CAPÍTULO I. Portugal e a Espanha, evolução de um relacionamento: Das rivalidades históricas às parcerias na Europa, na Ibero-América e no Mundo.
I.4 Da Primeira República ao Pacto Ibérico entre ditaduras.
Ao proclamar-se a República em Portugal, a revolução junto a crescente crispação entre o novo poder republicano e a Igreja Católica provocaram no exterior, a imagem de um Portugal submerso na anarquia e num verdadeiro caos político-social. Isto gerou naturalmente o perigo de contágio revolucionário ao outro lado da fronteira. César Oliveira afirma que, “O monarca espanhol tentou entusiasmar a
49 Cf. RODRIGUES, Jorge Nascimento e Tessaleno Devezas (2009), Portugal. O Pioneiro da Globalização.
A Herança das Descobertas, pp. 420, 421.
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António Sardinha, citado por CABRITA, Maria da Conceição V. Serra Pontes (2010), “Aliança- Peninsular”.
27 Inglaterra a apoiar uma intervenção espanhola sobre a jovem República portuguesa para por termo às ameaças que sentia serem induzidas desde Lisboa”52.
Os argumentos por parte da Espanha não pesam o suficiente na decisão da Inglaterra de reconhecer a República portuguesa em 11 de Setembro de 1911, precipitando a partir daí, naturalmente, outros actos formais de reconhecimento por parte de uma serie de potências europeias, incluindo a mesma Espanha.
Os primeiros anos da República portuguesa e entretanto a I Guerra Mundial.
Nos seus primeiros anos, a Republica portuguesa parece esforçar-se, sobretudo, na diversificação das suas relações exteriores ‒ condicionadas como estavam por uma forte dependência financeira e económica da Grã-Bretanha ‒ com países como o Brasil e os EUA.
Numa conjuntura marcada pela I Guerra Mundial (1914-1918), a jovem República ainda com um império a salvaguardar é obrigada a participar na guerra junto à aliada Inglaterra. Ao vizinho peninsular, por outro lado, resultava-lhe mais útil e profícuo um entendimento entre os dois estados sob pena de sucumbir perante a cobiça das grandes potências. Em relação a Grande Guerra, Espanha ‒ perdido o seu império ‒ decide permanecer neutral.
Não obstante a melhoria nas relações entre os dois países ibéricos, a Espanha parece não abandonar as suas pretensões hegemónicas em relação ao seu vizinho na península. Nesse sentido César Oliveira afirma que, “aquando o fim da I Grande Guerra, no seio da Sociedade de Nações, a Espanha ainda tenta encontrar apoio para intervir em Portugal”53
.
52 OLIVEIRA, César (1995), Cem Anos nas Relações luso-Espanholas, p. 20. 53 Idem, p. 31.
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O Pacto Ibérico entre ditaduras.
As consequências da I Guerra Mundial foram desastrosas para a Europa, não tanto para a Espanha, que vira crescer espectacularmente as suas exportações. Para Portugal, o pós-guerra foi simultaneamente próspero e apocalíptico.
A taxa de crescimento anual do PIB português, estimada para a década de 1920, por exemplo, é a maior entre 1890 e 1950: um 3,83% contra 1,29%, entre 1900 e 1910, 0,29% entre 1910 e 1920, e 1,84% entre 1930 e 1940. Indústrias como a das conservas de peixe cresceram com a guerra, e grandes firmas portuguesas do século XX, como a Companhia União Fabril, consolidaram-se. Mas houve também grandes dificuldades, em parte devido à ruptura dos equilíbrios financeiros. O Estado português saiu da guerra arruinado, mas os governos não hesitaram em sobrecarrega-lo com as suas clientelas. As receitas do Estado diminuíram, a moeda desvalorizara-se e o défice público e a dívida pública aumentaram sobremaneira. Ao desequilíbrio orçamental juntou-se o da balança de pagamentos, atingida pela quebra da reexportação colonial e das remessas dos emigrantes. A inflação abalara a sociedade.54
A instabilidade político-social que se vivia favoreceu naturalmente a emergência de regímenes de ditadura militar em Portugal e na Espanha. Os ideais liberais perdem terreno no meio das inúmeras demandas politicas, económicas e sociais que lhes colocam os vários sectores das suas respectivas sociedades.
