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3. Representações da Metrópole e do Império Colonial Português

3.1. A crítica explícita ao eurocentrismo de Lisboa

3.1.1. Questionamento do Modelo Colonial Português

Assim, em O Senhor das Ilhas, a crítica à falta de apoios por parte do poder metropolitano ao papel dos colonos de Cabo Verde que desempenham a posição de responsáveis pelo povoamento da colónia é evidente, através de todos os entraves descritos ao longo do livro à ação dos colonos, quando a questão central é a melhoria de infraestruturas e de condições de vida das populações. No que respeita à obra de Maria Isabel Barreno, o título do romance é uma clara alusão à figura de Manuel António, personagem baseada no antigo governador de Cabo Verde

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com grande peso na história das ilhas, caracterizado ao longo de toda a obra essencialmente através dos seus feitos no arquipélago, onde acidentalmente foi parar e, como é constantemente acentuado ao longo de todo o texto, por paixão resolveu ficar. A caracterização que dele é feita ao longo de todo o romance é a de um português que decide permanecer em Cabo Verde não em seu próprio benefício, mas sim em benefício das ilhas, ao considerar-se capaz de contribuir para a melhoria desta colónia portuguesa esquecida e ignorada pelas autoridades portuguesas. As suas convicções de homem aventureiro e ambicioso, empenhado em contribuir para o melhoramento da sociedade à sua volta, tirando partido das potencialidades das ilhas às quais os restantes portugueses metropolitanos não dariam a devida importância, revelam-se fundamentais para o desenvolvimento desta colónia portuguesa.

(…) [Maria Josefa] Sentiu alguns ciúmes: afinal, havia afecto anterior que ligara Manuel António a Cabo Verde, ela não fora a primeira paixão. (SI: 50)

A sua ligação a Maria Josefa é também mencionada como tendo sido motivada por amor à primeira vista, no entanto Manuel António manifestou desde sempre uma paixão anterior pela ilha do Sal que, juntamente com a figura da sua futura mulher, o fazem escolher este arquipélago para passar o resto dos seus dias.

A secreta ilha do Sal. Como uma paixão, dentro de si, a ilha atormentava-o. O seu brilho de diamante gravara-se no seu coração. (SI: 49)

A sua decisão é devida a fatores sentimentais e não racionais e, tal como uma relação de verdadeiro amor implica, Manuel António prepara-se para iniciar uma ligação de entrega total às ilhas, para além da que cria com Maria Josefa. A sua paixão pelo mar é-nos transmitida logo desde o início da narrativa, pelas conversas que frequentemente teria com o seu sogro, considerando-o fundamental para o desenvolvimento das ilhas. A sua preocupação central é a de melhorar as condições de vida da generalidade das populações do arquipélago, fazendo por elas o que considera merecerem, de forma a combater os privilégios de apenas alguns grupos:

Voltavam ao mar, frequentemente. Nesta viragem da conversa Manuel António falava em novas rotas, em progressos na construção dos barcos, contactos e comércios com outras nações. Por mar se chegará ao desenvolvimento das riquezas desta colónia, para que se tornem manancial de muitos, e não saque de uns quantos. (SI: 37)

Os feitos protagonizados pelo patriarca da família são sempre colocados perante o leitor como sendo o resultado de uma mente progressista e avançada para a época, que pensa nos benefícios que o aproveitamento das potencialidades naturais do arquipélago poderá proporcionar

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às comunidades em geral, em detrimento das vantagens individuais eventualmente retiradas de uma sua posição de destaque conquistada na sociedade colonial. Apesar desta dedicação à comunidade envolvente, Manuel António demonstra grande comprazimento e satisfação pessoal na concretização das suas ambições e planos de obras grandiosas que marcarão todo o futuro das ilhas, tais como “a construção do cais da Pedra do Lume, a expensas suas” (136) e o túnel da ilha do Sal também doado ao Estado (ibidem) - “apesar de todas as liberdades ostensivas que tomava, tão grande era sua eficácia que Manuel António começou por essa data a ser frequentemente condecorado pelo governo português. Como poderia algum governo condenar cidadão tão prolífero em dádivas?” (ibidem). O futuro prefeito de Cabo Verde passa a sentir-se o Senhor das Ilhas, de onde provém a inspiração da autora para o título da obra:

