo da sustentabilidade, devido ao potencial das florestas e sua biodiversidade. A partir daí, alguns países industrializados passaram a investir no Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG7), como será exposto a seguir.