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CAPÍTULO I – SENHORES DA POLÍTICA EM TEMPO DE CONSOLIDAÇÃO DA

1. Cuiabá: cabeça de província

1.2 Das Juntas para a Assembléia

Com a notícia da “Revolução Liberal”, em Portugal, veio a designação de que os capitães-generais devessem jurar a nova constituição portuguesa. Magessi, então, reuniu representantes de várias camadas da população de Cuiabá e fez o ato solene.

Para os grandes proprietários e comerciantes da baixada cuiabana, a proximidade do centro das decisões políticas e administrativas da capitania representava uma maior possibilidade de influência no poder institucionalizado. Contudo, havia um descontentamento com o governo de Magessi que se mostrou decisivo com a notícia de que em outras capitanias, os capitães-generais estavam sendo depostos. Conta-se que foi o rico comerciante Antônio Navarro de Abreu quem chegou de viagem entusiasmado com as novidades, em 18 de agosto de 1821. Prontamente, os fazendeiros e negociantes mais ricos da baixada cuiabana se articularam com setores da área militar e o clero para a deposição do governante. Dois dias depois “Tropa, Clero, Nobreza e Povo” consideram Magessi deposto e escolhem uma Junta governativa77, tal qual se formavam em várias partes do Brasil.

Na verdade, a deposição do capitão-general e a formação de Junta governativa correspondiam aos desígnios das Cortes reunidas em Portugal. Era o movimento vintista imbuído de um sentido liberal, pois queriam que o monarca jurasse uma Constituição que estava sendo gestada. Era a defesa do fim do Antigo Regime, em que a sociedade deveria se fazer representada, assim como os direitos do cidadão, da liberdade de expressão, de

76 SIQUEIRA , Elizabeth Madureira. Op. cit., p. 74.

77 CORRÊA FILHO, Virgílio . “Antônio Navarro de Abreu, paladino da maioridade”, in: Anais - Terceiro

imprensa, de associações e de reuniões78. Várias regiões do Brasil aderiram prontamente ao chamado das Cortes seduzidas pela sua pregação liberal e constitucional. Contudo, os deputados portugueses estavam mais preocupados com a regeneração de Portugal, o que logo veio a tornar incompatíveis as pretensões portuguesas com os anseios dos representantes da colônia na América79.

Em uma de suas medidas, as Cortes decidiram acabar com as capitanias nas colônias, passando a formar províncias, onde os homens locais as governariam através de “Juntas”. Assim, tentavam uma relação direta das localidades com Portugal, dispensando a interferência do Rio de Janeiro nos negócios públicos, que havia crescido constantemente desde quando a Corte havia se instalado no Brasil, em 1808. Contudo, ao contrário dessas diretrizes emanadas das Cortes portuguesas, os colonos acabaram por se fazer representar por D. Pedro frente a Portugal, diante da intransigência das Cortes em aceitar a autonomia das províncias brasileiras80.

Em Cuiabá, ainda correspondendo às medidas das Cortes, fizeram parte da Junta governativa os representantes da pequena elite política de Cuiabá, com a provisória ausência de Antônio Corrêa da Costa e de Poupino Caldas. Dessa maneira estava coligação como representante do clero: D. Luiz de Castro Pereira, Bispo de Cuiabá; o vigário Geral de Cuiabá, Agostinho Luiz Goulart Pereira e o padre José da Silva Guimarães. A presença do clero era fundamental numa população marcada pelo catolicismo. A nobreza era representada pelo proprietário Jerônimo Joaquim Nunes e pelo negociante e também proprietário André Gaudie Ley81. A tropa era encabeçada pelo capitão Luiz D’Alincourt,

78 NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira. “Liberalismo político no Brasil: idéias, representações e práticas

(1820-1823)” in GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal e PRADO, Maria Emília. (Orgs.) O Liberalismo no

Brasil Imperial – origens, conceitos e práticas. Rio de Janeiro: Revan, 2001.

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Até as discordâncias, sonhava-se com a implementação de “um poderoso império luso-brasileiro”.

