AUTOGESTÃO TERRITORIAL
MERCADO EXTERNOMembrana Externa
II. DA PERSPECTIVA INDIVIDUAL PARA A COLETIVA
A diferença qualitativa do sistema orgânico do tra- balho como alternativa necessária ao modo social de reprodução metabólica estabelecido reside, e é impensável, sem uma adoção consciente da autocrí- tica como um princípio orientador vital. Ao mesmo tempo, é impossível conceber a adoção consciente e a operação de autocrítica como um princípio dura- douro de orientação sem um certo tipo de repro- dução societal que se deve manter como um verda- deiro sistema orgânico, sem o perigo de descarrilar do curso de desenvolvimento histórico entretanto aberto. Aqui estamos a falar de uma correlação dia- lética entre um diferente tipo de sistema orgânico necessário no futuro e o princípio orientador da autocrítica que, conjugados entre si, tornam viável esse novo tipo de sociedade. (Mészáros, 2008)
102 1 Édi Augusto Benini 2 É razoável considerar que, no atual contexto de hegemonia cultural e ideológica do capital, poucas pessoas sequer têm con- dições para uma postura crítica, e menos ainda para reivindicar e lutar por uma alternativa. Dessa forma, de início seria necessário reunir e envolver, no processo concreto de constituição de um Sis- tema Orgânico do Trabalho, pessoas que já possuem senso crítico formado (que sabem ou compreendem quais os riscos e implicações, expostos a todos nós, de não se superar o atual sistema do capital) e, principalmente, acreditam sinceramente que é possível reverter o estabelecido, logo, estão dispostas a correr riscos nessa direção. Um único indivíduo pode, sem dúvida, dar sua contribuição ou mesmo dedicar uma vida toda pelas lutas emancipatórias, ainda que suas possibilidades sejam extremamente limitadas; entretanto, a partir de que mais e mais indivíduos se articulem em torno de um projeto e práxis política, pesa cada vez menos a “ingovernabilidade das circunstâncias” alheias a nossa vontade, e pesa cada vez mais a força coletiva de um projeto social e conscientemente pactuado.
Não que haja (ou que estejamos sugerindo) algo do tipo “grupos de vanguarda” da transformação social. Mas o fato é que cada um de nós simplesmente tem experiências diferentes, olhares diferentes, históricas distintas, logo, perspectivas de resistência e luta também, em vários sentidos, divergentes. O capital, nas suas múltiplas personalizações e artifícios, “educa”, treina e condiciona a se aceitar o estabelecido, e quando tais mecanismos ideológicos de dominação falham, parte-se ou para retaliações econômicas, ou mesmo ameaças e punições mais severas, quando, não raramente, paga-se com a própria vida. Por outro lado, sabemos o quanto a esquerda encontra-se hoje dividida, ora entre diferentes leituras da situação atual, ora sobre quais propostas ou projetos de enfren- tamento devem eleger. Sem dúvida há uma dificuldade imensa de mobilização e articulação de um autêntico movimento de massas para além do capital, ou, nas palavras de Harvey:
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A política de dividir para governar da classe de elite dirigente tem de ser enfrentada por uma política de alianças da esquerda favorável à recuperação dos poderes locais de autodeterminação. (2005, p. 217) Apesar disso tudo, acreditamos que ainda existe um quan- titativo considerável de pessoas dispostas a se engajarem numa ofensiva (aliança de esquerda para a autodeterminação) contra os fundamentos do capital, e tal ofensiva não necessariamente pre- cisa ficar restrita apenas à conquista do poder estatal, conforme argumentamos anteriormente, mas, sobretudo, pode também ser uma ofensiva direta na esfera econômica e produtiva, ou seja, nos espaços de produção material da nossa existência.