Manuel António olhava os negros cavando e suando, ou pedalando na máquina para lhe accionar a roda dentada que engrenava numa espécie de parafuso gigantesco que se enterrava no flanco relativamente macio da orla da cratera, e sentia-se senhor da ilha, senhor da natureza, senhor do mundo. (SI: 72)

Manuel António desempenha o papel tradicional de patriarca da família: a seu cargo ficam as atividades desempenhadas fora do lar familiar, tipicamente associadas ao sexo masculino, com a função de sustentar a família e todos os que dela direta ou indiretamente dependem. Considerado um homem de sucesso ao conseguir os meios necessários para criar e manter a família alargada, que progressivamente se espalha por todas as ilhas do arquipélago, ao mesmo tempo que expande os negócios e atividades em prol dos restantes habitantes de Cabo Verde, Manuel António vive um mundo de tarefas e responsabilidades distinto do de Maria Josefa que se restringe ao lar familiar. Esta personagem de destaque no arquipélago expressa mais do que uma vez, o desdém sentido pela suposta superioridade civilizacional de que os povos colonizadores se orgulhavam:

Aproximou-se lentamente e foi ouvindo o austríaco [Pusich] falar altivamente de luxos europeus, de lagos e montanhas, de cortes austríacas: aí sim, havia civilização e cultura. Por trás destas palavras, Manuel António, à medida que avançava no salão de baile, via toda a ganância europeia, e o direito tranquilo em que se julgava o velho continente de se fazer servir por todo o resto do mundo. (SI: 181),

Esta sua visão sobre o mundo ocidental que representa, associa-se a momentos em que assume o papel de defensor dos direitos e costumes africanos, insurgindo-se contra a visão ocidental de inferiorização da sabedoria dos nativos:

Depois João Feijó tornou-se melancólico, comentando quantos séculos havíamos gasto para nos livrarmos das superstições europeias, para nos arriscarmos agora à invasão das bruxarias dos selvagens que visitávamos e acolhíamos. E Manuel António invocara os males da civilização e a bondade natural dos selvagens. Não estarão eles mais próximos da natureza, em suas explicações instintivas? (SI: 58)

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A compreensão em relação aos costumes e crenças africanas revela uma atitude de maior respeito para com os nativos, em relação à habitual por parte do mundo ocidental. A tentativa de justificação das práticas habituais nas sociedades nativas africanas perante o sábio, que as designa como sendo “bruxarias”, denota o mal-estar sentido pelo colono Manuel António ao deparar-se com a exposição de ideias reveladoras dos preconceitos associados às culturas consideradas inferiores e, logo à partida, desdenhadas. As sociedades europeias tradicionais não o seduzem, considera-as dominadas por ideologias mesquinhas que se opõem ao progresso dos territórios com o intuito de defender os interesses resistentes à mudança instalados nas classes detentoras do poder, contrariamente ao que se verifica nos Estados Unidos, a “grande nação que tanto admirava, mãe de todas as liberdades e independências.” (76) Com efeito, os valores que movem as classes elevadas de Portugal, às quais pertence D. Aniceto, são distintos dos que parecem mover Manuel António. Manifestando mais do que uma vez a sua intenção de dedicar a vida às ilhas, as vantagens na proximidade da corte portuguesa não o seduzem: “Regressar a Portugal?, dizia Manuel António, para fazer o quê, vegetar na corte, bajular o rei? Nunca se sabe, disse Aniceto. Fez outra jogada e acrescentou: além disso, o seu sucesso deve-se em grande parte à minha protecção.” (SI: 102).

