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Multiplicidade de tempos interiores e representação da memória

2. Narradores e pontos de vista

2.1. O Discurso polifónico

2.1.2. Multiplicidade de tempos interiores e representação da memória

Em O Esplendor de Portugal (EP) de António Lobo Antunes, o romancista parece menos interessado no panorama social da época retratada que nos problemas humanos vividos pelas suas personagens, resultantes de vivências particulares das condicionantes baseadas em situações causadas pelo “pano de fundo” social em que as coloca. Os protagonistas do drama familiar vivido neste romance sobressaem no cenário social em que o seu autor as inscreve, contribuindo para o espelhamento de fragmentos de uma mesma realidade histórica que é exclusivamente retratada através do campo de visão das personagens. O fundo social em que os membros da família se movimentam não é descrito, assim, de forma isenta, mas antes filtrado pela subjetividade narrativa dos responsáveis pelos discursos que compõem uma multiplicidade de vozes autónomas entre si. O questionamento de uma época histórica portuguesa considerada de glória e fulgor até ao final do Estado Novo pode ser entendido como o principal objetivo de António Lobo Antunes na obra aqui analisada, em que o título Esplendor de Portugal, retirado do hino de Portugal, apenas acentua a ironia presente ao longo de todo o romance deste autor, dando conta da ausência de esplendor do

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final de um período considerado uma época gloriosa do passado recente do país, através da história da decadência da família de Isilda.

No livro publicado em 1997, o estatuto de personagem principal pertence a Isilda, filha de colonos portugueses que decide não abandonar Angola após a independência de Portugal, pela relevância que assume na obra, ao manter a responsabilidade narrativa do princípio ao fim do livro e pela importância do seu papel como pilar fundamental da família de colonos retratada. Esta portuguesa, nascida em Portugal mas criada em Angola, opta por permanecer em território angolano, mesmo durante a guerra civil que se sucede às lutas pela independência de Angola, como último esforço de manutenção do seu estatuto de colonizadora, passando, assim, de opressora a oprimida ao não conseguir evitar perder tudo o que considerara como seu. Isilda reclama como legitimamente seu o património construído pela família, por ser o justo legado decorrente da posse colonial.

Isilda assume a responsabilidade da maior parte do discurso narrativo da obra, em partes que se intercalam do princípio ao fim do livro com as narrativas dos seus três filhos nascidos em Angola, mas enviados para Portugal, na sequência da libertação do território angolano. Contudo, enquanto as narrativas dos seus filhos se situam todas elas no ano de 1995, ano da morte de Isilda e presente da ação, e constituem discursos interiores em que as suas experiências vividas em território africano são presentificadas através das suas memórias, a voz de Isilda faz-se ouvir em excertos que constituem várias analepses desde o ano de 1973 até ao mesmo presente dos seus filhos, a véspera de Natal de 1995. Todas as passagens da responsabilidade de Isilda se situam espacialmente em Angola e as dos seus filhos em Portugal. Presente e passado, Angola e Portugal, estão, desta forma, interligados, não só ao longo da diegese da obra, como também no interior dos discursos das personagens. Não existe, portanto, linearidade temporal ou espacial, a sequencialidade dos acontecimentos narrados resulta da sugestão de seguimento narrativo do fio condutor da memória das personagens como lógica principal inerente ao discurso dos narradores.

O relato de Isilda destaca-se, porém, dos outros: a expressão da sua voz interior é constante do princípio ao fim do livro, sendo o seu discurso sempre intercalado com as narrativas dos seus filhos que ocupam três partes diferentes do livro: a primeira é de Carlos, a segunda de Rui e a terceira de Clarisse. A narração de Isilda constitui o elo de ligação das falas dos diferentes narradores, sendo o presente da sua enunciação situado em momentos diferentes, em cada um dos excertos narrativos que vão desde o dia 24 de julho de 1978 até ao dia 24 de dezembro de 1995, ou seja, a véspera do Natal de 1995, esta data a constante de todas as narrativas da responsabilidade dos seus filhos. Contudo, verifica-se a permanente intromissão de lembranças do passado no presente da enunciação nos relatos dos filhos. Isilda, por sua vez, recorda sistematicamente momentos e sensações anteriores ao presente enunciativo em que se encontra, intercalando-se a

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memória de acontecimentos anteriores na narração do seu presente também no seu discurso. Ao não deixar Angola, preferindo morrer na terra que considera sua a partir para Portugal em que teria mais probabilidades de sobreviver, Isilda recusa-se a admitir a decadência do império colonial português, preferindo permanecer num território em que gozou de um estatuto de supremacia sobre os que a rodeavam, tentando manter o ascendente sobre pessoas e lugares, a partir para outro país em que o seu papel seria o de uma deslocada sem qualquer autoridade ou prestígio, seguindo o conselho de seu pai que já antecipava a queda da família muito antes de acontecer.