Não sabemos até que ponto, e em que magnitude, uma ofen- siva na esfera econômica e produtiva, na perspectiva de um Sistema Orgânico do Trabalho, consiga envolver ativistas e militantes (futu- ros “associados” deste organismo pós-capital), e/ou ganhar apoio dos movimentos sociais, movimentos/partidos políticos e sindicais, mas sem dúvida, no seu processo de implementação (talvez a fase mais difícil, que é iniciar o movimento de constituição desse sis- tema), seria fundamental aglutinar um coletivo já qualificado com pessoas cientes das contradições do capital, seus riscos, sua estru- tura e forma de funcionamento, e que acreditam na capacidade dos seres humanos em criar outras formas de sociabilidade. Se for possível, ao menos, conseguirmos que várias pessoas, trabalhado- res, lideranças sociais, intelectuais, profissionais de todos os tipos leiam e discutam tais propostas apresentadas aqui, já teremos um horizonte de possibilidades sendo aberto.
A partir da constituição dessa base social, e após um ponto de ruptura inicial (pois a própria “força da inércia” do status quo não deve ser desprezada), um conjunto de motivações, antes apenas “abstratas” para muitos, e apenas situadas como “possibilidades”
104 1 Édi Augusto Benini 2 (ou pior, como “promessas vazias”) para alguns, passam a ser experimentadas concretamente, no dia a dia deste novo arranjo societal, dando nova força aos envolvidos (seja social, educativa, política, ou até mesmo psicológica e moral) e motivando novos apoios, adesões, e com isso “associações” por parte dos trabalha- dores em geral e os coletivos de trabalho associado, cooperativo e solidário em particular.
Dessa forma, “vanguarda” aqui diz muito mais a ideia de “pioneiros”, que assumem um grau maior de risco, de renúncias e se envolvem neste trabalho árduo de abrir caminho para os demais (o que não deixa de ser uma forma concreta de solidariedade) do que qualquer ideia de elite, direção, privilégios ou algum tipo de superioridade política ou intelectual.
Também a própria ideia de revolução ganharia novo signifi- cado, pois na sua concepção tradicional era entendida mais como aceleração do tempo por meio de movimento de massas, enquanto na perspectiva de instituição de um sistema orgânico do trabalho a quantidade de pessoas é determinada, e não determinante, da qualidade desse coletivo em construção, ou seja, do seu tipo de solidariedade, grau de comprometimento com a transformação social e potencial na criação dos meios adequados para se viabilizar um projeto emancipatório.
Neste horizonte, opta-se por um processo revolucionário que seja, talvez, “lento” no começo, mas que ganhe consistência e força no tempo, rejeitando-se, dessa forma, a opção por um processo muito forte e explosivo no começo, mas que se desgaste progres- sivamente (devido a não ter se constituído sob bases mais sólidas ou mediações adequadas), permitindo concessões progressivas à ordem anterior, com o risco considerável de se ter, com o passar do tempo e com o surgimento de novas dificuldades, um movimento contínuo de retrocessos e degeneração.
1 Sistema Orgânico do Trabalho 2 105 Também é importante destacar que, possivelmente, haverá muitas dúvidas nos momentos de constituição desse novo sis- tema, logo, sem um corpo/coletivo comprometido, abre-se espaço para disputas prematuras, que não contribuirão em nada para o necessário espaço e tempo, crítico e autocrítico, de constituição do Sistema Orgânico do Trabalho, logo, espaço de resistência, de criação, inovação, ajustes e correções, inerentes a esse processo de inflexão e transformação.
Vencido o ponto de inflexão inicial, e ganhando consistência necessária na sua organicidade, é que de fato podemos falar numa perspectiva efetivamente pós-capital. A chave elementar para isso será naturalmente o trabalho concreto, consubstanciado no esforço de cada individuo para dar movimento sistêmico ao sistema comu- nal, e se esses mesmos indivíduos venham a controlar/compreender o propósito do seu trabalho, ou seja, o processo de modificar a natureza e produzir coisas úteis e/ou necessárias para os humanos, então a ação individual não alienada e integrada poderá realizar um coletivo para além do capital.