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2. Narradores e pontos de vista

2.2 Romances a uma só voz

2.2.2. Da singularidade de um observador implicado

O Romance O Retorno (R) de Dulce Maria Cardoso, publicado no final do ano de 2011, narra a história do regresso de uma família de colonos portugueses de Angola a Portugal, após a independência da colónia. A narração é da responsabilidade de Rui, um dos filhos do casal de portugueses, filho este que, juntamente com a mãe e a irmã, é obrigado a permanecer vários meses num hotel perto de Lisboa, aguardando notícias do pai desaparecido em Angola.

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O primeiro capítulo do livro é passado ainda em Luanda, onde o pai tem um negócio de transportes, numa altura em que a família está prestes a abandonar o território africano devido à falta de condições de segurança vivida pela população branca. A família é obrigada a viajar para Portugal sem o pai que é subitamente levado pelos nativos angolanos por ser associado a um assassino, o carniceiro de Grafanil. Nesta parte, são então recordados pela mãe os tempos em que chegou a Angola, proveniente de uma aldeia do interior de Portugal, onde vivia em condições de pobreza extrema. Partindo para terras de África para casar com um conhecido de infância que, anos antes, teria tentado melhorar as suas condições de vida mudando-se para a colónia portuguesa, apenas tinha uma vaga lembrança do noivo e uma fotografia de quando este era ainda jovem. A família retratada na obra é de posses reduzidas e forçada a deixar o pouco que possui em Angola para trás, chegando a Portugal sem quaisquer bens materiais. A mãe de Rui vê-se sozinha com dois filhos na capital portuguesa, sem amigos ou família e sem dinheiro, sendo, por isso, os três elementos acolhidos num hotel no qual permanecem durante cerca de um ano, tal como terá acontecido a milhares de retornados no ano de 1975. No final da obra, Mário, o pai, junta-se-lhes, finalmente regressado também de Angola quando já haveria poucas esperanças sobre a sua sobrevivência e o próprio filho o julgava morto às mãos dos angolanos.

Neste hotel no Estoril, são acolhidas várias famílias nas mesmas condições, provenientes das principais colónias africanas, ou seja, Angola e Moçambique. O ambiente vivido no hotel assume o valor simbólico do desmoronar da nação ao juntar vários repatriados unidos pelas consequências da desinserção na sociedade portuguesa metropolitana, que se revela sem soluções que visem a integração destes portugueses como cidadãos de plenos direitos. A família representada no livro vive, para além dos dramas gerais dos que se encontram na mesma situação, mais um: o da espera de Mário, o pai, sem saber o que lhe teria acontecido ou se este estaria vivo.

A importância da obra reside, precisamente, no facto de se debruçar sobre um tema pouco explorado na literatura portuguesa: o drama dos retornados de África pela perda do território que consideravam seu e a rejeição social de que foram alvo. Apresentando a história particular de uma família de colonos portugueses em Angola, vivida na época histórica em que se deu a maior ponte aérea entre África e Europa com o objetivo de retirar das ex-colónias os colonos cujas vidas estariam em perigo, o livro recorre à evocação de acontecimentos históricos que marcaram a sociedade portuguesa de meados da década de 70. Com um desfasamento de cerca de duas décadas em relação às outras potências coloniais europeias, Portugal foi forçado a abdicar da sua tradição imperial e viu-se, ao fim de cinco séculos de império, confinado às suas iniciais fronteiras ibéricas. Consequentemente, numa conjuntura marcada por uma acentuada crise política, económica e social, chegaram ao território nacional cerca de meio milhão de pessoas, até então residentes nas colónias (Pires apud Garcia, 2011: 19). Só entre maio e novembro de 1975,

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chegaram a Portugal cerca de 200 mil portugueses vindos de Angola, através de uma gigantesca ponte aérea criada para o efeito (Garcia, 2011: 9). Já em Portugal continental, aqueles que, em Lisboa, não dispunham de família que os pudesse acolher, passaram algum tempo alojados em equipamentos hoteleiros disponibilizados para esse efeito pelo IARN – Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais -, na maior parte dos casos, apenas o tempo necessário para arrecadarem a bagagem que conseguiram pôr a salvo e tratarem de assuntos burocráticos. (Pinto e Faria, 1996: 12)