É feita referência ao modo de sustento das classes elevadas em Portugal, vivendo de, e para, os benefícios régios. Mas Manuel António não revela qualquer interesse em regressar a Portugal, cujo estilo de vida lhe parece pequeno e acanhado, sem objetivos grandiosos de melhoria do estado de coisas que se coadunem com o que o fascina. D. Aniceto, por sua vez, apesar de deslocado da metrópole, continua a manifestar a mesma mentalidade, considerando que a posição ascendente do genro se deve grandemente à sua proveniência aristocrática e influência nas ilhas. Contudo, em todos os feitos ao longo da sua vida, o genro de D. Aniceto não denota a intenção de se fazer impor pelas suas relações ou através do enriquecimento individual para demonstração e manutenção de estatuto elevado, mas sim por meio da valorização dos resultados do seu trabalho a favor do bem comum e da concretização dos seus projetos. O enriquecimento das populações é visto como forma de valorização das comunidades, em que uma distribuição mais equitativa dos proveitos laborais contribui para o bem-estar de todos. A sobreposição do trabalho ao estatuto social dos indivíduos é tema central nas suas conversas com D. Aniceto: “Manuel António argumentou, como habitualmente, com o valor de cada indivíduo, muito mais efectivo do que do seu berço. E Aniceto argumentou não querer ser confundido com a ralé que por ali andava.” (SI: 101).

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As ambições de Manuel António são colocadas como movidas essencialmente pelo desejo de progresso das ilhas pela dedicação que, desde a sua chegada, sempre a elas votou, em contraposição com o desdém com que são tratadas pelos poderes metropolitanos. Resolvido a deixar-se ficar em território africano por amor a Maria Josefa, e principalmente à ilha do Sal pela qual se apaixona logo ao primeiro olhar, Manuel António é representado como acérrimo defensor dos ideais iluministas em voga na Europa e em Portugal a partir de meados do século XVIII, com a respetiva ascensão da classe burguesa que, através da demonstração de méritos próprios conseguidos pelo trabalho e esforço, e da crença no poder da razão como sobrepondo-se a tudo o resto, enfrentam os privilégios adquiridos das classes dominantes.

Apesar de retratado segundo os moldes tradicionais, o núcleo familiar destes colonos portugueses, constituído por Manuel António e Maria Josefa, vai-se destacando na obra por não se deixar levar totalmente por condicionalismos sociais tradicionais das sociedades do mundo ocidental. Responsáveis pela modificação de comportamentos e atitudes em relação aos seus membros e travando nesse sentido batalhas sociais em várias frentes, de forma a tentar combater alguns preconceitos em vigor e alterar as mentalidades da sociedade envolvente, valem-se da sua posição social de destaque no arquipélago para impulsionar as modificações sociais e conjunturais que consideram importantes de acordo com as suas convicções.

Tanto Manuel António como Maria Josefa detêm responsabilidades na tentativa de transformar a sociedade em seu redor, não se deixando influenciar pelo que os outros consideram ser os comportamentos e funções apropriados, segundo os estereótipos associados à pertença dos elementos às divisões sociais estanques da sociedade. Ao não se incluírem totalmente nem no grupo dos colonos condicionados pelas normas e valores ocidentais da sociedade portuguesa tradicional do século XIX, nem no grupo dos nativos cabo-verdianos pelo afastamento dos seus rituais e tradições, mas denotando a influência de ambas as culturas no seu quotidiano, Manuel António e Maria Josefa parecem viver num mundo de valores e princípios separado dos que com eles convivem, com regras e normas particulares que vão sendo por eles próprios construídas à medida que vão também construindo o seu império nas ilhas. Aos membros deste casal, são atribuídas as características próprias de personalidades inovadoras e responsáveis pelas mudanças sociais verificadas ao longo dos tempos em várias épocas históricas: a segurança das suas convicções e o espírito de liderança que os move permitem-lhes enfrentar e alterar hábitos e estilos de vida instalados na sociedade colonial e tradicionalmente considerados corretos, colocando em questão as suas premissas.

