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1 NOÇÕES SOBRE A TEORIA DA PROVA

1.3 PROVAS ADMITIDAS NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO

1.3.9 Da Prova Documental

Um dos principais meios de prova do Processo Penal, senão o mais utilizado, trata-se da Prova Documental. O conceito de documento está previsto no artigo 232 do Código de Processo Penal, segundo o qual: “Consideram-se documentos quaisquer escritos, instrumentos ou papéis, públicos ou particulares”.

Contudo, assevera Marcos Eberhardt que o conceito atribuído pela legislação corresponde a um conceito arcaico não utilizado na prática. Assim salienta o autor: “Hoje o conceito de documento evoluiu, abrangendo todo o instrumento que seja capaz de representar um fato ou ato juridicamente relevante. Não se restringe, portanto, àquilo que está escrito em

89 SOUZA, Gilson Sidney Amâncio de. TICIANELLI, Marcos Daniel Beltrini. Prova. In Direito Processual Penal: parte 1. Col. Processo e Execução Penal. Coord. por Luiz Régio Prado. São Paulo: RT, 2009, v. 1, p. 203.

90 LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de Processo Penal. 3. ed. rev., atual. e ampl. Salvador: Ed. Juspodium, 2015, p. 706.

papel, englobando toda forma de manifestação de vontade do ser humano que possa ser fixada de algum modo.”91

Nesse mesmo sentido, Aragonese Alonso defende que seja feita uma abertura conceitual, categorizando a prova conceitual como

toda classe de objetos que tenham uma função probatória, contanto que esses, por sua índole, sejam suscetíveis de ser levados ante a presença judicial; isto é, que documento é qualquer objeto móvel que dentro do processo possa ser utilizado como prova, contrapondo-se neste sentido, a prova de inspeção ocular que se pratica naqueles objetos que não possam ser incorporados ao processo.92

No que concerne à juntada dos documentos no processo, toda a doutrina e jurisprudência brasileiras admitem que podem ser juntados até o encerramento da instrução, devendo o Juiz imediatamente oportunizar às partes o exercício do Contraditório.

Existe uma exceção a essa regra prevista no rito dos crimes de competência do Tribunal do Júri; de acordo com o art. 479 do Código de Processo Penal93, a juntada de novos

documentos tem que ser feita com antecedência mínima de três dias da sessão de julgamento. Segundo Aury Lopes Júnior, tal exigência é feita porque o Tribunal do Júri é muito sensível e demanda cuidados muito maiores no desenvolver de seu procedimento, uma vez que a decisão a ser tomada pelos sete jurados que o compõe prescinde de qualquer forma de fundamentação.94

Acredita-se ser inviável a juntada de documentos após a sentença, pois implicaria a supressão de um grau de jurisdição. Contudo, de acordo com o autor supra, nada impede que seja produzida a prova ou contestada sua veracidade para utilização numa eventual revisão criminal, conforme possibilita o art. 621, inciso II, do CPP.95

Ainda, convém pontuar que a Prova Documental é aquela contemplada na exceção da atividade do Juiz na produção probatória, o qual pode determinar de ofício sua juntada nos autos. Assim, prevê o art. 234 do CPP: “Se o juiz tiver notícia da existência de documento relativo a ponto relevante da acusação ou da defesa, providenciará, independentemente de requerimento de qualquer das partes, para sua juntada aos autos, se possível.”.

91 EBERHARDT, Marcos. Provas no Processo Penal: análise crítica, doutrinária e jurisprudencial. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2016, p. 183.

92 ARAGONESES ALONSO. Pedro. Instituciones de Derecho Procesal Penal. 5. ed. Madrid, Editorial Rubi Artes Gráficas, 1984, p. 278.

93 Art. 479. Durante o julgamento não será permitida a leitura de documento ou a exibição de objeto que não tiver sido juntado aos autos com a antecedência mínima de 3 (três) dias úteis, dando-se ciência à outra parte. Parágrafo único. Compreende-se na proibição deste artigo a leitura de jornais ou qualquer outro escrito, bem

como a exibição de vídeos, gravações, fotografias, laudos, quadros, croqui ou qualquer outro meio assemelhado, cujo conteúdo versar sobre a matéria de fato submetida à apreciação e julgamento dos jurados. 94 LOPES JUNIOR, Aury. Direito processual penal. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 522.

95 Art. 621. A revisão dos processos findos será admitida: [...]II - quando a sentença condenatória se fundar em depoimentos, exames ou documentos comprovadamente falsos; [...]

Marcos Eberhardt critica a referida atuação, mencionando: “Tal previsão é mais uma demonstração dos poderes instrutórios conferidos ao magistrado que acabam por violar o sistema acusatório constitucional e a imparcialidade do julgador”.96

Caso haja dúvida sobre a autenticidade do documento juntado aos autos, no que se refere à sua letra/firma, deverá ser realizado exame pericial a fim de atestar se seu conteúdo é realmente falso (art. 235 do CPP).

Nesse procedimento de análise pericial, subsiste uma limitação com relação à falsidade ideológica, conforme extrai-se do teor do HC 108.919 julgado pelo STJ:

os instrumentos ideologicamente falsos são insuscetíveis de perícia, pois, numa perspectiva material são regulares, sendo a mendacidade se encontraria no plano do conteúdo, cuja perfídia é apurada pelo simples confronto com os dados da realidade e, não por meio de sondagem técnica.97

No entanto, se as partes, vítima, Ministério Público, querelante ou até mesmo o Juiz de ofício discordarem da veracidade do que foi trazido aos autos, poderão requerer a instauração de incidente de falsidade, previsto nos artigos 145-148, 174 e 235, todos do CPP, devendo ser excluído o documento, caso o resultado do referido incidente for positivo.

Por fim, o Código de Processo Penal ainda trata sobre a forma como deverá ocorrer a devolução dos documentos originais trazidos ao processo, determinando que, depois do trânsito em julgado, quando não existir motivo relevante que justifique a sua conservação nos autos, poderão, mediante requerimento e ouvido o Ministério Público, serem entregues à parte que os produziu, ficando cópia nos autos (art. 238 do CPP).