CAPÍTULO II – A ORDEM DISPUTADA
3. A Assembléia e as novas configurações políticas
3.1 Vice-presidentes e a “falibilidade das eleições”
Com o fim da regência de Diogo Feijó, em 1837, uma força conservadora encabeçada por Araújo Lima, com o peso do apoio de Bernardo Pereira de Vasconcelos - que abandonava as fileiras liberais -, assumiu o governo propondo o regresso. Logo então substituíram o presidente de Mato Grosso por um bacharel afeito aos novos rumos da Regência. Era Estevão Ribeiro de Rezende, que antes servia como magistrado em Goiás, vindo a tomar posse em Cuiabá no dia 16 de setembro de 1838198.
Quando a Assembléia Legislativa se reuniu na sessão de 1839, começaram a se explicitar as diferenças entre o presidente enviado pela Corte e o legislativo provincial. A casa legislativa, como era até então de sua competência e dever, escolheu novamente os vice-presidentes. O segundo e o terceiro vices escolhidos eram pessoas em quem o presidente Rezende depositava confiança, dois homens públicos já bem conhecidos, Antônio Corrêa da Costa e Antônio José da Silva. No entanto, o primeiro vice era o cônego Silva Guimarães, a quem o presidente desqualificava completamente para exercer tal cargo, mesmo tendo sido eleito pela Assembléia. Para Rezende a escolha do cônego era “bem longe de ser isso devido a merecimentos seus, só e unicamente o é [devido] à falibilidade das eleições”. Continuando em seus argumentos, o cônego era detentor de “uma revoltante imbecilidade, reúne a mais escandalosa desafeição a atual ordem das coisas, uma vida eminentemente imoral e precedentes bem desonrosos à sua reputação”199.
Os outros três cidadãos eleitos para a vice-presidência, o alferes Manoel Alves Ribeiro,o 1º tenente de Engenheiros José Joaquim de Carvalho, e o capitão José Mariano de Campos, segundo Rezende, “por seus sentimentos anárquicos nem uma capacidade intelectual, e falta de meios para viverem com independência, ou ao menos com decência, são por este governo considerados indignos da confiança do Governo Imperial e prejudiciais a ordem pública”. Manoel Alves Ribeiro, inclusive, já o teriam “mandado recolher a essa Corte em meados do ano próximo passado, onde se acha por sua perigosa
198 Depois de sua passagem por Mato Grosso, será nomeado desembargador na Bahia. Mais tarde será um dos
titulares do Império com o título de barão e depois Visconde de Valença.
199 AN. IJJ(9) 506. Estevão Ribeiro de Rezende para Manoel Antônio Galvão, ministro do Império. Cuiabá,
conduta militar e civil”. No entanto, para o chefe do Executivo, esses três sujeitos eram desordeiros principalmente por se enganarem em relação ao padre, eram “incautos iludidos pelas péssimas doutrinas daquele cônego Guimarães”.200
Já em 1839, o presidente Rezende escrevia ao ministro do Império, Bernardo Pereira de Vasconcelos, dizendo que não gostaria de sair da província deixando o governo para tal sorte de políticos: “Permita-me V. Exa., que eu observe, que mesmo receio deste Cuiabá sob o governo de vice-presidentes.”201 Contudo, essas referências aos vice- presidentes não marcavam ainda um antagonismo definitivo entre o presidente e os parlamentares provinciais. Essas considerações eram uma das tarefas do chefe do Executivo, relatar sua opinião sobre as pessoas escolhidas para governar o Mato Grosso, em substituição ao titular. Segundo o presidente, o antagonismo entre eles começou de fato quando não sancionou dois projetos de lei enviados pela Assembléia. Depois de sua recusa, começaram as hostilidades que “consistiram as primeiras em diatribes contra o governo, e na mais rústica e revoltante censura de todos os meus atos.” 202
A Assembléia havia mandado dois projetos de lei para que Rezende sancio nasse, como de praxe. O presidente se negou a isso por considerá-las fora das atribuições da Assembléia Legislativa. A primeira delas, o projeto de lei nº 4, revogava a lei provincial nº4 de 22 de dezembro de 1836. Essa lei instituía os “delegados do governo provincial” com o objetivo de fiscalizar a ordem. Foi um projeto do tempo de Alencastro que, se não dava poder de polícia para esses delegados, dispunha o chefe do Executivo de vários funcionários pelo Mato Grosso, mantendo-o informado de qualquer perigo ao sossego público.