Manuel António é constantemente descrito como de espírito determinado e inovador, não se deixando influenciar pelas ideias de outros nem sucumbindo a pressões contrárias aos ideais de mudança por ele perfilhados, tendo uma visão mais alargada do desenvolvimento civilizacional e

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social das sociedades coloniais do que as classes dirigentes com as quais lida. Deixando-se ficar nas ilhas por opção, a elas dedica a sua vida, colocando-se na posição de salvador desta colónia, desde sempre votada ao abandono pelos que apenas a usariam para melhoria das suas próprias condições: “Dei a minha alma a estas ilhas, disse Manuel António; Antes de mim, dormiam.” (SI: 148). Desdenhando de situações com as quais ele próprio não concorde, não hesita em ser ele mesmo o motor impulsionador das transformações sociais que considere necessárias à prossecução das suas ideias, por muito inovadoras e disparatadas que possam parecer aos outros. O poder conquistado não parece afetar a sua capacidade empreendedora e de inovação, tendo como principal preocupação deixar a sua marca particular no arquipélago, pondo em prática as suas teorias de desenvolvimento dos territórios. “Não dissera ele que deixaria a sua memória em todos os torrões da ilha, devolvendo a obsessão que esta lhe impusera logo ao primeiro olhar?” (SI: 315).

O seu empreendedorismo na dinamização das capacidades das ilhas, até então vistas apenas como meios necessários à finalidade de enriquecimento individual por parte das autoridades metropolitanas, enfrenta desde logo a necessidade de mudança de mentalidades vigentes nos grupos dirigentes do arquipélago, cujo principal símbolo na família consiste no seu sogro, D. Aniceto. Este revela desde o início estranheza pelas ideias defendidas por Manuel António para a realização dos projetos por ele traçados concernentes à condução a um novo destino das ilhas de Cabo Verde, dado que o objetivo principal defendido pelo genro é o bem comum e não a utilização da colónia para a retirada de proveitos próprios, conforme estaria habituado a encarar a estadia dos que passavam por aquelas ilhas:

A riqueza, trazendo a instrução, e o provimento das necessidades, cerceia a actuação dos rapaces, que se vêem assim cercados pela clarividência e censura dos outros. Além disso, o próprio fluir da riqueza vai colmatando a avidez natural da maioria, deixando apenas a avidez viciosa de alguns. Por isso eu quero desenvolver este território, concluía Manuel António. E enriquecer, dizia Aniceto. (SI:37)

D. Aniceto António Álvares Mendes, sogro de Manuel António, contrasta com o marido da filha nos seus desejos e ambições. Esta personagem, fazendo parte do restrito grupo de personalidades pertencentes à realidade do passado histórico de Cabo-Verde, representa a aristocracia portuguesa na obra. Nascido em Nelas, Portugal, é “segundo filho varão duma família nobre que já vivera melhores dias” (SI: 34), “enveredara pela carreira das armas com entusiasmo e

viera para Cabo-Verde trinta anos antes [da chegada de Manuel António], nomeado capitão-mor da Boavista.” (ibidem):

Aniceto tinha 26 anos. Buscava glória, dizia em voz alta, exemplificando o desalento que o tomara depois com um suspiro fundo. Buscava uma promoção mais rápida, dizia Manuel António.

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Aniceto baixava os olhos sobre as peças para conter a irritação. Talvez buscasse promoções rápidas, concordava, mas servindo dignamente a minha pátria.

(…)

Mas apenas chegara, com regularidade bastante, sua renovação no posto de capitão-mor da Boavista. O seu horizonte tornara-se chão e salgado, como o de Manuel António, mas não por escolha sua. (SI: 35)

O representante da primeira geração da família de colonos deslocados em África com o objetivo de exercer um cargo administrativo, foi forçado pelas circunstâncias a permanecer em Cabo Verde, contrariamente às suas intenções. A ida de D. Aniceto para a colónia portuguesa foi inicialmente devida ao desejo de melhoria da sua própria condição, tentando destacar-se de uma nobreza “que não cuidava de terras nem de nada, e só sabia abanar-se com leques” (35), segundo os dizeres do seu próprio pai que “com seus conhecimentos arrancara ainda a nomeação para seu filho em Cabo Verde” (ibidem). O pai de Maria Josefa, e sogro de Manuel António, é também representativo das motivações da maioria dos que, voluntariamente, seriam os protagonistas do povoamento destas colónias nos primórdios da exploração do arquipélago por parte dos colonizadores portugueses. As origens nobres de D. Aniceto são fator fundamental para a sua deslocação para Cabo Verde, sendo este o resultado de favores régios e utilizado como forma rápida de promoção social. Muitos outros seriam enviados para as ilhas africanas na condição de degredados.

