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3. A ABORDAGEM SOCIOLÓGICA DO CONFLITO

3.2 A TEORIA DO CONFLITO EM SIMMEL

3.2.7 Dahrendorf e Coser: Oportunidades de crítica à teoria de Simmel

3.2.7.1 Dahrendorf e a percepção estrutural do conflito

Para Dahrendorf, guerras # " / ! " " !+ ! +/

conflitos internos e externos, e ambos possuem dinâmicas diferentes. Por sua vez, tomando como referência apenas os conflitos internos, os mesmos podem ter várias subdivisões, como na disputa entre católicos e protestantes dentro do cristianismo (DAHRENDORF, 1958). Vale notar que externo e interno não está relacionado à dimensão espacial do conflito, mas sua inclusão em alguma esfera humana.

Porém, o que Dahrendorf (1958) quer propor, é que nem todos os tipos de conflitos são importantes para a análise sociológica, e que devem ser avaliados não a partir de eventos aleatórios da história, ou de eventuais condições psicológicas determinantes, mas a partir da localização dos “elementos sócio-estruturais”15 (p. 171) que levaram àquela situação, mesmo

que tenham tido como gatilho mudanças históricas, como no caso do conflito entre negros e brancos nos Estados Unidos. Considera que uma teoria do conflito não pode desconsiderar as condições estruturais na qual as relações sociais foram construídas.

Seu foco na análise dos conflitos internos deriva da dificuldade observada de se analisar uma grande estrutura (entenda-se aqui ou sociedades inteiras ou um sistema social abstrato), sem analisar os fatores em seu interior, tornando essa tarefa possível apenas na esfera da metáfora. Dahrendorf (1958) admite ainda que estas estruturas desenvolvem em seu interior posições de comando e subordinação que acabam por criar um ambiente propício ao conflito.

Critica ainda fortemente a escola estrutural-funcionalista por entender que essa se assenta em conceitos abstratos como “religião” e “educação” para explicar mecanismos de integração e diferenciação que afetam todo o funcionamento da sociedade. Além disso, não aceita a classificação desta escola que considera como disfuncionais os elementos, isto é, os grupos e processos, que atuam no sentido contrário à integração social. Entende que, ao fazer isso, a abordagem estrutural-funcionalista acaba por relegar à influência dos grupos sociais uma menor importância, tornando ainda mais abstrata a noção de sociedade (DAHRENDORF, 1958).

O que chama a atenção nesta crítica de Dahrendorf ao estrutural-funcionalismo é que, a princípio, seus teóricos já consideravam essa abordagem como uma evolução diante das teorias funcionais. Para Selznick (1948), a então análise funcional se mostrava insuficiente para lidar com a questão da sobrevivência da instituição diante de fatores que exigiam a adaptação da estrutura, acreditando que a abordagem estrutural-funcionalista lidaria melhor com a resistência dos envolvidos.

A partir de uma definição do que seria uma organização, isto é, qualquer arranjo social racional que exija habilidades de coordenação de atividades técnicas e hierarquia de comando, Selznick (1948) aponta que o conceito de delegação é central no estabelecimento da organização, posto que demanda controle e coordenação contínua para realização das tarefas.

Da mesma maneira, aponta que é possível observar que esse conjunto de relacionamentos estabelece pressão por segurança dos envolvidos, o que é atingido por meio da institucionalização dos relacionamentos. Entretanto, e de maneira contraditória, permite que os indivíduos possam ser substituídos, posto que as funções, e não as pessoas, é que estão cimentadas à estrutura (SELZNICK, 1948).

O problema para Selznick (1948) é que as dimensões não racionais do comportamento organizacional, que também exigem coordenação, nunca foram totalmente entendidas, e permanecem gerando atrito nos relacionamentos. O motivo disso é que a estrutura social da

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ambiente externo também pressiona a estrutura de fora para dentro.

Dada essa complexidade, tal realidade impede a criação de um modelo capaz de espelhar o todo. A estrutura da organização é bipolar, pois ao mesmo tempo em que é uma economia (um sistema voltado a operar em uma realidade com escassos recursos), é um sistema adaptativo, voltado a lidar com mudanças no entorno. É também um sistema em que controle e consentimento estão juntos, daí a necessidade de se ver uma organização como um sistema cooperativo (SELZNICK, 1948).