Em Portugal, começa um sistema ditatorial com a subida ao poder, em 1915, do general Pimenta de Castro. Os anos de 1917 e 1918 são de perseguição aos republicanos. A revolta militar de 28 de Maio de 1926, dirigida por Gomes da Costa, coloca António de Oliveira Salazar à frente do Ministério das Finanças. A partir desta data, Portugal e a Espanha começam a estreitar cada vez mais os seus laços.
Em 1927 iniciaram-se as conversações que conduziram a assinatura do Primeiro Acordo Internacional sobre o Douro. O êxito deste acordo favoreceu a emergência de
29 um ‘esforço comum’ no sentido de a Espanha e Portugal começarem a tratar muitos dos aspectos emergentes das suas relações bilaterais. Podemos destacar entre outras, a Conferencia Económica Luso-Espanhola, de Maio de 1928, onde foram abordados temas relevantes como o das comunicações por caminho-de-ferro e das novas estradas transfronteiriças, o tema das redes telegráficas e telefónicas, e o tema dos problemas suscitados pelo comércio bilateral de uma série de produtos. Os limites dos respectivos territórios e a definição exacta do traçado das fronteiras terrestres também foram objecto de negociação e de um acordo, finalmente traduzido no Tratado de Conciliação e Arbitragem, de 1928.
O apoio de Salazar ao regime de Franco.
Em Abril de 1931 ‒ ao mesmo tempo que em Portugal era construído o Estado Novo ‒ , em Espanha era implantada a II República. Isto pressupunha uma clara ruptura política entre os dois governos que iria complicar, mais uma vez, a relação bilateral.
Em 1932, depois de ter ocupado o cargo de ministro interino de colonias dois anos antes, Salazar é eleito presidente do Conselho. As preocupações sobre o futuro do regime Salazarista, tendo em conta a evolução política (que conduziria a uma guerra civil) da Espanha ‒ marcada pelas fortes rivalidades existentes entre as facções da Esquerda e da Direita ‒ , levam o governo de Lisboa a tomar a decisão, em finais de 1935, de avançar simultaneamente com o rearmamento do exército e de intervir nos assuntos internos espanhóis, apoiando aos conspiradores militares da Direita contra a República. A Guerra Civil de Espanha passa a ser vista como a principal ameaça externa para Portugal. Neste sentido, António José Telo afirma que “O Estado Novo eleva a um primeiro plano a necessidade de garantir a segurança e continuidade do regime e
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decide correr os riscos que isso implica, especialmente os riscos de apoiar ao franquismo quando (por outro lado) é iminente a guerra na Europa”55.
É certo e seguro o apoio politico, económico e logístico português, e são perfeitamente conhecidas as facilidades concedidas em Portugal para o recrutamento de voluntários para a Legião Estrangeira. Não é menos verdadeira a afirmação, segundo refere César Oliveira, de que foi no plano diplomático que Oliveira Salazar desencadeou acções e tomou iniciativas que asseguraram à sublevação liderada por Franco, a dimensão internacional que não tinha quando ela se iniciara.56
Em 1 de Abril de 1939 acaba a Guerra Civil e inicia-se um período de trinta e oito anos de ditadura na Espanha, com o General Francisco Franco no poder. O apoio do Estado Novo à causa protagonizada pelo general Franco aproximou os dois estados. Com efeito, as relações económicas de Portugal com a Espanha viriam a conhecer um quadro novo tutelado pelo Tratado de Amizade e Não Agressão ou Pacto Ibérico, de Maio de 1939.57 Para Juan Carlos Jiménez, a ideia da “aliança peninsular” foi essencial para transformar as relações hispano-portuguesas já que a imposição dos autoritarismos franquista e salazarista fizeram desse pacto, o fundamento conceptual das suas respectivas políticas de vizinhança.58
Apesar da ‘aliança peninsular’, opções de inserção internacional diferentes.
