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Mestre. Que he cousa Syntaxe figurada?

D. Saõ as regras de dispor bem as palavras fora da ordem natural, e por figuras. M. Que cousa he figura?

D. He o modo de fallar contra as regras da Syntaxe simples, porèm admittido do uso.

M. Dizey exemplo.

D. O Turco arma. Nesta Oraçaõ o Verbo activo Arma naõ tem accusativo,

contra as regras da Syntaxe simples,

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e assim ha figura na tal Oraçaõ, e lhe faltaõ as palavras A sua gente.

M. E quantas figuras ha na Syntaxe?

D. Muytas, mas todas se reduzem a quatro, ou cinco.

M. Quaes saõ?

D. Ellipse, que quer dizer falta. Pleonasmo, que quer dizer superfluidade.

Sillepse, que quer dizer pensamento; Hiperbaton, que quer dizer perturbaçaõ. Idiotismo, que quer dizer propriedade. M. Que cousa he Ellipse?

D. He a falta de alguma palavra na Oraçaõ. M. Quantas castas ha de Ellipse.

D. Duas. Ellipse pura, Ellipse não pura, que se chama Zeugma.

M. E quando ha Ellipse pura?

D. Quando alguma palavra falta totalmente na Oração.

M. Dizey exemplo.

D. Recebia de um. Nesta Oração falta totalmente a palavra Carta, e por isso

ha Ellipse pura.

M. E qual he a Ellipse Zeugma? D. He quando alguma palavra falta, e

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vem na Oraçaõ. M. Dizey exemplos.

D. Amo a Pedro, e naõ a Francisco. Nesta Oração a palavra Amo vem na Oraçaõ, e falta, porque devia vir duas vezes, e dizer Amo a Pedro, e naõ amo a Francisco.

M. Dizey as regras da Ellipse pura. D. Primeyra regra. Todas as vezes, que ha caso de apposiçaõ, ha Ellipse do Verbo Ser, e do relativo Qual, ou Que.

M. Porque?

D. Porque o caso de apposiçaõ necessariamente diz uniaõ, e esta se declara

pelo Verbo Ser. M. Dizey exemplos.

D. O Conde Governador o mandou. Nesta Oração faltaõ as palavras Que he, as quaes unem o nome Governador, caso de apposiçaõ, com o nome Conde

desta sorte. O Conde, que he Governador, o mandou. Na mesma fórma

Este livro he de Pedro Estudante. Esse livro he de Pedro, que he Estudante. O mesmo he no Latim.

D. Segunda regra. Todas as vezes que o

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Verbo no modo finito naõ tem nominativo, ha Ellipse.

M. Porque?

D. Porque todo o Verbo no modo finito pede antes de si nominativo.

M. Dizey exemplo.

D. Amo a Pedro. Nesta Oração o Verbo Amo não tem antes de si nominativo, e ha Ellipse do nominativo Eu. O mesmo he no Latim.

M. E pode-se usar dessa figura em todos os Verbos, tempos, e pessoas?

D. Sim, excepto quando os Verbos significaõ acçoens diversas.

D. Eu leyo, tu escreves. Naõ posso dizer Leyo, Escreves, porque se poem para significarem acçoens diversas. O mesmo he no Latim.

D. Terceyra regra. Todas as vezes que depois do Verbo activo naõ està accusativo, ha Ellipse.

M. Porque?

D. Porque todo o Verbo activo pede depois de si accusativo.

M. Dizey exemplo.

D. O Turco arma. Nesta Oraçaõ o Verbo

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activo Arma naõ tem o seu accusativo, e há Ellipse do accusativo A

sua gente. O Turco arma a sua gente. O mesmo he no Latim.

M. E desta Ellipse posso usar com todos os nomes, e Verbos?

D. Naõ. Só com os que o uso introduzio. D. Quarta regra. Todas as vezes, que na Oraçaõ està o adjectivo sem o seu substantivo, ha Ellipse.

M. Porque?

D. Porque o adjectivo naõ pode estar na Oraçaõ sem o seu substantivo.

M. Dizey exemplo.

D. Em breve tornarey. Nesta Oraçaõ o adjectivo Breve está sem substantivo, e ha Ellipse do substantivo

Tempo. Em breve tempo tornarey. O mesmo he no Latim.