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Se as Cortes em Portugal implementaram as “Juntas”, logo também criou e nomeou o comandante de armas, que passava a dividir o governo com as câmaras locais. As municipalidades começaram a se atritar com Portugal. O apoio a D. Pedro se concretizou por várias vilas, depois que os representantes das províncias perceberam que os portugueses das Cortes eram intransigentes em não acordarem sobre uma Constituição para o Brasil, com uma distribuição proporcional dos impostos, assim como com a permanência do aparato burocrático principal no Brasil. D. Pedro seria o imperador constitucional do Brasil, contra a “tirania” de Portugal. Ver SOUZA, Iara Lis Carvalho. Pátria Coroada – O Brasil como Corpo Político autônomo 1780-

1831. Ed. Unesp, São Paulo, 1998.

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Sobre o grande número de nobres em Cuiabá, um viajante, em 1769, fazia notar que “Como há-de conservar-se a república adonde todos são fidalgos, todos querem viver à lei da nobreza, todos têm as mãos sagradas.” SÁ, José Barbosa de. Apud, SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Ser nobre na Colônia. São Paulo, Ed. Unesp, 2005. No entanto, no momento das juntas não existia um nobre de “grandeza” na capitania, ou s eja, nenhum barão, marquês, visconde, conde ou duque. Considerava-se “nobre” muitas vezes pessoas que tinham

seguido pelo capitão Félix Merme e pelo tenente-coronel Antônio Navarro de Abreu. Eles representavam o descontentamento do oficialato com o governo. Juntos com Jerônimo Joaquim Nunes conseguiram a adesão (ou a não reação) das milícias e das tropas de linha. O capitão João José Guimarães e Silva, funcionário do fisco da antiga capitania, era o representante do povo.82

As primeiras medidas para consolidar o novo governo, além das iniciativas relacionadas aos comandos militares, foram garantir a saída da província do capitão- general, assegurando-lhe a sua integridade física, e comunicar aos principais povoados de Mato Grosso a instalação de outra administração83.

Ao receber a notícia da deposição de Magessi, os políticos da região do Guaporé não discordaram da retirada do capitão-general. Contudo, não reconheceram a “Junta Governativa” instalada em Cuiabá. Via-se como a legítima capital. Em atitude de franca contestação criou sua própria Junta, presidida pelo vigário Antônio de Assunção Batista.

A cidade de Mato Grosso sabia da força política de Cuiabá naquele momento. Era aí onde os últimos capitães-generais escolheram para morar e governar. A elite política da baixada era composta por pessoas economicamente fortes na província. Frente a este poder de Cuiabá, Vila Bela procurou ganhar a adesão de forças populares com medidas consideradas extremadas: estabeleceram a abolição da escravatura em toda a Capitania; e mais, seria extinta a fidelidade conjugal, assim como a castidade das donzelas deixaria de ser obrigatória84.

Desta forma, pretendiam minar algumas das bases em que se sustentavam os senhores de cabedal, quais sejam; a moral e a propriedade sobre as pessoas85. Não se tem notícia se tais medidas surtiram algum efeito direto, tais como manifestações de apoio à cidade de Mato Grosso por populares ou sublevações. O espaço da disputa política

recebido mercês de alguma ordem, como cavaleiro de Avis, por exemplo. No império a nobreza será inequívoca. Do quadro nobiliárquico somente os titulares do império, como barão, visconde, conde, marquês e duque, e não mais condecorados com títulos de ordem. Ver “Como ser nobre no Brasil” in SCHWARCZ, Lilia M. As barbas do Imperador. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

82

SIQUEIRA, Elizabeth Madureira, COSTA, Lourença Alves da e CARVALHO, Cáthia Maria Coelho. O

processo histórico de Mato Grosso. 2ª ed.. Cuiabá: UFMT, 1990, p. 51. ROSA, Carlos. Op. cit., p. 35.

83

ROSA, Carlos. Op. cit., p, 34.

84

SIQUEIRA, Elizabeth Madureira. História de Mato Grosso . Op. cit., p. 86.

85 Para Castro Soares, enquanto a Junta de Cuiabá notificava as vilas e principalmente comandos militares,

como forma de legalizar sua situação, a “Junta de Vila Bela vai trabalhar com propostas que, naquele momento, extrapolavam os princípios éticos e econômicos da elite cuiabana.” Soares, Maria do Socorro Castro. Op. cit., p. 80.

continuava restrito aos homens bons da província. Por outro lado, os homens de cabedais de Mato Grosso, como João Pereira Leite, dono da mais rica fazenda da província, a Jacobina, e de outras 18 sesmarias, morador de Vila Maria (hoje Cáceres), acabou por fechar acordo com a Junta de Cuiabá.