Salazar fazia assentar toda a política externa portuguesa na consolidação e no reforço da ‘aliança luso-britânica’ ‒ pedra angular da defesa da política colonial portuguesa ‒ , e na vocação atlântica de Portugal, recusando-se ao mesmo tempo, a
55 TELO, António José e Hipólito De La Torre Gómez (2003), Portugal y España en los sistemas
internacionales contemporâneos, p. 128.
56 Cf. OLIVEIRA, César (1995), Cem Anos nas Relações luso-Espanholas, p. 41. Neste ponto, convém lembrar que os republicanos espanhóis não só contavam com o auxílio soviético mas também com o apoio e a simpatia de todos os heróis românticos do mundo retratados, de maneira ímpar, por Ernest Hemingway, no seu grande romance “Por quem dobram as campanas” (1940).
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A Inglaterra não se oporia a esta aliança, desde que fossem salvaguardados os compromissos existentes, de parte de Portugal. Veja-se VICENTE, António Pedro (2003), Espanha e Portugal. Um olhar
sobre as relações Peninsulares no século XX, pp. 229-232.
31 um maior envolvimento nas questões e problemas no quadro do continente europeu. A Espanha de Franco orientava a sua política exterior para a amizade com os regimes totalitários vigentes na Alemanha e na Itália (de quem também tinha obtido apoio durante a Guerra Civil); para a afirmação do ideário da Hispanidade59 na América Latina; e não escondia o desejo de expandir a sua presença no Norte de Africa, nem o propósito de solucionar a seu favor, a questão de Gibraltar.60
Em 29 de Julho de 1940, Portugal e a Espanha assinam o Protocolo Adicional ao Tratado de Amizade e Não Agressão Luso-Espanhol. O protocolo comprometia os dois estados no sentido de iniciarem um processo de consultas mútuas sempre «que se prevejam ou ocorram factos que pela sua natureza possam comprometer a inviolabilidade dos seus respectivos territórios metropolitanos ou constituir perigo para a segurança ou independência de uma ou outra das partes». Este novo instrumento diplomático entre os dois países era para Portugal, assim como o tratado de Março de 1939, uma garantia contra a aproximação hispano-alemã, e era a sua vez para a Espanha, uma salvaguarda contra eventuais consequências da ‘aliança luso- britânica’.61
Quando iniciou a II Guerra Mundial, Portugal e a Espanha, ‘instavelmente neutrais’ no conflito, encontravam-se inseridos internacionalmente, mais uma vez, em lados opostos.
Portugal, pivô de ligações aéreas e marítimas entre a Europa e o resto do mundo.
Cabe aqui referir que, na conjuntura da II Guerra Mundial, a neutralidade de Portugal no conflito junto com a mais-valia que constitui a sua localização geográfica
59 Conceito associado à uma visão nostálgica da Espanha imperial e que visa legitimar projectos políticos centralistas e autoritários. Sobre este tema, recomenda-se a leitura do texto de JUAN-NAVARRO, Santiago, “Una sola Fé en una sola Lengua: La hispanidad como coartada ideológica en el pensamiento reaccionário español”, pp. 392-399.
60 OLIVEIRA, César (1995), Cem Anos nas Relações luso-Espanholas, p. 55. 61 Idem, p. 66.
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no extremo mais ocidental do Velho Continente transformou o território luso no mais importante centro de ligação entre o continente europeu e as Américas.
Com efeito, as carreiras marítimas e as linhas de navegação aérea passaram a ter Lisboa como o seu centro operacional mais importante. Portugal transformou-se assim, sobretudo depois da ocupação da Bélgica, Holanda e França (no inicio do verão de 1940) pelos exércitos do Hitler, no ‘local de esperança’ para milhares de refugiados de todos os cantos da Europa, num ponto de passagem quase obrigatório de militares, civis e mercadorias diversas que transitavam da América do Norte, da América Latina e de África para a Europa e para o Mediterrâneo.62