• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO II – A ORDEM DISPUTADA

2. O bacharel e o Pompeu Cuiabano

A vinda de outro presidente de província para substituir Alencastro, poderia colocar em risco a posição de Poupino Caldas na província. Ficou patente que o nome do ex- líder dos zelosos estava longe de harmonizar com a “ordem”. A tentativa de Poupino em continuar como o principal político de Mato Grosso provocou conflito direto entre este e o novo presidente de província, o bacharel Antônio Pimenta Bueno. O Pompeu Cuiabano não

162 Ibidem. p. 1.

163 AN. IJJ(9)527 Presidente da Assembléia Legislativa Mato-grossense para Senador Diogo Antônio Feijó,

conseguiu se impor ao bacharel. O presidente demonstrava que para governar era preciso intervir nos corpos armados.

Formado no liberalismo capitaneado por Feijó e Vasconcelos, José Antônio Pimenta Bueno, o futuro visconde de São Vicente, assumiu a presidência de Mato Grosso em agosto de 1836. Mas antes de começar a sua nova função já conheceu Poupino Caldas. Este, valendo-se de seus camaradas, tentou evitar a posse do promissor bacharel. O contra-ataque ficou por conta de Antônio José da Silva que mobilizou forças policiais e garantiu o início dos trabalhos do novo governante164.

Era necessário conhecer o melhor possível onde estava, para além das informações que obtivera da Corte, para melhor poder governar. No entanto, em seus primeiros afazeres na província, Pimenta Bueno logo deparou-se com um problema – além, claro, das forças comandadas por Poupino Caldas–, que interferia nas suas avaliações e iniciativas em Mato Grosso. Era a falta de organização administrativa, que refletia no descaso com os documentos oficiais. Muitos estavam se deteriorando, devido a má conservação. Outros tantos simplesmente sumiram. Além das correspondências com os ministérios relativos aos anos 1804-1807, “muitos mapas topográficos, memórias sobre vários assuntos, descrições botânicas e outros escritos também acham-se extraviados constatando que ali existiam somente pelos índices que acompanham alguns dos maços dos documentos”165.

Escritos, mapas, memórias eram necessários para um presidente, depois de meses de viagem, conhecer o terreno por onde poderia permanecer por um ano, ou mais, e assim poder traçar diretrizes para além do estabelecimento imediato da ordem. Sua permanência implicava em governar, o que significava saber com quem e com o quê teria que lidar: eram pessoas, objetos, plantas, mercadorias, climas, águas. Seriam as “potencialidades naturais”, as “indústrias”, os gentios, os ribeirinhos, e os homens da política local.

Sem parte material da memória produzida pela (e para) a própria burocracia governamental, o governante sentia-se em desvantagem nas batalhas que certamente travaria. Contudo, ele próprio, como os demais chefes do Executivo na província, tinha o dever de produzir outras memórias, em conformidade com as necessidades, e que ajudariam nas direções imprimidas seja pelos próximos governos provinciais, seja pelo governo imperial.

164 CORRÊA FILHO, Virgílio. História de Mato Grosso. Op. cit., p. 494. 165

A memória, portanto, era urdida, tramada166, construída nos principais documentos dos presidentes de província: os seus relatórios, mensagens e discursos anuais. Esses documentos eram apresentados aos deputados da Assembléia Provincia l e algumas cópias destes eram enviadas para a Corte. Neles, além de apontar a direção em que a província deveria seguir, também lembravam do passado como maneira não apenas de justificar atitudes governamentais do momento, mas como uma pedagogia do agir e portar-se para se formar a nação que eles imaginavam.

Os relatórios presidenciais começaram a ser produzidos em julho de 1835, quase 14 meses depois do movimento conhecido por “Rusga”, como exigência das novas leis que estabeleciam as assembléias provinc iais. Uma das preocupações dos chefes do Executivo, na segunda metade dos anos 30, era justamente mostrar como deveria ser lembrando os acontecimentos que envolveram o “30 de maio”. Assim Antônio José da Silva dizia que, em tempo anterior, havia “desvairado este povo, bandeado pela intriga”, o que poderia ter sido a ruína completa da província167. Alencastro, quando presidente, dizia lhe “ser sobremodo doloroso” trazer a lembrança do “fatal 30 de maio”168. Já Pimenta Bueno percebia que vivia o “legado enfadonho que nos deixou o funesto 30 de maio”169.

Apesar das diversas prisões e julgamentos acontecidos no período de Alencastro, o principal promotor de desordem estava solto em Cuiabá, e pronto para atentar, a qualquer momento, contra o sossego público, quand o a oportunidade surgisse. E mesmo com a hostilidade inicial, Pimenta Bueno ainda não se sentia com forças para investir contra Poupino Caldas.