Num processo polifónico, a sobreposição das dimensões temporal e espacial nos discursos das personagens resulta, assim, da reprodução da sua interioridade ao longo dos diferentes excertos narrativos que consistem em monólogos internos que traduzem a subjetividade de cada um dos narradores membros da família, ou seja, jorros de pensamentos e recordações sem sequencialidade temporal ou espacial, tal como surgem no espírito de cada um. Apesar de se encontrarem em Portugal, a experiência em África tem ainda um peso grande para cada um dos filhos de Isilda e, por esse facto, o passado em Angola está permanentemente a ser evocado nas suas narrativas. Isilda, sempre em Angola, relembra a sua vaga infância em Portugal, e depois em África, e recorda nostalgicamente os tempos de glória da sua juventude como descendente de colonos portugueses de estrato económico elevado.

A caracterização das personagens procede da exposição não só da sua subjetividade em relação aos acontecimentos vividos, mas também do retrato feito pelas outras personagens através das suas memórias em relação aos mesmos acontecimentos. A observação das personagens entre si contribui para a determinação do carácter de cada uma delas através do olhar dos outros, para além do que se infere das suas próprias subjetividades. Para além das narrativas principais, os discursos são frequentemente interrompidos pelas considerações de outras personagens, geralmente assinalados graficamente pelo uso de itálico. É desta forma que o leitor conhece também a subjetividade de diferentes personagens membros da família, como é o caso de Eunice, mãe de Isilda, e Amadeu, o marido, o que implica que, dos elementos da família colona, apenas Lena e Eduardo não tenham voz própria na narrativa. Estes últimos são caracterizados indiretamente pela reprodução dos seus discursos nas falas de outros narradores.

As interrupções do fio narrativo são constantes ao longo da obra, não só devido à intervenção da memória do passado nos relatos sobre o presente nas falas de todas as personagens, muitas vezes também assinalada pelo uso de itálico e pela inserção de falas de outras personagens nos discursos, mas também pela inclusão de menções fantasiosas no meio dos discursos da responsabilidade de Isilda, decorrentes da sua necessidade de evasão da vivência decadente em que se encontra no momento da narração. Isilda recusa-se a enfrentar o presente de declínio com que se depara e, não encontrando outra forma de lidar com a situação, a sua fuga à realidade é

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interior, através da imaginação e da fantasia. Como resultado, o romance de Lobo Antunes é constituído por uma polifonia ainda mais complexa do que a estrutura do livro faz só de si supor e pela total falta de sequencialidade espacial e temporal, no seguimento das características do romance pós-moderno que, segundo Isabel Pires de Lima, se baseia

(…) numa preferência pela não-selecção ou por uma quase-não-selecção, numa rejeição de hierarquias discriminadoras e numa recusa da distinção entre verdade e ficção, entre passado e presente, entre relevante e irrelevante. Em consequência, este novo código dá origem a uma relação entre o autor e o seu texto menos tensaque no romance modernista; o autor mostra-se indiferente ao estatuto do seu texto, privilegiando o arbitrário e o desconexo; afirma-se a paródia da explicação do mundo, numa lógica cheia de contradições internas; atribui-se mais realce ao leitor e dá-se mais ênfase ao código, isto é, valoriza-se a componente auto-reflexiva da ficção. (Lima, s.d.)13

Isto é, neste romance, estas características revelam-se numa narrativa que consiste no fluir do funcionamento da memória, sem uma sequencialidade de acontecimentos, ou seja, num trabalho com a descontinuidade sem pôr em causa a narrativização. Refere Isabel Ferreira Gould a propósito de O Esplendor de Portugal:

Lobo Antunes's fictional account treats human excess and downfall as integral parts of colonialism and explores issues of race, miscegenation, illegitimacy, family decline, and social displacement in contemporary Portugal. The book's intense focus on the children's visions and revisions of Africa through acts of memory can be seen as a need to assess the insufficiency of Portugal's present after the euphoric phase of the Revolution. Through memory and, especially through fictions of the self (fictional diary writing), the returnee children restore their identities and claim their names in the present. In this novel, if the dying out of the Portuguese family signals the crumbling of the empire, the deterioration of intimate ties continues to echo in the post-revolutionary era, revealing the author's disenchanted visions of a fatherland without splendor. (Gould, 2008: 189)

Isilda, a matriarca da família de O Esplendor de Portugal, simboliza a resistência dos colonos portugueses em abdicar do domínio de um território que consideravam legitimamente seu. Ao decidir permanecer em Angola após a independência, passa de opressora dos nativos a oprimida pelos africanos, não se conformando nunca com a sua nova situação. O seu passado de riqueza e opulência mistura-se com o presente infeliz, de miséria e de privações, num discurso que, em certas ocasiões, é o de uma mulher alucinada em que a vivência do presente se faz como se estivesse a viver um sonho. Nesta personagem, a dimensão temporal é bastante mais difusa, o presente vivido no momento do discurso e o passado evocado pela memória entrelaçam-se de forma inseparável seguindo o fio dos seus pensamentos. A dimensão onírica é permanente na expressão da sua subjetividade, revelando a necessidade de distanciamento da realidade