Na antiga metrópole, os colonos repatriados foram, na sua maioria, vistos como fator de desestabilização social, como candidatos inesperados aos poucos empregos disponíveis, como representantes das ideologias colonialistas a que muitos se opunham veementemente e, porque tidos como mais aproximados à cultura e costumes africanos considerados desajustados à forma de vida de Portugal continental, considerados desintegrados da sociedade que os acolheu. Os refugiados das ex-colónias, designados de “retornados”, nome que cedo adquiriu uma conotação depreciativa, esforçam-se por serem vistos como portugueses legítimos, rejeitando o rótulo que, marginalizando-os, os humilha e inferioriza, e tentam vincar e evidenciar a sua ligação a Portugal. A história pessoal da família de Rui assenta na evocação de acontecimentos vividos na década de 70, em Portugal, com a chegada em massa de vários ex-colonos das chamadas províncias ultramarinas, muitos deles sem qualquer suporte que lhes permitisse refazer as suas vidas. Personalizam-se, deste modo, os factos históricos no relato sobre uma família que, por sua vez, é expressamente assumido pela autora como tendo sido inspirado na sua experiência pessoal como retornada de Angola: “É que quando cheguei a Portugal em 1975, eu e a minha família, tal como a família do Rui, ficámos instalados, durante mais de um ano, num hotel de cinco estrelas, no Estoril.” (Cardoso apud Direitinho, 2011: 9). A dimensão autobiográfica do enredo, apesar da parte ficcional de que se dá imediatamente conta na escolha de uma personagem masculina como narrador, é totalmente assumida pela autora, que viveu parte dos acontecimentos relatados na obra e sofreu também a estigmatização de que os retornados foram alvo na sua chegada à antiga metrópole. No mesmo texto, a escritora dá a sua opinião sobre a passagem da sua família pelo hotel de acolhimento dos retornados: “Era uma espécie de farsa. Fomos despejados, postos a monte, num ambiente a que não pertencíamos. A ironia era que iríamos assistir, e ser parte, da degradação de todo aquele luxo, da mesma maneira que tínhamos acabado de assistir ao fim de um império.” (ibidem). Segundo Dulce Cardoso, a progressiva degradação e decadência do hotel de luxo em que foram acolhidos assemelha-se ao declínio do império colonial a que estes ex-colonos terão assistido ainda em África. Acabados de sair de um ambiente hostil à sua presença e em que as condições de vida se deterioram de dia para dia, veem-se logo de seguida num outro que se lhe

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assemelha no que respeita a estas condições. Os recém-chegados a Portugal continental não conseguem vislumbrar o seu lugar de encaixe na sociedade que os recebe.

Afirma ainda Dulce Cardoso: “Identifico felicidade com Angola, mas eu vim na véspera de fazer 11 anos, portanto acho que o que faço é identificar infância com felicidade.” (idem: 10). - Rui é um adolescente quando vive os acontecimentos relatados na obra, fazendo parte da sua transição para a idade adulta a mudança para Portugal com a mãe e a irmã, vivendo uma fase de crescimento impulsionada pelo facto de se sentir responsável pelas mulheres por se deparar com a situação de único representante do sexo masculino na família, devido à ausência do pai. É a própria autora do romance que aponta para a linguagem fácil do livro como escolha deliberada decorrente do facto de a responsabilidade narrativa pertencer a um adolescente, pelo que é recorrente o uso de vocabulário característico de um registo de linguagem pouco vigiado: “Ah, e havia o problema de ter de usar um vocabulário um pouco básico para que o discurso não soasse falso, visto que a voz do romance é a voz do Rui.” (ibidem) Pelo facto de provir de Angola, por vezes as expressões usadas são, muitas vezes, características da gíria angolana, assim como se verifica a utilização de léxico de origem popular africana, tal como “matumbo” (boçal) (R: 21), “matabicho” (pequeno-almoço) (R: 87), “maca” (confusão) (R: 219), mangonheiro (preguiçoso) (R: 38), ginga ginga (ato sexual) (R: 43), entre outros.