Nesta obra, a crítica ao papel da igreja nas colónias é evidente na representação do cónego da ilha da Boavista. Contrariamente ao que seria esperado, a igreja, simbolizada na obra pelo cónego Miranda, responsável pelos casamentos e batismos dos membros da casa familiar, não tem qualquer papel na defesa dos que menos proteção encontram na sociedade colonial. Assume, em seu lugar, particular importância a posição de Maria Josefa a favor dos menos favorecidos, assim como a preocupação de Manuel António com os escravos, enfrentando sempre a oposição do clérigo. A antipatia de Maria Josefa pelo cónego da ilha revela-se fundamental para a tentativa de modificação do sistema social de Cabo Verde, para além das lutas privadas que mantém com o marido. O cónego é sempre contrário à mudança do estatuto dos habitantes das ilhas, mesmo que esta se baseie na defesa de direitos básicos elementares a qualquer ser humano. O verdadeiro espírito cristão está representado na obra não na figura do cónego, mas antes na figuração de Maria Josefa que é a verdadeira defensora dos mais fracos. O religioso surge sempre como uma figura mais interessada em si próprio do que nos que o rodeiam, sendo contra tudo o que constitua uma inovação que não encaixe nos parâmetros tradicionais considerados aceitáveis:

Abertamente manifestava ele [o cónego] opiniões que contrariavam Maria Josefa, como por exemplo a de que não valeria a pena educar os escravos. De que lhes serve a instrução, acrescentou, se sua missão é obedecer cegamente ao seu senhor? Ensinar a ler aos escravos traz um grande perigo, senhora Dona Maria Josefa, o perigo de que eles julguem que podem pensar com suas cabeças. Maria Josefa retorquira que fora Deus quem distribuíra as cabeças pelo género

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humano, a todos dando capacidade para pensar, e que a instrução era a melhor maneira de cristãmente aperfeiçoar os pensamentos. (SI: 159)

Para a defesa das suas ideias, o casal Martins enfrenta os rituais da própria igreja, utilizando argumentos baseados na defesa de direitos cristãos para todos os seres humanos e contrariando os preconceitos raciais defendidos pelo religioso. A antipatia de Maria Josefa em relação ao cónego é constante ao longo da obra devido à caracterização deste como uma personagem que a matriarca considera não revelar verdadeiro espírito cristão. Com efeito, o representante da igreja não consiste no principal defensor dos direitos humanos na obra. O cónego surge representado como uma figura resistente à mudança, mesmo que esta se apresente de acordo com os ensinamentos da igreja:

Admirou-se o cónego com tal pedido. Casar escravos? Pois tal nunca vira. Em que obrigações incomportáveis mergulhava de seguida o proprietário duma família assim cristãmente constituída? Manuel António argumentou com seu baptismo: se tinham direito a esse primeiro passo para se tornarem filhos de Deus – e não fora a conversão dos gentios o verdadeiro vento que impulsionara as caravelas? – pois se eles tinham esse primeiro direito, como mantê-los seguidamente numa vida pouco mais que instintiva e animalesca, recusando-lhes o casamento cristão? (SI: 120)

A defesa dos direitos dos nativos por parte de Manuel António, face à resistência do cónego quanto às suas intenções em permitir o casamento entre escravos, contraria o que seria esperado com base nos preceitos pelos quais a igreja se rege. Caberia ao membro do clero a utilização da argumentação que, na realidade, é utilizada por Manuel António. Pelo exposto, a discriminação racial verificada na sociedade cabo-verdiana seria sustentada pela igreja. A personagem que representa a presença da igreja católica no arquipélago, cuja missão nas ilhas seria a difusão dos ensinamentos da fé cristã e a conversão das populações ditas selvagens à religião ocidental, parece mais preocupada com o seu próprio bem-estar e a manutenção dos