Edith Stein, sendo mulher corajosa e determinada, não hesitou em abrir mão da função de assistente de Edmund Husserl, em 1918. Apesar de sua amizade com o mestre e do aproveitamento para sua própria formação e investigação filosófica, decide agora perseguir seu ideal de pesquisadora, consciente de que sua pesquisa deve ultrapassar os limites culturais e percorrer as vias de encontro com o outro, com a comunidade na busca de sua realização. Não foram apenas as dificuldades e a pouca valorização por parte dos seus colegas e até mesmo do seu mestre de induzí-la a este passo. Quer agora produzir algo próprio e original, sem, contudo, deixar-se escravizar pela cultura dominante.
De fato, dedica-se com seu estilo feminino à pesquisa sobre a pessoa humana iniciada no “Problema da Empatia”, ampliando seus interesses do âmbito da psicologia para o âmbito das ciências do espírito. Não se satisfaz em definir o significado das estruturas do sujeito, é profundamente interessada em aprofundar as relações intersubjetivas com referência às formas associativas humanas: família, comunidade e estado, mostrando, ao mesmo tempo, sua propensão e profunda sensibilidade para com os problemas pedagógicos.
Mas, secretamente está em busca da verdade, “força vital” de sua atividade e de suas renúncias. Ao mesmo tempo, dedica-se à luta pelos direitos das mulheres não
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somente na educação, como também pela dignidade da mulher. Ela não buscou na universidade somente uma formação profissional, uma carreira, mas também um
caminho para a busca da verdade. “Que sentido tem a minha vida, ou [que sentido] se
esconde atrás dela?” Como podem colaborar os homens para a realização de um
mundo melhor e racional?95.
Edith Stein cultiva aspirações profundas, tais como: ser pesquisadora, e, sobretudo, ser professora universitária. Seu pedido de recomendá-la a Göttingen como professora não encontrou eco no mestre. Dirige-se, então, ao Ministério de Culto e Instrução Pública prussiano, e no inverno de 1919, solicita que as mulheres pudessem ter acesso ao ensinamento nas universidades. No mesmo ano, apresenta uma carta para ser contratada na universidade, mas não é aceita. Decide voltar para a casa de sua mãe. Na sua cidade, ela ministra cursos particulares de introdução à filosofia (com mais de 50 alunos) e leciona algumas aulas de ética na Escola Superior Popular da cidade. Ao mesmo tempo continua sua pesquisa sobre o tema da intersubjetividade; examina a relação entre “Indivíduo e comunidade”, artigo que publicará no “Anuário de
filosofia e de pesquisa fenomenológica” (vol. V, 1922) dirigido por Husserl. No mesmo
ano publica, também, a pesquisa sobre a constituição do ser humano com o título “Causalidade psíquica”, e escreve “Uma pesquisa sobre o Estado” (publicada no vol.VIII, 1925, na mesma revista).
Nessa passagem, é possível antever o caminho que se abre para a jovem universitária. Em seu programa de pesquisa filosófica, permanecerá fiel ao pensamento filosófico de Husserl por toda a sua vida. Em Friburgo, Edith Stein conhece Martin
Heidegger96. Aprofunda sua amizade com Roman Ingarden97 e com Hedwig
Conrad-Martius, sua amiga e madrinha de batismo98.
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HERBSTRITH, WALTRAUD. Edith Stein: vida, obra, mensaje. Revista de Espiritualidad, 183. Edith Stein. Madrid, 1987, p. 277-278.
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“Un giorno fummo invitate con molte altre persone dagli Husserl. Se non sbaglio fu la sera in cui conobbi Martin Heidegger. Aveva preso l’abilitazione com Rickert, Husserl lo aveva assunto, prendendolo dal suo predecessore. Tenne la sua prolusione quando Husserl si trovava già a Friburgo. Essa conteneva evidenti frecciante rivolte alla fenomenologia. La sua futura moglie, per il momento ancora signorina Petri, frequentava il seminário di Husserl e si opponeva vivamente. Un giorno lui mi disse: ‘Quando una donna si mostra tanto ribelle, dientro di lei c´è un uomo’. Quella sera Heidegger mi piacque molto. Era silenzioso e chiuso in se stesso per tutto il tempo in cui non si parlava di filosofia. Ma appena emergeva un argomento filosófico, si mostrava pieno di vita”. (STEIN, 1992a, p. 369-370).
A solidariedade humana e a experiência da morte de muitos dos seus colegas de universidade no campo de batalha afinaram em Edith Stein a percepção de uma realidade que transcende a vida terrena, mas não era essa ainda, a via de uma fé em Deus. Em contato com a esposa de Adolfo Reinach e com Hedwig Conrad-Martius, ambos religiosos, sente-se sempre mais motivada em conhecer e aprofundar os textos sagrados. Mas, o fato que a levou à decisão definitiva para o catolicismo foi a leitura da vida de Santa Teresa D’Ávila, enquanto se encontrava na casa da sua amiga Hedwig Conrad-Martius, no verão de 1921.