Apesar da necessidade de se enxergar a organização de uma maneira funcional (que vem da ideia de funcionalismo, ou seja, da necessidade de se enxergar as atividades dentro de seu contexto, e voltadas ao funcionamento da instituição), com as pessoas inseridas em cargos e com tarefas específicas a serem cumpridas, deve ser considerado o fato de as pessoas, por estarem inseridas no sistema social como um todo (e, portanto, por terem costumes fora da organização), tendam a resistir a determinados processos de despersonalização, mesmo que exigidos pelos cargos (SELZNICK, 1948).

Esse e outros desvios podem se tornar institucionalizados e, portanto, agregados às estruturas da organização. Um dos resultados possíveis é o surgimento de panelinhas, por meio da teia de relacionamentos no interior da organização. Essa estrutura informal acentua a noção de organização como sistema cooperativo, porém, além de cooperativo, deve ser adaptativo para suportar os desvios e influências externas e poder explicá-los por meio da delegação e coordenação. Daí a insuficiência da análise puramente funcional, incapaz de lidar com a necessidade de adaptação e sobrevivência. Diante disso o autor propõe a abordagem estrutural- funcionalista (SELZNICK, 1948).

A abordagem estrutural-funcionalista sugere que um ambiente empiricamente observável tem necessidades vitais voltadas à sua manutenção, sobrevivência e autodefesa. Mais que isso, a visão estrutural-funcionalista entende que a necessidade fundamental é a “manutenção da integridade e continuidade do sistema em si”16 (SELZNICK, 1948, p.29).

Vale salientar que estrutura envolve tanto a noção de relacionamentos no interior do sistema (formais e informais) quanto às necessidades do sistema. Por sua vez, o conceito de manutenção engloba a segurança da organização diante do ambiente, a estabilidade das linhas de autoridade e comunicação, a estabilidade das relações informais no interior da organização, a continuidade da política (policy) e as fontes de sua determinação, e a homogeneidade da perspectiva em relação ao significado e papel da organização. Qualquer alteração em uma dessas bases de sustentação pode ameaçar a organização, mas Selznick sugere que outras necessidades ainda podem ser elencadas (SELZNICK, 1948).

Paralelamente à abordagem estrutural-funcionalista, é possível analisar a organização a partir de seu comportamento organizacional, que homologamente a um indivíduo, possui uma personalidade resultante do conjunto de forças que age no seu interior (equivalente a um modelo freudiano de análise). É nesse contexto que, no entendimento de Selznick, a análise estrutural-funcionalista se tornaria importante, pois mais que compreender a ação realizada, é

entender por que os indivíduos são obrigados a agir de uma determinada maneira, ou seja, é a busca dos fatores que subjazem a ação organizacional que deve ser o foco do pesquisador. É o que diferencia o planejado (capaz de refletir a liberdade técnica da melhor escolha), do realizado (que deve envolver o comprometimento de pessoas, instituições ou procedimentos). Porém, permanece a questão da resistência à mudança, inerente ao fato de que estarmos submetidos ao sistema social como um todo (SELZNICK, 1948).

É facilmente observável que a própria teoria de Selznick abriga o conflito, pois o processo de institucionalização representa o confronto entre polos opostos, cujo desfecho dificilmente seria derivado de ações colaborativas entre as partes, como ele tanto enfatiza na necessidade de busca por colaboração.

Dahrendorf (1958) é ainda mais crítico ao afirmar que, de fato, ao esconder o conflito por meio do termo disfunção, lança as bases para o entendimento de uma teoria sociológica do conflito. Mas, e de maneira muita elegante, indica que sua abordagem não acaba com a teoria funcional ou com o estrutural-funcionalismo.

O motivo é que, para Dahrendorf (1958), há dois modelos distintos que precisam ser diferenciados. O entendimento da ordem social segue um modelo de sociedade baseada na integração dos elementos, na importância das partes na constituição do todo, e na existência de consenso entre as partes. Já a compreensão do conflito, exige um modelo diferente, o qual está alicerçado na ideia de mudança contínua, e de envolvimento das partes na mudança. Como consequência, a ideia de que toda sociedade experimentará conflito em alguma etapa de sua existência passa a ser exigido. E dado o caráter bipolar da sociedade, não são modelos mutuamente exclusivos. São dois modelos válidos, mas só um está preparado para entender o conflito.

