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DAIBERT E O BARROCO EUROPEU

No documento miriamribeirodias (páginas 67-71)

Ao percorrer a Europa, Daibert registra, no seu diário, em escrita e em desenho, suas percepções sobre a estética. “O espírito barroco nas suas mais diferentes e mais sutis entonações: opulência, ilusionismo, simplicidade. Nos túmulos os esqueletos do anjo da morte lembravam o quanto é transitória toda a vaidade humana”. ( DAIBERT,

In: GUIMARÃES, J.C.; POLITO, Ronald (org.), p.153).

Figura 26 - Arlindo Daibert, esboço de crânio

Fonte: Esboço feito em Roma em 12 de fevereiro de 1986. In: Arlindo Daibert: diário excertos. GUIMARÃES, J.C.; POLITO, Ronald (org.), 2018, p.150

De maneira geral o artista aprecia bastante desenhar estruturas esqueléticas e

crânios, humanos ou animais ( informação verbal)16, o que nos faz compreender o

fascínio de Daibert pelo cemitério dos capuchinhos na Via Venato:

[...] a cripta apresenta uma decoração luxuosa e rebuscada com relevos no teto e ornamentação de capelas. Só que a matéria-prima são os esqueletos de quase 4000 monges ali sepultados. Crânios, vértebras, costelas se associam formando volutas, florões, medalhões [...] a metáfora volta ao real num jogo de espelhos estonteante: a caveira com a foice é real. Realidade e alegoria se confunde. (Idem, p.157)

O pesquisador Júlio Castañon Guimarães inclui na obra Caderno de Escritos (1995), livro que reúne diversos textos escritos por Arlindo Daibert, o texto A

representação da figura humana e, um dos tópicos deste texto é O Renascimento e o Barroco, no qual Daibert aborda o período em que “o homem se percebe como agente

de grandes mudanças” (DAIBERT, In: GUIMARÃES, J.C., 1995, p.172, 173). O artista comenta sobre as teorias clássicas relativas às proporções do ser humano que foram retomadas por Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Albrecht Dürer, dentre outros e que , a partir daí, surgiram os primeiros tratados estabelecendo normas e regras para a produção do desenho do corpo humano. No entanto, como estamos falando de um período em que o homem caminha para inquietudes cada vez mais crescentes, Daibert registra também que “o próprio Da Vinci, após estabelecer uma série de regras e medidas para a representação ideal do corpo humano, conclui que a realidade não é regida por padrões inflexíveis” ((DAIBERT, In: GUIMARÃES, J.C., 1995, p. 173).

Seguindo a incursão de Daibert pela Itália lemos no diário à respeito da visita ao

Êxtase de Santa Teresa , de Bernini, marco do Barroco católico e a narrativa do

impacto visual da escultura: “conseguimos, finalmente, entrar em Santa Maria dela

Vittoria. Uma pequena mas talvez uma das mais bonitas igrejas barrocas de Roma. O

altar de S. Teresa é deslumbrante”. (DAIBERT, In: GUIMARÃES, J.C.; POLITO, Ronald (org.), p.159) e em seguida a mão registra o que vê:

16A amiga pessoal do artista, Neysa Campos, ao me receber em sua casa disse que Daibert

apreciava os Atlas de anatomia utilizados por ela durante sua formação no curso de medicina e por isso ela os deu a Daibert que, por sua vez, reproduzia minuciosamente as estruturas esqueléticas observadas nos manuais. (Conversa em 25 de setembro de 2019).

Figura 27 - Arlindo Daibert, esboço do Êxtase de Santa Teresa

Fonte: Esboço feito em Roma em 17 de fevereiro de 1986. In: Arlindo Daibert: diário

excertos.GUIMARÃES, J.C.; POLITO, Ronald (org.), 2018, p.160.

Daibert realiza mais de uma releitura dessa obra de Bernini e tece comentários importantes que abordaremos mais adiante, por ora, como citamos o contato do artista com o barroco católico, precisamos fazê-lo também com o barroco protestante, cuja maior aproximação de Daibert se deu pelas releituras produzidas durante oito anos a partir do quadro O ateliê do Artista ( ou O Estúdio do Artista) , de Jan Vermeer ( 1632 - 1675), artista do barroco protestante holandês que também esmiuçaremos adiante.

Nos escritos do artista encontramos ainda registro de que ele se debruçou sobre a obra Las Meninas, de Velázquez

Preparo os desenhos para o salão de Belo Horizonte. Como o tema é “A casa” faço a planta-baixa de alguns quadros onde se vê o artista pintando o modelo: L’atelier de Vermeer, Las meninas de Velázquez[...] no canto a figura do pintor como narrador (DAIBERT,

In: GUIMARÃES, J.C.; POLITO, Ronald (org.), 2018, p. 79)

no entanto, as releituras de Velázquez não foram localizadas para que as fotos fossem exibidas aqui.

Daibert deixa registrado em seus escritos, ao preparar materiais para a composição da exposição Macunaíma de Andrade, que se interessa pelo conceito italiano de barroco em comparação ao nosso colonial (Idem, p.71) e ao iniciar a composição dos desenhos, colagens, pinturas, etc., da exposição, comenta: “ Com muito cuidado vou incorporando detalhes barrocos ( anjos, guirlandas), iconografia dos viajantes europeus” ( Ibidem, p. 75) ao trabalho que se iniciava sobre o Modernismo, vida e obra de Mario de Andrade.

Neste item, apresentamos uma mostra sucinta de que o artista, reconhecido em vida pelo seu trabalho, releu grandes artistas de diferentes períodos da História da Arte dentre os quais encontramos Velázquez, Vermeer e Bernini que estão inseridos no período de predominância da estética barroca na Europa. Trouxemos também registros, extraídos do diário do artista, cujos excertos foram publicados em 2018, sobre suas visitas ao cânone da arte europeia, sobretudo Roma e os monumentos Barrocos. Destacamos ainda publicação do artista que fala sobre o Renascimento e Barroco, bem como apresentamos seus comentários sobre ter colhido em nosso barroco colonial materiais para a composição de sua exposição que releu Mário de Andrade e o Modernismo.

Feito esse percurso, acredito estar respaldada minha hipótese que permite aproximar Arlindo Daibert de uma essência do Barroco e a partir daqui pretendo seguir caminho para uma abordagem de aspectos mais subjetivos dessa essência, pois, como o próprio arista comenta ao falar da Vênus de Velásquez, o Barroco se produz pela “alegoria moral”. Logo, é preciso examinar o conceito de alegoria sob a ótica de Walter Benjamin.

No documento miriamribeirodias (páginas 67-71)