O segundo projeto de lei, o nº 10, previa uma certa imunidade aos deputados. Nenhum deputado provincial seria constrangido a sair da província, por pretexto algum, durante a legislatura, nem mesmo aquele que tiver sido eleito para a legislatura seguinte. Dizia também que não seria “constrangido a aceitar emprego, ou comissão, ainda mesmo
200 Ibidem
201 Estevão Ribeiro de Rezende para Bernardo Pereira de Vasconcelos, ministro do Império
202 AN. IJJ(9) 506. Estevão Ribeiro de Rezende para Manoel Antônio Galvão, ministro do Império. Cuiabá, 2
para o interior da província, uma vez que o impossibilite de comparecer nas sessões da respectiva legislatura”203.
Ambos os projetos retiravam força do presidente de província. O nº 4 procurava suprimir algumas ligações que o presidente tinha com o interior. O nº 10, segundo Rezende, tinha por objetivo “inibir o presidente de província de poder empregar dentro e fora dela”204. Na verdade, o que os deputados argumentavam era que o chefe do Executivo usava dos empregos dos deputados para os transferir para longe de Cuiabá, diminuindo a força da bancada que poderia fazer oposição a ele. Dessa maneira, mandou dois militares, que eram deputados, para irem à Corte, prestar esclarecimentos, antes de começar a sessão de 1840. Boa parte da Assembléia Legislativa não entendeu isso como contingência do emprego.
Depois de vetados por Rezende, os dois projetos voltaram para discussão no plenário, como era prescrito, e teriam que ser aprovados por 2/3 dos votos, para novamente serem encaminhados para a assinatura final do presidente. Dos dezessete deputados presentes, onze votaram a favor. O presidente dizia que não caberia mais a ele sancionar ou não. Defendia que a votação não tinha dado os dois terços necessários 205. O confronto entre o chefe do Executivo e vários dos deputados se intensificou criando um clima de instabilidade.
O chefe do Executivo acabou por pedir sua exoneração do cargo, em carta ao ministério do Império. Argumentava que sua saúde já não resistia há dois anos nos confins do Brasil:
(..)aqui me acho nestes confins do Brasil há quase dois anos; sinto minha saúde arruinadíssima, de dia em dia mais se aumentam os meus incômodos, e sofrimentos, e de certo que sendo eles provenientes em grande parte da insalubridade do País [província], terei de arriscar minha existência, se em tempo não curar do meu restabelecimento em um clima mais benigno. (...)
203 Ibidem.
204 AN. IJJ(9) 506. Estevão Ribeiro de Rezende para Manoel Antônio Galvão, ministro do Império. Cuiabá, 1º
de abril de 1840.
205
Nestas circunstâncias pois eu mui respeitosamente rogo a V. Exa a graça de dispensar-me da penosa administração desta província (...)206
Os problemas de saúde coincidiam com os confrontos com a Assembléia. Mesmo assim, não deixou de mandar seu parecer sobre a política local, em que faltava civilidade e ilustração. Seu desgosto era tanto que, contra tais pessoas, seria lícito praticar atos de barbaridade, não fossem os preceitos constitucionais:
(...) [a classe política da província são] ainda sem ilustração, e [não tem] mesmo educação alguma, e infelizmente dominada por um pugilo de celerados, cuja malvadez parece, Ex Snr., que desafia, e até justificaria barbaridades, e excessos condenados por máximas constitucionais que cumpre respeitar207
A bancada de oposição, em represália ao presidente, usava do instrumento de obstrução. Conseguiu impedir a votação da lei orçamentária. Essa lei era fundamental para a administração fiscal do ano seguinte.
A maioria legislativa também fez uma representação contra o presidente Ribeiro de Rezende, pedindo sua “pronta demissão”. Dizia a representação que ele fomentava os partidos e a intriga, e que também era dominado por uma letargia, despertando dela “de quando em quando” somente para se aproveitar das páginas de um periódico, e parecer que estava em ação. A lei orçamentária não havia sido votada por culpa dele, já que perseguia deputados, mandando dois deles, que eram militares, para o Rio de Janeiro, assim como conseguiu a invalidação do diploma de um outro parlamentar.