Dahrendorf vai buscar na teoria da luz, a qual é estudada tanto pelo eletromagnetismo, quanto pela física moderna, o seu modelo análogo. Segundo a teoria eletromagnética, a luz é uma onda, ao passo que para a física moderna, a luz é um conjunto de partículas. Para entender a sociedade, seria necessário entender tanto a variável da ordem, quanto a variável do conflito, conforme se apresentar sociologicamente o problema. Este autor enfatiza, entretanto, que não deve se pensar em uma teoria normativa do conflito (DAHRENDORF, 1958), nos moldes como foi elaborada pela teoria funcional.

Esta teoria do conflito que Dahrendorf (1958) propõe, e que indica estar ainda incompleta, tem de ser científica e, portanto, susceptível de validação empírica. Deve ser capaz de localizar a genealogia do conflito a partir de condições estruturais, localizar os diversos conflitos em suas intensidades e formas particulares e, por fim, explicar a mudança social, sem

se distanciar das bases da teoria geral do conflito.

Além disso, e quando possível, fazer analogias com a teoria da integração social, afinal, é por meio das lacunas desta teoria que propõe seu modelo de análise do conflito, o que por si só motivaria o diálogo entre elas. Além disso, tal teoria deve esclarecer como surgem os grupos conflituosos, que tipos de conflito podem ocorrer entre os grupos, e qual o efeito dessa luta na mudança das estruturas sociais (DAHRENDORF, 1958).

Porém, Dahrendorf (1958) não negligencia a questão da luta pelo poder, coisa pouco comentada por Simmel. Sugere, inclusive, que a fonte principal do conflito estrutural são as relações de dominação, que submetem uns ao comando de outros, evidenciando uma “distribuição de poder desigual”17 (p. 176).

Mesmo considerando a dificuldade de se especificar as diferenças entre poder e autoridade (a forma que alguns textos americanos tratam o termo ‘dominação’), Dahrendorf (1958) se satisfaz com a definição weberiana que a indica como uma probabilidade em se obedecer a um determinado comando.

Tal definição implica na existência de relações de subordinação, uma esfera de atuação, ordens ou disposições a serem cumpridas, e punições em caso de desobediência, o que indica a existência de dois lados em oposição em uma estrutura social, que ao buscarem interesses próprios de seus grupos, isto é, dos dominantes e dominados, mantêm um estado de tensão contínuo na luta pela preservação ou pela mudança social. Esse modelo deve ser capaz de identificar os grupos de interesses específicos, as formas particulares do conflito, e as formas de mudança estrutural possíveis (DAHRENDORF, 1958).

O passo seguinte neste modelo de análise é localizar as condições que permitem o desenvolvimento do conflito. Para Dahrendorf (1958), elas se dividem em condições sociais, políticas e técnicas. Comunicação entre os membros do grupo, possibilidade de se estabelecer coalisões e a existência de condições materiais, como a existência de um líder, são exemplos de cada uma dessas condições, respectivamente.

Além disso, entende que a forma e dimensão da mudança dependem da intensidade do conflito e da capacidade de permanência no poder do grupo dominante. Como estão presentes em toda organização social, Dahrendorf (1958) indica que tal teoria pode ser usada na análise de qualquer grupo social.

Especificamente quanto à análise do conflito no interior de um grupo industrial, que é o escopo desta pesquisa, apesar de reconhecer que nela há uma estrutura hierárquica de

posições e sanções, Dahrendorf (1958) se concentra em disputas entre gerentes e demais trabalhadores, e em outros grupos neste universo, como os sindicatos de trabalhadores e patronais, buscando analisar mais esse tipo de conflito. Apesar de influenciar o interior da organização, esses a que Dahrendorf se dedicou se apresentam como conflito externo (na relação com os sindicatos) ou vertical (no embate entre gerentes e subordinados) e, portanto, distanciados do nosso escopo de pesquisa.

Entretanto, sua busca pelas condições estruturais do conflito como elemento fundamental de busca sociológica será fundamental na condução desta pesquisa, e se apresenta como uma das questões a ser respondida.