Num discurso marcado pela linearidade temporal, Rui inicia a sua narração ainda em Angola, nos momentos anteriores à viagem para Portugal, continuando o seu relato já na antiga metrópole, na condição de refugiado. O discurso deste narrador é marcado pelo estranhamento que sente ao ser rotulado de “retornado” a um território no qual se encontra pela primeira vez e do qual, enquanto ainda em África, apenas ouvia falar em casa ou na escola, dado que a sua terra de nascimento é Angola.

É através da voz de Rui que as outras personagens da história são ouvidas, o narrador reproduz as suas falas em discurso direto ou indireto livre, sem que haja uma efetiva mudança de narrador ao longo de todo o livro, conforme se verificará nos excertos transcritos. A narrativa é sempre da responsabilidade de Rui, todas as outras personagens intervenientes na ação são caracterizadas indiretamente pelas suas ações ou através da reprodução dos seus discursos, muitas vezes intercalada com o discurso do narrador. A narrativa é toda construída sob o seu ponto de vista, sendo o relato deste adolescente uma mistura dos seus pensamentos com as falas das várias personagens que com ele convivem durante os acontecimentos narrados:

O pai deu a mão à mãe enquanto caminhavam para a Dodge que estava estacionada à entrada do porto, o sol a encadeá-los, a mãe ficou espantada por o pai ser dono de um camião, tudo me espantava, as gaivotas, o camião, as palmeiras, nunca tinha visto árvores assim, os montes encarnados, aqui são morros, corrigiu o pai, os morros não são os montes da metrópole, não se diz um morro de feno, nem um morro de roupa para passar a ferro, são coisas diferentes. (R: 26)

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No trecho transcrito, a transcrição das falas das diferentes personagens encontra-se assinalada apenas pelo uso das vírgulas, num estilo que faz recordar a escrita de António Lobo Antunes. Sem assinalar graficamente as mudanças dos discursos das diferentes personagens, Rui evoca, nesta passagem, os tempos de felicidade vividos em África pelos pais, pouco tempo após a migração da mãe para este território, lembranças em que são reproduzidas as conversas entre ambos, de forma intercalada na sua narração. O relatado neste trecho ter-se-á dado pouco depois da chegada da mãe ao continente africano, pelo que se depreende que Rui ainda não seria sequer nascido. Aqui, a recordação do passado será apenas uma imagem fantasiosa construída pelo narrador com base nas lembranças que lhe terão sido transmitidas sobre os tempos iniciais do casamento, em conversas particulares que fazem também parte deste episódio. Assim, o discurso deste narrador segue o pleno fluir dos seus pensamentos, mesmo que intercalados pela fantasia, ou por lembranças do passado, havendo, ao longo de todo o romance, um constante entrelaçar deste fio condutor do discurso com as falas da responsabilidade de outras personagens. Verifica-se, ainda no acima transcrito, que a época vivida em Angola parece estar associada pelo narrador à felicidade da infância, nos tempos em que se viveria em pleno a colonização portuguesa, tal como é notado pela própria autora no trecho que abre o capítulo deste trabalho quanto à sua experiência pessoal. O presente da enunciação da narração de Rui situa-se, na parte inicial do livro, ainda em Angola, em vésperas da sua partida como filho de colono para o continente europeu e, depois, já em Portugal continental, na condição de retornado. A evocação dos tempos passados surge, assim, intercalada com as ações decorridas nestes dois espaços.

