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Sistema Orgânico do Trabalho 2 77 3

No documento do Trabalho Arquitetura Crítica (páginas 77-81)

COMUNITÁRIOS

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A variedade de interpretações a que tem sido sub- metida a Comuna e a variedade de interesses que a explicam em seu benefício demonstram que era uma forma política perfeitamente flexível, diferente- mente das formas anteriores de governo, todas elas fundamentalmente repressivas. Eis o seu verdadeiro segredo: a Comuna era, essencialmente, um governo da classe operária, fruto da luta da classe produ- tora contra a classe apropriadora, a forma política afinal descoberta para levar a cabo a emancipação econômica do trabalho. (MARX, 1986)

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evando em conta as várias reflexões sobre a experiência histórica da Comuna de Paris, em 1871, com elogios do próprio Marx (conforme citação acima), não restam dúvidas de que tal experiên-

78 1 Édi Augusto Benini 2 cia de auto-organização dos trabalhadores fundou preceitos-chave de uma governança autogestionária.

Em outra passagem, também no livro clássico A guerra civil na França (1986), Marx igualmente conclama a integração econômica do trabalho associado (produção cooperativa, nas suas palavras), a partir da abolição da propriedade privada dos meios de produção como instrumento de “escravização e exploração do trabalho, em simples instrumentos de trabalho livro e associado” (ou seja, na lógica aqui apresentada, em propriedade orgânica), vejamos abaixo:

A Comuna – exclamam – pretende abolir a proprie- dade, base de toda civilização! Sim, cavalheiros, a Comuna pretendia abolir essa propriedade de classe que converte o trabalho de muitos na riqueza de uns poucos. A Comuna aspirava à expropriação dos expropriadores. Queria fazer da propriedade individual uma realidade, transformando os meios de produção, a terra e o capital, que hoje são funda- mentalmente meios de escravização e exploração do trabalho, em simples instrumentos de trabalho livre e associado. Mas isso é o comunismo, o “irrealizá- vel” comunismo! Contudo, os indivíduos das classes dominantes, bastante inteligentes para perceber a impossibilidade de perpetuar o sistema atual – e não são poucos – erigiram-se nos apóstolos enfadonhos e prolixos da produção cooperativa. Se a produção cooperativa for algo mais que uma impostura e um ardil; se há de substituir o sistema capitalista; se as sociedades cooperativas unidas regularem a produ- ção nacional segundo um plano comum, tomando-a sob seu controle e pondo fim à anarquia constante e

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às convulsões periódicas, consequências inevitáveis da produção capitalista – que será isso, cavalhei- ros, senão comunismo, comunismo “realizável”? (MARX, 1986)

Entre as inovações levadas a efeito pelos protagonistas da Comuna de Paris, é oportuno recuperar suas principais, igualmente destacadas por Coggiola (2002, p. 12):

• Cargos coordenativos, não acumuláveis e revogáveis a qualquer tempo;

• Equalização das remunerações (especialmente na relação dirigente/operário);

• Negação e busca de superação de formas burocráticas esta- tais de dominação;

• Reforma nos sistemas educacionais;

• Organização de conselhos operários nas fábricas;

Fica claro que, a partir da análise de Marx e observando mais atentamente os elementos organizadores da Comuna de Paris, que é crucial para se materializar o autogoverno dos trabalhadores/ produtores a questão da propriedade dos meios de produção, bem como a superação da divisão social e hierárquica do trabalho (buro- cracia estatal) e a superação da intermediação mercantil (que nesta passagem Marx denomina como anarquia constante e convulsões periódicas), que somente com uma “regulação nacional a partir de um plano comum” poderiam ser superados.

É nesse sentido que percebemos que, na atual configuração da economia solidária, os chamados empreendimentos econômi- cos solidários – EES – lançam mão de uma forma de autogestão extremamente limitada (BENINI; BENINI. 2010), restrita a pou- cos aspectos da gestão imediata de uma unidade de produção e pautada por inúmeros elementos “externos” (tais como preço de

80 1 Édi Augusto Benini 2 mercado, distribuição nos mercados, tecnologias para gerar mais- -valia, barreiras financeiras para o acesso a novos meios de pro- dução, entre outros).

Situação diferente se desenvolve à medida que cada unidade de produção passa a estar, material e economicamente falando, plena- mente integrada. As instituições da propriedade orgânica e da renda sistêmica são os fundamentos de tal integração, onde cada EES, ao se converter em um eixo produtivo do SOT, inaugura um novo conteúdo para a sua autogestão, se antes subordinada e restrita, passa a ter um horizonte societal, uma vez que, imediatamente a tal inflexão, uma série de novas questões passa a estar na “agenda” dos trabalhadores/produtores associados, indo desde a necessidade então criada de coordenação do conjunto dos eixos produtivos, passando pela questão dos investimentos e inovações científicas e tecnológicas, até aspectos mais amplos da reprodução social, como serviços coletivos básicos de saúde, educação, entre outros.

Dessa forma, as primeiras manifestações de um sistema de governança autogestionária se dão justamente nas unidades de produção, mas não mais como pontos dissociados, fragmentados e subordinados às mediações do capital, mas como pontos (eixos) de uma nova forma de organização do trabalho associado, aglutinada organicamente; logo, cria-se assim um novo processo ontológico de formação deste novo ser social: os trabalhadores na condição de produtores associados aos SOT.

Claro que não estamos propondo aqui o mesmo movimento da Comuna de Paris, ou seja, a tomada imediata do controle de várias instituições, pois advogamos, que, além de não ser necessá- rio, seria contraproducente em relação ao objetivo de emancipação pleno dos humanos para além das mediações alienadoras do capital, conforme veremos na parte 3, ao discutirmos com mais proprie- dade as possíveis estratégias de implementação e enfrentamento.

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