M. E desta Ellipse pode-se usar com todos os adjectivos, e substantivos?

D. Naõ. Sò nos que introduzio o uso. D. Quinta regra. Todas as vezes, que a palavra Que na Oração he relativo, ha Ellipse.

M. Porque?

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D. Porque o relativo ha de concordar em caso com o seu substantivo, e com o relativo Que nunca se poem o substantivo, com quem concorda em

caso.

M. Dizey exemplo.

D. Repito as palavras, que lhe disse. Nesta Oração a palavra Que he relativo, e

val o mesmo, que o relativo Qual, e faltalhe o substantivo Palavras, com quem concorda em caso. Repito as palavras, as quaes palavras lhe disse. M. E desta Ellipse pòde-se usar sempre? D. Cõ o relativo Que he obrigação usalla, com o relativo Qual pòde-se usar,

ou não usar.

D. Sexta regra. Quando o relativo Que, ou Qual não tem antes de si o seu antecedente, ha duas Ellipses. M. Porque?

D. Porque o relativo necessariamente ha de ter duas vezes o seu substantivo, huma antes, como antecedente, outra depois, como seu substantivo,

com quem concorda em caso. M. Dizey exemplo.

D. Ha huns, a que agradaõ as armas, ou Ha

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huns, aos quaes agradaõ as armas. Nesta Oração ha duas Ellipses da palavra Homens, a primeyra antes do relativo, a segunda depois. Ha huns homens, aos quaes homens agradaõ as armas. O mesmo he no Latim.

D. Oytava regra. Todas as vezes, que vem na Oração algum nome, sem ser nominativo absoluto, e naõ apparece em que caso está, nem quem o

reja, ha Ellipse de alguma preposiçaão. M. Porque?

D. Porque todo o nome he regido ou de outro nome, ou de algum Verbo, ou de preposição.

M. Dizey exemplo.

D. Esta taboa he larga dous palmos. Nesta Oração os nomes Dous palmos naõ saõ regidos de ninguem, nem apparece em que caso estejaõ, e faltalhe a preposição De. Esta taboa he larga de dous palmos.

M. E esta Ellipse pode-se usar sempre? D. Naõ. Sò onde o uso introduzio se pòde usar.

D. Nona regra. Quando na Oração ha

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diversos membros, e o Verbo, que

mais que a hum, ha Ellipse do Verbo diverso.

M. Dizey exemplo.

D. Naõ duvido passar a India, mas ficar là isso naõ. Nesta Oração ha dous membros, Passar à India hum, Ficar là outro.

O Verbo Duvido he o que governa o primeyro, porèm não accõmoda para governar o segundo, e

assim no segũdo falta o Verbo Quero. Naõ duvido passar à India, mas ficar là, isso naõ quero. O mesmo he no Latim.

M. Dizey as regras de Ellipse Zeugma. D. Primeyra regra. Todas as vezes, que na Oração está algum nome, ou

Verbo, o qual para o sentido da Oraçaõ se deve tornar a repetir da mesma sorte, que está na Oração, ha Zeugma. E esta he a primeyra casta. M. Dizey exemplo.

D. Conheceis os astros do Ceo, e as influencias. Nesta Oração para o sentido ficar

perfeyto, he necessario tornar a entender a palavra Conheceis, e a palavra

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Ceo, mas sem mudança, nem no tempo, nem no numero, nem na pessoa,

nem no caso: desta sorte Conheceis

os astros do Ceo, e conheceis as influencias do Ceo. O mesmo he no Latim.

D. Segunda regra. Quando o nome, ou Verbo se deve tornar a entender, mas com mudança no numero, género, pessoa, tempo, ou caso, ha Zeugma! Esta he a segunda casta.

M. Dizey exemplo.

D. Recebido o Rey, e os companheyros. Nesta Oração falta segunda vez a palavra

Recebido, e se torna a entender, mas em diverso numero. Recebido o Rey, e recebidos os companheiros.

Da mesma sorte. Hoje estou em Portugal, á manhãa em Castella, falta, e se

torna a entender o Verbo Estou, mas em diverso tempo Estarey. O mesmo he no Latim.

Capitulo II.