Assinaram essa representação deputados de diferentes facções: do grupo ligado ao cônego José da Silva Guimarães, além do próprio, estavam Ayres Augusto de Araújo, Manoel Alves Ribeiro, José Pinto de Siqueira, José Alves Ribeiro, Joaquim de Almeida Falcão, José Mariano de Campos e Manoel Ignácio de Faria. Do grupo ligado a Antônio
206 AN. IJJ(9) 506. Estevão Ribeiro de Rezende para Manoel Antônio Galvão, ministro do Império. Cuiabá,
21 de abril de 1840.
207
Corrêa da Costa, assinavam José da Costa Leite Falcão e Antônio José da Silva.208 Isso mostra que não era rígida a formação de bancadas e parcerias.
A Câmara Municipal da vila de Poconé, afinada com o seu conterrâneo que mais despontava na política provincial nesse momento, Manoel Alves Ribeiro, também mandou representação para a Corte contra Rezende. A representação dizia que o presidente havia nomeado somente pessoas “desafetas ao município” poconeano. Segundo essa câmara, era o presidente de província quem semeava a discórdia, chegando a deportar cidadãos probos, “somente por intriga e vingança de paixões”. Finalizava dizendo que o presidente Rezende “nunca gozou entre nós a menor confiança”.209
Apesar das desavenças entre o chefe do Executivo e vários políticos da província, foi convocada sessão extraordinária em que os orçamentos foram votados. Não obstante, os deputados provinciais mandaram uma enxurrada de ofícios para a presidência, em curto espaço de tempo, pedindo, por exemplo, listagem dos empregados provinciais, coleções de leis da província, quantidade de litros de tipo que existia na tipografia, de como se achava a exploração de tal parte da província, de quanto o gado foi tarifado nos anos anteriores, informações detalhadas sobre a carreira do Pará, etc.210 Era uma grande quantidade de requisições que se não fossem respondidas em tempo hábil, poderia ser uma contundente prova da ineficiência do chefe do Executivo. Mas o tempo do presidente não era longo, e os liberais que formaram o gabinete da maioridade logo providenciaram a substituição de Rezende.
Em substituição a esse presidente, o escolhido foi ninguém menos do que o cônego Guimarães. Assumiu o Executivo com o status de presidente de província. Ninguém no Mato Grosso, naquele momento, representava melhor o partido liberal do que o cônego. Parecia que as referências que o antigo presidente havia feito dele, só o fizeram ser mais merecedor do cargo para os liberais da Corte. Ele vai ser o único cidadão da própria província, em treze anos, a ser empossado como o principal delegado do Império em Mato Grosso.
208
AN. IJJ(9) 506. Representação de Membros da Assembléia Legislativa Provincial de Mato Grosso contra
o Presidente de Província Bacharel Estevão Ribeiro de Rezende. Cuiabá, 30 de abril de 1840.
209 AN. IJJ(9) 506. Câmara Municipal de Poconé para Ministro do Império, 1º de maio de 1840 210 AN. IJJ(9) 506 “Certifico de Ordem da Assemblea que o livro de Registro dos Ofícios que por esta
Secretaría se tem dirigido ao Excelentíssimo Governo, se acha registrado” 1840. Ver também IMPL – Caixa 1840.
Contudo, o governo do cônego Guimarães marca a ascensão e a supremacia de um outro político: o fazendeiro de Poconé, Manoel Alves Ribeiro. Durante a presidência de Guimarães, Ribeiro passa a liderar a Assembléia formando uma forte oposição ao presidente, mesmo ambos sendo, a priori, do mesmo partido. O poconeano tornou-se o grande chefe da facção dominante da política local.