Adolf Reinach morre no campo de batalha em Bélgica. Sua esposa Anne pede para Edith Stein ajudá-la a reorganizar seus escritos para a publicação. Ela resiste. Temia não ser capaz de confortar sua amiga. Sabia do grande amor que unia o casal, da vida feliz que levaram e pensava que não poderia suportar a dor de encontrar a senhora Reinach sozinha. Não teria palavras para confortá-la. Mas diante da resignação de Anne, que buscava força, calma e coragem na fé católica, maravilha-se e admira sua atitude. De improviso se abre diante dela um caminho desconhecido: a esperança cristã. Mais tarde, contando esta experiência para o padre jesuíta Hirschmann, confessa: “Foi o primeiro encontro com a Cruz, a minha primeira experiência da força divina que da Cruz emana e se comunica para aqueles que a abraçam. Foi o momento em que resplandeceu a luz de Cristo, Cristo no mistério da Cruz”99.
A morte de seu amigo Adolf Reinach a leva a experimentar com inesperada consciência a força da cruz. Mas, foi necessário um prolongado conflito interior para aceitar a existência de um Deus Pessoal que ama. Lendo seus escritos de fenomenologia, encontramos sinais de que ela entendeu seu caminho para Cristo como um itinerário “místico”. De fato, ela analisa como uma pessoa, num profundo desespero, é capaz de tomar decisões e descrever a experiência curadora e
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“Alla prima lezione (Friburgo) rividi anche una vecchia conoscenza di Gottinga: Roman Ingarden, uno dei polacchi che apparteneva al circolo creatosi intorno a Husserl già prima della guerra. All’inizio della guerra si era trovato nella legione polacca, ma fu presto congedato a causa di un difetto cardiaco ed era tornato a Gottinga. Era l’unico del vecchio circolo di Gottinga ad acompagnare il maestro a Friburgo”. (STEIN, 1992a, p. 365).
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STEIN, 2001, p. 11.
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“Fu il primo incontro con la Croce, la mia prima esperienza della forza divina che dalla croce emana e si comunica a quelli che l’abbracciano. Fu il momento nel quale si é fatta vedere la luce di Cristo, Cristo nel mistero della Croce”. (Tradução nossa). (SPIRITU SANCTO, 1959, p. 122).
consoladora de uma paz transcendental que se espalha na alma, e que pode se identificar somente com Deus.
Nos anos de 1918-1921, Edith Stein começa a ler livros de espiritualidade cristã, de santos e de grandes autores católicos, não somente por interesse pessoal, mas também porque queria encontrar um caminho que a libertasse das incertezas, das angústias e das tensões interiores. Compra o Livro dos Exercícios Espirituais de Inácio
de Loyola. Por puro interesse psicológico mergulha nas páginas inacianas e termina
por fazer a “experiência dos exercícios” proposta pelo santo. A leitura do Livro da Vida de Teresa D´Ávila, doutora da Igreja, na casa Hedwig Conrad-Martius a Bergzabern, no verão de 1921, foi para ela uma confirmação da própria experiência pessoal.
A afirmação de Teresa “Deus é Verdade”, ilumina seu ânimo e sua inteligência e aquece seu coração. Sente-se convicta e decide aprofundar essa Verdade, concentra-se e caminha na Verdade e na preconcentra-sença da mesma Verdade. “Sua conversão ao cristianismo é a completa e consciente aceitação da única verdade, por Santa Teresa misticamente experimentada, e por ela finalmente encontrada depois de uma angustiante busca intelectual e talvez muito mais ainda com a oração”, comenta
Giovanna della Croce100. Imediatamente, compra o Catecismo da Igreja Católica e um
Missal. Tendo estudado a doutrina da Igreja Católica, apresenta-se ao pároco da igreja de Bergzabern e lhe pede o batismo. “Me olhou admirado e me disse que, para entrar na Igreja, era preciso um período acurado de preparação. Há quanto tempo estuda a doutrina católica e quem a prepara? Respondi: Por favor, reverendo Padre, me examine”. Após um longo colóquio sobre os argumentos teológicos, em que se tratou dos artigos da fé cristã, Edith Stein responde a todas as perguntas, e o pároco
admirado não pode lhe negar o batismo101.
100 STEIN, Edith. Sui sentieiri della verità. (a cura del Carmelo di Milano). 3. ed. Milano: Edizioni San Paolo, 2005. Introduzione di Giovanna della Croce, p. 19.