A cidade de Mato Grosso ficou isolada politicamente. Além do mais, foram dificultadas, fisicamente, as comunicações que se fizessem por Cuiabá, vedando a via fluvial para barcos que se destinassem ou proviessem do Guaporé. Para chegarem ao litoral teriam que seguir pelos rios do Pará, cujas linhas de comércio estavam desativadas86.

No entanto, com a morte do presidente da Junta, D. Castro Pereira, foram convocadas novas eleições para compor o governo. O presidente da nova junta, formada em agosto de 1822, era Antônio José de Carvalho Chaves, ouvidor da província, cuja presença reforçava Cuiabá como sede de Mato Grosso. Foram eleitos novamente para o governo Jerônimo Joaquim Nunes, Joaquim Gaudie Ley, Antônio Navarro de Abreu e Félix Merme. Além desses, passaram a compor a cúpula política/administrativa Antônio Corrêa da Costa e Poupino Caldas.

Quando parecia ter-se consolidado a posição de Cuiabá como capital da província, D. Pedro determinou que o presidente da Junta fosse exercer suas funções na cidade de Mato Grosso. Prontamente foi organizado um abaixo-assinado e enviado ao príncipe regente pedindo que reconsiderasse sua última determinação. Antes de obterem a resposta, chegou em Cuiabá, a 5 de janeiro de 1823, a notícia do rompimento com as Cortes de Portugal.87 Provavelmente houve festa de comemoração que simbolizava a adesão ao novo imperador, como aconteceu em várias vilas do Brasil88. Nenhum povoado da província se mostrou relutante ao novo estatuto político da ex-colônia, como ocorreu em alguns lugares.

Com a notícia do rompimento, foi enviado em seguida um representante de Cuiabá para demonstrar adesão ao príncipe regente. Os homens públicos da baixada cuiabana não se deram por vencidos e continuaram rogando para si o direito de ser capital de fato e de direito. O mesmo enviado que demonstraria adesão também procuraria convencer as autoridades da pertinência de Cuiabá ser a sede administrativa e política da capitania.

86 Ibidem, p. 87

87 ROSA, Carlos. Op. cit., p.47

88 Ver SOUZA, Iara Lis Carvalho. Pátria Coroada – O Brasil como Corpo Político autônomo 1780-1831.

Com a convocação da constituinte, as câmaras de Cuiabá, Diamantino e Poconé (essas, além da cidade de Mato Grosso, eram as únicas vilas e cidades, ou seja, povoações que possuíam câmaras) desafiaram a lei e mandaram um deputado como representante de Mato Grosso. Era Navarro de Abreu, já acostumado com as viagens para o Rio, devido ao seu ofício de comerciante.

A cidade do vale do Guaporé, por sua vez, elegeu Luiz Thomaz Navarros de Campos, dois meses depois da escolha de Navarro de Abreu. O representante desta cidade era um funcionário do fisco e residente do Rio de Janeiro89.

Chegando ao Rio, Navarro de Abreu foi impedido de tomar assento na Câmara dos Deputados. Os constituintes alegavam que ele não representava a província. Depois de negociação ficou acordado que ele participaria da Constituinte contanto que houvesse também um representante da cidade de Mato Grosso. Quando o deputado eleito do vale do Guaporé se preparava para assumir os trabalhos constituintes, a assembléia foi dissolvida90.

Enquanto isso, a Corte procurava resolver o problema da dubiedade de governo em Mato Grosso. Ordenou que iria existir somente uma junta governativa, com sete membros, e que se procedessem as eleições para esse fim. Também confirmava a cidade de Mato Grosso como a sede do governo91.

O presidente dessa nova junta (que passava a se chamar Governo Provisório) foi Manuel Alves da Cunha, um cônego de Poconé. Cuiabá conseguiu somente dois representantes, o tenente-coronel Félix Merme e Poupino Caldas. Os outros quatro eram moradores da antiga Vila Bela. Em atitude de contestação, Poupino Caldas e Félix Merme se recusaram a tomar posse de seus cargos no governo instalado no Guaporé, que começou a funcionar mesmo sem os membros ausentes. O tenente-coronel Jerônimo Joaquim Nunes acabou por ir no lugar de Poupino, em comum acordo entre ambos92.

