• Nenhum resultado encontrado

TORRES MILITARES

V. DA PROPOSTA DE NOVOS OLHARES

UM PERCURSO LITORAL

REFERÊNCIAS DE PAREDE

TRÊS CAIS

O LUGAR DE ABRIGO

DOIS MIRANTES NA

PAISAGEM

REVELAÇÃO DE NOVOS

OLHARES

REDESCOBERTA DO LUGAR

TÉCNICAS E

MATERIALIDADES

FORMA E FUNÇÃO

EM CONTINUIDADE

150. Área das salinas a Norte da vila. Enquadramento para a vila onde se pode ver também o caminho dos moinhos à direita, que irá ser integrado e valorizado no projeto e o alinhamento do canal navegável, que será também integrado no projeto e utilizado como percurso pré-existente que liga e põe em contraponto os dois novos mirantes na paisagem

O caminho enquanto traçado de um movimento continuado e acertado ao longo de gerações constitui um legado importante na definição de planos e projetos de desenvolvimento local. Revela um dos mais importantes reflexos da interação entre o homem e o seu espaço de habitar. Ligando pontos importantes da vida cotidiana, o percurso revela normalmente o caminho mais proveitoso, não só em distância, mas também em segurança (domínio visual, camuflagem), conforto, aprazibilidade, continuidade, importância enquanto espaço de encontro de uma comunidade, entre outros.

No território Litoral, com a sua planura e exposição à luz e ao rigor do clima, o caminho constitui um efetivo meio de contemplação e compreensão da paisagem e dos seus recursos. Permite numa curta distância o encontro com diversas espécies animais - aves, répteis, peixes, entre outros. Assim como com a flora rica e exuberante, que muda significativamente a sua coloração, dimensão, folhagem e floração ao longo das estações do ano. Que muda também em altitude, podendo variar entre o baixo, médio e alto sapal, com uma enorme variedade de plantas halófilas, dependendo da sua exposição à variação do ciclo de marés, da constituição sedimentar do solo proveniente de sedimentos aluviais e estuarinos, entre outros fatores. Há também, quer nas ilhas, quer nas margens da ria, os ambientes dunares, ricos em plantas xerófitas que sobrevivem a fatores extremos de insolação, vento, exposição ao sal, erosão das areias e baixa disponibilidade de água doce, e que têm por missão fixar e robustecer a estrutura dunar, garantindo que esta se torna suficientemente estável para que outras plantas se vão fixando e criem solo cada vez mais rico. Um processo muitas vezes, e ciclicamente, influenciado pela instabilidade própria das áreas dunares expostas ao galgamento oceânico no caso das ilhas, e à erosão eólica, sedimentação …, uma luta natural pela sobrevivência. Podem ainda encontrar-se ambientes de mata, o que resta do “bosque mediterrânico original”, que deu lugar aos pinhais e restos do “antigo bosque climático do sobreiral termomediterrânico”141

É, assim, uma revelação constante de uma atmosfera riquíssima, com influências diversas, que oferece uma densa e complexa experiência, apenas possível de abarcar se despendida uma disponibilidade e generosidade para entender os sinais de um ecossistema em constante transformação, que apresenta padrões de comportamento, aos quais o homem adiciona condicionantes e os altera, para desta relação retirar conforto e lucro.

Dado o interesse desta paisagem distinta, foi criada a Ecovia do Litoral, que percorre o litoral meridional do Algarve “numa extensão de cerca de 214Km”, atravessando doze concelhos desde Sagres até Vila Real de Santo António, e que oferece um percurso contínuo por caminhos próximos do mar. “Este projecto está a ser desenvolvido em articulação com a Diputación Provincial de Huelva (Espanha), por forma a garantir a sua ligação

e continuidade no país vizinho. A Ecovia do Algarve é a infraestrutura que em Portugal integra o EuroVelo 1, Rota da Costa Atlântica - desde o Cabo Norte, (Escandinávia), até Sagres, a mais longa das 14 rotas

EuroVelo, com 8.186 km.” 142 Há também uma série de percursos que

constituem, em conjunto com a Ecovia do Litoral, a rede viária do Algarve, nomeadamente a linha ferroviária do Sul, as autoestradas A2 e A22, Os itinerários complementares IC1, IC4 e IC27, a estrada nacional EN2 (que liga Faro a Chaves) e a EN125 (que liga Sagres a Vila Real de Sto. António), entre outras estradas e caminhos de âmbito municipal e local, e ainda uma outra ciclovia que atravessa a serra Algarvia, denominada Via Algarviana. As rotas fluviais são também um fator distintivo da paisagem da Ria Formosa, uma vez que permitem a ligação entre vários aglomerados urbanos da região, por meio marítimo, quer por mar alto, quer por canais interiores do sistema lagunar (alguns apenas percorríeis por embarcações sem motor ou completamente interditados pela proteção da biodiversidade e interesse enquanto “maternidade” de diversas espécies animais autóctones), e que permitem uma fruição da diversidade natural destes territórios.

A referida Ecovia do Litoral atravessa de poente para nascente a vila da Fuzeta, assim como os seus terrenos lagunares, o que faz desta vila um local de paragem num grande percurso que atravessa o Algarve e o liga a Espanha e à Europa, por meio de bicicleta ou a pé, constituindo a única via dedicada ao usufruto de uma experiência de baixa velocidade em contacto amplificado com a paisagem e com o ambiente. Dada a sua relação contínua e até tangente em alguns pontos com o espaço lagunar, passando por alguns pequenos portos e ancoradouros, há um potencial por explorar que é o reforço da relação entre os dois meios (marítimo/lagunar e terrestre), permitindo uma diversidade de percursos e experiências. Não só paralelos à costa, mas também que atravessem transversalmente o sistema lagunar, e permitam o acesso às ilhas e areais, pelos canais e regueiras da ria, de uma forma compatível com a especificidade dos ecossistemas. Propõe-se desta forma uma reflexão sobre o papel da rede viária de pequena escala e de baixa velocidade. Apontam-se várias possibilidades, quer de meios de transporte fluvial e terrestre, como as canoas, os barcos movidos energia solar ou a remos, as jangadas, o Paddle, o windsurf , o surf , a natação, a bicicleta, o triciclo, a caminhada e corrida, entre outros, quer de possibilidades de conjugação entre as duas tipologias, reforçando a ideia da descoberta do lugar a partir do caminhar/navegar in situ. Convida-se também à fruição individual e coletiva desta paisagem e da sua carga poética intrínseca, com uma multiplicidade de ambiências capaz de sublimar, oferecendo um passeio diverso e transcendente.