Todos os acontecimentos do romance são filtrados pela subjetividade de Rui e relatados segundo o seu ponto de vista, estando condicionados pela sua faixa etária e pelas consequências emocionais das várias perdas por ele vivenciadas. O tema central do romance parece ser a perda de vários fatores que contribuem para a estabilidade emocional de alguém, vivida através da perspetiva de um adolescente em fase de crescimento, o que faz com que este sentimento adquira uma amplitude mais abrangente do que na maioria dos outros retornados retratados na obra. Em Rui, à perda material da terra onde habitava, da casa e de todos os pertences em Angola, tal como acontece com os outros ex-colonos que se juntam depois no hotel do Estoril, adicionam-se outras perdas decorrentes do período de vida do narrador em que estes acontecimentos se dão, tais como a perda da infância e da ingenuidade que a caracteriza, a perda do pai e a perda da identidade nacional decorrente do abandono forçado do território que, até então, considerava a sua pátria, ou seja, o único que conhecia pelo facto de ter nascido em Angola. Contrariamente à maioria dos pertencentes às gerações mais velhas que, ao terem efetivamente nascido na metrópole, seriam os verdadeiros retornados a Portugal continental, como é o caso dos seus pais, Rui “retorna” a uma

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terra em que nunca tinha estado. As várias perdas sentidas influenciam a narração dos acontecimentos, pelo que o seu relato expressa uma visão negra dos acontecimentos e das pessoas neles intervenientes. O relato dos factos e os retratos que vão sendo feitos das personagens que com ele se cruzam, a partir desse momento, são nitidamente o resultado de uma visão negativa de tudo e de todos, causada pela filtragem emocional das experiências vividas, essencialmente pela dolorosa sensação de perda do pai, a que se junta um sentimento de não-pertença à terra onde o obrigam a passar os dias sem ele. São estes os fatores que vão contagiar a narração de todas as suas vivências na metrópole, assim como as descrições dos que com ele convivem:

Afinal não há assim tantas raparigas bonitas na metrópole, em geral até são feias, muito mais feias que as de lá, têm o cabelo oleoso a escorregar-lhes pelas costas que é um desgosto e os dentes encavalitados com sarro de leite, parece que nem os lavam, cheiram como lá cheiravam os sacos dos lanches que ficavam ao sol, um cheiro avinagrado que fica no nariz e dá vontade de coçar. (R: 148)

O fator emocional faz com que, na sua narração, vários aspetos causadores de desestabilização se conjuguem e concorram para a transmissão ao leitor de uma realidade filtrada pelo resultante sentimento de raiva dirigida à totalidade da experiência por que passa e a todos os que o rodeiam. A sensação de injustiça na situação vivida e a impotência quanto ao inesperado de uma posição de fragilidade social, já experienciada em África, mas que, no território em que supostamente se sentiriam seguros, ainda se faz sentir, contribuem para o desagrado em relação a tudo o que diz respeito à metrópole.

Desta forma, o discurso de Rui carateriza-se pela inferiorização de todo o ambiente e pessoas que o rodeiam, desde a detenção do pai e durante toda a temporada vivida enquanto hóspede do hotel do Estoril. Na sua condição de nascido em Angola, Rui apenas conhecia o Portugal idealizado cuja imagem seria amplamente difundida aquém e além-mar, suporte da ideia de grandiosidade da nação ficcionada pelo Estado Novo, de um Portugal imaginado como centro, tal como é referido nos estudos de Boaventura de Sousa Santos (2001) e de Margarida Calafate Ribeiro (2004). Ambos consideram que “a dimensão simbólica da política portuguesa que conduz à elaboração de uma imagem de Portugal como centro” (Ribeiro, 2004: 12) se realizava através de Portugal como nação imperial que encobria uma “segunda imagem portuguesa ligada à sua realidade vivencial de periferia que ‘imagina o centro’, participando dele simbolicamente” (ibidem). Diz-nos, a este propósito, Margarida Calafate Ribeiro:

Essa imagem de centralidade de Portugal dada pelo império tem origem no período inicial das viagens dos Descobrimentos, surgindo portanto como uma imagem-consequência da aventura, de que Os Lusíadas são o espelho textual e que, no imaginário imperial português, se expande e transfere do Índico para o Atlântico e para as visões do Quinto Império do Padre António Vieira. Porém, no contexto dos imperialismos do século XIX e ao longo do século XX, Portugal não estava no centro dos movimentos europeus, como hoje não o está no contexto da

