AUTOGESTÃO TERRITORIAL
MERCADO EXTERNOMembrana Externa
III. DA PERSPECTIVA COLETIVA PARA A INDIVIDUAL
Tendo em vista que, por um lado, um simples isolamento de uma comuna significa, a rigor, renunciar a todo o estoque de conhecimento e riqueza gerado historicamente pelos próprios tra- balhadores e, por outro lado, que um ponto inicial de sustentabi- lidade orgânica precisa ter fôlego suficiente para um movimento de expansão dialética, ou seja, provocar um ponto de inflexão, é que advogamos que a base material de um Sistema Orgânico do Trabalho precisaria, necessariamente, para seu início ou fundação, ser constituído com os seguintes eixos produtivos (autogestão téc- nica e coordenativa) e serviços coletivos (autogestão social plena):
106 1 Édi Augusto Benini 2 • Eixo produtivo dos alimentos;
• Eixo produtivo da construção civil; • Serviços básicos de saúde e educação.
Essa indicação justifica-se levando em conta que, em média, as famílias brasileiras comprometem até 75% da sua renda nos setores de habitação, alimentação, transportes, saúde e educação, logo, mesmo que de início os trabalhadores/associados do SOT não tenham meios de produção de alto valor agregado e tecnológico, podem perfeitamente, a partir daquela base inicial, terem domínio sobre um percentual considerável das necessidades humanas básicas.
Por outro lado, é importante considerar que as mediações alienadoras do capital são fonte de incalculáveis desperdícios (tanto de vidas humanas, como de riqueza material produzida). O documentário A história das coisas (Story of Stuff), escrito e apresentado por Annie Leonard (que pode ser acessado, na sua versão original, na página: http://www.storyofstuff.com/, além de haver várias versões com legendas e dubladas em português), nos dão valiosas pistas sobre a provável dimensão destes desperdícios sistêmicos, no contexto dos Estados Unidos (referência mundial de sociedade capitalista).
Entre outras questões igualmente relevantes, destacamos a questão da obsolescência planejada, que faz com que mais de 90% das mercadorias virem lixo em menos de seis meses. Outro dado que impressiona é o fato de que o Estado americano gaste quan- tias na ordem de até 60% do seu orçamento com o setor militar de defesa.
Ora, não é preciso ir muito longe ou lançar mão de vários estudos e pesquisas empíricas para se perceber os enormes (e talvez incalculáveis) custos da desigualdade social. Todo o privilégio é um campo de disputa, que vai desde um cargo mais bem remunerado
1 Sistema Orgânico do Trabalho 2 107 até o controle de povos e territórios inteiros. E a cada disputa, quanto de desperdício, bloqueios e destruição não se produz?
Para ilustrar este argumento, elaboramos como hipótese (natu- ralmente passível de estudos e comprovação empírica) um possível quadro analítico (quadro 1) a partir daquelas evidências apontadas anteriormente, das diferentes formas e impactos do desperdício sistêmico provocados pelas mediações alienadoras do capital
Quadro 1 – Desperdício Sistêmico.
Desperdício Sistêmico da Riqueza Social no Capitalismo Perda Direta Possível Impactos Sistêmicos
Obsolescência
Até 90% das mercadorias em 6
meses da destruição ambientalaceleração exponencial
Custos de Transações De 1 a 5% da renda desconfiança
Repressão do Poder De 10 a 50% da renda violência, destruição, guerras
Falta de Qualidade nas mercadorias e nos
alimentos De 10 a 20% das mercadorias saúde ruim das pessoas e mais demanda curava
Objetos não comparlhados
Pelo menos 10% de mercadorias
desnecessárias quebra de sinergias
Quadro 1 – Desperdício Sistêmico
Não temos como demonstrar tais valores com exatidão, o que sem dúvida mereceria uma boa e detalhada pesquisa, mas acreditamos que todas essas formas de desperdício sistêmico são, no mínimo, significativas, e na lógica de um Sistema Orgânico do Trabalho tais custos e passivos poderia ser drasticamente reduzidos, potencializando ainda mais a riqueza real, a partir de três efeitos conjugados:
• Circularidade progressiva dos fluxos de riqueza, devido aos efeitos da renda sistêmica;
108 1 Édi Augusto Benini 2 • Bloqueio dos desperdícios sistêmicos, a partir da autogestão
técnica e coordenativa da produção centrada na criação de valores de uso, como também a partir da simplificação e igualdade econômica permitida pela renda sistêmica; • Compartilhamento de bens e serviços de uso comum, a par-
tir da propriedade orgânica e da autogestão social plena. Logo, no contexto de um sistema comunal baseado na aglu- tinação orgânica do trabalho, é possível que uma renda sistêmica venha a ser potencializada, no médio ou longo prazo, em até quatro vezes além do seu valor inicial, sem que necessariamente se aumente as forças produtivas ou a produtividade do trabalho.
Dessa forma, após ultrapassar a fase inicial de criação e cons- tituição das comunas (talvez uma urbana e duas rurais) do Sistema Orgânico do Trabalho, já se teria um importante efeito demonstra- tivo de como se comporta os fluxos de riqueza social, e a aposta é que todos os benefícios e mudanças qualitativas venham a compen- sar, em larga medida, eventuais dificuldades iniciais. Evidenciando assim as consequências concretas de uma via de organização do trabalho não alienado e motivando outros trabalhadores que saiam da sua condição alienada de trabalhadores assalariados, e venham a entrar na comuna como trabalhadores/produtores associados. Se é certo que a consciência dos homens se forma a partir das suas condições de existência, enquanto na sociedade capitalista as con- dições de existência são amplamente contraditórias, formando por isso diferentes concepções e posturas ideológicas, possivelmente dentro da realidade de um efetivo e pleno “trabalho associado e solidário” teremos novas condições de existência, fortalecendo assim as subjetividades pró-emancipação, como também se cons- titui um “convite” pleno de conteúdo para que outras posturas, a favor da lógica e dos valores do capital, possa ter ao menos bases mais sólidas para repensar suas concepções de mundo.
1 Sistema Orgânico do Trabalho 2 109 Ainda que muitos venham a ter uma renda sistêmica, do ponto de visa nominal, provavelmente inferior a do antigo salá- rio, acreditamos que não será difícil perceber claramente todos os demais benefícios e as perspectivas abertas. Ou seja, aos poucos um contexto de trabalho emancipado vai relevando várias poten- cialidades humanas, que por vários motivos estavam adormecidas ou aprisionadas.
Isso porque tal tipo de renda representa uma parcela da riqueza social deste sistema. Tal parcela é o espaço de opção indi- vidual de consumo de cada trabalhador, que se completa com o consumo coletivo e “público” da comuna, ou seja, a partir de uma igualdade material todos têm liberdade plena para escolher seus estilos de vida e de convivência.
No mundo do capital, há sempre uma “desvantagem” do tra- balho assalariado, afinal, de que adianta ganhos salariais relativa- mente elevados, se por sua vez os custos de vida e de sociabilidade crescem numa proporção até maior?