O presidente do Governo Provisório, no entanto, freqüentemente expedia ofício à Corte pedindo que enviassem para Mato Grosso um governante que não fosse da província93. Depois de pouco mais de dois anos, em setembro de 1825, é dissolvida a

89

SECKINGER, Ron Leroy Op. cit ., p.109.

90 Ibidem, pp. 110-111.

91 CORRÊA FILHO, Virgílio. História de Mato Grosso . Op. cit., p.469. 92 Ibidem, p. 471.

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“Junta mista”, com a chegada em Mato Grosso do primeiro presidente de província, o tenente-coronel José Saturnino da Costa Pereira.

Desde a queda de Magessi, o último representante do antigo Estado colonial, em agosto de 1821, Mato Grosso foi governado somente por elementos escolhidos dentro das próprias elites locais. O governo imperial, sediado no Rio de Janeiro, no entanto, não chegava a ser considerado alheio às disputas na região. Mesmo havendo largo espaço para as ações locais, as determinações do centro político do novo iImpério não eram inteiramente negligenciadas, pelo menos formalmente.

A escolha da capital de Mato Grosso - o exemplo maior de disputas e de tomada de decisões das elites mato-grossenses - acabava por necessitar, acima de tudo, do reconhecimento do Rio de Janeiro. Por sua vez, a Corte, tentando afirmar sua soberania frente ao exterior, ao mesmo tempo em que passava pelo processo de montagem de um Estado e de uma burocracia que deveria se espalhar por todo o território, do estabelecimento de direções para o novo país, não se aventurava a desagradar frontalmente um dos grupos políticos da fronteira do Império. No entanto, um dos dois lugares haveria de ser a capital. Se legalmente era a cidade de Mato Grosso, os argumentos em favor de Cuiabá acabaram por ter maior peso para a decisão do novo governo da província ser sediado na baixada.

O novo presidente de província, José da Costa Saturnino, escolheu gove rnar o Mato Grosso a partir de Cuiabá. Tal decisão já havia sido tomada quando ainda estava no Rio de Janeiro, e era uma condição estabelecida pelo próprio Saturnino para governar94. A contestação da antiga Vila Bela, no momento da posse de Saturnino, se restringiu em não mandar comitiva para recebê- lo. Contudo, Manuel Alves da Cunha foi a Cuiabá passar o cargo para o novo governante95.

Os guaporeanos prosseguiram reivindicando sua localidade para voltar a ser a capital de fato. Fizeram petições que enviaram para a Câmara dos Deputados e para o Ministério do Império, mas que não lograram êxito. Tentativas de revolta armada não passaram de ameaça. A elite cuiabana contava com o apoio do novo governante. Procurando sedimentar as posições dos cuiabanos, foi escolhido para presidente do

94 Ibidem, p. 115 95

conselho da província Jerônimo Joaquim Nunes. Na ocasião em que o governante deixasse Mato Grosso, quem assumiria o governo, na qualidade de vice-presidente, seria o presidente do conselho.

Entretanto, um presidente de província outsider não pôde tirar a província de Mato Grosso da penúria orçamentária. Ao final da série de juntas governativas o déficit com os salários do funcionalismo público e os soldos chegava ao montante de 800 contos (a receita da província era entre 30 e 40 contos anuais). Os salários somente eram resgatados com um desconto que chegava a 95% do valor. Segundo Virgílio Corrêa, coube ao governo de Saturnino somente a austeridade. A companhia de mineração, por exemplo, criada na época de Oyenhausen para tentar re verter o abatimento que passava a extração de minérios, foi definitivamente fechada, depois de comprovada ser mais dispendiosa do que lucrativa96.

No entanto, demonstrando estar antenado com a ciência em voga, Saturnino encomendou um quadro classificatório de Lineu, para catalogar as plantas da ainda muito desconhecida natureza dessa parte do império. Nesse mesmo intento, procurou criar um jardim botânico. Deixou para cuidar das obras e fazer a manutenção do jardim botânico o médico Patrício da Silva Manso97. Tal lugar não se concretizou, mas Patrício da Silva Manso logo se tornaria um dos líderes da política em Mato Grosso.