Assim, o presidente procurou na própria reorganização da Guarda Nacional enfraquecer a liderança de Poupino Caldas que tivera o apoio do Coronel Alencastro. Afastou do cargo de Comandante de Armas o Cel. Joaquim José de Almeida, substituindo- o pelo antigo político Jerônimo Joaquim Nunes. Promoveu a reforma de outros oficiais mais graduados, denunciando a culpa em motins via documentação de vários militares, e

166

Para a história feito narrativa, entre outros, ver MAGALHÃES, Nancy Aléssio. “Narradores: vozes e poderes de diferente pensadores”, in: COSTA, Cléria Botelho e MAGALHÃES, Nancy (orgs.) Contar

história, fazer história. Brasília: Paralelo 15, 2001.

167 DVPP. Antônio José da Silva, 2 de março de 1836, p.1. 168 DPP. Antônio Pedro de Alencastro, 3 de julho de 1835, p. 1. 169

solicitou a vinda de outros, mais confiáveis, para reorganizar a força militar em franca decomposição. As tropas de 1ª linha ficaram formadas praticamente só por recrutas170.

Nesse sentido, também procurou extinguir a Guarda Municipal, reformulada em setembro de 1835 por Alencastro, que continha homens de Poupino. Pimenta Bueno argumentava que, além dela ter-se mostrado indisciplinada nos momentos turbulentos, era paga pelo cofre provincial, mesmo sendo “Municipal”. O orçamento da província não poderia arcar com essa despesa, composta pelo soldo de 90 homens. Quando fora criada, no governo de Corrêa da Costa, ela era composta por 40 praças. Dessa forma, propôs pagamento somente às “melhores praças”, que eram poucas, o que faria que muitos abandonassem a corporação.171

Inicialmente, calculava em extinguir a Guarda Municipal por completo assim que conseguisse aumentar os efetivos do Exército e quando a Guarda Nacional estivesse organizada. De fato, no final de seu mandato, os corpos do Exército ganharam novos efetivos e a Guarda Nacional estava aparentemente reativada. Esta ficou dividida em batalhões e companhias, formando uma única legião, distribuída entre os 4 municípios que existiam na província; Cuiabá, Diamantino, Poconé e Mato Grosso. Era o maior corpo armado da província, com 1553 homens em 1840172. Mas os oficiais não eram mais necessariamente escolhidos por votação entre os cidadãos, eram também nomeados pelo governo, assim como os comandantes tinham que ser referendados pelo governo imperial.

Essas mudanças na Guarda Nacional, que indicavam uma maior interferência do governo na localidade, fez com que um presidente imaginasse haver “muito mais entusiasmo” entre os seus membros, e que “a disciplina faz[ia] honrar os seus comandantes”.173 Somente em 1850 foi promulgada uma lei, na Corte, que regulamentava a escolha dos oficiais da Guarda Nacional pelo governo central. Mas, na prática, os governos provincial e central já procuravam escolher os oficiais e comandantes há mais de uma década174.

Ao longo de seu mandato, Pimenta Bueno, que no início pretendia acabar com a Guarda Municipal, percebeu que não poderia prescindir de um corpo armado em Cuiabá. A

170

Ibidem, pp. 2-6; DPP. Antônio José Pimenta Bueno, 1º de março de 1837, pp. 19 -24.

171 DPP. Antônio José Pimenta Bueno, 30 de novembro de 1836, p. 6. 172 DPP. Estevão Ribeiro de Rezende, 1º de março de 1840, p. 31. 173 Ibidem, p. 30.

174

solução foi criar em seu lugar a Força Policial com 40 homens, sendo o comandante de sua confiança175, ficando sediada na capital, mas com soldos mais baixos do que a guarda anterior. Pimenta Bueno acreditava, dessa maneira, melhorar um pouco a “nada lisonjeira finanças da província”, 176 como dizia no início de sua administração. Procurava diminuir os gastos dos cofres provinciais, ao mesmo tempo em que os corpos armados eram revigorados.

Se os soldos do novo corpo eram baixos, o que fazia um presidente, Estevão de Rezende, pedir à Assembléia que se revissem as gratificações da Força Policial177, os outros corpos armados, quais sejam, as tropas de linha e a Guarda Nacional, quase não apresentavam dispêndio algum para a província. O Exército ficava a cargo do governo central e a Guarda Nacional era formada por elementos que serviam gratuitamente, tendo seus custos sido arcados praticamente por seus participantes178.