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envolvente, decorrente da proporção trágica da sua vivência no presente da enunciação. Isilda refugia-se nas recordações do passado e na imaginação fantasiosa do presente para escapar à verdadeira dimensão da sua decadência. O passado está sempre atual na sua vivência diária, a expressão do pretérito imiscui-se permanentemente nas descrições do seu presente, não só através da recordação de episódios vividos, mas também, e sobretudo, da presentificação de sentimentos e sensações que fazem parte do passado, que se mesclam de forma indestrinçável com os sentimentos e sensações do presente.

(…) eu com trinta anos, feliz, sem pregas nas bochechas, a Clarisse e o Rui no meu colo, o Carlos escapando-se atrás da cozinheira

- Largue-me

de brasa de cigarro no interior da boca, a comer peixe seco com ela na cantina, não gosta dos irmãos, não gosta da mulher, gosta do pivete da miséria e do óleo de palma, das galinhas de pescoço a dar e dar nas cubatas, ao voltar à fazenda no regresso de Luanda a cozinheira mudara também, chinelando nos ladrilhos, pela primeira vez sem receio de mim, pendurada no sino rachado do almoço a chamar o pessoal, Maria da Boa Morte Josélia Damião Fernando (…) (EP: 29)

No excerto transcrito pode-se verificar a interligação feita por esta personagem entre uma época em que ainda era nova e os filhos pequenos, a menção a Carlos ainda pequeno e, depois, já casado com uma mulher de quem não gosta, e o momento em que, regressada de Luanda depois de ter levado os filhos ao barco que os transportaria para Portugal, repara que a criada negra pela primeira vez não demonstra medo da patroa.

A fragmentação do discurso da personagem confirma-se na ausência de linearidade dos factos do quotidiano e da vida expostos ao longo do relato, mediante a técnica de cortes do fio narrativo, no fluxo da consciência interior da realidade repartida em momentos que se cruzam, em que o relato segue o fluir da sua interioridade psicológica que se encontra já afetada pela perda como principal consequência do processo de descolonização. A narrativa acompanha o ritmo do tempo interior, não só de Isilda mas também das restantes personagens, inerente ao processo memorialístico através do qual se dá a transmissão dos acontecimentos da obra.

Os antecedentes na época colonial portuguesa são revisitados por cada uma das personagens do livro através da memória de um passado familiar comum em África. É dada voz aos colonizadores brancos de Angola através da evocação das suas experiências em terras africanas, reveladoras das relações complexas mantidas não só com os restantes membros da família mas também com os nativos africanos. Isilda constitui o núcleo desta família, a sua imagem é a de resistência à queda de um império e consequente perda de direitos dos colonos sobre bens e terras. Através da mãe de família, as consequências nefastas da independência da antiga colónia portuguesa para os antigos colonos que decidiram não voltar a Portugal são visíveis, assim como a situação caótica em que o novo país caiu e é vivida por todos os seus

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habitantes. Os seus filhos, Carlos, Rui e Clarisse, são personagens que manifestam a inadaptação decorrente da partida para um país que lhes era estranho e no qual não encontram referências. São figuras representativas dos antigos responsáveis pelo povoamento das colónias portuguesas em África, obrigados a abandonar os territórios africanos após a sua independência, alguns deles já aí nascidos, mas designados como sendo “retornados” a um país onde nunca tinham estado. Para estas personagens, a experiência africana está sempre presente na sua vivência em Portugal, apesar de já se terem passado dezoito anos desde a sua chegada de Angola. Vivem em situação de isolamento interior e são marcadas pela falta de afetividade aos que as rodeiam.

As margens do império português surgem, desta forma, representadas na obra através dos que, muito após a descolonização, sofrem ainda no seu dia-a-dia as consequências da identificação e ligação emocional a um território que já não podem considerar como seu e da falta de laços à terra de acolhimento. O sentimento de perda da identidade nacional revela-se destrutivo para esta família que não encontra pontos de referência como suporte ao seu bem-estar físico e emocional, numa conceção do colonialismo condicente com a visão da pós-colonialidade sobre os “esquecidos” pelo discurso oficial da História, ou seja, neste caso, dos que protagonizaram a colonização ao longo dos tempos e que subitamente se viram despojados das suas referências territoriais. A polifonia narrativa verificada ao longo de toda a obra contribui para a apreensão, por parte do leitor, das diferentes dimensões que essa perda assume individualmente.

2.1.3. Subjetividade narrativa plural e representação social da realidade