3 DA RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO
3.3 DA RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO NO DIREITO BRASILEIRO
Neste tópico, far-se-á uma breve análise da responsabilidade civil do Estado no Direito Brasileiro.
3.3.1 Responsabilidade Civil do Estado na Constituição de 1988
A Constituição de 1988, no artigo 37, §6º, preceitua que as pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa. (BRASIL, 1988). Não se exige, pois, o comportamento culposo do agente. Basta o dano, causado por agente do serviço público agindo nessa qualidade, para que decorra o dever do Estado de indenizar (FURTADO, 2013).
Mister deixar assente que, em relação às pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviços públicos (fundações governamentais de direito privado, empresas públicas, sociedades de economia mista, empresas permissionárias e concessionárias de serviços públicos), haverá total incidência dessa regra constitucional desde que prestem serviços públicos, o que, consequentemente, excluirá a responsabilidade objetiva pelo risco administrativo nos casos das entidades da administração indireta que executem atividade econômica de natureza privada. Nesses casos, a responsabilidade será disciplinada pelas normas de direito privado (MORAES, 2013, p. 895).
Assim, a responsabilidade civil das pessoas jurídicas de direito público e das pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviço público é objetiva, sendo baseada na teoria do risco administrativo, de modo que, enquanto não se evidenciar a culpabilidade da vítima, subsiste a responsabilidade objetiva da Administração. Se, porventura, for total a culpa da vítima, fica excluída a responsabilidade da Fazenda Pública; se parcial, reparte-se proporcionalmente ao grau de culpa o quantum da indenização (GONÇALVES, 2007).
Dessa forma, para Di Pietro (2012), a regra constitucional supramencionada exige:
a) que o ato lesivo seja praticado por agente de pessoa jurídica de direito público ou pessoa jurídica de direito privado prestadora de serviço público;
b) que as entidades de direito privado prestem serviço público, excluindo, dessa maneira, as entidades da administração indireta que executem atividade econômica de natureza privada;
c) que haja dano a terceiros, em decorrência da prestação de serviço público, caracterizando o nexo de causalidade;
d) que o dano seja causado por agente das aludidas pessoas jurídicas; e) que o agente, ao causar o dano, aja nessa qualidade.
José da Silva Pacheco (apud Gonçalves, 2007) esclarece que a expressão “serviço público”, contida no §6º do artigo 37 da Carta Magna é gênero, de que o serviço administrativo seria mera espécie, compreendendo a atividade jurisdicional e a legislativa, e não somente a administrativa do Poder Executivo.
Desse modo, abordar-se-á, oportunamente, a responsabilidade civil do Estado decorrente de atos jurisdicionais, pois, embora a questão seja deveras divergente, verifica-se que tais atos estão abrangidos pela expressão “serviço público” (MARCOCHI; PANTALEÃO, 2011).
3.3.2 Responsabilidade Civil do Estado no Código Civil de 2002
A responsabilidade civil do Estado, no Código Civil de 2002, está respaldada pelo artigo 43, que assim dispõe:
Art. 43. As pessoas jurídicas de direito público interno são civilmente responsáveis por atos dos seus agentes que nessa qualidade causem danos a terceiros, ressalvado direito regressivo contra os causadores do dano, se houver, por parte destes, culpa ou dolo (BRASIL, 2002a).
Nota-se que o dispositivo em tela praticamente reproduziu o preceito constitucional abordado no tópico anterior, com a ressalva de que, ao invés de indicar como responsáveis “as pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos”, responsabilizou tão somente “as pessoas jurídicas de direito público interno” (COPOLA, 2008).
No entanto, embora o Codex Civil não tenha feito expressa menção às pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviços públicos, a responsabilização destas é plenamente possível, em respeito ao comando constitucional (COPOLA, 2008).
Gonçalves (2007), por seu turno, destaca que o atual Diploma Civil acrescentou, apenas, a palavra “interno”, não trazendo nenhuma inovação, mesmo porque, como já demonstrado, a matéria já é tratada em nível constitucional.