Em plena reformulação dos corpos armados, Poupino Caldas lançou como candidato para deputado geral o seu sobrinho Antônio Navarro de Abreu, o filho. Ele era filho do comerciante de mesmo nome e tinha o Pompeu Cuiabano como seu padrinho. Navarro de Abreu, o filho, formou-se na faculdade de direito de São Paulo, sendo o primeiro mato-grossense a se bacharelar nessa instituição, em 1835179. Em franca oposição a Pimenta Bueno, Poupino Caldas consegue eleger seu afilhado, com 25 anos, em janeiro de 1837180. Não seria pela mera lembrança de seu pai – que havia sido também deputado na Corte – que o jovem bacharel conquistaria seus votos. Navarro de Abreu, o filho, havia concorrido para deputado provincial em 1835, e obteve somente 1 voto. A sua eleição demonstrava que Poupino Caldas controlava consideravelmente os mecanismos políticos.

175

Era o Capitão Manuel Antônio de Barros.

176

DPP. Antônio José Pimenta Bueno, 30 de novembro de 1836 p. 3.

177 DPP. Estevão Ribeiro de Rezende, 1º de março de 1840, p. 31. 178

Ver URICOECHEA, Fernando. O Minotauro Imperial. R.J./S.P. : Difel, 1978.

179

MESQUITA, José de. “Os primeiros bacharéis matogrossenses” in: Gentes e Coisas de Antnanho. Cuiabá: Prefeitura Municipal de Cuiabá, 1978, p. 53.

180

Entre os seus concorrentes estavam Manuel Pereira da Silva Coelho, natural de Cuiabá, mas residente em São Paulo, Gabriel Getúlio Monteiro, natural e residente do Rio de Janeiro, o bispo de Cuiabá José Reis, o então deputado por Mato Grosso Patrício da Silva Manso, e o desembargador Bernardo Pereira de Vasconcelos, de Minas Gerais, que concorria também por sua terra, mas residente na Corte. AN. Pasta IJJ(5) 16. Ver também IMPL. Caixa 1837. “Acta Geral da apuração geral dos votos de todos os collegios eleitoraes desta Província para Deputado que deve representar a mesma na Assembléia Geral Legislativa”. Cuiabá, 13 de fevereiro de 1837.

Segundo Richard Graham, os presidentes de província, durante o período imperial, procuravam determinar as eleições. Eles mobilizavam as forças governamentais e de seus aliados para fazer seus candidatos vencedores181. No entanto, em Mato Grosso da segunda metade dos anos 30 e da década de 40, os presidentes de província perdiam freqüentemente eleições para os chefes locais que lhes faziam oposição. Assim era o caso de Pimenta Bueno, que amargou a derrota nas urnas para Poupino Caldas.

O futuro visconde de São Vicente ainda teve que despender, a contra gosto, a 1:400$000 réis dos cofres provinciais para pagar a viagem de ida de Navarro de Abreu para a Corte. O candidato vencedor, segundo o presidente, ainda ousou lhe pedir um cargo de juiz de direito na província:

Este cidadão não se havia postado com a circunspecção que devia nas eleições para obter sua nomeação, concorreu mesmo a formar nesta Capital um certo partido de oposição a este Governo, (...) [Mesmo assim], requereu-me posteriormente o lugar de Juiz de direito de Mato Grosso, que deneguei-lhe, pediu-me pessoalmente que lhe mandasse abonar ajuda de custos de viagem para recolher- se a essa Corte (...) 182

Apesar da demonstração de domínio eleitoral por parte de Poupino nas eleições, seus poderes não foram o suficiente para conseguir depor à força o presidente Pimenta Bueno. O ex-líder dos zelosos tentou outro golpe para derrubar o presidente. Para isso insuflou o quartel de Cuiabá para se amotinar, mas sem resultados.

O presidente bacharel, então, ameaçou Poupino Caldas de procurar todos os meios de processá- lo por todos os crimes cometidos, se ele não deixasse a província em pouco tempo. Não se sabe por qual motivo, mas o ex- líder dos zelosos concordou com o exílio. Talvez por achar-se sem condições de se proteger, jurídica e fisicamente, dos seus numerosos inimigos que havia feito em sua conturbada carreira política. Seja como for, pouco antes de deixar a província, enquanto ia de uma casa a outra para se despedir, ele é

181 GRAHAM, Richard. Op. cit. p. 124 e ss.

182 AN. IJJ(9) 506 José Antônio Pimenta Bueno para Manoel do Nascimento Castro e Silva, ministro do

baleado e morto na rua, no dia 9 de maio de 1837. Nunca se soube ao certo quem o matou183.