Um dos primeiros desentendimentos do presidente Guimarães com parte dos deputados da Assembléia foi quando se encerrou a sessão ordinária de 1841. O cônego criticou os rumos que a sessão tinha tomado, votando apenas três projetos de lei nos dois meses de reunião, sem votar, para desespero do Executivo, a lei orçamentária para o próximo ano financeiro. Isso havia acontecido, segundo o cônego,
por desavenças entre alguns dos seus membros, que desejosos de preponderarem sobre os negócios públicos a fim de ocuparem os lugares de importância administrativa e eletivas, para assim dirigirem a seu bel prazer os destinos da Província, fizeram desgostar a aqueles que mais trabalham pelos melhoramentos materiais da mesma, para lhes deixar o campo livre, e então obrarem como aspiram em relação a seus interesses particulares.211
Eram as disputas políticas que, para o cônego Guimarães, colocavam os interesses pessoais de alguns acima das necessidades da província. Tal disputa inviabilizou o trabalho legislativo de “aqueles que mais trabalham pelos melhoramentos materiais da” província. Esses, que mais “trabalhavam pelos melhoramentos” eram deputados que antes apoiavam o presidente anterior que ele havia combatido, ou seja, deputados como José Gomes Monteiro e José Pereira Gomes, pertencentes ao grupo de Corrêa da Costa.
Ao mesmo tempo, a ala que começava a fazer oposição cerrada ao cônego Guimarães era justamente a que antes estava junto a ele na contenda contra Estevão Ribeiro de Rezende. Essa oposição agora era liderada por Manoel Alves Ribeiro e José Mariano de Campos. Alguns como José Leite Falcão e Joaquim de Almeida Falcão continuavam junto
211 AN. IJJ(9) 506. José da Silva Guimarães para Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva,
ao cônego; o primeiro como chefe de polícia, além de deputado provincial, o segundo como empreiteiro de obras provinciais, mas dessa vez sem mandato.
O medo de ver caminho livre para Ribeiro foi quando na sessão de 1842, vários deputados, como Corrêa da Costa e Antônio José da Silva, deixaram seus mandatos para suplentes (os suplentes eram os posteriores mais votados). Da mesma maneira, da legislatura iniciada em 1840 – em que Guimarães era um dos principais líderes parlamentar e presidente da Assembléia – para a de 1842, houve uma renovação de quase 60% de deputados. Nesse momento, Ribeiro já era o líder inconteste da maioria dos novos parlamentares que ingressavam na Assembléia e dos que continuavam.
Mesmo com uma grande oposição, o cônego Guimarães candidatou-se a deputado geral. Os partidários do fazendeiro de Poconé, em oposição, lançaram José Joaquim de Carvalho, um proprietário de terras que nunca havia sido político de expressão na província. Também foi lançado candidato novamente Navarro de Abreu, o filho, mas que já não contava com nenhum apoio expressivo dentro de Mato Grosso.
Segundo o grupo de Manuel Alves Ribeiro, o cônego usou todo o aparato governamental nas eleições212. As tentativas de influenciar no “voto livre” começavam pelo dinheiro público para aliciar os militares:
A tesouraria geral da província é para os militares dela um fecundo manancial de soldos adiantados por ordens do presidente, quando nos tempos de eleições eles se tornam doces instrumentos para as suas cabalas, patronato este que não só deixa exaustos os cofres mas também por muitas vezes priva dos soldos os militares destacados nas mais longínquas fronteiras da província, os quais nunca andam pagos em dia! 213
Da mesma maneira, os empregados provinciais, “se prestam aos acenos do mesmo presidente para tratarem de eleições.” Os funcionários públicos “que vencendo um ordenado, que apenas chegará para satisfazer as primeiras necessidades da vida,” e sem
212 Veremos mais sobre as práticas eleitorais no capítulo 4.
213 AN. IJJ(9) 506. Abaixo-assinado de deputados provinciais para demissão do atual presidente de
terem outros meios de subsistência, que não seja a mensalidade do ordenado, “apresentam um luxo igual aos dos maiores capitalistas da província”.
Os empregados estariam desviados de suas funções. Entre esses, estava Bento Franco de Camargo, que depois de receber “ordenado adiantado” teria ido a Brotas “com missão eleitoral”. Esse cidadão, nos anos 50 e 60, viria a se firmar na política como deputado provincial.
Denunciava ainda que o chefe de polícia, bacharel José da Costa Leite Falcão, que antes das eleições ameaçava os votantes com “processo e prisão”, os que não assinassem conforme a lista do presidente de província, no dia do pleito estava dentro da catedral “já então audaz e insolente” pela proteção da força armada acompanhado de “seus sequaze s, que eram pela maior parte empregados públicos”214.