Saturnino deixou o cargo em 1827, depois de dois anos e 8 meses de governo, para assumir uma cadeira no senado, sendo o primeiro representante de Mato Grosso na Câmara Alta. Jerônimo Joaquim Nunes o substitui como era previsto. De acordo com as normas do conselho, Joaquim Nunes terminou seu mandato em 31 de dezembro de 183098. Se o fazer política era principalmente ocupar cargos na administração e preencher os cargos eletivos, a política estava cada vez mais restrita aos homens públicos da baixada cuiabana. André Gaudie Ley era o conselheiro mais votado, e assim deveria substituir Joaquim Nunes, em novo mandato, como de fato aconteceu. A posse de Gaudie Ley era a sedimentação da idéia de que a política deveria ser exercida não somente por pessoas de posse, pelos cidadãos ativos, mas também pelos moradores da cidade considerada como a principal da província.

96 CORRÊA FILHO,Virgílio. Op. cit., p. 475. 97 DPP. Antônio Pedro de Alencastro, 1835, p. 10. 98

O bispado de Mato Grosso, criado em 1826, também se transferira da antiga Vila Bela para Cuiabá, em 1833, por intermédio do novo bispo Dom José Antônio dos Reis. Já estavam em Cuiabá, portanto, as principais instituições públicas99.

Segundo Virgílio Corrêa, Gaudie Ley era de “espírito conservador”, mantinha-se fiel ao imperador e não comungava com as idéias liberais como as de Evaristo da Veiga, do Rio, de Bernardo Pereira de Vasconcelos , de Minas, ou de Feijó, de São Paulo100. Com a abdicação de D. Pedro I, e assumindo um governo regencial de tendência liberal, Gaudie Ley foi logo substituído por determinação do governo central. O seu substituto foi Antônio Corrêa da Costa, designado como presidente de província.

Entretanto, Antônio Corrêa da Costa não se mostrava defensor de nenhuma das facções liberais em voga no Rio de Janeiro, Minas e São Paulo. Era um político provinciano preocupado em resolver os problemas imediatos no âmbito de sua província, como a falta de numerário101. Pode-se dizer que não existia na província uma notória pessoa liga da aos grupos que assumiram a Regência. Antônio Corrêa da Costa, a princípio, mesmo não sendo um “liberal”, como os que atuavam na Corte, não seria um agitador ou um intransigente defensor de D. Pedro. Como sugere Joaquim Nabuco, o principal trabalho dos líderes liberais nos primeiros anos da regência, como Diogo Feijó, Pereira de Vasconcelos e Evaristo da Veiga, não era exatamente o que eles fizeram pelo liberalismo, a grande reputação deles foi “a resistência que opuseram à anarquia”. A glória de “Feijó é ter firmado a supremacia do governo civil; a de Evaristo é ter salvado o princípio monárquico; a de Vasconcelos é ter reconstruído a autoridade.”102 Dessa forma, o nome de Corrêa da Costa para presidir a província era antes apostar em uma pessoa moderada, proprietária de nascimento, com espaço político considerável desde o tempo de colônia, do que em qualquer pessoa que houvesse lutado obstinadamente contra o jugo português e o Império de D. Pedro I, que estivesse abrindo espaço político com os novos acontecimentos103.

99

PERARO, Maria Adenir. . Op. cit., p. 37.

100

CORRÊA FILHO,Virgílio. Op. cit., p. 476.

101

Ibidem A junta da fazenda emitia títulos para tentar resolver o problema, mas os valores impressos eram abatidos em 45% ou mais.

102

NABUCO, Joaquim. Um Estadista do Império. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.

103 O que não seria o caso de Gaudie ley. O vice-presidente que governava anteriormente, não representava

uma pessoa que se opusesse a Corrêa da Costa. Pelo contrário, estavam do mesmo lado nas diversas

mudanças e disputas políticas. Contudo, era interessante para a Regência trocar de governante na província, o que demonstraria, no mínimo, que ela estava em seus cálculos.

Além do mais, a troca de governante em Mato Grosso, demonstraria que a Regência governava. Sendo tal substituição respeitada, seja por pessoas aliadas ou não do novo presidente, representava, no mínimo, que a distante e fronteiriça província continuava fazendo parte do Império num momento em que havia acentuada mudança de rumos no novo país.

Não obstante, os principais representantes da elite política cuiabana, tendo vencido a