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2 DA RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL DO ESTADO

4.2 A RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO POR CONDUTAS OMISSIVAS

4.2.1 Da responsabilidade objetiva em condutas omissivas do Estado

Não obstante, já tenha sido dito, foi a partir da promulgação da Constituição de 1946, em seu art. 194, que passou a se adotar a forma de responsabilidade chamada de objetiva, onde deixava-se de lado o questionamento do dolo ou da culpa do agente, da licitude ou ilicitude do ato ou mesmo do bom ou mau funcionamento da administração, para responsabilizar a administração pública nos casos em que se comprovasse somente o nexo de causalidade entre a ação ou omissão do Estado e dano ocorrido. (MEDAUAR, 2008, p. 366-367).

Hely Lopes Meirelles, adepto a teoria da responsabilidade objetiva, funda menta seu entendimento na diretriz constitucional, mantida na vigente Constituição, no art. 37 § 6º, que segue a linha das Constituições anteriores e deixa de acolher a privatistica teoria subjetiva da culpa, para dar prestígio a responsabilidade civil objetiva da Administração Pública. (MEIRELLES, 2009, p. 660).

Nesse sentido, é de suma importância destacar o exposto por Hely Lopes Meirelles (2009, p. 661), quando comenta o disposto no art. 37 § 6º, da Constituição Federal de 1988 e baseia-se neste para atribuir a forma de responsabilização do Estado, ou seja, objetiva.

O exame desse dispositivo revela que o constituinte estabeleceu para todas as entidades estatais e seus desmembramentos administrativos a obrigação de indenizar o dano causado a terceiros por seus servidores, independentemente da prova de culpa no cometimento da lesão. Firmou, assim, o princípio da responsabilidade sem culpa pela atuação lesiva dos agentes públicos e seus delegados. (MEIRELLES, 2008, p. 661).

Compartilhando o mesmo entendimento sobre a responsabilização objetiva do Estado por condutas omissivas, Odete Medauar, explana que tal teoria foi acolhida por nossa Constituição Federal de 1988, em seu art. 37 § 6º, onde estabelece que os casos em que a Administração pública cause danos por conta de sua inércia, responderá civilmente por possíveis prejuízos, bastando que a vítima comprove o nexo de causalidade entre a omissão do Estado e o evento danoso. (MEDAUAR, 2008, p. 368-369).

Com uma linha de pensamento um pouco distinta dos doutrinadores supracitados, José dos Santos Carvalho Filho prega que a responsabilidade do

Estado, por condutas omissivas, se dará na forma da responsabilização comum. Contudo, entende que nestes casos, para que seja configurada a responsabilidade, deve também se comprovar a culpa, porém, “não se está dizendo que incide a responsabilidade subjetiva, mas apenas que se trata da responsabilização comum, ou seja, aquela fundada na culpa, não se admitindo então a responsabilização sem culpa.” (CARVALHO, 2009, p. 538-539).

Em suma, Carvalho (2009, p. 538-539) coloca que a responsabilização da administração pública, nas condutas omissivas, se dará conforme a responsabilização comum, mas que será necessária a comprovação da culpa.

Assim, conforme o entendimento supra, é de toda importância destacar a citação dada por Carvalho Filho (2009, p. 539).

Acresce notar, por fim, que, mesmo quando presentes os elementos da responsabilidade subjetiva, estarão fatalmente presentes os elementos da responsabilidade objetiva, por ser esta mais abrangente que aquela. De fato, sempre estarão presentes o fato administrativo, o dano e o nexo de causalidade. A única peculiaridade é que, nas condutas omissivas, se exigirá, além do fato administrativo em si, que seja ele calcado na culpa. (CARVALHO, 2009, p. 539).

Vale anotar o entendimento editado por João Agnaldo Donizeti Gandini e Giana Paola da Silva Salomão (2003, p. 219-220), quando ressaltam que nos casos em que haja um dano em razão de uma conduta omissiva do órgão público, este prejuízo “deve ser reparado pelo Estado, sem que se possa debater sobre a existência ou não a culpa”. Isto significa dizer que o Estado responde segundo a teoria objetiva, bastando que se comprove o nexo de causalidade, ou seja, que o dano resultou de uma conduta do ente Estatal.

Dessa forma, tendo como supedâneo o art. 37 § 6º, aplica-se aos casos decorrentes da omissão do poder público, a responsabilidade objetiva, conforme a teoria do risco. Para tanto, há dois requisitos importantes a serem preenchidos, que haja um dano sofrido por um terceiro, e que seja comprovado o nexo de causalidade entre este dano e a conduta omissiva da administração pública. (NERY, 2000, p. 34).

Importante ressaltar o exposto por Luciane Cristine Lopes (2008, p.82), que ressalta não ser aplicável o editado pelo art. 15 do Código Civil Brasileiro, uma vez que este dispositivo não foi recepcionado por nossa Carta Magna.

Desse modo, não há falar em culpa nas relações entre a Administração Pública e os particulares, isto é, a responsabilização do Estado se dá conforme a previsão constitucional, que acolhe o entendimento da responsabilidade do ente estatal conforme a teoria objetiva, assim, tanto os atos omissivos como os comissivos resultam para a Administração Pública uma forma de responsabilização em que não seja necessária a comprovação da culpa, mas tão somente do nexo causal entre a atuação do Estado e o prejuízo sofrido pelo terceiro prejudicado. (LOPES, 2008, p. 82).

Dentro do tema, é de toda a importância destacar o entendimento de Juarez Freitas (2005, p. 30-31), quando disserta que o sistema brasileiro adotou a teoria da responsabilidade objetiva como forma de responsabilização do Estado, no entanto, não acolheu a teoria do risco integral, assim, a responsabilidade estatal se dará conforme a causalidade proporcional, desse modo, não são todos os danos que serão indenizados.

Daí segue que a vítima, em razão de sua presumida vulnerabilidade (por força da Constituição), não tem o ônus de provar a culpa ou o dolo do agente. Mostra-se bastante que nada exclua, no curo do processo, a formação do nexo causal direto e “imediato” entre a conduta omissiva ou comissiva e o dano. Conseguintemente, sem adotar a teoria do risco integral, o nosso sistema acolheu, no citado dispositivo da Constituição, a responsabilidade extracontratual objetiva das pessoas jurídicas prestadoras de serviço público, integrantes ou não da estrutura da administração, conforme a causalidade proporcional, que jamais deve ser entendida como a imputação do dever de indenizar todo e qualquer dano. (FREITAS, 2005, p. 30-31).

Nesse sentido, pondera Jones Figueiredo Alves (2007, p. 76-77), que a inação do Estado é tema acolhido por nossa Carta Política, em seu art. 37 § 6º, pelo qual a responsabilidade civil por omissão é imputada ao poder público de forma objetiva.

Por fim, é de toda importância ressaltar o entendimento de Sergio Cavalieri Filho, (2008, p. 239), que é adepto da teoria da responsabilidade objetiva nos casos em que a Administração Pública seja omissa, sustentando seu entendimento em nossa Constituição Federal, uma vez que o art. 37 § 6º, “não se refere apenas à atividade comissiva do Estado; pelo contrário, a ação a que alude engloba tanto a conduta comissiva como omissiva.”.