Como presidente de província, certamente, o cônego Guimarães poderia fazer muitas mobilizações em favor de sua candidatura. Mesmo assim, o deputado geral eleito foi o do grupo de Ribeiro, José Joaquim de Carvalho. Depois dessa derrota, o cônego, que havia sido presidente da Assembléia Legislativa desde 1835 até 1841, não mais conseguiu se eleger para nenhuma deputação. Ficou excluído dos esquemas partidários. De um lado, não era mais aceito entre os chamados liberais; de outro, os conservadores já tinham seus candidatos, não havendo espaço para o ex- líder liberal ser incorporado.
Apesar da derrota de Guimarães, em 1842, no ano seguinte, o grupo do fazendeiro de Poconé, Manuel Alves Ribeiro, continuava em contendas, com o cônego que ainda permanecia presidente. Dessa maneira, onze deputados provinciais ainda fizeram questão de mandar uma representação contra Guimarães, para apressar sua demissão. Dos deputados que assinaram essa representação, dois tinham também participado do abaixo - assinado contra o presidente Rezende em 1840. Eram Manoel Alves Ribeiro e José Mariano de Campos. Dos outros nove deputados signatários, quase todos eram estreantes na Assembléia Legislativa, exceção feita a Salvador Corrêa da Costa, que era da Assembléia desde 1838. Apesar de filho de Antônio Corrêa da Costa, estava junto ao grupo que queria a deposição do presidente Guimarães215.
214 Ibidem.
215 Em 1848, seus irmãos Celestino e Joaquim se posicionam francamente contra Manoel Alves Ribeiro e a
favor do presidente de província, de então. Mas Salvador se abstém de se manifestar a favor de qualquer grupo.
Em 1843, a legislatura provincial continuava a não se entender com o presidente Guimarães, que permanecia no governo, apesar de novo gabinete conservador desde 1842, quando a troca de comando no ministério fez os liberais de Minas e São Paulo se insurgirem.
Para o cônego Guimarães, os rebeldes de Minas e São Paulo tinham seus “apóstolos ocultos que guardam o ensejo da irresponsabilidade da tribuna”. Dessa maneira, novamente os parlamentares não tinham votado dentro do tempo das reuniões ordinárias a lei orçamentária. Novamente o cônego dizia que a Assembléia havia perdido o tempo dos dois meses de sessão em “argüições caprichosas e discussões fúteis”. Mas desta vez o presidente não se dispunha a convocar extraordinariamente os deputados. Considerava que o procedimento da mesa em não colocar em votação era mais uma manifestação de que ela era “anárquica”, ou seja, de que se conflitava com a presidência:
Longe de queixar-me a V. Exa. deste irregular procedimento da mesa da Assembléia Legislativa de Mato Grosso, a minha intenção é somente a de fazer contar ao Governo de S. M. O imperador quanto ela foi este ano anárquica, bem como a razão que me assiste para não convocá-la já para a conclusão da Lei do Orçamento, e mesmo para deixá -la de convocar este ano, e esperar pela reunião ordinária da legislatura futura, se assim me aconselhar o maior bem da Província.216
Entretanto, não era somente nesse ano, como queria dar a entender Guimarães, que a Assembléia se desentendia com o delegado imperial. Como vimos anteriormente, esse mesmo presidente já se queixava da Assembléia desde a legislatura de 1841.
Não obstante, o desacordo entre o Executivo provincial e a Assembléia mostrou-se contundente na indicação dos vice-presidentes pelo próprio Guimarães. Se os anos 40 foram marcados por leis centralizadoras, uma delas, dada pouca importância pela historiografia, mas fundamental para o jogo político na província, era a escolha dos vice-
216 APEMT. “Registro de Correspondência do Governo com o Ministério do Império. Ano: 1843 -1847”. N.
076. José da Silva Guimarães para José Antônio da Silva Maia, ministro do Império. Cuiabá, 1º de junho de 1843.
presidentes, que deixou de ser feita pelas assembléias provinciais e passou a ser por nomeação via decreto imperial, a partir de setembro de 1841. Era mais uma clara interferência do governo central nas disputas políticas locais, principalmente em uma província como Mato Grosso, onde o vice-presidente poderia assumir o governo por meses, pois poderia somar ao tempo de uma nova nomeação, o prazo de uma considerável viagem. Apesar dessa interferência, a Corte procurava não principiar conflito com as lideranças locais. Ou melhor, precisava delas para governar nos longínquos sertões. Daí os