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Comunidade Europeia, mas, através dessa dimensão simbólica, pôde/pode “imaginar-se como centro”. Com o isolamento a que o Estado Novo foi sucessivamente conduzindo o país, sobretudo a partir do início da Guerra Colonial em Angola, em 1961, a “imaginação do centro” toma os contornos abstractos e esquizofrénicos de um espaço em que Portugal é, simultaneamente, o centro e único membro do centro que em torno de si construiu, defendido das “conspirações estrangeiras”. (…) Como notou David Robertson a partir do início da Guerra Colonial, “África torna-se um espelho que reflecte a face silenciosa e sem disfarce de Portugal” (1990: 156), e nesta central periferia imperial, passe o paradoxo, muitos portugueses descobriram o esvaziamento do tradicional centro, ou seja, do espaço metropolitano; também em África outros imaginaram um centro que teria nesta guerra a pedra angular da resistência do “bastião branco” na África Austral, protegida pelos chamados valores do Ocidente cristão face ao avanço dos novos “infiéis”, construindo um centro a partir desta base teórica portuguesa, mas também europeia. (ibidem)

A Guerra Colonial conduz ao duro despertar dos portugueses para a realidade de um país isolado, centrado sobre si mesmo, condição que é agravada pela consequente perda das suas colónias. A morte da nação mítica imperial revela a falsa idealização da centralidade de Portugal no contexto mundial. Adultos e crianças das antigas colónias são obrigados a enfrentar a condição de um país que agora se cinge ao território da Península Ibérica e cuja alardeada importância não passou apenas de uma fantasia, de um mito sobre a unidade de um Portugal Imperial, na qual apenas alguns colonos mais crentes acreditavam, já que foram bastantes os que acautelaram as suas situações em Portugal continental. A fantasia de Portugal como uma nação unida aquém e além mar funcionou também em prol da motivação à migração ultramarina por parte da maioria dos que procuravam melhores condições de vida, entre os quais se incluíram os ascendentes de Rui retratados neste livro. Mas, esta família quando desperta para aquilo em que, de facto, consiste a antiga metrópole, imaginada anteriormente com a grandiosidade e a opulência tão propagandeada sobre a nação detentora de um extenso domínio territorial, acorda para o que agora o seu país tem verdadeiramente para lhe oferecer - ou seja, quase nada, já que tratam os seus membros como portugueses de segunda categoria que já não encaixam nos parâmetros pelos quais a sociedade portuguesa se rege.

Esta história é, assim, marcada por condicionantes que dizem respeito apenas a esta família em particular, como a perda do pai e a angústia vivida quando, subitamente, o narrador é forçado a crescer para assumir o papel de único responsável masculino pela família, mas também por fatores comuns a todos os retornados das ex-colónias, tais como a rejeição e estigmatização dos retornados pelos habitantes da metrópole, sentida logo nos primeiros tempos pelos portugueses e seus descendentes provenientes das antigas colónias portuguesas, e que se manteve ainda por algum tempo, ou o doloroso despertar para uma realidade na qual os repatriados não se encaixam como portugueses de legítimo direito, quando as províncias ultramarinas deixam de fazer parte do império mítico e idealizado ao qual consideravam pertencer. Ao reduzir-se à sua antiga metrópole, Portugal assume agora uma dimensão pequena demais para acolher os habitantes dos seus antigos

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territórios, preparando-se para os deixar de fora. É este sentimento de não-pertença à pátria o verdadeiro motor gerador da angústia vivida pelo grupo de retornados retratado na obra.

As obras aqui trabalhadas distinguem-se pela sua técnica narrativa, tendo uns autores optado pela polifonia e outros pela narração através de um único ponto de vista. No seu conjunto, as obras revelam uma pluralidade de discursos a partir de vários pontos de enunciação, apesar de