3.3.3 Responsabilidade Civil do Estado no Código de Processo Civil
O Código de Processo Civil possui disposições específicas no que tange à responsabilidade civil do Estado e do magistrado. O artigo 133 consigna hipótese de responsabilização pessoal do juiz, nos casos em que ocasionar danos a terceiros em virtude de proceder com dolo ou fraude no exercício de suas funções ou quando se recusar, omitir ou retardar, imotivadamente, alguma providência que deveria ordenar de ofício ou, ainda, requerida pela parte (DI PIETRO, 2012). Reza o mencionado dispositivo:
Art. 133. Responderá por perdas e danos o juiz, quando: I - no exercício de suas funções, proceder com dolo ou fraude;
II - recusar, omitir ou retardar, sem justo motivo, providência que deva ordenar de ofício, ou a requerimento da parte.
Parágrafo único. Reputar-se-ão verificadas as hipóteses previstas no nº II só depois que a parte, por intermédio do escrivão, requerer ao juiz que determine a providência e este não lhe atender o pedido dentro de 10 (dez) dias (BRASIL, 1973).
Registre-se, por oportuno, que esse dispositivo do Código de Processo Civil será pormenorizadamente abordado quando da análise dos elementos subjetivos para a responsabilização do magistrado.
3.3.4 Responsabilidade Civil do Estado no Código de Processo Penal
O Código de Processo Penal, em seu artigo 630, prevê a possibilidade do Estado indenizar os prejuízos suportados pela parte se esta assim o requerer, ressalvando-se os casos em que o erro ou a injusta condenação se der em virtude de ato ou fato praticado pelo próprio requerente, ou ainda, em se tratando de acusação meramente privada (MARCOCHI; PANTALEÃO, 2011). Dispõe o referido dispositivo, in verbis:
Art. 630. O tribunal, se o interessado o requerer, poderá reconhecer o direito a uma justa indenização pelos prejuízos sofridos.
§ 1º Por essa indenização, que será liquidada no juízo cível, responderá a União, se a condenação tiver sido proferida pela justiça do Distrito Federal ou de Território, ou o Estado, se o tiver sido pela respectiva justiça.
§ 2º A indenização não será devida:
a) se o erro ou a injustiça da condenação proceder de ato ou falta imputável ao próprio impetrante, como a confissão ou a ocultação de prova em seu poder;
b) se a acusação houver sido meramente privada (BRASIL, 1941).
Ressalte-se, novamente, que no decorrer deste trabalho abordar-se-á o dever de indenização do Estado decorrente do excesso de prisão, o qual abrange não somente a definitiva, mas também todas as espécies de prisões provisórias (MORAES, 2004).
3.3.5 Responsabilidade Civil do Estado na Lei Orgânica da Magistratura Nacional
A Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Lei Complementar nº 35, de 14 de março de 1979), em seu artigo 49, faz menção à responsabilidade civil do magistrado, dispondo, nos seguintes termos:
Art. 49. Responderá por perdas e danos o magistrado, quando: I - no exercício de suas funções, proceder com dolo ou fraude;
Il - recusar, omitir ou retardar, sem justo motivo, providência que deva ordenar o ofício, ou a requerimento das partes.
Parágrafo único - Reputar-se-ão verificadas as hipóteses previstas no inciso II somente depois que a parte, por intermédio do Escrivão, requerer ao magistrado que determine a providência, e este não lhe atender o pedido dentro de dez dias (BRASIL, 1979).
Pela redação do dispositivo, é possível verificar que suas disposições em muito se assemelham ao estatuído no artigo 133 do Código de Processo Civil, diferenciando-se apenas em relação à nomenclatura utilizada para a designação do juiz que, no caso em tela, é tratado como magistrado.
Concluídas as reflexões básicas sobre o instituto da responsabilidade civil do Estado, adiante se abordará a responsabilidade Civil do Estado decorrente da atividade jurisdicional.
4 DA RESPONSABILIZAÇÃO CIVIL DO ESTADO PELOS ATOS